O “Nós” desfeito

Quando parti pela primeira vez você não imagina a dor que senti. Fiquei me perguntando o que faria com todos aqueles planos que havia criado para nós. Eu não sabia o que fazer com tanto volume, tudo, independente da força gravitacional existente, era pesado demais. E aqui, na gravidade do meu mundo, a sua massa pesa os meus ombros e tira o meu sono.

Nunca iria dar certo, agora entendo bem o porquê.

Todas as vezes foi eu quem foi embora, e enquanto você me ofendia e me lançava mais pesos por isso, eu me perguntava como você não enxergava o mal que me fazia.

Agora eu percebo que você via, mas egocentricamente enquadrava tudo nas leis do teu estado emocional, onde eu sempre era condenada a sua prisão que me fazia acreditar que o erro era eu e que os teus pedidos para voltar eram sinceros. Eu sofria ao te deixar mais por você do que por mim. Tola, perguntava-me se você teria lugar para guardar todo aquele “algo” que te fiz sentir, sem ao menos questionar se esse “algo” um dia existiu.

Nunca iria dar certo. Nunca!

Meu corpo pedia tempo, e eu clamava por um fim que eu não sabia concretizar. Você brincava com o espaço-tempo, e eu continuava sempre no mesmo lugar.

O meu mundo e o seu giravam antagônicos, com isso nunca nos harmonizamos, sempre nos colidimos, jogando estilhaços que se juntavam e formavam um novo planeta: “Nós”.

E esse “Nós” não foi feito para ser, e sim para acabar. E desde o início já estava bem explicito que em algum momento perdido no tempo, um meteoro nos atingiria e um novo Big Bang aconteceria, e dessa vez nos desmontaria irrevogavelmente.

Nunca iria dar certo.

E estou orgulhosa de mim por ter partido, e dessa vez não pensei em você, só em mim. Então não me espere, não me busque. Eu não vou voltar.

I Guess That’s Why They Call It The Blues

As flechas surgem nos momentos de fragilidade. As dores aparecem mediante ao temor. Os golpes atestam a traição, o desespero conclui a infelicidade. Nem as trevas noturnas são tão deprimentes quanto os dias mais cinzas. A solidão da noite não é nada quando comparada ao conjunto de horas esperando uma solução, aguardando pelo pior, encarando problemas cada vez mais inimagináveis, intensos, infinitos.

Minhas antigas carcaças se acumulam no quarto. São os rascunhos de cada um dos fracassos, comprovantes de décadas tentando, mudando, recomeçando, se adaptando, se ajustando. Lendo a bula do remédio, ouvindo a fala do psicólogo, fazendo a simpatia da semana, devorando as propagandas do rádio. Uma pena que nada adiantou, nada nunca adianta. Meu corte de cabelo é novo, mas os dias continuam cinzas.

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Deixa pra lá!

A sala estava uma bagunça porque todas as coisas ainda estavam empacotadas. Paloma sentou no sofá girando as chaves da nova casa com a mão direita. Havia ficado entediada, faltava apenas uns dez por cento para o tédio consumir seu cérebro de vez. tinha muito o que fazer, não sabia por onde começar. Seu relacionamento estava péssimo, seu parceiro não percebia. Na mão esquerda segurava um copo de requeijão com vodca pura e gelo, na sua frente havia um quadro torto de pelo menos oitenta centímetros com a foto do James Brown, paixão eterna do noivo. Hector estava parado na janela lendo um livro que tirara de uma das caixas e, por falar em caixas, elas estavam por todos os lados – grandes pequenas e médias. Não fazia muito tempo que os dois chegaram a São Paulo, acabaram de estrear o apartamento novo próximo ao Ibirapuera. Os caminhões deixaram o condomínio há vinte minutos, as mudanças foram soltas por todos os cômodos, o céu estava nublado, o dia silencioso e o casal com preguiça. “Estou te dizendo: tem alguma coisa errada. Qual era mesmo o nome da loja que te vendeu essa garrafa?”, perguntou Paloma. “Não interessa. É original, relaxa e beba.”, respondeu Hector. “Tá horrível!”, ela retrucou e continuou; “Tô dizendo… Eu já bebi Ciroc antes. Alguma coisa está muito errada com isso aqui”. Hector ignorou o comentário e deu um alerta, “Você não deveria beber tanto”, disse e não parou por ai, “Vou ter que trabalhar mais tarde e você ficará com as caixas, ok? Se ficar bêbada poderá quebrar meus discos”, finalizou. Paloma se irritou automaticamente:

Pô! Você vai trabalhar de novo? Sábado a noite? Que sacanagem, tá sempre ausente. Eu vou ter esse trabalhão todo com a arrumação sozinha?

Fica quietinha, chuchu. Estou tentando ler – Respondeu Hector.

Paloma engoliu a resposta, aquilo arranhou a garganta, o coração, a paciência. Passados alguns minutos, Hector acendeu um cigarro e começou a gargalhar. Começou baixinho e foi aumentando o volume, uma tentativa falha de incomoda-la, de quebrar a barreira da mudez. Pegou a primeira folha que viu pela frente – parecia ser um recibo qualquer – e colocou na página do livro que estava lendo. Saiu defronte a janela e caminhou na direção da noiva que não parecia estar nem ai pra sua animação. Ficara claramente chateada com o comentário anterior, qualquer um perceberia, menos ele. Em seguida, sentou-se no braço do sofá, cutucou-a e começou a falar;

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The last letter

 

Olá.

Não foi fácil voltar a lhe escrever, então peço que apenas leia essa carta quando de fato estiver com tempo disponível para ela. Mas… caso tenha concluído que as minhas palavras não possuem mais relevância, por favor, não perca seu tempo! Lance tudo ao fogo, na primeira chance que vier.
De qualquer modo, precisarei desabafar sobre algumas coisas e deixar atestado o máximo de sinceridade que ainda resta na minha memória. Não importa se os frutos disso terminarão na sua mente ou no calor das chamas. Atualmente, vejo pouca diferença.

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