Triunfo

Oi, boa noite.

Sei que você reparou no vazio do meu olhar quando me viu passando. Um amigo em comum contou sua opinião horas depois. Segundo ele, você disse que foi tudo muito rápido, mas que deu pra notar uma certa indiferença e distração em mim. Perdoe-me pelo que vou dizer, mas suas observações foram muito superficiais, querida. Ao contrário do que presumira a verdade é que, naquela tarde, o “vazio” do meu olhar não tinha nada a ver com a velocidade do seu ônibus, ou da música que tocava no meu fone de ouvido. Eu não estava distraído, pelo contrário: eu também te vi. Não foi um olhar estranho, foi o olhar sincero, quiçá o mais sincero de toda minha vida. Pela primeira vez em tantos meses, pude observa-la sem me envergonhar. Reparei o tamanho real do seu cabelo e das suas unhas, a exata textura da sua pele, a cor dos seus olhos, seu tom de maquiagem e as variantes do seu sorriso. Céus! Pela primeira vez não rolou um aperto no peito, minha garganta não ficou seca, as pernas não bambearam, minha transpiração estava dentro do normal. Não! Não tem a ver com indiferença meu bem, o que você viu é o que sou. Ou melhor: quem sempre deveria ter sido. O contraste entre o antes e o agora é que antes eu estava completamente apaixonado por você. Só que aprendi a te esquecer e gostei quando consegui. E… Acredite! Conseguir não acenar pra você dá rua foi por si só, um ato de felicidade.

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Imodéstia

No latim a palavra vanitas, significa tanto vaidade quanto vazio. Ou seja, quando vivemos pela vaidade, vivemos pelo vazio. A vaidade tem cheiro, tem cor e múltiplos nomes. Está no agir, no pensar, no falar, no criar, no desenvolver. E, como escreveu certa vez o frânces Stendhai, a maior parte dos homens do mundo, por vaidade, por desconfiança, por medo da infelicidade, só se entregam ao amor de uma mulher após a intimidade. Ao meu ver, Stendhai estava certo. Esse talvez seja o motivo pelo qual algumas mulheres acreditam firmemente que podem despertar o amor de um homem apenas com suas habilidades sexuais. Existe um pouco de verdade nisso, existe um pouco de mentira. Para realizarmos a distinção, precisamos compreender dois pontos. Primeiro: “a maior parte dos homens”, não significa todos os homens. E cá entre nós a maior parte dos homens são realmente idiotas, verdade seja dita. Não por cultura, religião ou grau de conhecimento, a idiotice masculina transcende esses detalhes técnicos, ela é quase… quase um padrão genético. Poucos são os homens que ultrapassam esse padrão ou nascem sem ele. Essa minoria corresponde a parcela masculina que fica ofendida não só com as palavras de Stendhai, como também com todos os demais insultos genéricos existentes no mundo. Segundo: quando cito “algumas mulheres”, obviamente descrevo um grupo que não representa a maioria feminina, muito menos sua totalidade.  Simboliza somente uma minoria que se especializa na arte de assegurar a fidelidade masculina através das frações de orgasmos.

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Previsivelmente imprevisível

Depois que largamos o expediente e trancamos a empresa, caminhamos até a esquina da rua e sentamos na mesa de um bar. Era o único bar em três quarteirões, nosso point certo de todas as sextas-feiras. Não ficamos dentro do bar, pegamos uma mesa na calçada. Era a trupe de sempre: eu, Joana, Alexandre, Eduardo, Renato e Erica. Ao sentar o Eduardo (ou Dudu, para os íntimos) quase quebrou a cadeira. “Calma ai cacete! Mal chegamos e tu já quer tirar dinheiro da minha carteira?”, disse Alexandre, nosso patrão. Todos gargalhamos e, em seguida, a Joana pegou o menu. Era uma tarde ensolarada, horário de verão. Estava um pouco abafado, mas corria vento entre as folhas das árvores mais altas. Um pagode dos anos 90 tocava ao fundo, abafava as sirenes presentes em algum lugar ali perto. O Flamengo iria jogar dentro de algumas horas, na mesa ao lado alguém falava mal da Dilma. Num período entre trinta a quarenta segundos após nos ajeitarmos ali, todos juntos começaram a mexer no celular. Uma espécie de hábito ou ritual inconsciente. Joana largou o cardápio, Renato pegou, mas jogou na mesa em seguida. Alexandre abriu o aplicativo da câmera, cutucou Joana (ou Jô, para os íntimos). Eles tiraram uma foto. O celular de Eduardo tocou em seguida, “Ih fudeu! Minha mulher, pessoal. Ela não pode saber que tô aqui. Calma ai, povão; Já volto”, disse. Em seguida se levantou e se afastou do bar, ele gesticulava bastante enquanto falava ao telefone. Eu estava sentado na ponta da mesa, Alexandre na ponta oposta. Erica estava a minha esquerda, Renato a direita. Dudu a direita de Renato e Joana a esquerda de Erica. Eu também cai no vezo de me envolver no celular, estava olhando o Facebook até Erica colocar a mão direita no meu braço. Ela tem uma pegada leve, poderia ser massagista e ganhar muito dinheiro nisso, entretanto se formou em administração e passava o dia organizando documentos do arquivo. Vivemos numa era onde as pessoas são felizes exercendo aquilo que gostam e não aquilo que são geneticamente propensos a fazer. Seria o tipo de atitude passível de banimento nas tribos pré-históricas, talvez. Atualmente é algo bonito de se ver, demonstra liberdade. Todavia no caso dela, em especial, eu realmente acho que ninguém com a mente sã gostaria de trabalhar em meio ao stress dos arquivos. Reparei nos seus dedos, notei que ela estava sem a costumeira aliança. Foi uma sacada rápida, logo subi o olhar e ficamos encarando um ao outro. Ela só queria me passar o cardápio, porém seu corpo estava falando ao meu corpo que aquele ato significava alguma coisa subentendida. Era isso ou, quem sabe, só fui abalado pelo seu dom natural.

Anda! Escolhe ai, Marcus – Ela disse me passando o menu. Peguei a folha plastificada, dei uma leve lobrigada e respondi.

Acho que deveríamos pedir uma porção de gurjão. Aquele maldito molho é delicioso! – Disse olhando para a imagem das iscas de frango.

Porra! Eu te passei pra escolher algo para bebermos. Você só pensa em comer, Marcus. E comer só frango, infelizmente… – Respondeu Erica.

Todo mundo riu e o garçom chegou. Alexandre não deixou ninguém falar, assumiu o lance. Ninguém teve a ousadia de sair pedindo, até porque ele insistiu o dia inteiro que iria pagar a conta. Quem paga a conta exerce também um direito de superioridade moral não esclarecido sobre todos os demais elementos da mesa. Qualquer um que bebe sabe bem disso, um axioma esclarecido. Ninguém assume em português claro porque é desnecessário.

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2049

Na primeira vez que a encontrei não pude ver seu rosto. Uma bolha de sabão entrou nos meus olhos no exato momento em que eles se preparavam para capta-la. As crianças fazem bolhas de sabão na praça, é gostoso… as bolhas combinam com o clima ensolarado e com as músicas matinais de domingo. Ao recuperar a visão, assisti quando as amigas a levantaram e jogaram no chafariz. Ela parecia não se importar… O vestido branco deixava escapar a cor de sua calcinha, porém ela não estava nem ai! Chegara a carta de aprovação na universidade. Não era preciso ser muito esperto pra perceber que aquela notícia entraria no hall de conquistas da sua vida, não era preciso ser muito esperto pra perceber que eu já estava apaixonado. Vi seu lindo sorriso, combinava com as bochechas rosadas. Jamais me esqueceria daquele rosto, daquelas sardas, ou daquele cabelo molhado. Graças a bolha, minha vista estava vermelha e pulsava. Mas não tanto quanto meu coração.

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Últimas palavras

Olá, meu neto. Saudades de você.

Perdoe-me pela demora em responder sua carta. Meu câncer alcançou um estágio avançado e com o decorrer do tratamento, ando tendo pouco tempo de sobra para os demais cuidados da vida. Pois bem, fico feliz que tenhas chegado aos 18 anos com muita saúde e inteligência. Gostei do que falaras sobre a relação que tive com sua falecida avó e de imediato, já quero responde-lo: sim! Éramos um casal feliz e apaixonado. Vivemos muito bem no decorrer dos 46 anos de união. Não éramos perfeitos, não gostamos muito um do outro de primeira, mas aprendemos a superar esses detalhes. Li também que ainda não superara muito bem a questão da sua ex-namorada e de como a nova vizinha andou balançando seu peito. Ah, meu filho… as coisas não são tão simples quanto parecem. Fez bem em me pedir alguns conselhos, há muito do que precisas aprender.

Pra começar, eu senti o ar de maturidade que você aplicou entre as letras, mas antes de tudo coloque uma coisa em mente: não se ache! Você ainda não é homem só porque possui um certificado de reservista no bolso. Muito menos pela entrevista de emprego marcada, ou pelas camisinhas usadas em baixo do colchão. Homens de verdade não dão pra trás nas situações difíceis. Eles aguentam, eles superam. Sempre com a cabeça erguida, sempre demonstrando coragem, mesmo quando se está completamente corroído por dentro.

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