Älskar

Vovó costumava dizer que o sofrimento era capaz de marcar a alma humana tanto quanto um machucado marca a pele. “Quando as pessoas são feridas, quando enfrentam uma frustração muito grande, a dor da situação é capaz de dilacerar a alma, de desanimar o espírito“, afirmava. Na época eu entendi bem a analogia, mesmo sem conhecer as figuras de linguagem. “Mas essas feridas são eternas, vovó?“, Respondi na noite em que ouvi essa definição. Ela pregou seus olhos castanhos e fatigados em mim e sorriu sem fazer barulho. “Deite-se Caroline, está na hora de dormir“. Eu deitei, ela esticou o cobertor pelo meu corpo, mas não me deu o beijo na testa como de costume. Pelo contrário, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. “As feridas não são eternas“, disse. Foi interrompida por uma tosse e logo prosseguiu: “Como falei anteriormente: a tristeza mancha a alma humana tal como uma ferida na pele. As feridas, como bem sabe, também se fecham, criam cascas e finalmente secam. Tudo depende do tempo e de como você irá cuidar. Se for bem tratada a dor passará, a casca também e no fim não restará nenhuma marca. Agora, se for uma ferida muito profunda, então é provável que a cicatriz fique, mesmo depois de curada. Você carregará para sempre a memória daquela dor estampada na alma“. Eu ouvi, entendi e apenas acenei com a cabeça, ela gostou e, em seguida, me deu o beijo na testa diário. Depois se levantou, caminhou até a porta coçando as costas e apagou a luz.

Espera ai vovó! – Chamei já sentando na cama.

Sim, minha cara.

Certa vez você me disse que é capaz de enxergar essas marcas nas almas das pessoas, certo? Como a senhora faz isso? Quando vou aprender?

Ela pôs a mão na boca e segurou um bocejo, eu sabia que ela havia gostado da pergunta pelo modo que me encarou. Parecia ter previsto minha curiosidade, aliás; toda conversa que tivemos durante a noite, antes mesmo de me levar até a cama foi, ao meu ver, o cultivo de uma semente; de uma vontade que ela queria ver brotando em mim. E brotou! Eu ansiava pelo mesmo dom. Vovó voltou, puxou a cadeira novamente e sentou bem devagar. Pegou em minhas mãos, fez um leve carinho… Foi uma visão inesquecível pois a luz da lua que transpassava a janela atrás da minha cama foi refletida na esmeralda que ela carregava no pescoço. Momentos depois, ela respondeu:

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Inadaptado

Eu até pensei em te avisar que já não andava mais tão feliz, que o desgaste corroeu tudo que sinto por você, só que você sorria demais… um brilho no olhar de causar gosto e contentação ao público, ignorando qualquer problema que latejasse ao redor. Tentei te mostrar que o céu não estava mais tão azul quanto antes, que as coisas a volta andavam meio cinzas, ah, quantas vezes demonstrei! Mas você parecia não se importar com a tempestade que nascia no Sul, mesmo sabendo que o nosso lar não tinha firmamento suficiente para outro vendaval. O medo da solidão te lançou na ilusão de que a vida é perfeita e se ajeita sozinha quando se está com alguém. Sentei e expliquei, em diversas circunstâncias, que não é assim que a banda toca, que não podemos parar e ficar observando o caminhar das estações, que o amor não é um ponto de chegada, é uma eterna caminhada de encaixes e lapidações, havendo sempre a necessidade de ir avançando, aprendendo com os erros e se atualizando.

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É falta “daquilo”

Vocês já repararam que praticamente todas as pessoas que vivem militando e dizendo por ai que “namoro é pra casar” ou que “o certo é esperar que a pessoa certa apareça “, estão solteiras? Melhor dizendo: estão solteironas! Quase fazendo carreira na solidão. E a coisa ainda piora! Com todo respeito a generalização, é claro, mas todos os sujeitos e sujeitas que conheço e que se enquadram neste perfil, acumulam centenas de casos fracassados no histórico pessoal. Você, amado leitor, certamente possui uma leva dessa gente distribuída entre os amigos do Facebook. Perca alguns minutos consultando o curriculum de cada uma delas e veja por si só, um pouco do óbvio.

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Últimas palavras

Olá, meu neto. Saudades de você.

Perdoe-me pela demora em responder sua carta. Meu câncer alcançou um estágio avançado e com o decorrer do tratamento, ando tendo pouco tempo de sobra para os demais cuidados da vida. Pois bem, fico feliz que tenhas chegado aos 18 anos com muita saúde e inteligência. Gostei do que falaras sobre a relação que tive com sua falecida avó e de imediato, já quero responde-lo: sim! Éramos um casal feliz e apaixonado. Vivemos muito bem no decorrer dos 46 anos de união. Não éramos perfeitos, não gostamos muito um do outro de primeira, mas aprendemos a superar esses detalhes. Li também que ainda não superara muito bem a questão da sua ex-namorada e de como a nova vizinha andou balançando seu peito. Ah, meu filho… as coisas não são tão simples quanto parecem. Fez bem em me pedir alguns conselhos, há muito do que precisas aprender.

Pra começar, eu senti o ar de maturidade que você aplicou entre as letras, mas antes de tudo coloque uma coisa em mente: não se ache! Você ainda não é homem só porque possui um certificado de reservista no bolso. Muito menos pela entrevista de emprego marcada, ou pelas camisinhas usadas em baixo do colchão. Homens de verdade não dão pra trás nas situações difíceis. Eles aguentam, eles superam. Sempre com a cabeça erguida, sempre demonstrando coragem, mesmo quando se está completamente corroído por dentro.

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Veraneio Malogro

 

Cá estou! Tristonho, suponho.

Convicto das dores que colecionei com o tempo,

Desfalcado encaro, um cotidiano sem sabor,

Pois sem você, é claro, tudo que tenho é efêmero.

Cá estou! Tristonho, suponho.

Observando as rosas dançando na chuva,

Com as mãos calejadas desfaço as lágrimas,

Molhadas memórias, amargas entre as unhas.

Cá estou! Tristonho, suponho.

Condenado ao castanho dos seus olhos apáticos.

Reflexos que espelham meus medos e devaneios,

Emendas de dias, decepções em retalhos.

E cá estou! Tristonho, pressuponho.

Na insólita ilusão de vê-la retornar,

Padeço largado em débito com os medos,

Vitimado pelo funesto erro, de um dia lhe amar.

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