Poesia de cabeça pra baixo

 

 

Copiosamente,

cada boca agoniza o fel que sente.

A pálpebra ojeriza o sol ardente.

São cacos a beijar os pés da gente.

 

Volto ao mesmo mal que é meu de abrigo,

peço pra que a dor deite comigo

e vivo sob o teto do inimigo.

 

Íntimos da dor, do sofrimento.

Ao me encher de culpa, eu que intento

sufocar o bem que jaz cá dentro.

 

Caridosamente,

vi ceder a dor, o mal cadente.

Sucedeu o amor, alegremente.

Hoje verso o avesso em minha mente.

 

 

Ascético

Caras semi-amarradas

movem-se vultosamente entre esquinas.

Cada coração magoado traz a marca

e traga cada nota das buzinas.

 

Em passos pálidos ligeiros,

repreenchem cada vil espaço,

entre roupas e dinheiros,

entre a vida e o cansaço.

 

É quase tanto,

e é tanto nada.

Cada vida sem sentido.

Cada ´´oi“  é quase um grito.

Cada corpo na calçada.

 

 

Glory days

02/2017, Toronto. Canadá.

 

Olá minha querida, sinto sua falta.
Peço desculpas pela ausência, não foi fácil encontrar muito tempo livre entre as viagens e o trabalho. Preciso lhe falar de algumas coisas ao meu respeito, partindo do ponto onde havia parado e explicando os motivos pelo qual aparento ser um tanto distante;

Sabe… Eu sempre confundi os meses de Junho e Julho. Sempre! Durante toda minha vida. Não sei quando acaba um, ou quando começa o outro. E isso não ocorre só pelas semelhanças de nomes entre os meses, ocorre porque nesses sessenta dias, normalmente, vivo os melhores dias da minha vida.

Dizem que os seres humanos só refletem sobre a vida quando se sentem mal, ou no mínimo quando há um detalhe ou outro fora do lugar. Quem está numa boa fase, vivendo intensamente, não realiza pausas para reflexões nem mesmo quando vai ao banheiro. Não há tempo pra isso! O prazer de desfrutar os momentos inibe ponderações e cismas diversas. E quando o sujeito — assim como eu — já possui o costume congênito de andar com a cabeça nas nuvens, a situação é ainda mais agravante. Um dos resultados diretos é a despreocupação até mesmo com os dias das semanas e os nomes dos meses.

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Quiprocó

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O grande Sherlock

Nem sempre o fim de semana é capaz de me preparar para viver em sociedade. Digo, há dias que acordo e ligo o modo automático até o trabalho. Como ganho a vida lidando diretamente com meus clientes, sou obrigado a voltar ao normal na presença deles. Porém, removendo essa exceção obrigatória, sobra apenas o modo “piloto automático” para dias cansativos, ou para quando já se acorda cansado.

Trata-se de um modo consciente totalmente inerte – da casa para o ônibus, do ônibus para a estação ferroviária e por toda longa caminhada que vai do trem até a chegada na empresa. Tudo de forma robótica. Ao ponto de, depois, ser totalmente incapaz de lembrar se o dia estava chuvoso, ou se era o sol – no lugar dos pensamentos – torrando a minha cuca.

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