Dia frio

Querida,

        Desculpe eu ter me ausentado um pouco de nossas correspondências. Tenho andado sem ânimo e me distanciado um pouco de tudo. Aos poucos tenho voltado mais para mim – e consequentemente para os outros.

        Amanhã eu volto para casa. Estava a passar um tempo no sítio de uma amiga – por isso também de ter parado com as cartas. Acho que o período aqui foi bom para mim. Espero que a calmaria que se instaurou permaneça, e que a antiga rotina não volte a me enlouquecer.

        Faz frio aqui. Gosto do frio, gosto da chuva porque… Desculpa, me perdi nos pensamentos e agora tô aqui sentada tentando voltar ao raciocínio.

        Tive que parar a escrita ontem, pois uma dor de cabeça terrível me tomou. Adiei minha volta para a cidade. Talvez retorne amanhã ou depois, não sei ao certo. Eu meio que fugi de tudo e agora está sendo difícil retornar. Sei que tenho de voltar – tenho (?) -, mas essa ideia não me atrai. Sei também que já estou bem crescida para tá fazendo birra, porém não consigo evitar – sempre fui assim. Talvez amanhã tudo isso passe e eu nem lembre mais dessa ideia de permanecer fugitiva (risos).

        Sabe, eu sempre fui mais de escrever – por sempre ter tido dificuldades de falar e agir. Nunca soube me expressar direito, sempre faltou algo; nunca gostei muito de lidar com gente, as pessoas são complicadas demais, por isso sempre que podia evitava o contato humano – a escrita foi meio que minha salvação. Antes eu vivia querendo que tudo fosse diferente – eu queria gostar de me relacionar com as pessoas, mas sempre tive preguiça -, mas ainda bem que as coisas são como são… Nem sei porque entrei nesse assunto; acho que esse tempo aqui me fez refletir, enxergar as coisas de forma ampliada. Tenho medo de voltar e esquecer tudo que aprendi nesse tempo de solitude. Acho que só não quero ver tudo da forma engessada de antes.

        Me escreve, aguardo ansiosa por notícias.

Com amor,

M.

Onde?

Estamos quase tristes.

Quase sempre tão felizes,

 

estamos quase sempre,

quase nus,

quase sãos,

quase sadios.

 

Estamos quase vivos,

quase mortos.

Estamos quase todos tortos.

 

Quase todos satisfeitos.

Somos muitos.

Somos tantos.

 

Estamos tão seguros de si mesmos.

Estamos enganados.

Sozinhos.

Estamos quase lá.

Onde?

Voz da experiência

Se eu posso dar um conselho? Claro que sim! E aproveitem porque é gratuito! O conselho que dou é o seguinte: procure saber qual é a música favorita da pessoa que você gosta. Principalmente se for alguém que começou a se relacionar contigo há pouco tempo. O motivo? Oras, é bem simples: desconfie de todas as pessoas cujo coração gira em torno da tristeza. Ela pode estar sorrindo ao seu lado, mas no fundo possui alguma causa não superada. E o pior! É provável que ela não pretenda superar. Na maioria dos casos com indivíduos desse tipo, as canções tristes servem como uma dose de nostalgia, uma garrafa de vinho servida gelada com momentos do passado gravados na embalagem. Quem (ao contrário de seguir em frente) dá preferência a nostalgias negativas, cuidando e e alimentando um câncer sentimental, seja através de livros, filmes ou músicas, não é digno da sua confiança e possivelmente desconfia até mesmo do amor que você tem pra dá.

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Riflessione

Minha distração tem nome; acho que ando focado demais na indiferença. Sabe? Aquele “time” entre taças e taças de vinho que acompanham todo rei vencedor após as batalhas. Aquela sensação de que tudo já está feito, que nada mais há para fazer. O perigo de uma praia chamada satisfação, onde os tubarões do tédio nadam na costa.

Estou como um clube que se esforçou, mas acabou no meio do campeonato. Sem disputar o título e sem brigar pra não cair. Esta foi a alma do meu ano, sem sombra de dúvidas. Aliás, egoísmo a parte, diria que este foi o ano de muitos. As vitórias são maravilhosas e as perdas… bem! Elas até que possuem seu valor, todavia o hiato entre uma coisa e outra é de cortar o coração. Puro sentimento de incapacidade. Um olhar triste como o de um ursinho de brinquedo, abandonado na prateleira da loja, após todas as crianças optarem por um robô de natal.

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Lastimável Sensatez

Todo sábio está condenado! A sabedoria não é uma dádiva, é uma maldição. Dádiva, talvez, se resuma a faculdade de ser tolo. O tolo é feliz na satisfação de seus instintos, na realização dos desejos mais simplórios, como um copo de cerveja. O sábio por outro lado, questiona! E boa parte das respostas no decorrer da vida humana carregam consigo sua parcela de infelicidade.

Questionar tudo, aprender muito e quanto mais compreender, menos entender porque tanto dão valor a brincadeira de viver. É um dos muitos comportamentos dos sábios. Quanto maior a sabedoria, maior a percepção de que há pouca coisa de valor nesse mundo. Quase tudo é um rascunho dum resumo de promiscuidades e vaidades.

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