Semanalmente

Novamente ele perde o ônibus. Outro deslize de tipo e logo ficará desempregado. Ele não se importa, embora devesse se importar. Ele não está nem ai, embora precise estar. Há anos se sente perdido, ressentido, deslocado, atrapalhado. Pela quinta vez, arrisca tirar a pele do machucado, porém a ferida volta a sangrar, ela sempre volta a sangrar. Não secou, não está pronta ainda. Ele pira! Xinga! E saliva a marca feia no braço. Insiste na cura que não chega. Berra contra o tempo que não passa.

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Recado na porta da geladeira

O mundo lá fora gira agitado, meio tombado de lado, sei lá!

Há coisas novas acontecendo por todo canto, e as cortinas das casas estão se fechando mais cedo por causa do frio. Aqui comigo os planos ainda são os mesmos: ando fazendo adaptações para que eu possa caber em mim. Não leio os jornais e falo sobre assuntos que eu não sei baseada em livros antigos que li e que mal sei pronunciar o nome do autor. Depois, sozinha, rio da minha ignorância.

Ando devagar pelas ruas e converso com os meus gatos. Sempre esqueço de molhar as plantas, mas nunca de cumprimenta-las. Não me sinto mal, contudo não estou bem o suficiente.

Nada em especial acontece. É sexta-feira, amor!

Procurei por mim hoje como nos dias anteriores – É realmente difícil encontrar aquilo que não se conhece – sai cedo e resolvi as minhas coisas, o que não consegui hoje ficou para amanhã.

Amanhã é o meu aniversário. Há uma calmaria boa aqui dentro. Eu me sinto bem por não ler os noticiários, de todas as formas comprei uma quantidade a mais de biscoitos amanteigados e ração para os gatos.

Poesia de cabeça pra baixo

 

 

Copiosamente,

cada boca agoniza o fel que sente.

A pálpebra ojeriza o sol ardente.

São cacos a beijar os pés da gente.

 

Volto ao mesmo mal que é meu de abrigo,

peço pra que a dor deite comigo

e vivo sob o teto do inimigo.

 

Íntimos da dor, do sofrimento.

Ao me encher de culpa, eu que intento

sufocar o bem que jaz cá dentro.

 

Caridosamente,

vi ceder a dor, o mal cadente.

Sucedeu o amor, alegremente.

Hoje verso o avesso em minha mente.

 

 

Ascético

Caras semi-amarradas

movem-se vultosamente entre esquinas.

Cada coração magoado traz a marca

e traga cada nota das buzinas.

 

Em passos pálidos ligeiros,

repreenchem cada vil espaço,

entre roupas e dinheiros,

entre a vida e o cansaço.

 

É quase tanto,

e é tanto nada.

Cada vida sem sentido.

Cada ´´oi“  é quase um grito.

Cada corpo na calçada.

 

 

Glory days

02/2017, Toronto. Canadá.

 

Olá minha querida, sinto sua falta.
Peço desculpas pela ausência, não foi fácil encontrar muito tempo livre entre as viagens e o trabalho. Preciso lhe falar de algumas coisas ao meu respeito, partindo do ponto onde havia parado e explicando os motivos pelo qual aparento ser um tanto distante;

Sabe… Eu sempre confundi os meses de Junho e Julho. Sempre! Durante toda minha vida. Não sei quando acaba um, ou quando começa o outro. E isso não ocorre só pelas semelhanças de nomes entre os meses, ocorre porque nesses sessenta dias, normalmente, vivo os melhores dias da minha vida.

Dizem que os seres humanos só refletem sobre a vida quando se sentem mal, ou no mínimo quando há um detalhe ou outro fora do lugar. Quem está numa boa fase, vivendo intensamente, não realiza pausas para reflexões nem mesmo quando vai ao banheiro. Não há tempo pra isso! O prazer de desfrutar os momentos inibe ponderações e cismas diversas. E quando o sujeito — assim como eu — já possui o costume congênito de andar com a cabeça nas nuvens, a situação é ainda mais agravante. Um dos resultados diretos é a despreocupação até mesmo com os dias das semanas e os nomes dos meses.

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