piso frio do meu peito

andando descalça no piso frio do meu peito, tiro as roupas, estico-me em frente ao espelho. danço achando que tenho jeito, viro pros lados, estremeço, finjo que não existe mais nada. questiono-me quem sou mesmo que viva apenas o instante, dói não saber dizer nada… se sou pedaços do agora ou do passado, não entendo os pedaços que perdi no piso frio do meu peito. não dá pra achar culpado, tudo está aqui emaranhado e agarrado ao meu cabelo, a verdade intrínseca de ser eu, com medo de não ser mais nada. Continue lendo “piso frio do meu peito”

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28 de julho

Querida Ellie,

São 23:35 de um sábado tedioso de uma vida monótona. A chuva cessou depois do longo e belo temporal. Há de se discutir em uma outra carta se são belos mesmo os temporais. Há de se levar em conta que de determinado ponto de vista sejam tristes e medonhos.

Me desfiz em lágrimas esta manhã – não há motivo específico ou talvez haja, mas não me é claro. Abri a última garrafa de vinho barato que havia na dispensa. Chorei mais um bocado e caí na cama. As “ruas” andam tristonhas. As paredes estão cinzas, as pessoas estão cinzas.Percebe o quanto de cores perdemos nos últimos tempos?

Ah! o cansaço me toma. Há de haver ainda esperança que se sustente numa alma tão despedaçada quanto a minha? Há de haver ainda?

Há de se considerar que com esperanças ou não. Felizes ou não. Despedaçados ou não. A vida há de continuar. Eu, de certo modo, me deixei paralisar, mas a vida tem cobrado. Hei de desabar ainda inúmeras vezes. A sensação é de que numa dessas não levante novamente. Sabes aquela história de estar tão perto de alcançar algo, mas numca alcançar de fato – não falo da utopia. A sensação de estar tão perto de algo e de repente se desfaz e tudo volta a parecer distante. Sabes o que é sempre que se está a um passo do objetivo voltar dez passos assim de repente?! Continue lendo “28 de julho”

Faça silêncio!

 

Um pouco de papo e as palavras que

palpitam no coração a boca escapa.

 

 

Aquela velha capa…

Aquela velha capa…

 

Esconde o sentimento,

a vela apaga.

Pois tudo jaz cá dentro

e o peito embala

o sonho e o descontento

de quem cala.

 

 

E desse emaranhado,

minha entranha,

nasce este novo verso

que te estranha.

 

Pois é!

A vida está do avesso essa semana,

mas o que fica cá comigo

me acompanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frívolo

Inspiro, prendo o ar por cinco segundos… Expiro, abro os olhos e encaro a escuridão. O estômago ronca, a cabeça volta a latejar. “Frustração” é o que provavelmente está escrito na minha testa, no meu espírito. Sentado no chão do quarto, olho para o canto esquerdo e vejo meu copo de café. Ponho o dedo dentro dele. Está frio, está nojento. Uma formiga caminha desesperadamente pela borda e me encara como um invasor; a serpente do seu paraíso. Seria maldade se eu limpasse o copo. Então não limpei. Olho para o canto direito e vejo o brilho da lua cheia na quina da janela. A ventania tropical derruba minhas anotações no chão. Deveria junta-las e organiza-las, mas todas não passam de lixos pseudo-literários. Então não junto.

Há tempos tento compreender quem sou, na medida em que classifico as coisas que sinto, gosto e presencio. As orações tem colaborado, Lispector e Victor Frankl também. A noite é uma criança e eu ainda tenho vinho. As vozes vêm e vão, a fé é uma incógnita. As vezes ela funciona, as vezes desisto e banco o cético. Reclamo, desligo o celular. Cheiro minhas axilas, “merda!” reprovo. Toco nos meus cachos; estão sujos. Preciso de um banho, preciso de meias limpas, preciso lavar o carro e pôr os legumes na geladeira. Tento me levantar, quero me levantar, mas acabo deitando no chão. Algo está fora dos eixos, não sei bem o quê. Ainda sou jovem, ainda tenho músculos e cabelo preto. Ainda tenho um bom fôlego e um pênis funcional. Entretanto não consigo fazer nada, criar nada, ao mesmo tempo em que sinto poder fazer tudo. A preguiça é um gigante gordo nos meus ombros, comendo frango frito e lançando os ossos nos confins da minha mente. Ele arrota ouvindo minhas expectativas e gargalha das minhas esperanças. Sinto-me o Trumam¹ brasileiro no seu circo virtual. Contas pra pagar, momentos inúteis, piadas sem graça… Tudo não passa de uma verdadeira comédia. Engasgo saliva, murmuro, espirro. Como amar a vida quando se conhece o seu custo? Eu ainda não sei.

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Paulista

Todo homem tem a obrigação de cumprir sua palavra e honrar suas promessas. Se um cara não tem culhão nem pra fazer valer o que diz, então pode joga-lo fora. É um inútil, imprestável, covarde, indigno de confiança. Ao menos, penso dessa maneira. E acho que teríamos menos problemas no mundo se todos pensassem do mesmo modo. E por falar em promessas, passei duas longas semanas refletindo sobre todas as juras que fiz e que deveria ter feito, até que uma, em especial, veio a cabeça. Eu prometi há anos e precisava cumprir, do contrário seria tão covarde quanto os demais. A decisão veio na madrugada de um fim de semana. Levantei, tomei um banho e peguei as chaves do carro. Liguei para o meu segurança e juntos viajamos 840 Km Brasil a fora. 10 horas se passaram e já estávamos a um bairro de distância do nosso destino. Era uma dessas tardes chatas de verão sem vento, com aquele céu azulado, morto, sem graça, pós pôr do sol. As cigarras cantavam por todas as esquinas, quiçá no pais inteiro. Carrinhos de pipoca passavam e as mães chamavam os filhos pra jantar. Eu estava com características gerais de um indivíduo com sono: cabeça cheia, corpo mole e pau duro (aquela típica dureza involuntária), além de bocejar sem parar. Debrucei-me no muro de uma ponte e tentava dar vazão aos pensamentos, mas estava complicado. Estávamos numa cidade do interior de São Paulo. Eu não me recordo o nome da cidade, mas acho que ela tinha nome de santo. Saímos da cidade do Rio de Janeiro e revezamos na direção, fazendo apenas duas paradas. Esta, inclusive, era a segunda. Decidimos parar pra beber alguma coisa, jogar uma água no rosto e se preparar para uma grande noite. Da ponte, eu jogava pedras no rio e observava o fluxo das águas. Marcos saiu de um bar com uma garrafa de refrigerante da pior marca na mão e se aproximou sorrindo, balançando dois copos plásticos. Eu não bebo refrigerante há dez anos e ele sabia disso. De saco cheio, passei a mão na cara e soltei alguns palavrões.

— Foi tudo o que você conseguiu? — Perguntei.

— Olha… Foi tudo o que consegui.

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