O tempo da covalescença

Eu tive que sair para trabalhar durante duas semanas com uma chuva que não parava, e então um dia eu acordei e estava um sol maravilhoso, eu senti isso mega inspirador e bonito – surpreendentemente – pois nunca amei o sol, meu verdadeiro amor sempre foi a lua. Dessa vez, porém, o sol pareceu-me amigável, oferecendo-me um estranho cavalheirismo, abriu o tempo como quem abre a porta do carro. Foi como se alguém tivesse feito o meu chá, ou me chamado para ver o arco-íris no céu. Foi como viver um cosmo depois de muito caos. Foi um dia bom, depois de vários dias ruins.

Certamente a felicidade inteira não cabe dentro da estiagem, e os dias ruins infelizmente não se resumem em chuva que não passa e muito menos têm a organização das estações do ano. Às vezes o tempo triste fica, e eu que não sei lidar nem com as coisas boas que permanecem, imaginem com as ruins: perco literalmente o controle e andando na corda bamba da vida caio dentro do precipício cheio de lesmas gigantes. Graças a Deus sou salva pelos lagartos de costas vermelhas que devoram as lesmas enquanto eu fujo desesperada pelo infinito coberto de fumaça lilás. Ao menos foi assim no sonho que sonhei dia desses…

Na vida real, porém, continuo presa na tempestade, continuo andando na corda bamba prestando mais atenção nas lemas abaixo dos meus pés, do que no infinito lilás na frente dos meus olhos.

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A lei da vida – Registro histórico

8 de junho de 2015

Eu sempre procurei uma fórmula, uma passagem mágica, ou um caminho escondido que me levasse para onde eu queria…

Com o passar do tempo eu descobri que estas opções não existiam, mas continuei insistindo, pois, esta esperança era tudo o que eu tinha.

Eu acreditei que eu poderia fazer uma ponte de pessoas e que com esta ponte eu atravessaria os mais turbulentos oceanos da minha vida, que as pessoas daquela ponte sempre me sustentariam, que seriam meu apoio e que nunca me deixariam cair. Com o tempo, porém, eu percebi que estas pessoas não existiam, que todas elas não faziam parte de mim, e que em algum dia, ou agora elas me abandonariam.

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Voz da experiência

Se eu posso dar um conselho? Claro que sim! E aproveitem porque é gratuito! O conselho que dou é o seguinte: procure saber qual é a música favorita da pessoa que você gosta. Principalmente se for alguém que começou a se relacionar contigo há pouco tempo. O motivo? Oras, é bem simples: desconfie de todas as pessoas cujo coração gira em torno da tristeza. Ela pode estar sorrindo ao seu lado, mas no fundo possui alguma causa não superada. E o pior! É provável que ela não pretenda superar. Na maioria dos casos com indivíduos desse tipo, as canções tristes servem como uma dose de nostalgia, uma garrafa de vinho servida gelada com momentos do passado gravados na embalagem. Quem (ao contrário de seguir em frente) dá preferência a nostalgias negativas, cuidando e e alimentando um câncer sentimental, seja através de livros, filmes ou músicas, não é digno da sua confiança e possivelmente desconfia até mesmo do amor que você tem pra dá.

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Saturno

É espantoso o jeito estranho que eu tenho de lidar com as tragédias, no final, toda desilusão se torna apenas uma lembrança que por alguma razão, me apego e nego a renunciar. No início sofro, mas depois tudo se torna uma tristeza sonolenta que me faz querer dormir ou simplesmente ficar olhando para o nada.

Ontem eu sofria, doía-me o coração. Quando entrei no carro coloquei minha cabeça sobre o volante e em silêncio permiti que algumas lágrimas escorressem de forma lenta pelo meu rosto. Era manhã e havia chovido durante toda a noite, ainda serenava, mas pude perceber que o sereno se derretia e escorria pelo vidro como lágrimas, como as minhas lágrimas. Às vezes penso que o meu mundo é a parte, eu gosto de acreditar que a natureza tem um carinho especial por mim, e que esse seja o motivo pelo qual eu a sinta tão intensamente.

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Paciente 76

“Não! Não, não e não! As grades na janela não podem me enganar, não mais! Por isso te escrevo… com cautela escrevo. Eles esqueceram a lata de picles aqui, será nela que minha carta viajará! Tenho um novo plano para vê-la amor, leia-me, por favor! Logo lançarei essa carta ao mar. Não me preocupo mais com o que eles resmungam… As coisas que os guardas falam não valem a paciência dos ouvidos. Você está ai em cima cintilante e solitária, eu sei disso, mas não nessa parte do céu, pois não consigo te ver. Além de me enclausurarem aqui, eles me esconderam de você.

Se eu já tentei pular? Claro que sim! Mas a cama é muito baixa, as pedras na parede me machucam, não consigo alcançar a janela. Quem sabe no quarto ao lado? Hum… Será que dá? Será que conseguirei te ver pela janela de lá? Ou seria melhor esperar o amanhecer? Sim! Quiçá se eu arrancar a orelha do doutor… será que eles me carregariam para um lugar com alcance do seu brilho? As vozes falam nos meus ouvidos, contam-me sobre uma cela mais alta no último andar, donde posso vê-la de perto, inclusive, toca-la. Mais do que nunca, preciso alcança-la querida, sinto muito a sua falta. Sem você é tudo tão triste e escuro. As noites pesam como os séculos dos ossos nas catacumbas, perco meus anos num emaranhado total de escuridão e sofrimento.

Eles costumam me dar algumas pílulas pela manhã, todas as manhãs. Tolos! Cuspo cada uma delas, amor. As brancas, as laranjas e principalmente as azuis! Mas acho que sinto o gosto amargo da azul diluído no meu suco de laranja… Não há lâmpadas aqui, por três vezes ao dia, vejo apenas as luzes do corredor. Quando o guarda coloca o café, o almoço e o jantar. Não conheço ele, deve ser novo. Parece-me frio. Sinto o cheiro do corpo dele no meu prato, as vozes gargalham, não me falam a verdade sobre o que ele faz com a comida. Quando o doutor aparece, ele ignora minhas perguntas, não quer me falar de você, não quer entender que preciso busca-la. Que desde aquele fadado dia, estás presas ai em cima.

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