Glory days

02/2017, Toronto. Canadá.

 

Olá minha querida, sinto sua falta.
Peço desculpas pela ausência, não foi fácil encontrar muito tempo livre entre as viagens e o trabalho. Preciso lhe falar de algumas coisas ao meu respeito, partindo do ponto onde havia parado e explicando os motivos pelo qual aparento ser um tanto distante;

Sabe… Eu sempre confundi os meses de Junho e Julho. Sempre! Durante toda minha vida. Não sei quando acaba um, ou quando começa o outro. E isso não ocorre só pelas semelhanças de nomes entre os meses, ocorre porque nesses sessenta dias, normalmente, vivo os melhores dias da minha vida.

Dizem que os seres humanos só refletem sobre a vida quando se sentem mal, ou no mínimo quando há um detalhe ou outro fora do lugar. Quem está numa boa fase, vivendo intensamente, não realiza pausas para reflexões nem mesmo quando vai ao banheiro. Não há tempo pra isso! O prazer de desfrutar os momentos inibe ponderações e cismas diversas. E quando o sujeito — assim como eu — já possui o costume congênito de andar com a cabeça nas nuvens, a situação é ainda mais agravante. Um dos resultados diretos é a despreocupação até mesmo com os dias das semanas e os nomes dos meses.

Continue lendo “Glory days”

Anúncios

Sri Lanka

E sucedeu que, uma vez ali, sentada e sozinha no quarto, ela topou abandonar o vício pela monotonia eletrônica e caiu em si. Antes mesmo do caçoar inquietante do temporal entre o basculante da janela. Antes do acaso atiçar os átomos e derrubar da mesa, a preferida e milenar xícara de chá. Antes dos “antes”, já havia uma decisão estabelecida: nada era capaz de lhe molhar na inquietação. As coisas que surgiam e partiam naquela noite eram meras obras tolas do universo que, inutilmente, tentavam distrai-la, mergulhando-a no lago do ócio. Mas a gata era esforçada, não se deixará levar, seu esforço demonstrava que naquele corpo não havia espaço aos frutos carnais disponíveis no mundo.

A posição de lótus tratou de calar a boca do plano físico. A energia girava por todo corpo – das gotas de suor presentes a cada transpiração, ao “novo” olho que brilhava no franzido da testa. Pura concentração! A imagem do fundo branco em sua mente depositava todas as canções e memórias que rodopiavam o inconsciente. “Quem é o ruivo nu?”, “O que há de novo nesse livro de química?”, as perguntas nasciam das imagens, memórias que tomavam formas e formas que criavam movimentos próprios e impróprios. Com os movimentos surgiam as incógnitas, com as incógnitas, os devaneios. Quando chegava ao vazio, sua cabeça voltava a ficar cheia. E quando finalmente abandonava a maré alta, não captava o ligeiro prazer existente no vazio.

Continue lendo “Sri Lanka”

Remidos pela dor

Aproximava-se das 4:40min da manhã, horário de Brasília. Júlia estava saindo de uma boate em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro. De calçada em calçada, ela trocava passos tonteantes, enquanto discutia com o ex-namorado pelo telefone. Depois de alguns minutos, deixou sua garrafa de vodca cair no chão… Quando isso aconteceu, todos ao redor poderiam jurar com total convicção de que foi possível ouvir, até mesmo para as bandas de Oswaldo Cruz, o tamanho palavrão que ela exclamara. Depois de saltar os cacos de vidro, decidiu desligar o celular, caminhou até o ponto de ônibus e esperou a carruagem de metal que a levaria até o colchão. Local que ela pretendia não deixar pelas próximas nove horas.

Logo que o ônibus chegou, Júlia subiu, pagou, sentou e esticou o vidro da janela. O vento daquela noite fria bagunçava seu cabelo e carregava o suor trabalhado em puro álcool. Dali, ela observava as esquinas… de poste em poste, de luz em luz, até o momento em que alcançou um estado mental de reflexão. Assim aconteceu e assim ela se foi.

Já havia passado das 5hrs da manhã, horário de Brasília. Lucas estava no banheiro de um baile em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Na pia ele esfregava as mãos, passeando sabão liquido entre os dedos. O motivo? Bom… ele havia brigado durante a festa e o sangue do nariz de um desconhecido qualquer resolveu abandonar sua posição original e morar no seu anel. Depois de deixar os amigos para trás, decidiu sair do baile e caminhar sem rumo pelas ruas da cidade, entre esquinas, praças e rodovias. Quando deu por si, tinha chegado a um local que não visitara há anos: uma antiga quadra de futebol da infância. A quadra estava na parte de trás de uma escola pública abandonada. Lucas respirou fundo e jogou fora o cigarro de maconha que mal havia acendido. Passou as mãos no rosto, fixou os olhos e decidiu saltar o muro. E dessa forma fez! Não havia ninguém no lugar e estando ali, sozinho, acabou levando uma surra das próprias lembranças. Percebendo a gravidade da nostalgia presente, decidiu parar, pensar e refletir. Assim aconteceu e assim ele ficou.

Continue lendo “Remidos pela dor”

Diário de bordo #2

 

wp-1471140365778.jpg
A série: “Diário de bordo”, será uma coleção de rascunhos pessoais que trabalham a angústia.

 

Algumas noites a viagem vai além de sentar e observar as placas e luzes ao redor volante. Há madrugadas em que todo processo de condução mergulha na vibe das rodovias, amarrado em suas poderosas teias. Os efeitos são mais fortes nas mentes daqueles que partilham do velho defeito de pensar demais. A nostalgia viva e palpável sobe à cabeça tão rapidamente quanto a pujança da heroína chegando ao cérebro. Quando percebo, já estou mergulhado nas dolorosas lembranças de tudo aquilo que nunca aconteceu. Dos medos e temor no qual nenhum velocímetro é capaz de afastar.

Continue lendo “Diário de bordo #2”

Bullet Time

thenug-fr3nhggsyo

 

Para alguns azarados a vida é uma sistemática violenta que independe das decisões pessoais para gerar catástrofes. Desde a infância, os problemas surgem automaticamente, sem pedir permissão. Como se fosse um dever pessoal considera-los naturais. E pra variar, por outro lado, as oportunidades de paz, esperança e harmonia precisam ser disputadas na unha, como se fossem uma dádiva, ou um conjunto de momentos e sentimentos nativos de outra espécie.

Continue lendo “Bullet Time”

Sagrado Coração

x_07919f78.jpeg
E me disseram: “Este lugar pode estar sempre ao seu lado, é a alegria dentro de você, pois sua vida é luz” – Sagrado Coração, Legião Urbana

 

Das coisas do coração, sempre entendemos muito pouco. Todavia, com uma dose extra de humildade e carinho em todos os atos e pensamentos, seremos capazes de concluir, rapidamente, que as circunstâncias acontecem num jeito confuso de ser e se apresentam de tantas maneiras inexplicáveis, muita das vezes, porque como espécie não somos lá tão capazes de interpretar os diversos nuances apresentados pelo Mundo. Só que na maioria dos casos, não são os fatores externos que estão desencaixados e sim os fatores internos. E… vai por mim, dependendo do modo como as coisas estão sendo guiadas dentro do peito, o planeta inteiro perderá seu verdadeiro sentido sem ninguém ter culpa.

Como óculos escuros que inibem as variadas cores do dia, um coração desalinhado é totalmente incapaz de perceber os incontáveis detalhes da vida. Nesse caso, não adianta bater, brigar ou tentar colorir, artificialmente, os fatos e acasos rotineiros. No final das contas, junto ao travesseiro, tudo volta a doer. As descargas emocionais e o vazio interior, pesam como dores de parto numa mente desqualificada do poder de dar à luz.

Continue lendo “Sagrado Coração”

Linha 137

13239361_1730929027161592_352376365621468512_n.jpg

 

A mente trabalha com dados relevantes, enquanto o coração só precisa de migalhas para labutar. Da fila do ônibus observo o rapaz puxando assunto com uma garota. Talvez seja sua primeira vez, talvez seja um dos seus longos planos secretos e pessoais. Fosse impulso, ou fruto de estratégia, o que basta é o resultado: eles estão conversando! Isso é tudo que realmente importa.

Continue lendo “Linha 137”

Bela anátema

tumblr_o1aj9tE7fI1uvxvsro1_500.jpg

Você é jovem e, na atual situação, não há outro fator de maior influência além da idade no seu método pessoal de analisar o mundo. Você conhece a dor, a perda, a violência, mentira, ódio, deslealdade e traição. Trabalha maneiras de bloquear os canais – naturalmente já inclusos dentro de si – que transmitem exatamente as mesmas energias listadas acima.

Existem dias em que você apanha, existem dias que bate. E há outros em que você simplesmente perdoa. Seja por cansaço, seja por maturidade. Na verdade, você pouco sabe a diferença entre os dois casos. Tão somente perdoa! As pessoas, a vida, a sociedade e tudo pelo tudo do jeito que é e tende ficar.

Continue lendo “Bela anátema”

O Erudito e a Heroína

whitegirlblackguyloveheart_large

Certa feita, refletiu o rapaz: como se convence um coração calejado de estar errado de que talvez, por sorte, quem sabe, essa não seja sua verdadeira natureza? De que talvez a felicidade não esteja resumida a relações perigosas e devaneios constantes? De que ela pode ser mais que isso; pode ser a essência capaz de mudar o mundo, transformando mentes e costumes, tribos e tribunais, segredos e desejos?

Só que ele era desses que refletia demais… tinha mais receio do que medo propriamente dito. Entretanto, sabia que um dia encontraria sua resposta. Por outro lado, ela já não duvidava, gostava! E ansiava por tudo com muito prazer…

Continue lendo “O Erudito e a Heroína”

Um brado de desesperança

wedding-1026233_960_720.jpg

 

Olá. Boa noite.

Está chovendo muito aqui. E… Quer saber de uma coisa? Esse lance de utilizar a internet como única fonte de conversa, é como fazer questão de andar com guarda-chuva numa baita borrasca quanto a de hoje. É uma falsa proteção, algo insustentável, belo ato de desperdício. Os ventos carregam a chuva por diversos ângulos e tão logo acabam molhando tudo, de qualquer jeito, tal como a rotina que nos corrompe e afasta. No fim das contas, não vale e nunca valerá a pena fingir que ando guarnecido, com o corpo seco. Quando na verdade caminho vulnerável e desprotegido por aí. Totalmente só! Sem você.

Continue lendo “Um brado de desesperança”

Uma canção sem voz

Favim.com-21446

“Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”

– Friedrich Nietzsche

 

Nós estamos no futuro, amigos leitores. Acredito fielmente nisso, até que o amanhã me prove o contrário. E falando do futuro, hoje usufrui um pouco das vantagens tecnológicas dessa era, explorando minha enorme fonoteca pessoal que ao invés de se resumir a um andar inteiro de discos, paradoxalmente, ocupa apenas uma pequena fração de um micro cartão menor que o meu dedo. E nas últimas semanas, duas das milhares de faixas pessoais que tenho, encantaram meu imaginário privado. São elas: “Solidão que nada” do nosso grandioso Cazuza e “Sagrado coração”, canção perfeita da banda Legião Urbana que, originalmente, foi lançada apenas em instrumental, já que Renato não vivera a tempo de conseguir canta-la.

Continue lendo “Uma canção sem voz”

Escreva um blog: WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: