Dilema Leviano

Ah, por favor! Pelo amor de Deus! Deixe de brincadeira! É sério que você só vai me oferecer uma toalha? Já passou das três e eu fiz questão de caminhar por horas no temporal até alcançar sua porta, mulher! Ignorei o vento frio, os carros na contramão e os bandidos da região, chutei cachorros, errei a rua, fiz da camiseta minha capa de chuva. É sério que depois de toda essa cena você não vai me ouvir? Vai reclamar do cheiro de cigarro? Da minha cara de resfriado?  Pela quantidade de lama nos meus sapatos? Da água escorrendo no seu tapete?

Não! Eu não me despenquei até aqui pela toalha. Não me desviei do caminho; sei muito bem onde devo estar e o que ando sentindo. Sei de cor as palavras que devo dizer, tá na agenda o que preciso fazer. Não precisa me recepcionar, não quero remédios, seu chá, ou seu telefone. Tudo que eu quero é um pedacinho da sua atenção, dela tenho doutorado, dela entendo muito bem, dela eu dou conta. Não quero seu colo, seu feijão, sua indecência. Se corri quilômetros até aqui, não foi só pelo calor do seu corpo, por um cafuné ou pelo cheiro da sua comida. Não vim pra falar de documentos, dinheiro, quadros, livros, peixes, fotos ou dos discos que se foram contigo.

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Pra cá das memórias, pra lá de você

Hoje eu voltei a sonhar com você e, pela primeira vez, ficamos juntos. Foi complicado, não nego; até nos confins do meu subconsciente, você é difícil de se conquistar. Mas eu consegui, depois de muito papear e muito demonstrar que valia a pena. Quando ganhei seu primeiro beijo, tive uma sensação única. Sensação da qual, muita das vezes, nem a realidade me proporcionou. Sensação de entrar em uma nave alienígena e não ter ideia da tecnologia disponível ao redor. Entretanto ao ligar um ou dois cabos aleatórios, surpreende-se ao ver tudo acendendo, tudo funcionando, tudo girando e passando a emitir mensagens, certezas, alertas e cores. O seu beijo foi uma ligação direta na programação original do meu destino. De repente tudo ao meu redor passou a fazer sentido, desde as coisas mais tolas, até as mais significativas. Senti que pela primeira vez em muitos anos, estava de fato vivendo a minha vida. Sentia-me completo, por ter você ao lado.

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Coração Templário

 

Abril – 1310

Reims, França

Olá, minha querida.

Escrevo-te esta carta com o propósito de deixar manifesto tudo aquilo que suas suspeitas já sussurravam; sinto lhe dizer, mas estou indo embora.

A mudança de vida também deixa sequelas. Sei que percebestes isso. Acredito que tenha ficado evidente no vazio do meu olhar, no universo entre nossos assuntos. Quem se acostuma a uma vida corrida e dificultosa, demora um pouco a relaxar. Os primeiros dias são de desencaixes notáveis, como um peixe veloz batendo a cabeça no vidro de um jarro, ou como alguém que acabou de ficar rico, mas sofre de insônia a noite com as memórias da labuta.

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Soçobrado Algoz

Olá querida.

Acabei de ler sua última carta, peço perdão pela demora em responde-la.

Eu havia lhe dito que precisava de um tempo para pensar, repensar e… sei lá! Viver um pouco. Acho que consegui. Do meu jeito, mas consegui. E o ato de te escrever causa-me um baita sentimento invulgar. A ideia de tê-la na cabeça, ter de me concentrar na sua imagem para me expressar, faz parecer com que todo esforço que fiz para esquecê-la tenha sido em vão.

É, pois é. Estou confessando de que toda essa distância pouco adiantou. Não tenho medo de imaginar sua reação quanto a isto, já não alimento mais o próprio orgulho com o mesmo frenesi de outrora. Todo esse tempo longe só me fez perceber o quão babaca fui, por nunca ter feito questão de ficar por perto.

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