Amaranto

Olhava pela janela do metrô aquele cenário tão antagônico ao dos filmes antigos:

Na paleta de cores, azul desbotado e cinza frio. Arvorezinhas perdidas em meio ao solo de concreto, respirando com dificuldade o ar pesado que entra pelas narinas mais sugando do que dando vida. Casinhas perdidas em lugares onde não deveriam está, recheadas de crianças com as pernas tão acinzentadas quanto os muros e as britas.

Tudo era daquela cor que não tinha cor: Cinza.

Ferrugem dos trilhos para combinar: Vermelho.

No peito, guardava muita coisa que não deveria guardar: Lembranças cinzentas que lhe eram como fumaça que invade os pulmões e polui aquela cidade que existe dentro da gente, sentimentos avermelhados que chocam-se contra o sol e fazem arder os olhos, tons vulcânicos, e tão quentes quanto, que descem pela garganta rasgando e queimando.

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O caos do estúpido

Pela janela avisto uma só estrela. O céu está pálido, pensativo. Nada de concreto, as nuvens cobertas pelo breu a qualquer momento podem se desmanchar. Depois de duas taças de vinho começo a divagar. “Tolice criar edificações” – penso. Arquiteto as minhas ideias sem planejamento, assim como criei expectativas sobre fumaça de cigarros, não meus, eu não fumo. Nem bebo. Só hoje estou tomando vinho porque perdi o meu emprego e fui gastar o pouco de dinheiro que me resta. Irônico.

Na verdade, não é a primeira vez que bebo, confesso, e os preços dos vinhos que compro crescem na medida das tentativas de que um mais caro tenha um gosto melhor. Outra tolice. Não consigo gostar. Mas finjo que gosto, já sou chata demais para não gostar de vinho.

O certo é que todos me parecem iguais: têm gosto de decepção que para na garganta e impede os movimentos peristálticos, gosto de lembrança ruim que impede a diástole, gosto de coisas mal resolvidas. De fracasso. É isso. FRA-CAS-SO.

Como o fracasso da última construção, é que de sentimentos não sou boa engenheira, às vezes derrubo edifícios, às vezes eles se desmoronam sobre mim. Dito e feito: Demoliu-se, e eu fiquei sob. A queda foi feia, e eu me machuquei, mas não se preocupe, estou bem. Olha eu aqui sorrindo boba sob o efeito do álcool. Brincadeira, não estou sorrindo.

Ouvi os estrondos que alertaram que o prédio iria se derrubar, mas fiquei. É que sou viciada em sensações e queria sentir, então tudo que fiz foi ficar parada olhando para cima pensando “Vai doer pra caramba”. E doeu, mas está passando. Feridas não saram do dia para noite, nem se podem cura-las com beijinhos como a minha mãe fazia comigo na minha infância.

Eu sei que às vezes tem que se permitir sentir. Deixar que a última lágrima se desprenda e siga o seu rumo. Permitir a última batida fraca e sonolenta do coração até que ele se recupere. Paciência até que os ouvidos se acostumem novamente a ouvirem as antigas músicas, e os olhos a verem séries que não sejam “Friends” e “Um maluco no pedaço”.

Às vezes vale deixar, clichê, que o tempo faça os nossos curativos, para que tudo que dói agora seja trivial, o nosso mundo reorganize a sua órbita, e deixemo-nos de girar e encontremos a direção certa.

Assim, começaremos um novo capítulo.

Eu te procuro

Eu ainda te procuro, creio não desistir de você facilmente. Sinto por você um sentimento quase que indescritível. Algo que me impulsiona a levantar todos os dias de manhã por mais pesado que o mundo pareça.

É que de ti só trago boas lembranças. São coisas que guardo aqui, e que tenho medo de te falar porque lhe observei ao longe enquanto sentava e desenhava, sentava e escrevia, sentava com os gatos na varanda, levava as plantinhas para tomar sol, deitava sob o sol na grama fresca, falava sobre livros que não lia e roubava livros da biblioteca da sua vizinha. Não se preocupe, ninguém vai saber. O que é seu é só seu, é nosso.

Eu sinto muito por tudo que te fiz passar, e juro que choro as vezes por isso. A culpa foi minha quando em algum momento te deixei para trás, te escondi, te camuflei em mim, mas foi na ingênua intenção de te proteger. Agora, porém, não encontro você. E não sei quem és. E esse “conhecer” é muito mais profundo do que saber sobre você não gostar de café, gostar de gatos, de chocolate, da lua, ou sei lá…

É sobre os porquês que não se preenchem, sobre os porquês de si, de ser. É sobre os “comos” incabíveis, os gostos inventados, os rótulos agora implantados, as caixinhas que outrora julgava não entrar agora serem a sua moradia.

Diga-me: “sorte minha ter-te” — Porque por você eu faço qualquer coisa. Eu me desfaço e refaço mil vezes, se preciso for, só para te encontrar, só para ler de novo o “Caixa Postal 1989” se eu julgar que você mora lá, ou quem sabe perdida em uma página de outro livro lido, na letra de uma música, na fala de um filme.

Sorte sua, meu amor, que eu existo, e de ti não desisto. É que quando te olho sinto que o mundo inteiro parece vão, e devo dar a minha total atenção só para você, e gastar todas a as minhas forças para te proteger, e comprar um planeta inteiro só para viver ao seu lado, e te encontrar.

É o amor que sinto que é maior do que qualquer outro tipo de amor, é autoamor. Aquele que corta a garganta quando olho no espelho e os seus olhos parecem chorar. É aquele amor que diz: “faça alguma coisa”, quando o seu coração parece pesar mais do o seu corpo. É aquele que fica quando todos parecem te abandonar.

E eu sempre fico. Por mais que tu digas “não te cabe aqui”, eu arranjo um espaço e me encaixo.

Eu te amo, e se um dia tudo que possuir for o meu reflexo te olhando do espelho com os mesmos olhos que me olhas, meu amor, você estará bem.

Eu sou tudo que você precisa.

Ponto e vírgula

Olhando a lua percebo que talvez eu nunca tenha mudado. E se eu sobrevivi antes e antes, eu posso sobreviver de novo.

Entramos em um estado em que deixamos de nos abater e de acreditar que é o fim do nosso tempo, e enxergamos o quanto somos fortes para termos chegado até o presente. São tempos difíceis agora, mas eram também antes. E aqui estamos. Aqui estou, no caso. Somente eu.

Acho que começo novamente a entender quem eu sou, ouço o barulho dos muros de fantasia se derrubando, e o estrondo que a ingenuidade e a confiança fazem ao cair ao chão.

Sinto a necessidade de demolir o prédio de concreto que eu mesma edifiquei, e sinto-me forte o bastante para vê-lo se desmoronando. Estou preparada para inalar toda essa poeira, considero-me imune a qualquer intoxicação que ela possa me trazer. Chega. Eu termino essa fase por aqui, e mesmo machucada e com uma vida repleta de entulhos de um prédio derrubado, eu sei que venci.

Mais uma flor caiu do jasmim

A casa estava suja desde da partida da última visita. Por um tempo, eu me recusei a limpa-la, deixei a louça suja e o sofá marcado. Depois de um período quis me livrar de toda aquela sujeira acumulada. Comecei enfim a organizar a casa. Coloquei tudo que estava no chão em cima das prateleiras, organizei os livros, tirei a poeira. Antes, porém, que eu terminasse de lavar a louça e desmanchar duas marcas existentes no sofá, o interfone tocou anunciando a chegada de uma nova visita. Apressei-me na faxina para que quem chegasse não visse tanta desordem. Como o tempo era curto, conforme a mal caprichosa que sou, escondi coisas embaixo do tapete, atrás da porta e passei apenas água nos copos. Olhei, e ao longe tudo estava disfarçado.

Eu limpei o que deu e escondi o resto, mas colhi flores para perfumar e enfeitar a sala.

A bagunça encoberta gritava inquieta como um monstro gigante demais para se esconder debaixo da cama, e só eu a ouvia. A visita se acomodou no sofá sentando em cima da marca da visita anterior, mas sem desmancha-la. O novo hóspede havia dado-me sementes de chás e um disco novo.

Eu me perturbava pelo lixo oculto, a visita sorria sem saber da existência dele.

Eu me preocupava com a louça e com a marca no sofá que se afundava, afundava…

A visita lia os livros da sala.

Com o passar do tempo…

Eu me distanciava do secreto e me aproximava da visita.

A visita se aproximava da porta.

A visita foi embora, antes mesmo que o disco tocasse todas as faixas.

Eu fiquei com a bagunça.

Agora há a mais dois copos sujos, foram comidos mais biscoitos e o sofá tem uma marca sobreposta.

A casa está suja desde da partida da última visita. Recuso-me a limpa-la. Deixo a louça suja e o sofá com marcas amontoadas. Depois de um tempo, talvez eu queira me livrar de todo esse caos.

O interfone toca.

Não irei atender dessa vez.

O “Nós” desfeito

Quando parti pela primeira vez você não imagina a dor que senti. Fiquei me perguntando o que faria com todos aqueles planos que havia criado para nós. Eu não sabia o que fazer com tanto volume, tudo, independente da força gravitacional existente, era pesado demais. E aqui, na gravidade do meu mundo, a sua massa pesa os meus ombros e tira o meu sono.

Nunca iria dar certo, agora entendo bem o porquê.

Todas as vezes foi eu quem foi embora, e enquanto você me ofendia e me lançava mais pesos por isso, eu me perguntava como você não enxergava o mal que me fazia.

Agora eu percebo que você via, mas egocentricamente enquadrava tudo nas leis do teu estado emocional, onde eu sempre era condenada a sua prisão que me fazia acreditar que o erro era eu e que os teus pedidos para voltar eram sinceros. Eu sofria ao te deixar mais por você do que por mim. Tola, perguntava-me se você teria lugar para guardar todo aquele “algo” que te fiz sentir, sem ao menos questionar se esse “algo” um dia existiu.

Nunca iria dar certo. Nunca!

Meu corpo pedia tempo, e eu clamava por um fim que eu não sabia concretizar. Você brincava com o espaço-tempo, e eu continuava sempre no mesmo lugar.

O meu mundo e o seu giravam antagônicos, com isso nunca nos harmonizamos, sempre nos colidimos, jogando estilhaços que se juntavam e formavam um novo planeta: “Nós”.

E esse “Nós” não foi feito para ser, e sim para acabar. E desde o início já estava bem explicito que em algum momento perdido no tempo, um meteoro nos atingiria e um novo Big Bang aconteceria, e dessa vez nos desmontaria irrevogavelmente.

Nunca iria dar certo.

E estou orgulhosa de mim por ter partido, e dessa vez não pensei em você, só em mim. Então não me espere, não me busque. Eu não vou voltar.

Procuro-me

Eu sinto a minha falta. Sinto falta daquela que acredito ser eu e tento encontra-la desesperadamente.

Já não sei quem sou. Não sei quem é aquela que me olha assustada no reflexo do espelho aflita para encontrar algo, tão pouco conheço aquela que sorri despreocupada de coisas sem graça.

Perdi-me em algum lugar. Essa que sou hoje tenho certeza que inventei.

Não sei do que gosto mais, e nem o porquê que venho sendo quem sou. Entreguei-me as correntezas da vida e elas traçaram o meu rumo baseadas no improviso.

Já não sei o que quero. Já não para onde vou. Não sei quem é essa que eu chamo de “eu”, e que eles dizem “você” porque quando a vejo, não me vejo, e quando a sinto eu tenho medo.

Se encaro-me voluntariamente ou acidentalmente, logo quero fugir de mim. Logo busco alternativas para não olhar-me. E não me olho, ignoro-me totalmente. Em uma atitude radical finjo que não me vejo.

Tenho falado a palavra “excelente” e “loucura” excessivamente. Dormido pouco, comido menos. Essa não sou eu.

Certa vez pintei secretamente um auto retrato de quem desconfio ser-me, ainda que seja apenas um esboço, guardei-o como se guarda o mais valioso tesouro. Talvez eu deva enfim torna-lo público para que os outros me ajudem a encontrar-me. Porém não farei isso. Se aquela for realmente quem sou, ela é só minha, e mesmo diante da incerteza, chamei-a Eu e vou guardá-la só para mim. E guardei-a em uma caixinha, não sei exatamente onde, mas foi por ali, dentro de mim.

Já faz um tempo que não abro a caixinha e a olho. Espero que Eu ainda esteja lá.

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