Do lado de dentro

 

Pensou ter se livrado de tudo depois de ter perdoado e colocado as lembranças em um lugar profundo da mente. Achou ter perdido a chave daquilo, e enganou-se não fazer mais parte disso. “Estou livre” – iludiu-se. Às vezes ela via aquele curativo frágil, mas ignorava o que ele cobria. Por baixo do esparadrapo, a queimadura ainda ardia, inflamada e dolorida. O lugar se avermelhava e se aquecia, lá, mesmo que ela fingisse não ver, as coisas aconteciam.

Era final de outono, a cidade se lavou de um chuva que ela não viu cair, e se enfeitou de algo que ela não soube descrever, mas até o cheiro forte de incenso da rua, ou o fato de na rua escura está somente ela porque no mundo dela era ela e ela, não pareceu incomodar.

A blusa de inverno a abraçava e aquecia. Em casa ela tirava o casaco, sem ele até a respiração parecia uma ventania. Inspira e expira. Para dentro, para fora. Era o processo natural do vento voluntariamente obrigatório para manter-se viva. Continue lendo “Do lado de dentro”

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Álcool, cactos e pimentas

O sol castigava como nunca. Era início de verão em Tucson, Arizona. Na estação de trem, Arthur Bailey foi obrigado a guardar sua jaqueta de couro e trocar as botas por um tênis mais simples. Comprou uma garrafa d’água, balas e pegou um táxi até o subúrbio. O tempo estava muito seco, os cães latiam sem parar e as moscas se entrelaçavam em sua barba. Após o fim da corrida, ele caminhou três quarteirões com um mapa em uma mão e uma mala velha na outra. Procurava a pensão barata que vira na internet. Tinha certeza que a rua estava certa, mas provavelmente erraram no anúncio, pois, ao invés da pensão, havia uma cafeteria no local. Quando faltava uns cem metros para chegar ao destino, Arthur fez uma pausa para tomar um ar na sombra de uma cabine telefônica e, dela, ficou observando a cafeteria em meio ao mormaço. As informações não batiam, ele sabia que algo estava errado. Contudo já estava extremamente cansado, precisava de um bom banho, chá gelado e uma massagem nos pés. Xingou a mãe do cara que indicou o lugar e jogou o mapa no lixo. Em seguida continuou a caminhar, vagarosamente.

Passou a mancar um pouco, seus joanetes doíam demais, foi um longo caminho desde WoodFord, Illinois. Aproximando-se do local, já era possível sentir o cheiro do café. No entanto, algo curioso aconteceu: uma calcinha vermelha caiu bem na sua frente, no meio da calçada que fervia com o sol da tarde. Ele olhou para cima com toda calma do mundo. Estava exausto o bastante para ficar surpreso. A sua direita, havia uma pequena estalagem velha de dois andares, pintada de um rosa surrado pelo tempo. Na sacada do segundo andar, uma gostosa de pele latina acenava para ele. Estava de top branco e mini saia preta. Seu cabelo liso passava dos ombros, ela sorria e apontava para a porta, convidando-o a subir. Certamente a calcinha era dela, pois, graças ao ângulo e as grades da varanda, era possível perceber que ela estava sem nada. Entretanto as coxas da latina eram tão grossas que não permitiam elevar a visão muito além do desejado. Arthur não sabia dizer se aquilo era estratégia de negócio ou se, coincidentemente, ela era apenas uma mulher de pernas maravilhosas. Ele pôs a mala no chão e a cabeça no lugar. Fez um rápido comparativo; Deu uma boa olhada para a cafeteria e, seguidamente, uma boa olhada para a dama latina. Mediu as oportunidades e as necessidades de momento e tomou sua decisão. Sem pestanejar, pegou a calcinha da calçada, a mala velha e entrou no sobrado.

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Heterocromia

Adilson sempre teve um fascínio enorme pelo olhar feminino. Se uma garota de olhos claros passasse pela gente, ele logo ficava encantado. Sua mente silenciava, a realidade parecia rodar em câmera lenta como nos filmes. Era horrível quando estávamos juntos e acontecia isso, pois eu era obrigado a repetir tudo que estava dizendo assim que sua cabeça voltasse do mundo da lua. Como usávamos o metrô para ir e voltar do trabalho, era comum vê-lo chegar no departamento falando de alguma guria cotidiana de olhar oceano ou esmeralda. “Estou xonadão, brother!”, dizia, repetia… Enchia o saco. Quando ele vinha assim, com um sorriso abobalhado na cara, tanto eu quanto o restante da equipe já sabíamos do que se tratava. Era uma paixão diferente todas as vezes. Diferente, claro, se ignorarmos o elemento comum entre todas as moças.

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O tempo não passou aqui.

´´…Não sei, comigo vai tudo azul
Contigo vai tudo em paz…“

 

Aquela canção à Gal Costa

fazendo lembrar de você.

A gente se ama e se  gosta.

A gente que é cego e nem vê.

 

A vida, e a gente, é tão breve.

Pensei em te amar muito mais,

deixar que esse sonho nos leve.

Amor, o meu julho é lilás

 

Lembrei  do sorriso que tive,

olhando o colar que te dei.

Em poesia e amor se cultive

 

a flor, meu azul, hoje eu sei.

Baby, esse amor que inclusive

os versos mais simples te dei.

 

Remidos pela dor

Aproximava-se das 4:40min da manhã, horário de Brasília. Júlia estava saindo de uma boate em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro. De calçada em calçada, ela trocava passos tonteantes, enquanto discutia com o ex-namorado pelo telefone. Depois de alguns minutos, deixou sua garrafa de vodca cair no chão… Quando isso aconteceu, todos ao redor poderiam jurar com total convicção de que foi possível ouvir, até mesmo para as bandas de Oswaldo Cruz, o tamanho palavrão que ela exclamara. Depois de saltar os cacos de vidro, decidiu desligar o celular, caminhou até o ponto de ônibus e esperou a carruagem de metal que a levaria até o colchão. Local que ela pretendia não deixar pelas próximas nove horas.

Logo que o ônibus chegou, Júlia subiu, pagou, sentou e esticou o vidro da janela. O vento daquela noite fria bagunçava seu cabelo e carregava o suor trabalhado em puro álcool. Dali, ela observava as esquinas… de poste em poste, de luz em luz, até o momento em que alcançou um estado mental de reflexão. Assim aconteceu e assim ela se foi.

Já havia passado das 5hrs da manhã, horário de Brasília. Lucas estava no banheiro de um baile em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Na pia ele esfregava as mãos, passeando sabão liquido entre os dedos. O motivo? Bom… ele havia brigado durante a festa e o sangue do nariz de um desconhecido qualquer resolveu abandonar sua posição original e morar no seu anel. Depois de deixar os amigos para trás, decidiu sair do baile e caminhar sem rumo pelas ruas da cidade, entre esquinas, praças e rodovias. Quando deu por si, tinha chegado a um local que não visitara há anos: uma antiga quadra de futebol da infância. A quadra estava na parte de trás de uma escola pública abandonada. Lucas respirou fundo e jogou fora o cigarro de maconha que mal havia acendido. Passou as mãos no rosto, fixou os olhos e decidiu saltar o muro. E dessa forma fez! Não havia ninguém no lugar e estando ali, sozinho, acabou levando uma surra das próprias lembranças. Percebendo a gravidade da nostalgia presente, decidiu parar, pensar e refletir. Assim aconteceu e assim ele ficou.

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Filhos da geração Y

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Quem já foi ao zoológico assistir a rotina dos chimpanzés que, amuados e longe do habitat ideal, passam o dia matando o tédio imitando as pessoas ao redor, sabe o quão triste e delicada é a situação dos bichinhos. Papagaios também são bons nisso, mas eles perdem a paciência muito rápido. Já os macacos, enquanto receberem petiscos, continuarão copiando as “zoeiras” dos primos humanos, como forma de diversão ou agradecimento.

Agora, por um breve momento, observe a sociedade ao redor utilizando uma certa ótica paragonal ao exemplo acima e veja o quanto nos tornamos mímicos de nós mesmos; imitamos, copiamos, defendemos, exemplificamos conceitos retrógrados – damos a vida por isso. Muitas das vezes sem receber petiscos, ou qualquer outra gratificação em troca.

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Nos muros de um hospício

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Eis me aqui, solo, entre a medicação e o giz. Agora bloqueado pela emanação que alegra o dia, ausente do encanto social estabelecido, sinto uma grande interrogação e o vazio da dúvida que chega a ser denso. A vontade de chorar é grande principalmente quando se tem um coração já encharcado por uma tempestade que molhou antes… Tudo dói no peito e sem motivo, são vinte e quatro horas de momentos incolores e dores que não possuem nomes.

Não é falta de companhia, nem do que fazer, é apenas ter acordado num dia onde tudo o que se mais quer ainda não foi alcançado, é a falta de paciência pra ter que esperar esquentar e tudo ainda permanece gelado. É um dia quando já se acorda cansado. É ter que mudar um pouco de ânimo mesmo que seja para o desânimo. Um dia onde não se tem nada! Só o agora, o presente, pequeno e ínfimo, espremido entre um futuro largo e um passado cada instante mais enorme onde não se existe, só se sabe.

Não se vê a folha murchando, ela está murcha! Não se vê a ruga formando, não se vê o fio crescendo, não se vê a fração do segundo, e o tempo todo tudo acontecendo. O instante mínimo responsável pela transformação que ainda não aconteceu. E a falta de paciência em esperar… Não se é impaciente, mas se está impaciente.

Amanhã tudo voltará ao seu lugar e a crença em um dia feliz, sem a inspiração da preocupação, igualzinho como foi ontem; mas hoje o momento é dedicado à morte da crença, a falta de esperança, a angústia, a ansiedade, a insônia, a desistência do que nunca vigora por mais que se regue. E lá se foi um dia que não combinou com sorrisos nem com lágrimas. Foi apático por sua força advinda da estagnação.

E a vontade de explodir, antes arcada no mais puro sussurro, finda seu transbordar entre a linha tênue existente nas frases que começam do giz e terminam no sangue das minhas mãos, percebo agora, sem cores e (com sorte) pela ultima vez, que “viver” é tudo isso que Eu costumo esquecer.

 

 

 

 -Adaptação de um lindo pensamento que encontrei nos meus arquivos pessoais, contudo apesar de muito pesquisar, não encontrei seu autor.

A ele, todo crédito e admiração.

Sem romance! Por favor…

 

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O amor deixa de existir quando não é correspondido. Essa é a minha máxima! Esse é o ponto de partida. Podem colocar a afirmação num quadro, numa lápide, ou no status de qualquer professor quarentão e solitário, cheio de gatos em casa. O amor deixa de existir quando não é correspondido, pois é só assim que ele funciona: correspondendo. Todo resto não passa de desejo platônico, fadado ao fracasso e extraído de qualquer fonte de esperança. Isso não tem nome, mas para mim não é amor, se for não quero senti-lo. E não desejaria a ninguém, nem mesmo ao meu pior inimigo.

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Caro amigo confidente

Caro amigo,
Ainda hoje lembrei-me de você, ontem não me lembrei porque ontem ainda erámos amigos.
Sinto sua falta, mas sei que nada será como antes. Você conhecia todos os meus planos, tudo aquilo que eu era você sabia e desenhava com os dedos cada uma de minhas falhas. Era a minha carta de culpa perante o tribunal, meu ego e meu mundo.
Poderia mergulhar em você  imaginando-me no oceano, mas eu sabia que eu me afogaria a cada vez que olhasse para sua face.
Ainda ontem erámos amigos, mas esse ontem meio distante já fez alguns anos, quem mudou primeiro: Eu ou você?
Ou tudo se fez ou desfez depois que seus olhos começaram a me acusar?
Quantos foram os nossos passos em falso, as promessas que não foram cumpridas e que foram justificadas com a outra promessa não cumprida de cumprir a promessa anterior?
Planejávamos fugas, mas não sabíamos esconder do nosso próprio instinto destruidor. Continue lendo “Caro amigo confidente”

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