DT 32:2

Esse negócio de seguir em frente é uma das coisas mais complicadas que a humanidade pode inventar. Ao sentar na minha varanda e esperar a chuva passar, ao abrir meu pacote de cigarros e notar que está vazio, ao amassar a lata de cerveja, ao ler o novo e-mail com a fatura do cartão, sinto na pele o tremendo esforço que a vida anda fazendo para me puxar, novamente, ao plano da realidade. Só que todo esforço parece ser pouco, todo problema é mínimo. Sinto-me suspenso, acima das regras do cotidiano, engatinhando numa corda bamba entre o real e o imaginário. Tendo de um lado suas palavras, promessas, atos e memórias e do outro o fato de que você não voltará mais. A cerveja eu pego na geladeira, a fatura eu resolvo no banco, o cigarro eu compro na esquina. Mas e você? Não há resolução para você, para nós dois. Não existe dinheiro que compre ou atitude que repare. O que dá pra fazer é sentar e esperar, tal como, agora, eu espero o passar da chuva. Equilibrando-me nessa corda fina de embaraços, assistindo os meus dias transcorrem e derreterem.

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Everybody’s got to learn sometime

Oi.

Acredito que ao enviar sua última carta, você já não esperava mais nenhuma resposta. Provavelmente achou que meu ódio sobressairia meu desejo quase natural de dar a última palavra na discussão, de ser o último a falar e conceber o ponto final dos dilemas e conflitos. Pois bem, se assim pensou, você estava errada. Mexa com a raiva masculina o quanto quiser, mas nunca, jamais, em hipótese alguma, mexa com o ego. O ego é uma máquina de atitudes previsíveis. O que faz desse texto, dessa carta, mais uma das tantas coisas previsíveis que se poderia esperar de mim. Você não é boba, vai ver ansiava pela minha resposta. É possível? É! É sim. Prefiro acreditar nessa versão da história.

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O “Nós” desfeito

Quando parti pela primeira vez você não imagina a dor que senti. Fiquei me perguntando o que faria com todos aqueles planos que havia criado para nós. Eu não sabia o que fazer com tanto volume, tudo, independente da força gravitacional existente, era pesado demais. E aqui, na gravidade do meu mundo, a sua massa pesa os meus ombros e tira o meu sono.

Nunca iria dar certo, agora entendo bem o porquê.

Todas as vezes foi eu quem foi embora, e enquanto você me ofendia e me lançava mais pesos por isso, eu me perguntava como você não enxergava o mal que me fazia.

Agora eu percebo que você via, mas egocentricamente enquadrava tudo nas leis do teu estado emocional, onde eu sempre era condenada a sua prisão que me fazia acreditar que o erro era eu e que os teus pedidos para voltar eram sinceros. Eu sofria ao te deixar mais por você do que por mim. Tola, perguntava-me se você teria lugar para guardar todo aquele “algo” que te fiz sentir, sem ao menos questionar se esse “algo” um dia existiu.

Nunca iria dar certo. Nunca!

Meu corpo pedia tempo, e eu clamava por um fim que eu não sabia concretizar. Você brincava com o espaço-tempo, e eu continuava sempre no mesmo lugar.

O meu mundo e o seu giravam antagônicos, com isso nunca nos harmonizamos, sempre nos colidimos, jogando estilhaços que se juntavam e formavam um novo planeta: “Nós”.

E esse “Nós” não foi feito para ser, e sim para acabar. E desde o início já estava bem explicito que em algum momento perdido no tempo, um meteoro nos atingiria e um novo Big Bang aconteceria, e dessa vez nos desmontaria irrevogavelmente.

Nunca iria dar certo.

E estou orgulhosa de mim por ter partido, e dessa vez não pensei em você, só em mim. Então não me espere, não me busque. Eu não vou voltar.

I Guess That’s Why They Call It The Blues

As flechas surgem nos momentos de fragilidade. As dores aparecem mediante ao temor. Os golpes atestam a traição, o desespero conclui a infelicidade. Nem as trevas noturnas são tão deprimentes quanto os dias mais cinzas. A solidão da noite não é nada quando comparada ao conjunto de horas esperando uma solução, aguardando pelo pior, encarando problemas cada vez mais inimagináveis, intensos, infinitos.

Minhas antigas carcaças se acumulam no quarto. São os rascunhos de cada um dos fracassos, comprovantes de décadas tentando, mudando, recomeçando, se adaptando, se ajustando. Lendo a bula do remédio, ouvindo a fala do psicólogo, fazendo a simpatia da semana, devorando as propagandas do rádio. Uma pena que nada adiantou, nada nunca adianta. Meu corte de cabelo é novo, mas os dias continuam cinzas.

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Deixa pra lá!

A sala estava uma bagunça porque todas as coisas ainda estavam empacotadas. Paloma sentou no sofá girando as chaves da nova casa com a mão direita. Havia ficado entediada, faltava apenas uns dez por cento para o tédio consumir seu cérebro de vez. tinha muito o que fazer, não sabia por onde começar. Seu relacionamento estava péssimo, seu parceiro não percebia. Na mão esquerda segurava um copo de requeijão com vodca pura e gelo, na sua frente havia um quadro torto de pelo menos oitenta centímetros com a foto do James Brown, paixão eterna do noivo. Hector estava parado na janela lendo um livro que tirara de uma das caixas e, por falar em caixas, elas estavam por todos os lados – grandes pequenas e médias. Não fazia muito tempo que os dois chegaram a São Paulo, acabaram de estrear o apartamento novo próximo ao Ibirapuera. Os caminhões deixaram o condomínio há vinte minutos, as mudanças foram soltas por todos os cômodos, o céu estava nublado, o dia silencioso e o casal com preguiça. “Estou te dizendo: tem alguma coisa errada. Qual era mesmo o nome da loja que te vendeu essa garrafa?”, perguntou Paloma. “Não interessa. É original, relaxa e beba.”, respondeu Hector. “Tá horrível!”, ela retrucou e continuou; “Tô dizendo… Eu já bebi Ciroc antes. Alguma coisa está muito errada com isso aqui”. Hector ignorou o comentário e deu um alerta, “Você não deveria beber tanto”, disse e não parou por ai, “Vou ter que trabalhar mais tarde e você ficará com as caixas, ok? Se ficar bêbada poderá quebrar meus discos”, finalizou. Paloma se irritou automaticamente:

Pô! Você vai trabalhar de novo? Sábado a noite? Que sacanagem, tá sempre ausente. Eu vou ter esse trabalhão todo com a arrumação sozinha?

Fica quietinha, chuchu. Estou tentando ler – Respondeu Hector.

Paloma engoliu a resposta, aquilo arranhou a garganta, o coração, a paciência. Passados alguns minutos, Hector acendeu um cigarro e começou a gargalhar. Começou baixinho e foi aumentando o volume, uma tentativa falha de incomoda-la, de quebrar a barreira da mudez. Pegou a primeira folha que viu pela frente – parecia ser um recibo qualquer – e colocou na página do livro que estava lendo. Saiu defronte a janela e caminhou na direção da noiva que não parecia estar nem ai pra sua animação. Ficara claramente chateada com o comentário anterior, qualquer um perceberia, menos ele. Em seguida, sentou-se no braço do sofá, cutucou-a e começou a falar;

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The last letter

 

Olá.

Não foi fácil voltar a lhe escrever, então peço que apenas leia essa carta quando de fato estiver com tempo disponível para ela. Mas… caso tenha concluído que as minhas palavras não possuem mais relevância, por favor, não perca seu tempo! Lance tudo ao fogo, na primeira chance que vier.
De qualquer modo, precisarei desabafar sobre algumas coisas e deixar atestado o máximo de sinceridade que ainda resta na minha memória. Não importa se os frutos disso terminarão na sua mente ou no calor das chamas. Atualmente, vejo pouca diferença.

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Selene

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Selene, do grego: “Selini” é a deusa da Lua

 

Quantos homens você continuará a magoar até perceber que o problema não está na espécie masculina, está em você?

Quantas estações se passarão, quantas lágrimas cairão e quantas rugas ainda precisam cicatrizar, no seu lindo rosto, para que percebas o óbvio? Tua verdade evidente. Cada nova relação amorosa, carrega a mesma versão, sempre contada por diversas línguas -, todas gritam, numa só voz, que tens um enorme problema capaz de manchar todos os corações que, ingenuamente, se acham habilitados para ajudá-la, quando nem mesmo tu, se preocupas com a cura.

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Rota 517

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Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!

2 Coríntios 5:17

 

A estrada é de terra, ou pelo menos árida e empoeirada o bastante para apagar o asfalto, isso se for possível existir asfalto por aqui. O vento quente destrói o meu cabelo e elimina rapidamente todas as minhas pegadas, mostrando-me que para a natureza (ou para o dono dela), tudo é passageiro, irrelevante e será apagado! Independente de quem utilize este trajeto. Irônico… Meu coração está na mesma situação: tudo é indiferente, nada é capaz de deixar verdadeiras marcas. Pra ser sincero, jamais imaginei que uma estrada vazia seria a metáfora perfeita.

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O incrível natal de Nicolas Volkov

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Nicolas Volkov nasceu na Alemanha em 1985, entretanto no desejo de viverem próximos aos parentes, seus pais se mudaram para a Ucrânia, dois anos depois. Na véspera de natal de 2001, já com dezesseis anos, ele e a família se reuniram na casa dos avós na cidade de Kiev, onde também morava, para juntos comemorarem o nascimento de Jesus Cristo. Nicolas estava ansioso para o momento de entrega dos presentes, na verdade, era tudo que ele realmente esperava. No decorrer do dia, das semanas anteriores e dos meses passados, o rapaz não falava de outra coisa a não ser o seu próprio presente. Ele queria um Playstation, console de ponta para a época. E mais do que pedido aos familiares, ele já havia feito promessas colocando em jogo até a própria alma! Dizendo que seria tão santo quanto qualquer papa, caso ganhasse o videogame. Contudo sua alegria foi bem mais do que passageira, Nicolas ganhou presentes simples naquela noite; Logo após o jantar, seus avós lhe presentearam com um livro, seus tios, com um rádio. Já os seus pais, destruíram todas as expectativas do rapaz ao tirarem dos pés da arvore de natal, um embrulho, contendo um casaco de lã.

 

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Sem romance! Por favor…

 

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O amor deixa de existir quando não é correspondido. Essa é a minha máxima! Esse é o ponto de partida. Podem colocar a afirmação num quadro, numa lápide, ou no status de qualquer professor quarentão e solitário, cheio de gatos em casa. O amor deixa de existir quando não é correspondido, pois é só assim que ele funciona: correspondendo. Todo resto não passa de desejo platônico, fadado ao fracasso e extraído de qualquer fonte de esperança. Isso não tem nome, mas para mim não é amor, se for não quero senti-lo. E não desejaria a ninguém, nem mesmo ao meu pior inimigo.

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Nas asas de um novo mundo

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Hoje é um daqueles dias que por si só, animam tudo: O abraço singelo da natureza vem carregado no poder da aurora matinal. O dia se inicia com todo seu glamour, o sol resplandece em todas as almas deprimidas que se esconderam do mundo após as pancadas intermináveis de chuva. Detalhe crítico: Eu sou uma delas. O ar, o gosto, o vento lá fora me relembra de tamanha verdade: A natureza é linda! Deus já havia montado o espetáculo no quinto dia, antes dos primeiros passos do homem, sendo este último apenas parte da plateia. Não há motivos para viver presa em tantos lutos, chega de rever conceitos, de fuxicar o passado.

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Atualizando o status

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Quando não existe amor, todas as atitudes de um casal são bem previsíveis. Por exemplo, contarei exatamente o que acontece quando duas pessoas magoadas decidem se distanciar:

O homem vai tentar renovar a vida e irá se machucar,
A mulher fará o mesmo, provavelmente depois de ouvir alguns conselhos, e também dará topadas.

Com sorte, o lado mais fraco e azarado voltará a procurar seu antigo par, isto é, se o orgulho permitir.

Só que, num relance simples dos fatos nascerá a prova de que nada mais será como antes. E o tempo vai dando cartadas e mais cartadas até um dos dois parar e perceber que o melhor remédio é zerar tudo e esquecer.

E assim termina uma história. Por falta de motivação, confiança e vontade de fazer diferente, de ser diferente.

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