Imodéstia

No latim a palavra vanitas, significa tanto vaidade quanto vazio. Ou seja, quando vivemos pela vaidade, vivemos pelo vazio. A vaidade tem cheiro, tem cor e múltiplos nomes. Está no agir, no pensar, no falar, no criar, no desenvolver. E, como escreveu certa vez o frânces Stendhai, a maior parte dos homens do mundo, por vaidade, por desconfiança, por medo da infelicidade, só se entregam ao amor de uma mulher após a intimidade. Ao meu ver, Stendhai estava certo. Esse talvez seja o motivo pelo qual algumas mulheres acreditam firmemente que podem despertar o amor de um homem apenas com suas habilidades sexuais. Existe um pouco de verdade nisso, existe um pouco de mentira. Para realizarmos a distinção, precisamos compreender dois pontos. Primeiro: “a maior parte dos homens”, não significa todos os homens. E cá entre nós a maior parte dos homens são realmente idiotas, verdade seja dita. Não por cultura, religião ou grau de conhecimento, a idiotice masculina transcende esses detalhes técnicos, ela é quase… quase um padrão genético. Poucos são os homens que ultrapassam esse padrão ou nascem sem ele. Essa minoria corresponde a parcela masculina que fica ofendida não só com as palavras de Stendhai, como também com todos os demais insultos genéricos existentes no mundo. Segundo: quando cito “algumas mulheres”, obviamente descrevo um grupo que não representa a maioria feminina, muito menos sua totalidade.  Simboliza somente uma minoria que se especializa na arte de assegurar a fidelidade masculina através das frações de orgasmos.

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Corolário

Todo mundo sente um pouco de tudo ao ouvir Frank Sinatra. Agora mesmo, enquanto apreciava um de seus álbuns durante a viagem pra casa, fui abordado por um breve pensamento do qual gostaria de partilhar;

Sabemos que as composições poéticas carregadas de uma alta concentração de sentimentos, não necessariamente dependem de autorização do consciente humano para alcançar a alma através dos nossos frágeis sentidos. Nem para, através deles, alterar nossa maneira de ser, ou no mínimo colaborar com futuras mudanças, sejam elas para o bem, ou para mal. Ninguém precisa saber inglês para elogiar uma bela música americana. Ninguém precisa conhecer a tradução para se emocionar. Ninguém reflete sobre o motivo pelo qual está emocionado. Pelo qual chora, sorri, desabafa ou dança. Os ouvintes normalmente escutam e absorvem a sintonia, é o que acontece, é o que importa.

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Sri Lanka

E sucedeu que, uma vez ali, sentada e sozinha no quarto, ela topou abandonar o vício pela monotonia eletrônica e caiu em si. Antes mesmo do caçoar inquietante do temporal entre o basculante da janela. Antes do acaso atiçar os átomos e derrubar da mesa, a preferida e milenar xícara de chá. Antes dos “antes”, já havia uma decisão estabelecida: nada era capaz de lhe molhar na inquietação. As coisas que surgiam e partiam naquela noite eram meras obras tolas do universo que, inutilmente, tentavam distrai-la, mergulhando-a no lago do ócio. Mas a gata era esforçada, não se deixará levar, seu esforço demonstrava que naquele corpo não havia espaço aos frutos carnais disponíveis no mundo.

A posição de lótus tratou de calar a boca do plano físico. A energia girava por todo corpo – das gotas de suor presentes a cada transpiração, ao “novo” olho que brilhava no franzido da testa. Pura concentração! A imagem do fundo branco em sua mente depositava todas as canções e memórias que rodopiavam o inconsciente. “Quem é o ruivo nu?”, “O que há de novo nesse livro de química?”, as perguntas nasciam das imagens, memórias que tomavam formas e formas que criavam movimentos próprios e impróprios. Com os movimentos surgiam as incógnitas, com as incógnitas, os devaneios. Quando chegava ao vazio, sua cabeça voltava a ficar cheia. E quando finalmente abandonava a maré alta, não captava o ligeiro prazer existente no vazio.

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Inerente

Estávamos aproveitando a noite quente de verão para conversar sobre o passado e vislumbrar o futuro, brincadeira de toda gente sã e tranquila. Num dado momento o céu iluminado foi invadido por uma nuvem trovejante que nascia no Norte e aos poucos, foi devorando as estrelas. Subimos novamente a rua de casa e sentamos num dos bancos de concreto de um bar que estava fechado. No caminho, ela comprara um saco de jujubas e dividimos os doces, sem, é claro, perder o foco da situação.

Aryani estava obcecada em defender a tese original da conversa, a questão que motivou o encontro. O teor dos argumentos não deixava dúvidas de que ela estava disposta a morrer cultuando as mesmas ideias;

Todo homem é um babaca! – Ela exclamava. E não parava só por aí. A Ary era dessas que falavam bem, mas não sabiam ouvir.

Você, meu grande amigo, não é nem uma exceção. É um esforçado! Pois faz questão de ir contra a própria natureza – a natureza da canalhice! – Completou.

As ofensas da minha amiga (e falo de ofensas a espécie, pois não levei para o lado pessoal) eram errôneas, claro. Ela estava equivocada. Por um lado, não existem provas biológicas, cientificas, históricas, ou até mesmo teológicas de que todo homem na fase adulta, sem exceção, é um completo babaca. E entenda-se “babaquice”, ao menos, na forma como ela aborda, como uma graduação com ênfase em machucar corações femininos. Existem caras diplomados nisso, outros além de diplomados, são experts, pois dão aulas do assunto. Todavia não são todos os homens que se enquadram ao caso e eu sei que no fundo ela possui consciência disso. Porém a nervosinha não perdoava a razão, pelo contrário: fuzilava a mesma constantemente, com balas e mais balas de generalizações diversas.

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Riflessione

Minha distração tem nome; acho que ando focado demais na indiferença. Sabe? Aquele “time” entre taças e taças de vinho que acompanham todo rei vencedor após as batalhas. Aquela sensação de que tudo já está feito, que nada mais há para fazer. O perigo de uma praia chamada satisfação, onde os tubarões do tédio nadam na costa.

Estou como um clube que se esforçou, mas acabou no meio do campeonato. Sem disputar o título e sem brigar pra não cair. Esta foi a alma do meu ano, sem sombra de dúvidas. Aliás, egoísmo a parte, diria que este foi o ano de muitos. As vitórias são maravilhosas e as perdas… bem! Elas até que possuem seu valor, todavia o hiato entre uma coisa e outra é de cortar o coração. Puro sentimento de incapacidade. Um olhar triste como o de um ursinho de brinquedo, abandonado na prateleira da loja, após todas as crianças optarem por um robô de natal.

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