ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

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Na mira da coragem

Existe um hiato terrível entre o início eufórico de uma festa e a exaustão do seu término. É um estado emocional que normalmente ocorre após o vigésimo copo de bebida; a cerveja fica um pouco mais amarga na sua boca e você não consegue mais rir das mesmas palhaçadas. Bate um princípio de reflexão, você olha ao redor e nota que as músicas não são lá tão legais assim, as pessoas não são tão interessantes e a coisa toda não parece ter o mesmo brilho que pareceu ter, no decorrer da semana, quando tudo ainda não passava de expectativa. É foda quando acontece. É foda como acontece. É como um despertar da realidade em um momento desnecessário, é como furar o que os budistas chamam de “bolha”, é como ser um testemunha de Jeová durante uma Rave cheia de alucinados, em síntese: é como ter uma ejaculação precoce.

Nesse dia eu fui a bola da vez e acabei herdando a sensação. Beatriz estava em cima da mesa rebolando e girando o casaco, Júlio mandava uns passinhos romanos com outros funkeiros que ele (e eu) nunca viu na vida. Ele não sabia dançar, era um maldito estoquista com a coluna travada. Contudo não sei se posso chamar aquilo de dança. Eu, por outro lado, era o diferentão: estava sentado na cadeira, quieto, puto, entediado, com fome, enjoado, com a bexiga explodindo e com uma cara de diarreia. Meu copo semi cheio estava na mesa, mesa em que a Bia rebolava. Fiquei sacudindo um sachê de açúcar com a mão, sem fazer nada, tentando compreender o sentido filosófico por trás da minha melancolia. Uma amiga nerd me narrou as causas desse efeito uma vez; ela dizia que ficávamos pra baixo após o consumo imoderado do álcool porque um neurotransmissor filho da puta mexia com o nosso sistema Gama, entristecendo as atividades cerebrais. A recomendação dada era o consumo do açúcar, ou o afastamento dele. Eu não sei, eu não lembro. Sempre fui péssimo com biológicas então deixei de entender a explicação dada por ela logo após ouvir o primeiro termo técnico. No entanto, possuo uma opinião diferente da dela. No meu entender essas coisas só acontecem quando o destino sussurra no seu ouvido um breve e curioso aviso: toma cuidado, ou tudo pode acabar dando merda. Pois é. A vida é sempre um risco. E eu estava lá tentando me decidir o que fazer com aquele sachê.

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Apenas mais um passo

Os dias se passam de forma tão monótona. Não tenho vontades, A. Coragens absurdas também não tenho – absurdas não tanto, você entende, não é? Também me tenho emudecido. Voltar pra casa que não é da gente faz sempre reprimir gritos.

A vida parece não mudar. Não andar. Andar para trás. Tenho estado tão imóvel. Me ponho a caminhar de olhos fechados e quando os abro é sempre o precipício que está diante de mim – então me aquieto. É apenas mais um passo. Que há de ser da vida aqui em diante? É apenas mais um passo. Apenas mais um passo.

Me inquieto – mais do que antes. Mas logo me cortam as asas e caio em mim ou no que querem que eu caia. Absurdo. A vida é um grande de um absurdo. É sempre o “não vai por aí”. Que faço então? Uma insatisfação tamanha me toma. Que farei? Ainda há sanidade em mim? Que há de ser a vida aqui em diante, A.?

Tem sempre uma tempestade sobre mim. As paredes continuam vazias por aqui, você entende? A tarde fria se aproxima – acho que preciso de um café. Acenderei as lamparinas e irei torcer para que o vento não as apague. Essa é a última folha do caderninho…

Continuaria a escrever, mas já não tenho muito a dizer. Até breve.

Escreva-me qualquer dia

Abraços,
D.

Inexorável

Acordou e ligeiramente sentou na cama. De imediato ficou tonto. A cabeça começou a girar, era uma dor para cada fio de cabelo. Ele espirrou. Pôs a mão no rosto, havia um pouco de pó sobre a narina esquerda, traços da farra na noite anterior. Ele fedia e sentia uma dor absurda nas costas. Levantou-se, andou até o espelho, passou a mão no cabelo e, não satisfeito, penteou-o. Só Deus sabe o quanto era vaidoso. O sol quente levantava a poeira da quitinete alugada, o quarto cheirava a geladeira suja. Pela intensidade da luz, imaginou que já estava tarde. Assustou-se com isso e correu então até o relógio de parede. Eram 7:12 da manhã. Isso dava mais ou menos 7:20 da manhã, visto que seu relógio estava atrasado e não dava para ajustar, pois os botões estavam quebrados. Tinha um compromisso no centro as 8hrs e, levando em conta que o tempo médio até lá é de 30 minutos, contando com o trânsito, isso dava a ele, mais ou menos, 10 minutos para se resolver e desaparecer dali.

Voltou até o quarto desesperado. Uma agonia que corroía o coração. Todo trabalhador brasileiro sabe o que é estar atrasado, conhece a sensação. Ele também conhecia, embora fosse vagabundo. Ao menos, se considerava um, já que não arranjou um emprego fixo nos últimos treze meses. De imediato, havia muito a se fazer em pouco tempo: um remédio, um banho, uma cagada, um café, uns ovos, talvez, quem sabe, um cigarro… Elementos que qualquer cidadão precisa para encarar o demoníaco mundo lá fora. Ele tirou do armário um jeans manchado de caneta e uma blusa social lisa, preparou os ovos, engoliu o remédio junto ao café e correu para o banheiro. Quando já estava no box, o celular tocou. Saiu nu e voltou para o quarto com a escova de dentes na boca e uma toalha na cintura. Ao tirar o celular da cabeceira, deixou cair. Foram-se peças para todos os lados. Caralho! Aquilo fez um barulho enorme… O suficiente para assustar e acordar Vânia.
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A letra depois do Z

Ei!

Eu li sua última carta e ainda me surpreende o modo como me conheces tão bem;
Você é dissimulado, porém eu vejo o homem por trás desse olhar vazio. As dores, os conflitos, os problemas, as brigas, as quedas e os traumas da vida, te forçaram a modelar camadas e mais camadas de personalidades que escondem seu verdadeiro Eu“. Ual! isso foi profundo. Provavelmente a coisa mais franca que já li sobre mim mesmo. Eu não sei quantas vezes lhe pedi para darmos um basta nisso; nessa espécie melancólica de amor, onde a gente não transa, mas também não sai da cama. Eu não tenho você e você não tem a mim. E só gastamos o nosso tempo as escondidas um com o outro porque no fundo sabemos que somos feitos um para o outro. Embora seja tão difícil confessar isso sem trazer, junto as palavras, uma avalanche inteira de sentimentos ora arbitrários, ora essenciais. Um problema que, se não existisse, nos tornaria livres para mergulhar naquilo que a literatura chama de felicidade.

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estreito

As relações estão tão estreitas que mal enxergo o outro lado do corredor. As luzes estão fracas e meu sentimentalismo exacerbado explode grandes montanhas cheias de vento. Vivo sem janelas no quarto, meus pulmões crus respiram incenso e cigarro. Possuo medos quase temporários, visitas planejadas, músicas repetidas e etc. O sol se levanta e não o enxergo, contemplo minha respiração misturada ao ego. As ondas de meus fios Continue lendo “estreito”

Álcool, cactos e pimentas

O sol castigava como nunca. Era início de verão em Tucson, Arizona. Na estação de trem, Arthur Bailey foi obrigado a guardar sua jaqueta de couro e trocar as botas por um tênis mais simples. Comprou uma garrafa d’água, balas e pegou um táxi até o subúrbio. O tempo estava muito seco, os cães latiam sem parar e as moscas se entrelaçavam em sua barba. Após o fim da corrida, ele caminhou três quarteirões com um mapa em uma mão e uma mala velha na outra. Procurava a pensão barata que vira na internet. Tinha certeza que a rua estava certa, mas provavelmente erraram no anúncio, pois, ao invés da pensão, havia uma cafeteria no local. Quando faltava uns cem metros para chegar ao destino, Arthur fez uma pausa para tomar um ar na sombra de uma cabine telefônica e, dela, ficou observando a cafeteria em meio ao mormaço. As informações não batiam, ele sabia que algo estava errado. Contudo já estava extremamente cansado, precisava de um bom banho, chá gelado e uma massagem nos pés. Xingou a mãe do cara que indicou o lugar e jogou o mapa no lixo. Em seguida continuou a caminhar, vagarosamente.

Passou a mancar um pouco, seus joanetes doíam demais, foi um longo caminho desde WoodFord, Illinois. Aproximando-se do local, já era possível sentir o cheiro do café. No entanto, algo curioso aconteceu: uma calcinha vermelha caiu bem na sua frente, no meio da calçada que fervia com o sol da tarde. Ele olhou para cima com toda calma do mundo. Estava exausto o bastante para ficar surpreso. A sua direita, havia uma pequena estalagem velha de dois andares, pintada de um rosa surrado pelo tempo. Na sacada do segundo andar, uma gostosa de pele latina acenava para ele. Estava de top branco e mini saia preta. Seu cabelo liso passava dos ombros, ela sorria e apontava para a porta, convidando-o a subir. Certamente a calcinha era dela, pois, graças ao ângulo e as grades da varanda, era possível perceber que ela estava sem nada. Entretanto as coxas da latina eram tão grossas que não permitiam elevar a visão muito além do desejado. Arthur não sabia dizer se aquilo era estratégia de negócio ou se, coincidentemente, ela era apenas uma mulher de pernas maravilhosas. Ele pôs a mala no chão e a cabeça no lugar. Fez um rápido comparativo; Deu uma boa olhada para a cafeteria e, seguidamente, uma boa olhada para a dama latina. Mediu as oportunidades e as necessidades de momento e tomou sua decisão. Sem pestanejar, pegou a calcinha da calçada, a mala velha e entrou no sobrado.

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