Triunfo

Oi, boa noite.

Sei que você reparou no vazio do meu olhar quando me viu passando. Um amigo em comum contou sua opinião horas depois. Segundo ele, você disse que foi tudo muito rápido, mas que deu pra notar uma certa indiferença e distração em mim. Perdoe-me pelo que vou dizer, mas suas observações foram muito superficiais, querida. Ao contrário do que presumira a verdade é que, naquela tarde, o “vazio” do meu olhar não tinha nada a ver com a velocidade do seu ônibus, ou da música que tocava no meu fone de ouvido. Eu não estava distraído, pelo contrário: eu também te vi. Não foi um olhar estranho, foi o olhar sincero, quiçá o mais sincero de toda minha vida. Pela primeira vez em tantos meses, pude observa-la sem me envergonhar. Reparei o tamanho real do seu cabelo e das suas unhas, a exata textura da sua pele, a cor dos seus olhos, seu tom de maquiagem e as variantes do seu sorriso. Céus! Pela primeira vez não rolou um aperto no peito, minha garganta não ficou seca, as pernas não bambearam, minha transpiração estava dentro do normal. Não! Não tem a ver com indiferença meu bem, o que você viu é o que sou. Ou melhor: quem sempre deveria ter sido. O contraste entre o antes e o agora é que antes eu estava completamente apaixonado por você. Só que aprendi a te esquecer e gostei quando consegui. E… Acredite! Conseguir não acenar pra você dá rua foi por si só, um ato de felicidade.

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Älskar

Vovó costumava dizer que o sofrimento era capaz de marcar a alma humana tanto quanto um machucado marca a pele. “Quando as pessoas são feridas, quando enfrentam uma frustração muito grande, a dor da situação é capaz de dilacerar a alma, de desanimar o espírito“, afirmava. Na época eu entendi bem a analogia, mesmo sem conhecer as figuras de linguagem. “Mas essas feridas são eternas, vovó?“, Respondi na noite em que ouvi essa definição. Ela pregou seus olhos castanhos e fatigados em mim e sorriu sem fazer barulho. “Deite-se Caroline, está na hora de dormir“. Eu deitei, ela esticou o cobertor pelo meu corpo, mas não me deu o beijo na testa como de costume. Pelo contrário, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. “As feridas não são eternas“, disse. Foi interrompida por uma tosse e logo prosseguiu: “Como falei anteriormente: a tristeza mancha a alma humana tal como uma ferida na pele. As feridas, como bem sabe, também se fecham, criam cascas e finalmente secam. Tudo depende do tempo e de como você irá cuidar. Se for bem tratada a dor passará, a casca também e no fim não restará nenhuma marca. Agora, se for uma ferida muito profunda, então é provável que a cicatriz fique, mesmo depois de curada. Você carregará para sempre a memória daquela dor estampada na alma“. Eu ouvi, entendi e apenas acenei com a cabeça, ela gostou e, em seguida, me deu o beijo na testa diário. Depois se levantou, caminhou até a porta coçando as costas e apagou a luz.

Espera ai vovó! – Chamei já sentando na cama.

Sim, minha cara.

Certa vez você me disse que é capaz de enxergar essas marcas nas almas das pessoas, certo? Como a senhora faz isso? Quando vou aprender?

Ela pôs a mão na boca e segurou um bocejo, eu sabia que ela havia gostado da pergunta pelo modo que me encarou. Parecia ter previsto minha curiosidade, aliás; toda conversa que tivemos durante a noite, antes mesmo de me levar até a cama foi, ao meu ver, o cultivo de uma semente; de uma vontade que ela queria ver brotando em mim. E brotou! Eu ansiava pelo mesmo dom. Vovó voltou, puxou a cadeira novamente e sentou bem devagar. Pegou em minhas mãos, fez um leve carinho… Foi uma visão inesquecível pois a luz da lua que transpassava a janela atrás da minha cama foi refletida na esmeralda que ela carregava no pescoço. Momentos depois, ela respondeu:

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Consequências

O cheiro forte de tinta se espalhava por quase todo escritório, a coisa andava complicada assim há semanas. Ainda bem que as obras realizadas nos corredores do prédio estavam acabando, logo a galera do contábil poderia voltar a respirar em paz. O negócio fica num edifício na Presidente Vargas, lá em cima, no vigésimo andar. É uma pequena empresa próspera com o ramo de varejo. Só trabalham sete pessoas no local, entretanto quatro delas faltaram. Não por querer, longe disso! É que o transito carioca foi um caos pela manhã. Os que conseguiram chegar mal sabiam que a volta seria bem pior… Típico de uma sexta-feira no Rio.

Amanda estava guardando algumas documentações na sala do chefe, um dos colaboradores ausentes do dia. Ela era a “patroa” na ausência dele. Brenda e Mathias estavam finalizando uma parte do trabalho na planilha compartilhada. Ele é contador, ela auxiliar administrativa. O escritório tem poucos metros, porém era provável que, com a porta aberta, fosse possível ouvir do corredor a velocidade de digitação do Mathias. Tec,tec,tec,tec,tec,tec… acelerava a edição dos dados sem fim, estava louco pra chegar em casa. Não havia nada de especial esperando por ele além de um engradado de cerveja e, talvez, pornografia. Mas cada latinha de álcool daquelas era seu conforto da solteirice. Era válida a velocidade, seu lado emocional agradecia. Num dado momento, Brenda olhou para o celular e sorriu. Virou para o amigo e soltou uma novidade;

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Pare e pense

Se uma dessas “ultra feministas” disser que o ódio ao sexo masculino se deve as diversas experiências negativas que ela obteve nos relacionamentos com os homens do passado, logo, podemos concluir também que, se as experiências passadas fossem boas e não ruins, ela então não seria feminista hoje em dia? Seria uma esposa/namorada/noiva tradicional ou, no mínimo, uma solteira que não repudia o sexo oposto?

Já que é possível resumir, reunir e concentrar tanta raiva nascida de motivos tão banais, então será que quase todo extremismo disponível na Internet nasceu de meras experiências traumáticas e desgostosas que foram abafadas ao invés de serem resolvidas?

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Sri Lanka

E sucedeu que, uma vez ali, sentada e sozinha no quarto, ela topou abandonar o vício pela monotonia eletrônica e caiu em si. Antes mesmo do caçoar inquietante do temporal entre o basculante da janela. Antes do acaso atiçar os átomos e derrubar da mesa, a preferida e milenar xícara de chá. Antes dos “antes”, já havia uma decisão estabelecida: nada era capaz de lhe molhar na inquietação. As coisas que surgiam e partiam naquela noite eram meras obras tolas do universo que, inutilmente, tentavam distrai-la, mergulhando-a no lago do ócio. Mas a gata era esforçada, não se deixará levar, seu esforço demonstrava que naquele corpo não havia espaço aos frutos carnais disponíveis no mundo.

A posição de lótus tratou de calar a boca do plano físico. A energia girava por todo corpo – das gotas de suor presentes a cada transpiração, ao “novo” olho que brilhava no franzido da testa. Pura concentração! A imagem do fundo branco em sua mente depositava todas as canções e memórias que rodopiavam o inconsciente. “Quem é o ruivo nu?”, “O que há de novo nesse livro de química?”, as perguntas nasciam das imagens, memórias que tomavam formas e formas que criavam movimentos próprios e impróprios. Com os movimentos surgiam as incógnitas, com as incógnitas, os devaneios. Quando chegava ao vazio, sua cabeça voltava a ficar cheia. E quando finalmente abandonava a maré alta, não captava o ligeiro prazer existente no vazio.

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