Na minha cozinha

Mergulho o anelar direito no bolo de chocolate,

Eu não sei: acho que estou sorrindo.

Mas não é qualquer sorriso — distinção que aprendi a fazer.

É o sorriso perfeito. Aquele feito pra você.

Ouço o sino da catedral. A hora é exata e a fala é muda.

As folhas vagueiam lá fora; no tempo, no vento, nas memórias.

Aponto o dedo, você chupa. Transpira. Fecha os olhos. Lambe.

Quente, salaz, tentador, inolvidável, lúbrico, Ual… apetecível!

Trovejou em mim; intrínseco.

Vai chover lá fora; inelutável.

Eu não sei: acho que estou feliz.

Mas não é qualquer felicidade — distinção que aprendi a fazer.

É tê-la de cerne na vida. Coisa que outrora, optei por esquecer.

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Inexorável

Acordou e ligeiramente sentou na cama. De imediato ficou tonto. A cabeça começou a girar, era uma dor para cada fio de cabelo. Ele espirrou. Pôs a mão no rosto, havia um pouco de pó sobre a narina esquerda, traços da farra na noite anterior. Ele fedia e sentia uma dor absurda nas costas. Levantou-se, andou até o espelho, passou a mão no cabelo e, não satisfeito, penteou-o. Só Deus sabe o quanto era vaidoso. O sol quente levantava a poeira da quitinete alugada, o quarto cheirava a geladeira suja. Pela intensidade da luz, imaginou que já estava tarde. Assustou-se com isso e correu então até o relógio de parede. Eram 7:12 da manhã. Isso dava mais ou menos 7:20 da manhã, visto que seu relógio estava atrasado e não dava para ajustar, pois os botões estavam quebrados. Tinha um compromisso no centro as 8hrs e, levando em conta que o tempo médio até lá é de 30 minutos, contando com o trânsito, isso dava a ele, mais ou menos, 10 minutos para se resolver e desaparecer dali.

Voltou até o quarto desesperado. Uma agonia que corroía o coração. Todo trabalhador brasileiro sabe o que é estar atrasado, conhece a sensação. Ele também conhecia, embora fosse vagabundo. Ao menos, se considerava um, já que não arranjou um emprego fixo nos últimos treze meses. De imediato, havia muito a se fazer em pouco tempo: um remédio, um banho, uma cagada, um café, uns ovos, talvez, quem sabe, um cigarro… Elementos que qualquer cidadão precisa para encarar o demoníaco mundo lá fora. Ele tirou do armário um jeans manchado de caneta e uma blusa social lisa, preparou os ovos, engoliu o remédio junto ao café e correu para o banheiro. Quando já estava no box, o celular tocou. Saiu nu e voltou para o quarto com a escova de dentes na boca e uma toalha na cintura. Ao tirar o celular da cabeceira, deixou cair. Foram-se peças para todos os lados. Caralho! Aquilo fez um barulho enorme… O suficiente para assustar e acordar Vânia.
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H de Ingenuidade

Escolhi uma mesa para dois no quiosque de café do Shopping próximo ao meu trabalho. A ideia era tomar um cappuccino e talvez dividir um bolo, porém ela estava demorando a chegar. A páscoa estava se aproximando e as lojas estavam cheias. Era uma linda tarde de quarta, dia chuvoso, deveria fazer uns vinte e cinco graus, friozinho bom para ficar em baixo do edredom com alguém que ama, passando a mão onde não deveria. Havia uma galera metros à frente dos quiosques, no palco do shopping, organizando um provável show. Se a música fosse boa, poderia considerar o lugar do encontro como uma tacada de sorte, pois a visão era extremamente privilegiada. Eu já havia feito os pedidos ao garçom, mas solicitei que ele aguardasse até o meu comando. Quando se passaram quinze minutos além do combinado, fiquei um pouco nervoso e puxei o celular do bolso para tentar falar com a crush. A impaciência é um dos meus pecados, queria saber o motivo da demora.

Não teclei por muito tempo, assim que me distrai com a tela, ela se aproximou e me cutucou. Olhei para cima, ela sorriu. Juliana é uma ruiva lindíssima! Tem por volta de 1,69, gosta de usar saltos discretos. Ela é magra, bem magra, poderia ser modelo, porém os deuses da genética brasileira resolveram abençoa-la com os maiores e mais lindos seios que já vi. Ela trabalhava numa loja de cosméticos e usava o uniforme do seu trabalho; uma blusa escura, com a logomarca no peito e uma calça da mesma cor, colada ao corpo. Ela estava molhada, com o cabelo meio bagunçado pelo vento e um guarda-chuva preso no braço esquerdo. Parecia ter encarado um dilúvio lá fora. Sequer fez questão de passar no banheiro antes para retocar a maquiagem. Qualquer garota comum faria isso, elas acham que os homens se importam. Bobagem! Eu gostava dela e não olhava para as comuns, justamente porque ela não se importava.

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Pescador

Sonhar contigo é horrível!
E vou te dizer o porquê:
As lembranças acabam comigo,
Passo o resto do dia pensando em você.

Não posso te olhar com desejo,
Já decidi que preciso esquecer.
Mas quando os sonhos nascem do vinho,
Naufrago em perigo, não sei o que fazer.

Sonhei com você num barquinho,
Num frenesi de amar e ser amado.
Sonhei do tesão ao carinho,
Na proa, no cais, na rede e no nado.

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Un destino arrastrándose

La Paz – Bolívia, 1975

 

Ainda me lembro daqueles olhos escarlates… eles brilhavam de tal forma que não dissipavam as trevas, pelo contrário: devoravam a escuridão da noite. Aos poucos ela avançou e sem razões aparentes, como num predestino, picou o meu pé. Muitos foram os que tentaram me ajudar, mas antes de reunir forças para resistir, sucumbi. Em algum lugar do mundo, com o rosto sendo lavado pelo rio.

Acordei com o som do próprio fôlego, sentei na cama e desliguei o rádio. Não é um bom sinal sonhar com serpentes, todo mundo sabe disso. Caminhei para lá e pra cá enquanto aguardava o borbulho da água… Tudo foi muito real, precisava fazer um café. Questionei se poderia haver alguma relação com meu encontro à noite. Sou supersticioso, fiquei nervoso, tive vontade de arremessar o espelho, cai na poltrona murmurando coisas de pouco sentido; “Ah, merda! Não era o dia de sonhar com isso, que tipo de aviso foi esse?”, questionei. “Droga! Droga! Hoje não pode, hoje é dia de encontra-la!”. Sem a menor dúvida, iria encontra-la hoje a noite. O desejo pela saudade vencia o respeito pelo sobrenatural.

Não adiantava ir atrás de informações… A “avó” dos búzios não está na cidade hoje e os livros do Jornal aqui ao lado não contribuirão em muita coisa. As revistas são tradicionais e os significados tradicionais dos sonhos costumam não funcionar comigo. Não sei se devo arriscar, não sei se posso ir até lá. Se o marido dela descobrir, se ele ao menos desconfiar, a serpente não levará apenas a minha vida e a dela, como também a de toda nossa família, até a vigésima geração. Ser dominado e levado ao prazer é maravilhoso, mas saber proporciona-lo na medida certa é um dom – um dom de poucos! E dentre todos os seus talentos, essa dádiva o ditador não possuía, nem mesmo se preocupava em ter. É natural que sua esposa buscasse fugir de toda aquela tensão então, nos braços de outro. Se eu não afagasse seu deleite, outro melhor o faria.

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Leila

Eu sempre ouvi falar que o que é bom é pra ser visto. Então não perdi meu tempo e olhei pra valer! Como se fosse a última garota do mundo. Sentado no balcão, assistia de tudo um pouco desde a chegada dela; sua risada tímida, seus disfarces e a linda mania de arrumar as mechas constantemente. “Mas o que será que ela deve estar pensando?”, questionei a mim mesmo. “Quer uma dica? Melhor se preocupar com aquilo que ela ainda não pensou. Motive-a! Faça com que ela imagine além do óbvio!“, respondeu Leila, a demoníaca voz da minha consciência. E ela não parou por ai;

– Ah, mais uma dica: continue olhando, baby. Insista… encare mesmo! Espere o sinal de retribuição e torça pra que ele seja positivo. Ela é bonita demais, são poucos os que possuem coragem de segurar esse foco, a maioria dos homens hoje em dia se desviam das trocas de olhares e saem correndo. – Sussurrou Leila.

– Ok! – Consenti comigo mesmo, de uma forma um tanto anormal, claro – Você está certa! Afinal de contas, eu não tenho nada a perder!

E Leila parecia mesmo certíssima, como sempre. Precisei apenas de dois minutos, entre o fim da música do Lulu Santos e o começo da canção de Djavan. Assim que o cantor do bar concluiu mais uma bela canção, ele acenou para o garçom, parecia querer um copo d’agua. Em meio ao silêncio, as vozes e risadas ocuparam o ambiente. A casa estava lotada, era sábado à noite, a cidade é boemia e os bares atraem os fãs de músicas ao vivo. Entre a cerveja e o fim das palmas ao cantor, voltei a olhar para a mesa 08, onde a ruiva estava sentada com mais duas amigas. Para minha tão esperada surpresa, ela também estava de lá, retribuindo meus sinais evidentes. Mirava minhas cenas de falso distraído, comentava alguma coisa para as amigas que também me devoravam com os olhos. Fosse este, talvez, o sinal da qual Leila falara.

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Últimas palavras

Olá, meu neto. Saudades de você.

Perdoe-me pela demora em responder sua carta. Meu câncer alcançou um estágio avançado e com o decorrer do tratamento, ando tendo pouco tempo de sobra para os demais cuidados da vida. Pois bem, fico feliz que tenhas chegado aos 18 anos com muita saúde e inteligência. Gostei do que falaras sobre a relação que tive com sua falecida avó e de imediato, já quero responde-lo: sim! Éramos um casal feliz e apaixonado. Vivemos muito bem no decorrer dos 46 anos de união. Não éramos perfeitos, não gostamos muito um do outro de primeira, mas aprendemos a superar esses detalhes. Li também que ainda não superara muito bem a questão da sua ex-namorada e de como a nova vizinha andou balançando seu peito. Ah, meu filho… as coisas não são tão simples quanto parecem. Fez bem em me pedir alguns conselhos, há muito do que precisas aprender.

Pra começar, eu senti o ar de maturidade que você aplicou entre as letras, mas antes de tudo coloque uma coisa em mente: não se ache! Você ainda não é homem só porque possui um certificado de reservista no bolso. Muito menos pela entrevista de emprego marcada, ou pelas camisinhas usadas em baixo do colchão. Homens de verdade não dão pra trás nas situações difíceis. Eles aguentam, eles superam. Sempre com a cabeça erguida, sempre demonstrando coragem, mesmo quando se está completamente corroído por dentro.

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CineLove

O que será que você achou de mim?

Eu sei que a resposta está aí, em algum lugar, no intervalo entre o sorriso e a próxima pipoca.

Não imagina o quão tolo fui, nos anos que perdi pagando de sábio. Repetição dos mesmos erros; “admirável novo choro”. Bancando o certo enquanto estava todo errado, fingindo evolução mesmo nadando ao contrário.

Peço perdão pelo tempo em que estavas aqui e eu não “vi” você. Reflexões fazem um homem cair na real e a minha realidade anda pulsando num coração pesado. Coração que demorou, mas se tocou, tardiamente, que o seu status é grande demais pra se manter na amizade.

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Diferenças casadas

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As palavras pesam na minha boca com sapiência e ternura. O gaguejar suave, as pausas sob contextos concedem-me a cada segundo, uma língua medonhamente trêmula e confusa. Meus lábios apresentam características infantis… estou completamente bobo! Tal como uma criança provando pirulitos pela primeira vez. E por falar em princípios, não me recordo de já ter navegado por esse estado emocional, não sei de quem é a culpa ou se posso considerar culpados por todo este processo, tudo que sei é que me sinto um virgem, sentimentalmente falando, pois meu coração fora inaugurado por um lindo par de castanhos apaixonados. Desde então, vivo no maravilhoso êxtase de amar sem me preocupar em compreender a vida divinamente desenhada, nos episódios memoráveis ao seu lado.

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Dia dos namorados

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Esqueça as desculpas pessimistas de que tudo isso não passa de uma data comercial. Comerciais podem ser feitos com qualquer coisa, até com simples aniversários. Dê três informações sobre sua vida, uma bela quantia em dinheiro e uma revista de horóscopos ao dono da casa de telemensagens e lhe garanto que haverá um mega comercial sobre você no portão, mesmo que jamais mereças tanto.

Por mais que a infelicidade esteja na moda atualmente, junto a todas as brincadeiras que se fazem na internet com a solidão e a melancolia, não existe vontade nem orgulho de se estar solteiro que dê dentro com o poder do amor.

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Linha 137

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A mente trabalha com dados relevantes, enquanto o coração só precisa de migalhas para labutar. Da fila do ônibus observo o rapaz puxando assunto com uma garota. Talvez seja sua primeira vez, talvez seja um dos seus longos planos secretos e pessoais. Fosse impulso, ou fruto de estratégia, o que basta é o resultado: eles estão conversando! Isso é tudo que realmente importa.

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Louco por você

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Todo homem precisa de uma mulher pra ficar louco. Isso porque a realidade é séria e totalmente sã. A sanidade, quando em excesso, passa a ser chata. Pois desde sempre criamos perfis de seriedade: na escola, no trabalho, na igreja, na cantada, em respeito aos pais, aos vizinhos, aos parentes e até quando damos informações na rua. Uma dose de loucura não mata ninguém, assim como um pouco de pimenta não acaba com o prazer de saborear um acarajé.
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Homens e chances

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A brincadeira começou logo após uma pergunta chave, numa roda de amigos. Visto que a maioria do grupo era composta por garotas, um dos rapazes lançou certa questão inocente no ar que, mal sabe ele, utilizei durante muitos anos na lapidação da minha própria personalidade. “Eae, garotas! Quais são os tipos de rapazes que mais atraem vocês? ” –Indagou, “na lata”, como dizem no bom carioquês. Depois de alguns sorrisos e desconversas (típicas de quem nunca pensou no assunto), algumas almas resolveram se manifestar, para o alívio do rapaz que provavelmente se basearia nos arquétipos listados pra transar com alguém, quem sabe na mesma noite. Dos homens no local, só não houve alívio mesmo para a minha mente calculista, visto que nada do que foi dito me agradou de imediato.

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