bagunça acumulada

tarde de sábado… uma tarde esquisita – eu diria. tô ouvindo “Unwell” do Matchbox Twenty, tá caindo uma chuva fina. fiz um café e abri a janela do quarto, fico a observar o cair da tarde e o chegar da noite. hoje tá tudo estranho. parece que o nosso estranhamento de dentro é sempre compatível com o estranhamento de fora – aqui dentro eu tô confusa, triste e o dia tá estranho, meio triste, não sei.

acho que vou ver um filme, mas tô sem vontade de fazer nada. até de ver filme eu tô com preguiça. só quero terminar meu café e cair na cama e só acordar amanhã depois do meio-dia. ou talvez tenha que acordar antes – preciso fazer compras, só tenho café, cerveja e leite. hoje eu disse que ia fazer compras, mas não tive coragem de levantar da cama. pedi o almoço e nem comi – estraguei dinheiro e comida mais uma vez.

tá um silêncio aqui. eu gosto. nunca me dei bem com barulhos. quando saio no centro e fico observando a correria e o barulho da cidade só penso em chegar logo em casa. é estranho que eu procure sempre por lugares calmos sendo que por dentro eu sou barulho e correria. minha vida é uma eterna correria. meus sentimentos são apressados, meus passos rápidos demais, meu pensamento tá sempre acelerado. o silêncio acalma a caos que sou eu.

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Sertão

Você não nasceu pra ser minha assim como não nasci pra ser seu, todavia carregamos uma característica comum: o vazio da alma. Uma sede inconstante que nenhuma alegria sacia, um inconsciente desidratado que se arrasta dia e noite pelo deserto. Sem satisfação, sem remédio, sem descanso. Preenchemos nossos vazios habitando as areias um do outro ocasionalmente. Um fim de semana ali, um feriado acolá. Você é o meu oásis das noites mais difíceis e também uma miragem que se desmonta ao longe, logo que vou embora, carregada pelas tempestades cotidianas.

 

Carrego esse vazio desde garoto, essa alma infrutífera, essa falta de sabe-se lá Deus do quê. Na época sonhava com um tempo de reflorestamento, que no futuro alguém chegaria para semear e trazer a flora necessária. Vidas, alegrias, músicas, cheiros, minúcias… saciação constante. Esse tempo nunca chegou e de tanto procurar, acabei desistindo dele. Até que certa feita, numa tarde qualquer, enquanto exprimia minha desmotivação diária, eu te vi passar. Vi nos seus olhos a mesma decepção natural que carrego desde o berço. E após alguns dias dividindo o café e noites compartilhando vinhos, decidimos que, dali por diante, encontraríamos alento um no outro de quando em quando. Nada como um pouco de tesão para andar mais rápido pela dimensão do sofrimento.

 

Porém eu não carreguei as sementes necessárias para fazer brotar a felicidade no seu coração, você também não possui as minhas. No máximo somos como cactos esporádicos que socorrem um ao outro; pontos verdes que aparecem no meio do nada para assegurar mais alguns dias de vida. Sou seu bom gole d’água e você é o meu. Pra quem já possui o costume de se ferir entre os espinhos, somos iguarias indispensáveis! Semanalmente nos fartamos, à vista disso, partimos.

 

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Tira-teima – Parte #2

Leia a primeira parte do conto clicando aqui 🙂

Parte 2

Aquela afirmação ficou voando na minha cabeça sabe Deus lá por quanto tempo… “Eu sou o anjo da morte!”, senti um frio terrível na espinha, meus dedos nem doíam mais. Houve uma pequena queda de luz no momento em que ela se revelou, a situação ficou ainda mais esquisita. Acredito que exista um nível de assimilação da realidade no arsenal dos instintos humanos que evidencia uma verdade, de imediato, logo que ela chega ao cérebro. Nós tão somente aceitamos, o corpo não reage, não ousa elaborar questionamentos. Uma atributo real, mas quase indescritível, rola mais ou menos quando olhamos pra cara de um indivíduo, por exemplo, e percebemos o quão lídimo é o que ele anuncia, pois sua admissão parece sair do fundo da alma. Sem dúvidas, foi exatamente o que senti. As palavras doeram tanto quanto um soco no estômago – meu estômago cheio de álcool, rémedios e comida barata. Não me desesperei, porém também não agi com naturalidade, quem agiria? Sai de perto daquela coisa que usava calcinha. Andei até a janela, abri, encostei no muro da sacada e fiquei olhando a rua. O dia estava quente, um mormaço desgraçado. Era impossível! Não poderia estar delirando; a vida, monótona, chata e suja, como ela é, estava rodando de forma tranquila lá em baixo. As formigas subindo a parede, as gotas sujas do ar-condicionado do apartamento de cima, o boteco tocando Seu Jorge na esquina, os caras da companhia de luz agarrados nas afiações dos postes. Era real, com certeza. Precisava engolir aquela situação a seco e aceitar o fato da Morte estar sentada no meu sofá com sardas nos seios siliconados e pernas divinas, sem rastros de celulites. Não vou mentir, estava confuso… confuso e excitado. Tipo um hétero bêbado que acordara ao lado de um travesti. Pensei em me jogar da janela, cair de cabeça na calçada e acabar com tudo aquilo de uma vez, entretanto isso só facilitaria as coisas para ela. Ao me estabacar e rachar o crânio na calçada, eu iria encontra-la, quem sabe, mostrando sua verdadeira face e, mais ainda, com raiva por eu ter tomado essa decisão. Seria uma longa caminhada até a eternidade. Conclui que o pulo só pioraria as coisas.

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Tira-teima

O despertador de emergência tocou de novo, eu não aguentei e joguei o celular na parede, depois me levantei, fiz um pouco de café e fui até a sala assistir TV. Assim que liguei o primeiro canal era o do gado, agachei-me procurei o controle em todos os cantos, encontrei-o atrás do vaso de plantas. Comecei a trocar os canais… Era uma manhã de terça, não havia nada de muito bom. Uma velha ensinando a cozinhar carneiro, o jornal matinal, esportes olímpicos, um indiano ensinando yoga e o penúltimo canal era evangélico. Toquei no botão de avanço por mais uma vez, “Só restou você”, disse a mim mesmo. Menos mal, estava dando desenho, aumentei o volume e deixei rolar. Retornei ao quarto, abri o guarda-roupas, revirei minhas gavetas e peguei uma pomada cansada de ser exprimida. Sentei no sofá, coloquei o café sobre a mesinha da sala e um pouco de algodão ao lado, a mesinha ficava entre o sofá e a TV. Pus o pé esquerdo sobre minha coxa direita, abri o espaço entre os últimos dedos… “Ah, sua micose desgraçada”, murmurei. Taquei a pomada nas feridas e, por seguinte,  o algodão. “Vocês não me deixaram trabalhar, né malditas? Mas não vai ficar assim. Se não melhorar, coloco fogo em vocês!”, continuei falando. A pomada deu um efeito de alívio imediato, perdi alguns minutos largado ali. Tempos depois, quando já estava terminando o café e rindo do Pica-pau, alguém bateu na minha porta. “Maldição!”, pensei. Não estava muito a fim de lidar com seres humanos, tudo que eu precisava era de 24hrs longe do público. As batidas continuaram e eu me lembrei que o volume da TV chega facilmente ao corredor, logo, quem insiste, sabe que estou em casa. Sem opções, levantei-me e fui mancando até a porta. Não mancava por falta de opção, era mais por drama mesmo.

Girei as chaves do velho apartamento, assim que abri não vi ninguém. Olhei para baixo e lá estava uma linda garotinha. Deveria ter uns dez anos, ela chupava um pirulito de frutas vermelhas.

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Triunfo

Oi, boa noite.

Sei que você reparou no vazio do meu olhar quando me viu passando. Um amigo em comum contou sua opinião horas depois. Segundo ele, você disse que foi tudo muito rápido, mas que deu pra notar uma certa indiferença e distração em mim. Perdoe-me pelo que vou dizer, mas suas observações foram muito superficiais, querida. Ao contrário do que presumira a verdade é que, naquela tarde, o “vazio” do meu olhar não tinha nada a ver com a velocidade do seu ônibus, ou da música que tocava no meu fone de ouvido. Eu não estava distraído, pelo contrário: eu também te vi. Não foi um olhar estranho, foi o olhar sincero, quiçá o mais sincero de toda minha vida. Pela primeira vez em tantos meses, pude observa-la sem me envergonhar. Reparei o tamanho real do seu cabelo e das suas unhas, a exata textura da sua pele, a cor dos seus olhos, seu tom de maquiagem e as variantes do seu sorriso. Céus! Pela primeira vez não rolou um aperto no peito, minha garganta não ficou seca, as pernas não bambearam, minha transpiração estava dentro do normal. Não! Não tem a ver com indiferença meu bem, o que você viu é o que sou. Ou melhor: quem sempre deveria ter sido. O contraste entre o antes e o agora é que antes eu estava completamente apaixonado por você. Só que aprendi a te esquecer e gostei quando consegui. E… Acredite! Conseguir não acenar pra você dá rua foi por si só, um ato de felicidade.

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