Pescador

Sonhar contigo é horrível!
E vou te dizer o porquê:
As lembranças acabam comigo,
Passo o resto do dia pensando em você.

Não posso te olhar com desejo,
Já decidi que preciso esquecer.
Mas quando os sonhos nascem do vinho,
Naufrago em perigo, não sei o que fazer.

Sonhei com você num barquinho,
Num frenesi de amar e ser amado.
Sonhei do tesão ao carinho,
Na proa, no cais, na rede e no nado.

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Un destino arrastrándose

La Paz – Bolívia, 1975

 

Ainda me lembro daqueles olhos escarlates… eles brilhavam de tal forma que não dissipavam as trevas, pelo contrário: devoravam a escuridão da noite. Aos poucos ela avançou e sem razões aparentes, como num predestino, picou o meu pé. Muitos foram os que tentaram me ajudar, mas antes de reunir forças para resistir, sucumbi. Em algum lugar do mundo, com o rosto sendo lavado pelo rio.

Acordei com o som do próprio fôlego, sentei na cama e desliguei o rádio. Não é um bom sinal sonhar com serpentes, todo mundo sabe disso. Caminhei para lá e pra cá enquanto aguardava o borbulho da água… Tudo foi muito real, precisava fazer um café. Questionei se poderia haver alguma relação com meu encontro à noite. Sou supersticioso, fiquei nervoso, tive vontade de arremessar o espelho, cai na poltrona murmurando coisas de pouco sentido; “Ah, merda! Não era o dia de sonhar com isso, que tipo de aviso foi esse?”, questionei. “Droga! Droga! Hoje não pode, hoje é dia de encontra-la!”. Sem a menor dúvida, iria encontra-la hoje a noite. O desejo pela saudade vencia o respeito pelo sobrenatural.

Não adiantava ir atrás de informações… A “avó” dos búzios não está na cidade hoje e os livros do Jornal aqui ao lado não contribuirão em muita coisa. As revistas são tradicionais e os significados tradicionais dos sonhos costumam não funcionar comigo. Não sei se devo arriscar, não sei se posso ir até lá. Se o marido dela descobrir, se ele ao menos desconfiar, a serpente não levará apenas a minha vida e a dela, como também a de toda nossa família, até a vigésima geração. Ser dominado e levado ao prazer é maravilhoso, mas saber proporciona-lo na medida certa é um dom – um dom de poucos! E dentre todos os seus talentos, essa dádiva o ditador não possuía, nem mesmo se preocupava em ter. É natural que sua esposa buscasse fugir de toda aquela tensão então, nos braços de outro. Se eu não afagasse seu deleite, outro melhor o faria.

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Leila

Eu sempre ouvi falar que o que é bom é pra ser visto. Então não perdi meu tempo e olhei pra valer! Como se fosse a última garota do mundo. Sentado no balcão, assistia de tudo um pouco desde a chegada dela; sua risada tímida, seus disfarces e a linda mania de arrumar as mechas constantemente. “Mas o que será que ela deve estar pensando?”, questionei a mim mesmo. “Quer uma dica? Melhor se preocupar com aquilo que ela ainda não pensou. Motive-a! Faça com que ela imagine além do óbvio!“, respondeu Leila, a demoníaca voz da minha consciência. E ela não parou por ai;

– Ah, mais uma dica: continue olhando, baby. Insista… encare mesmo! Espere o sinal de retribuição e torça pra que ele seja positivo. Ela é bonita demais, são poucos os que possuem coragem de segurar esse foco, a maioria dos homens hoje em dia se desviam das trocas de olhares e saem correndo. – Sussurrou Leila.

– Ok! – Consenti comigo mesmo, de uma forma um tanto anormal, claro – Você está certa! Afinal de contas, eu não tenho nada a perder!

E Leila parecia mesmo certíssima, como sempre. Precisei apenas de dois minutos, entre o fim da música do Lulu Santos e o começo da canção de Djavan. Assim que o cantor do bar concluiu mais uma bela canção, ele acenou para o garçom, parecia querer um copo d’agua. Em meio ao silêncio, as vozes e risadas ocuparam o ambiente. A casa estava lotada, era sábado à noite, a cidade é boemia e os bares atraem os fãs de músicas ao vivo. Entre a cerveja e o fim das palmas ao cantor, voltei a olhar para a mesa 08, onde a ruiva estava sentada com mais duas amigas. Para minha tão esperada surpresa, ela também estava de lá, retribuindo meus sinais evidentes. Mirava minhas cenas de falso distraído, comentava alguma coisa para as amigas que também me devoravam com os olhos. Fosse este, talvez, o sinal da qual Leila falara.

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Últimas palavras

Olá, meu neto. Saudades de você.

Perdoe-me pela demora em responder sua carta. Meu câncer alcançou um estágio avançado e com o decorrer do tratamento, ando tendo pouco tempo de sobra para os demais cuidados da vida. Pois bem, fico feliz que tenhas chegado aos 18 anos com muita saúde e inteligência. Gostei do que falaras sobre a relação que tive com sua falecida avó e de imediato, já quero responde-lo: sim! Éramos um casal feliz e apaixonado. Vivemos muito bem no decorrer dos 46 anos de união. Não éramos perfeitos, não gostamos muito um do outro de primeira, mas aprendemos a superar esses detalhes. Li também que ainda não superara muito bem a questão da sua ex-namorada e de como a nova vizinha andou balançando seu peito. Ah, meu filho… as coisas não são tão simples quanto parecem. Fez bem em me pedir alguns conselhos, há muito do que precisas aprender.

Pra começar, eu senti o ar de maturidade que você aplicou entre as letras, mas antes de tudo coloque uma coisa em mente: não se ache! Você ainda não é homem só porque possui um certificado de reservista no bolso. Muito menos pela entrevista de emprego marcada, ou pelas camisinhas usadas em baixo do colchão. Homens de verdade não dão pra trás nas situações difíceis. Eles aguentam, eles superam. Sempre com a cabeça erguida, sempre demonstrando coragem, mesmo quando se está completamente corroído por dentro.

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CineLove

O que será que você achou de mim?

Eu sei que a resposta está aí, em algum lugar, no intervalo entre o sorriso e a próxima pipoca.

Não imagina o quão tolo fui, nos anos que perdi pagando de sábio. Repetição dos mesmos erros; “admirável novo choro”. Bancando o certo enquanto estava todo errado, fingindo evolução mesmo nadando ao contrário.

Peço perdão pelo tempo em que estavas aqui e eu não “vi” você. Reflexões fazem um homem cair na real e a minha realidade anda pulsando num coração pesado. Coração que demorou, mas se tocou, tardiamente, que o seu status é grande demais pra se manter na amizade.

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