Dois amores

Da última vez que encontrei Yasmin, ela estava ilhada na calçada de uma das ruas do centro. A chuva tomou conta de tudo, a enxurrada cobriu todas as saídas. Ela parecia um pinguim; baixinha, com seus olhos puxados, pele branquinha e bochechas vermelhas. Uma japonesa raiz! Usava uma capa de chuva azul e estava praguejando e reclamando sem cessar. Eu parei meu carro ao lado e ofereci carona. Ela não me reconheceu, titubeou a princípio, mas quando abaixei o vidro e sorri, seu semblante mudou. Yasmin saltou o córrego formado no meio-fio e abriu a porta traseira do carro. Olhei-a pelo retrovisor interno, percebi sua cara de alívio, como se eu fosse um verdadeiro salvador da pátria, um herói, ou o melhor profissional do corpo de bombeiros.

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0800

Um homem não precisa

Se acabar em lágrimas

Para chorar

Não!

No pior dos choros

Não há lágrimas

Chora-se por dentro

Dói mil vezes mais, pois

Enquanto o choro externo alivia

O interno corrói

Enquanto o choro externo

Não trás consequências

O interno destrói

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Carnevale

Droga!

Maldito tempo de festa

Tórridos dias de ódio

Ferventes noites de prazer

Composição dos quatro episódios

Dessa série que não tem você

Poxa!

Por que me deixou aqui sozinho?

Não danço, não canto e nem vibro

A letra do meu samba só leva saudade

Solitário, sem ritmo e perdido

Só vejo desvantagens nessa tal liberdade

Então!

Já aprendi a pensar na segurança

O Rio tá chato, sem confiança

Elejo uma cama e sua companhia

Te quero de volta, morena

Que se dane blocos

pessoas

folia

Dilema Leviano

Ah, por favor! Pelo amor de Deus! Deixe de brincadeira! É sério que você só vai me oferecer uma toalha? Já passou das três e eu fiz questão de caminhar por horas no temporal até alcançar sua porta, mulher! Ignorei o vento frio, os carros na contramão e os bandidos da região, chutei cachorros, errei a rua, fiz da camiseta minha capa de chuva. É sério que depois de toda essa cena você não vai me ouvir? Vai reclamar do cheiro de cigarro? Da minha cara de resfriado?  Pela quantidade de lama nos meus sapatos? Da água escorrendo no seu tapete?

Não! Eu não me despenquei até aqui pela toalha. Não me desviei do caminho; sei muito bem onde devo estar e o que ando sentindo. Sei de cor as palavras que devo dizer, tá na agenda o que preciso fazer. Não precisa me recepcionar, não quero remédios, seu chá, ou seu telefone. Tudo que eu quero é um pedacinho da sua atenção, dela tenho doutorado, dela entendo muito bem, dela eu dou conta. Não quero seu colo, seu feijão, sua indecência. Se corri quilômetros até aqui, não foi só pelo calor do seu corpo, por um cafuné ou pelo cheiro da sua comida. Não vim pra falar de documentos, dinheiro, quadros, livros, peixes, fotos ou dos discos que se foram contigo.

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Pra cá das memórias, pra lá de você

Hoje eu voltei a sonhar com você e, pela primeira vez, ficamos juntos. Foi complicado, não nego; até nos confins do meu subconsciente, você é difícil de se conquistar. Mas eu consegui, depois de muito papear e muito demonstrar que valia a pena. Quando ganhei seu primeiro beijo, tive uma sensação única. Sensação da qual, muita das vezes, nem a realidade me proporcionou. Sensação de entrar em uma nave alienígena e não ter ideia da tecnologia disponível ao redor. Entretanto ao ligar um ou dois cabos aleatórios, surpreende-se ao ver tudo acendendo, tudo funcionando, tudo girando e passando a emitir mensagens, certezas, alertas e cores. O seu beijo foi uma ligação direta na programação original do meu destino. De repente tudo ao meu redor passou a fazer sentido, desde as coisas mais tolas, até as mais significativas. Senti que pela primeira vez em muitos anos, estava de fato vivendo a minha vida. Sentia-me completo, por ter você ao lado.

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