H de Ingenuidade

Escolhi uma mesa para dois no quiosque de café do Shopping próximo ao meu trabalho. A ideia era tomar um cappuccino e talvez dividir um bolo, porém ela estava demorando a chegar. A páscoa estava se aproximando e as lojas estavam cheias. Era uma linda tarde de quarta, dia chuvoso, deveria fazer uns vinte e cinco graus, friozinho bom para ficar em baixo do edredom com alguém que ama, passando a mão onde não deveria. Havia uma galera metros à frente dos quiosques, no palco do shopping, organizando um provável show. Se a música fosse boa, poderia considerar o lugar do encontro como uma tacada de sorte, pois a visão era extremamente privilegiada. Eu já havia feito os pedidos ao garçom, mas solicitei que ele aguardasse até o meu comando. Quando se passaram quinze minutos além do combinado, fiquei um pouco nervoso e puxei o celular do bolso para tentar falar com a crush. A impaciência é um dos meus pecados, queria saber o motivo da demora.

Não teclei por muito tempo, assim que me distrai com a tela, ela se aproximou e me cutucou. Olhei para cima, ela sorriu. Juliana é uma ruiva lindíssima! Tem por volta de 1,69, gosta de usar saltos discretos. Ela é magra, bem magra, poderia ser modelo, porém os deuses da genética brasileira resolveram abençoa-la com os maiores e mais lindos seios que já vi. Ela trabalhava numa loja de cosméticos e usava o uniforme do seu trabalho; uma blusa escura, com a logomarca no peito e uma calça da mesma cor, colada ao corpo. Ela estava molhada, com o cabelo meio bagunçado pelo vento e um guarda-chuva preso no braço esquerdo. Parecia ter encarado um dilúvio lá fora. Sequer fez questão de passar no banheiro antes para retocar a maquiagem. Qualquer garota comum faria isso, elas acham que os homens se importam. Bobagem! Eu gostava dela e não olhava para as comuns, justamente porque ela não se importava.

Continue lendo “H de Ingenuidade”

Pescador

Sonhar contigo é horrível!
E vou te dizer o porquê:
As lembranças acabam comigo,
Passo o resto do dia pensando em você.

Não posso te olhar com desejo,
Já decidi que preciso esquecer.
Mas quando os sonhos nascem do vinho,
Naufrago em perigo, não sei o que fazer.

Sonhei com você num barquinho,
Num frenesi de amar e ser amado.
Sonhei do tesão ao carinho,
Na proa, no cais, na rede e no nado.

Continue lendo “Pescador”

Un destino arrastrándose

La Paz – Bolívia, 1975

 

Ainda me lembro daqueles olhos escarlates… eles brilhavam de tal forma que não dissipavam as trevas, pelo contrário: devoravam a escuridão da noite. Aos poucos ela avançou e sem razões aparentes, como num predestino, picou o meu pé. Muitos foram os que tentaram me ajudar, mas antes de reunir forças para resistir, sucumbi. Em algum lugar do mundo, com o rosto sendo lavado pelo rio.

Acordei com o som do próprio fôlego, sentei na cama e desliguei o rádio. Não é um bom sinal sonhar com serpentes, todo mundo sabe disso. Caminhei para lá e pra cá enquanto aguardava o borbulho da água… Tudo foi muito real, precisava fazer um café. Questionei se poderia haver alguma relação com meu encontro à noite. Sou supersticioso, fiquei nervoso, tive vontade de arremessar o espelho, cai na poltrona murmurando coisas de pouco sentido; “Ah, merda! Não era o dia de sonhar com isso, que tipo de aviso foi esse?”, questionei. “Droga! Droga! Hoje não pode, hoje é dia de encontra-la!”. Sem a menor dúvida, iria encontra-la hoje a noite. O desejo pela saudade vencia o respeito pelo sobrenatural.

Não adiantava ir atrás de informações… A “avó” dos búzios não está na cidade hoje e os livros do Jornal aqui ao lado não contribuirão em muita coisa. As revistas são tradicionais e os significados tradicionais dos sonhos costumam não funcionar comigo. Não sei se devo arriscar, não sei se posso ir até lá. Se o marido dela descobrir, se ele ao menos desconfiar, a serpente não levará apenas a minha vida e a dela, como também a de toda nossa família, até a vigésima geração. Ser dominado e levado ao prazer é maravilhoso, mas saber proporciona-lo na medida certa é um dom – um dom de poucos! E dentre todos os seus talentos, essa dádiva o ditador não possuía, nem mesmo se preocupava em ter. É natural que sua esposa buscasse fugir de toda aquela tensão então, nos braços de outro. Se eu não afagasse seu deleite, outro melhor o faria.

Continue lendo “Un destino arrastrándose”

Leila

Eu sempre ouvi falar que o que é bom é pra ser visto. Então não perdi meu tempo e olhei pra valer! Como se fosse a última garota do mundo. Sentado no balcão, assistia de tudo um pouco desde a chegada dela; sua risada tímida, seus disfarces e a linda mania de arrumar as mechas constantemente. “Mas o que será que ela deve estar pensando?”, questionei a mim mesmo. “Quer uma dica? Melhor se preocupar com aquilo que ela ainda não pensou. Motive-a! Faça com que ela imagine além do óbvio!“, respondeu Leila, a demoníaca voz da minha consciência. E ela não parou por ai;

– Ah, mais uma dica: continue olhando, baby. Insista… encare mesmo! Espere o sinal de retribuição e torça pra que ele seja positivo. Ela é bonita demais, são poucos os que possuem coragem de segurar esse foco, a maioria dos homens hoje em dia se desviam das trocas de olhares e saem correndo. – Sussurrou Leila.

– Ok! – Consenti comigo mesmo, de uma forma um tanto anormal, claro – Você está certa! Afinal de contas, eu não tenho nada a perder!

E Leila parecia mesmo certíssima, como sempre. Precisei apenas de dois minutos, entre o fim da música do Lulu Santos e o começo da canção de Djavan. Assim que o cantor do bar concluiu mais uma bela canção, ele acenou para o garçom, parecia querer um copo d’agua. Em meio ao silêncio, as vozes e risadas ocuparam o ambiente. A casa estava lotada, era sábado à noite, a cidade é boemia e os bares atraem os fãs de músicas ao vivo. Entre a cerveja e o fim das palmas ao cantor, voltei a olhar para a mesa 08, onde a ruiva estava sentada com mais duas amigas. Para minha tão esperada surpresa, ela também estava de lá, retribuindo meus sinais evidentes. Mirava minhas cenas de falso distraído, comentava alguma coisa para as amigas que também me devoravam com os olhos. Fosse este, talvez, o sinal da qual Leila falara.

Continue lendo “Leila”

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: