Escrever e nada mais!

Certa vez um leitor me disse que estava decepcionado com os escritores atuais sobretudo porque, segundo ele, a maioria deles “perdem muito tempo escrevendo sobre si mesmos e não criam novas histórias, crônicas, poemas, contos e novelas de tirar o fôlego” (sic). Eu entendo a crítica dele e respeito a opinião mas, precisamente sobre ela, gostaria de fazer uma pequena observação;
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Coração Oco

No princípio eu acreditava que o vazio era um mal que só alcançava os grandes pensadores, os mais cultos, os membros da alta classe e os maiores filósofos de um século. Dostoiévski sofreu com ele, Nietzsche explicou-o por demasiado, Schopenhauer e Hegel falaram até cansar. Mas tudo se tornou confuso após alguns anos quando eu — mesmo sendo tão pequeno, pobre e insignificante — fui abraçado por esta mesma tenebrosa sensação. Através dela, prossegui numa estrada esquisita, confusa e muito, muito solitária.

O vazio existencial é o último degrau de todos os conflitos pessoais. E digamos que seja um pouco complicado debater o niilismo na juventude, sobretudo porque a maioria esmagadora dos jovens estão enraizados demais com a vida. Alguns mergulham na carreira, outros nos estudos, outros perdidos em volúpia, outros na fé ou viajando de região para região. No fim, todo mundo vive pelo que é, ou pelo que tem (o famoso ser ou ter). E todos possuem algo da própria vida que os definem por completo, quase como sinônimos diretos de si mesmos, como relacionamentos, profissões, currículos estudantis, religiosos ou qualquer outra coisa semelhante. Eu, por outro lado, não sou assim. Há anos não sou assim. A tecnologia da informação não me define, muito menos meus anos dedicados a ela. Minha escrita não me define, embora já tenha feito tanto. Minhas canções, meus projetos, meus discursos, minhas leituras e argumentos são, no geral, atributos de um ente inclassificável que leva meu nome de batismo. E é este ente que busco entender diariamente, tendo sempre a sensação de que ele é modificado por completo todas as vezes em que estou próximo de um resultado, obrigando-me a recomeçar e recomeçar e a tocar o barco com o peso desses recomeços habituais.

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Das ervas que restam

É. Lá se vai o terceiro copo de chá.

Dizem que é o tipo de bebida que nos ajuda a refletir e… quer saber? Não importa a quantidade de xícaras. Acho que só o tempo realmente nos ajuda a pensar, pôr as coisas no lugar, recuperar o fôlego e voltar aos eixos. Eu vivi uma maravilhosa e confusa aventura que, em teoria, acabou. Fato delicado e cheio de pontas soltas. O problema é que quando se relembra um fato por inúmeras e inúmeras vezes, os elementos principais se tornam meros detalhes e os meros detalhes passam a protagonizar a porra toda. A vida é vista por um novo ângulo, o passado é narrado sob uma nova perspectiva e as regras são ditadas pelas coisas das quais não fiz questão. Faz sentido, agora, o porquê de você só ter me procurado quando estava mal, quando não tinha ninguém para conversar. Faz sentido, agora, o porquê de você desaparecer quando está feliz, quando as coisas estão bem, quando tudo passa a dar certo. Eu acho que minha amizade foi convertida num escritório virtual de psicologia, tornando-me útil apenas para abraçar o seu lado mais obscuro. Quando esse lado hiberna, não tenho lugar na sua vida. E sou, então, educadamente deixado de lado.
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Imodéstia

No latim a palavra vanitas, significa tanto vaidade quanto vazio. Ou seja, quando vivemos pela vaidade, vivemos pelo vazio. A vaidade tem cheiro, tem cor e múltiplos nomes. Está no agir, no pensar, no falar, no criar, no desenvolver. E, como escreveu certa vez o frânces Stendhai, a maior parte dos homens do mundo, por vaidade, por desconfiança, por medo da infelicidade, só se entregam ao amor de uma mulher após a intimidade. Ao meu ver, Stendhai estava certo. Esse talvez seja o motivo pelo qual algumas mulheres acreditam firmemente que podem despertar o amor de um homem apenas com suas habilidades sexuais. Existe um pouco de verdade nisso, existe um pouco de mentira. Para realizarmos a distinção, precisamos compreender dois pontos. Primeiro: “a maior parte dos homens”, não significa todos os homens. E cá entre nós a maior parte dos homens são realmente idiotas, verdade seja dita. Não por cultura, religião ou grau de conhecimento, a idiotice masculina transcende esses detalhes técnicos, ela é quase… quase um padrão genético. Poucos são os homens que ultrapassam esse padrão ou nascem sem ele. Essa minoria corresponde a parcela masculina que fica ofendida não só com as palavras de Stendhai, como também com todos os demais insultos genéricos existentes no mundo. Segundo: quando cito “algumas mulheres”, obviamente descrevo um grupo que não representa a maioria feminina, muito menos sua totalidade.  Simboliza somente uma minoria que se especializa na arte de assegurar a fidelidade masculina através das frações de orgasmos.

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Corolário

Todo mundo sente um pouco de tudo ao ouvir Frank Sinatra. Agora mesmo, enquanto apreciava um de seus álbuns durante a viagem pra casa, fui abordado por um breve pensamento do qual gostaria de partilhar;

Sabemos que as composições poéticas carregadas de uma alta concentração de sentimentos, não necessariamente dependem de autorização do consciente humano para alcançar a alma através dos nossos frágeis sentidos. Nem para, através deles, alterar nossa maneira de ser, ou no mínimo colaborar com futuras mudanças, sejam elas para o bem, ou para mal. Ninguém precisa saber inglês para elogiar uma bela música americana. Ninguém precisa conhecer a tradução para se emocionar. Ninguém reflete sobre o motivo pelo qual está emocionado. Pelo qual chora, sorri, desabafa ou dança. Os ouvintes normalmente escutam e absorvem a sintonia, é o que acontece, é o que importa.

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Sri Lanka

E sucedeu que, uma vez ali, sentada e sozinha no quarto, ela topou abandonar o vício pela monotonia eletrônica e caiu em si. Antes mesmo do caçoar inquietante do temporal entre o basculante da janela. Antes do acaso atiçar os átomos e derrubar da mesa, a preferida e milenar xícara de chá. Antes dos “antes”, já havia uma decisão estabelecida: nada era capaz de lhe molhar na inquietação. As coisas que surgiam e partiam naquela noite eram meras obras tolas do universo que, inutilmente, tentavam distrai-la, mergulhando-a no lago do ócio. Mas a gata era esforçada, não se deixará levar, seu esforço demonstrava que naquele corpo não havia espaço aos frutos carnais disponíveis no mundo.

A posição de lótus tratou de calar a boca do plano físico. A energia girava por todo corpo – das gotas de suor presentes a cada transpiração, ao “novo” olho que brilhava no franzido da testa. Pura concentração! A imagem do fundo branco em sua mente depositava todas as canções e memórias que rodopiavam o inconsciente. “Quem é o ruivo nu?”, “O que há de novo nesse livro de química?”, as perguntas nasciam das imagens, memórias que tomavam formas e formas que criavam movimentos próprios e impróprios. Com os movimentos surgiam as incógnitas, com as incógnitas, os devaneios. Quando chegava ao vazio, sua cabeça voltava a ficar cheia. E quando finalmente abandonava a maré alta, não captava o ligeiro prazer existente no vazio.

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Inerente

Estávamos aproveitando a noite quente de verão para conversar sobre o passado e vislumbrar o futuro, brincadeira de toda gente sã e tranquila. Num dado momento o céu iluminado foi invadido por uma nuvem trovejante que nascia no Norte e aos poucos, foi devorando as estrelas. Subimos novamente a rua de casa e sentamos num dos bancos de concreto de um bar que estava fechado. No caminho, ela comprara um saco de jujubas e dividimos os doces, sem, é claro, perder o foco da situação.

Aryani estava obcecada em defender a tese original da conversa, a questão que motivou o encontro. O teor dos argumentos não deixava dúvidas de que ela estava disposta a morrer cultuando as mesmas ideias;

Todo homem é um babaca! – Ela exclamava. E não parava só por aí. A Ary era dessas que falavam bem, mas não sabiam ouvir.

Você, meu grande amigo, não é nem uma exceção. É um esforçado! Pois faz questão de ir contra a própria natureza – a natureza da canalhice! – Completou.

As ofensas da minha amiga (e falo de ofensas a espécie, pois não levei para o lado pessoal) eram errôneas, claro. Ela estava equivocada. Por um lado, não existem provas biológicas, cientificas, históricas, ou até mesmo teológicas de que todo homem na fase adulta, sem exceção, é um completo babaca. E entenda-se “babaquice”, ao menos, na forma como ela aborda, como uma graduação com ênfase em machucar corações femininos. Existem caras diplomados nisso, outros além de diplomados, são experts, pois dão aulas do assunto. Todavia não são todos os homens que se enquadram ao caso e eu sei que no fundo ela possui consciência disso. Porém a nervosinha não perdoava a razão, pelo contrário: fuzilava a mesma constantemente, com balas e mais balas de generalizações diversas.

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Riflessione

Minha distração tem nome; acho que ando focado demais na indiferença. Sabe? Aquele “time” entre taças e taças de vinho que acompanham todo rei vencedor após as batalhas. Aquela sensação de que tudo já está feito, que nada mais há para fazer. O perigo de uma praia chamada satisfação, onde os tubarões do tédio nadam na costa.

Estou como um clube que se esforçou, mas acabou no meio do campeonato. Sem disputar o título e sem brigar pra não cair. Esta foi a alma do meu ano, sem sombra de dúvidas. Aliás, egoísmo a parte, diria que este foi o ano de muitos. As vitórias são maravilhosas e as perdas… bem! Elas até que possuem seu valor, todavia o hiato entre uma coisa e outra é de cortar o coração. Puro sentimento de incapacidade. Um olhar triste como o de um ursinho de brinquedo, abandonado na prateleira da loja, após todas as crianças optarem por um robô de natal.

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NAVIO DE ESCRAVOS

[Paulo Henrique Sampaio]

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Vai passando em estrondos no mar

Agitadas pelo vento,

hordas levadas, iludidas e desconfiadas

querendo  as conquistas de mar adentro

 

São milhares de homens e mulheres

que esperam um salvador do povo

para tirar da miséria

e dar-lhes um mundo novo

 

O herói da revolução

que fará tudo acontecer

Enchendo das hordas o coração

do que jamais poderão ser

 

Mas como vive esse animal político

de querer ser iludido sempre outra vez

é bom que fique escrito

quão bobo o animal se fez.

 

…vai passando em som frugal no mar

A nau dos iludidos, preste a naufragar

Vai passando….

mais uma vez….

Lost in love

amar
amar o mar
a dor de amar
de amar você
por quê

por que te amar?
se tanto amar em nada dá
por que amar a dor de amar
de amar olhar o teu olhar
se teu olhar remete ao mar
o mar se torna meu olhar
eu amo o mar
o mar do meu
do teu olhar
eu amo amar
eu amo amar
eu amo amar você!
15.09.2015

Sagrado Coração

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E me disseram: “Este lugar pode estar sempre ao seu lado, é a alegria dentro de você, pois sua vida é luz” – Sagrado Coração, Legião Urbana

 

Das coisas do coração, sempre entendemos muito pouco. Todavia, com uma dose extra de humildade e carinho em todos os atos e pensamentos, seremos capazes de concluir, rapidamente, que as circunstâncias acontecem num jeito confuso de ser e se apresentam de tantas maneiras inexplicáveis, muita das vezes, porque como espécie não somos lá tão capazes de interpretar os diversos nuances apresentados pelo Mundo. Só que na maioria dos casos, não são os fatores externos que estão desencaixados e sim os fatores internos. E… vai por mim, dependendo do modo como as coisas estão sendo guiadas dentro do peito, o planeta inteiro perderá seu verdadeiro sentido sem ninguém ter culpa.

Como óculos escuros que inibem as variadas cores do dia, um coração desalinhado é totalmente incapaz de perceber os incontáveis detalhes da vida. Nesse caso, não adianta bater, brigar ou tentar colorir, artificialmente, os fatos e acasos rotineiros. No final das contas, junto ao travesseiro, tudo volta a doer. As descargas emocionais e o vazio interior, pesam como dores de parto numa mente desqualificada do poder de dar à luz.

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Linha 137

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A mente trabalha com dados relevantes, enquanto o coração só precisa de migalhas para labutar. Da fila do ônibus observo o rapaz puxando assunto com uma garota. Talvez seja sua primeira vez, talvez seja um dos seus longos planos secretos e pessoais. Fosse impulso, ou fruto de estratégia, o que basta é o resultado: eles estão conversando! Isso é tudo que realmente importa.

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Quiprocó

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O grande Sherlock

Nem sempre o fim de semana é capaz de me preparar para viver em sociedade. Digo, há dias que acordo e ligo o modo automático até o trabalho. Como ganho a vida lidando diretamente com meus clientes, sou obrigado a voltar ao normal na presença deles. Porém, removendo essa exceção obrigatória, sobra apenas o modo “piloto automático” para dias cansativos, ou para quando já se acorda cansado.

Trata-se de um modo consciente totalmente inerte – da casa para o ônibus, do ônibus para a estação ferroviária e por toda longa caminhada que vai do trem até a chegada na empresa. Tudo de forma robótica. Ao ponto de, depois, ser totalmente incapaz de lembrar se o dia estava chuvoso, ou se era o sol – no lugar dos pensamentos – torrando a minha cuca.

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Escrito a lápis

quebra-cabeça

 

 

 

 

 

 

Minha boca calada, minhas mãos maculadas, cansadas,

a poesia insistindo em escorrer dos meus olhos,

um poema escrito, um soneto, sonata composta de alento

e de medo, do teu medo escondido, perdido entre olhos, olhares, sorrisos,

e os risos, e os pisos,pisadas que pisas no meu solo amigo, teus tolos delírios.

 

Meu coração desfolhado em páginas perfeitas, desfeitas pela confusão dos teus rabiscos

indefinidos, indecisos, são riscos perfeitos, traçados em corpo, teu corpo.

Meu copo está cheio, e a mesa vazia, meu medo,

meu medo o teu medo temia.

 

Se me ponho a caminhar sozinho o teu olhar me esquece.

Esquece ?

Peco às ruas cheias de pessoas servas de seu tempo

curto, nesse vão momento, breve esclarecido,

o poema semi-nu que te escrevi ainda está escrito.

 

Peço, não te apegues a lucidez deste poema,

esqueça que jamais te amei, e se te amei não sei,

errei e não te quero mais,

mas,

mais

mais!

Quero um pouco mais,

mas hoje não te sinto mais comigo.

 

 

 

 

Lágrimas efêmeras

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Todo escritor é atacado, às vezes, por um certo bloqueio mental. Um tipo de impasse que provavelmente atinge todas as classes de pensadores, desde escritores profissionais até amadores de bons rabiscos. Nesse bloqueio, tudo se resume a falta de conclusão para uma ideia inicial. Qualquer autor humilde concorda que é um tanto complicado bolar um bom desfecho, uma etapa final ou quem sabe, qualquer tipo de mensagem que traga sentido e reflexão aos leitores. Continue lendo “Lágrimas efêmeras”

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