Coração Oco

No princípio eu acreditava que o vazio era um mal que só alcançava os grandes pensadores, os mais cultos, os membros da alta classe e os maiores filósofos de um século. Dostoiévski sofreu com ele, Nietzsche explicou-o por demasiado, Schopenhauer e Hegel falaram até cansar. Mas tudo se tornou confuso após alguns anos quando eu — mesmo sendo tão pequeno, pobre e insignificante — fui abraçado por esta mesma tenebrosa sensação. Através dela, prossegui numa estrada esquisita, confusa e muito, muito solitária.

O vazio existencial é o último degrau de todos os conflitos pessoais. E digamos que seja um pouco complicado debater o niilismo na juventude, sobretudo porque a maioria esmagadora dos jovens estão enraizados demais com a vida. Alguns mergulham na carreira, outros nos estudos, outros perdidos em volúpia, outros na fé ou viajando de região para região. No fim, todo mundo vive pelo que é, ou pelo que tem (o famoso ser ou ter). E todos possuem algo da própria vida que os definem por completo, quase como sinônimos diretos de si mesmos, como relacionamentos, profissões, currículos estudantis, religiosos ou qualquer outra coisa semelhante. Eu, por outro lado, não sou assim. Há anos não sou assim. A tecnologia da informação não me define, muito menos meus anos dedicados a ela. Minha escrita não me define, embora já tenha feito tanto. Minhas canções, meus projetos, meus discursos, minhas leituras e argumentos são, no geral, atributos de um ente inclassificável que leva meu nome de batismo. E é este ente que busco entender diariamente, tendo sempre a sensação de que ele é modificado por completo todas as vezes em que estou próximo de um resultado, obrigando-me a recomeçar e recomeçar e a tocar o barco com o peso desses recomeços habituais.

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Inexorável

Acordou e ligeiramente sentou na cama. De imediato ficou tonto. A cabeça começou a girar, era uma dor para cada fio de cabelo. Ele espirrou. Pôs a mão no rosto, havia um pouco de pó sobre a narina esquerda, traços da farra na noite anterior. Ele fedia e sentia uma dor absurda nas costas. Levantou-se, andou até o espelho, passou a mão no cabelo e, não satisfeito, penteou-o. Só Deus sabe o quanto era vaidoso. O sol quente levantava a poeira da quitinete alugada, o quarto cheirava a geladeira suja. Pela intensidade da luz, imaginou que já estava tarde. Assustou-se com isso e correu então até o relógio de parede. Eram 7:12 da manhã. Isso dava mais ou menos 7:20 da manhã, visto que seu relógio estava atrasado e não dava para ajustar, pois os botões estavam quebrados. Tinha um compromisso no centro as 8hrs e, levando em conta que o tempo médio até lá é de 30 minutos, contando com o trânsito, isso dava a ele, mais ou menos, 10 minutos para se resolver e desaparecer dali.

Voltou até o quarto desesperado. Uma agonia que corroía o coração. Todo trabalhador brasileiro sabe o que é estar atrasado, conhece a sensação. Ele também conhecia, embora fosse vagabundo. Ao menos, se considerava um, já que não arranjou um emprego fixo nos últimos treze meses. De imediato, havia muito a se fazer em pouco tempo: um remédio, um banho, uma cagada, um café, uns ovos, talvez, quem sabe, um cigarro… Elementos que qualquer cidadão precisa para encarar o demoníaco mundo lá fora. Ele tirou do armário um jeans manchado de caneta e uma blusa social lisa, preparou os ovos, engoliu o remédio junto ao café e correu para o banheiro. Quando já estava no box, o celular tocou. Saiu nu e voltou para o quarto com a escova de dentes na boca e uma toalha na cintura. Ao tirar o celular da cabeceira, deixou cair. Foram-se peças para todos os lados. Caralho! Aquilo fez um barulho enorme… O suficiente para assustar e acordar Vânia.
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Mancebo

Eu juro que perderei alguns dias buscando entender como a calcinha dela foi parar no ventilador de teto. Ou como minha bermuda jeans terminou rasgada. Ou como chegamos até a minha cama se eu perdi as chaves fazendo uma dancinha ridícula na chuva. Bem, ainda não consigo processar as melhores partes. Acordei sem uma parcela da minha memória, mas com um belo sorriso no rosto. No universo masculino, isso já diz tudo. Preciso ajustar a coluna, porém ela está cochilando sobre a minha barriga. Aprecio com todo carinho do mundo; jamais acordaria um anjo desses. Permaneço como estou por horas, assisto o clarear do dia transpassar a janela, estalo o pescoço, coço os olhos. Tem uma marca de batom no meu calcanhar, meu peito está arranhado e meu bafo cheira a hidratante de pele. Estou confuso, estou feliz. Uma lástima, um paraíso.

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O amor para a Gurizada

Aos jovens do sexo masculino

 

Ou! Você mesmo. Por que você está mentindo pra si mesmo? Ei, mano. Pare agora! Você é novo demais pra isso, cara. Deixe a hipocrisia pra mais tarde, para a fase adulta, onde você não conseguirá viver um único dia sem ter que esconder quem realmente é. Deixe as aparências para os anos da aposentadoria, onde você poderá refletir sobre os seus erros do passado enquanto lança grãos aos pombos da praça. Vamos lá campeão, você ainda é novo. O seu destino ainda não está traçado. Existem muitas decisões pra se tomar, muitos caminhos para desbravar, muitas coisas boas pra acontecer e — por que não? — diversas falhas pra se cometer.

Feche seus olhos, concentre suas energias e rasgue essa sufocante pelugem da vida social, vaidosa, virtual. Deixe seu eu interior florescer, nem que seja só por um segundo, nem que seja só por essa carta, de modo que você consiga responder a pergunta que farei com toda sinceridade do mundo. Ela é simples, mas demanda empenho e honestidade, ok? Caso já esteja preparado, lá vai:

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Rebeldes sem Causa

Existe um traço em comum entre os ateus, monges e mestres de diversas religiões ao redor do mundo. O mesmo ponto de consciência abordado por perspectivas diferentes que possuem em si a mesma essência. Falo da noção de efemeridade da vida; tudo é pó, tudo é vão, tudo é vaidade. Crendo em Deus, esse fato é enxergado pelo prisma da graça, donde o maior dever de todos nós, seres humanos, é evoluir a própria compreensão do que é a gratidão – se somos um átomo perdido numa vastidão infinita, então no mínimo deveríamos agradecer pela dádiva de existirmos, ainda mais se somos tão pequenos e rúpteis. Essa é a melhor das interpretações teológicas, torna as pessoas mais sensíveis e cientes de que, se a vida não possui sentido, então nosso dever primário é construir um sentido para ela.

Esquecendo os sábios e intelectuais, temos de sobra o povo. Bilhões de pessoas que não possuem muito tempo para refletir sobre esses assuntos, mas que também são seres humanos, logo, também estão condenados navegar pelo mesmo deserto existencial debatido pelos mestres, sofrendo as consequências disso. Ainda que enganem a si próprios com miragens durante o decorrer do deserto. Dentre as camadas do povo, temos uma juventude inerte que sempre anda surfando nas ideias insignificantes apresentadas pela mídia geral. Uma juventude que quando começa a sentir o gosto das perversidades no mundo, das influências gerais que penetram o cérebro como katanas japonesas. Do desamor global, dos excessos de expectativas num futuro completamente incerto, das infidelidades e dos mais variados problemas sociais e familiares precoces, eles se rebelam! E assumem a indisciplina como identidade, mas ironicamente (ou inocentemente), praticam o ódio fazendo exatamente tudo aquilo que a vida vã espera deles, ou seja: dando fim a própria existência. O suicídio sela essa incoerência com louvor.

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Lobisomens Juvenis

Ouço o assunto dos homens que estão na academia. Eles malham porque querem chamar atenção das mulheres. Vejo o papo dos rapazes que pretendem tocar violão, eles querem o mundo da música porque ela atrai a companhia das mulheres. Sinto os parceiros de trabalho, eles juntam uma boa grana para invadir as baladas de fim de semana, planejam conhecer garotas novas. Até a galera que estuda para passar nos concursos militares… Quase todos os que sonham em entrar na Marinha, por exemplo, escolhem o Nordeste como destino. O motivo? As nordestinas de plantão. Praticamente todas as coisas que os homens fazem na juventude são para atrair alguém do sexo oposto. Isso está no DNA masculino. O creme de barbear e os filtros do Instagram são as únicas coisas que nos diferem dos pré-históricos.

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É falta “daquilo”

Vocês já repararam que praticamente todas as pessoas que vivem militando e dizendo por ai que “namoro é pra casar” ou que “o certo é esperar que a pessoa certa apareça “, estão solteiras? Melhor dizendo: estão solteironas! Quase fazendo carreira na solidão. E a coisa ainda piora! Com todo respeito a generalização, é claro, mas todos os sujeitos e sujeitas que conheço e que se enquadram neste perfil, acumulam centenas de casos fracassados no histórico pessoal. Você, amado leitor, certamente possui uma leva dessa gente distribuída entre os amigos do Facebook. Perca alguns minutos consultando o curriculum de cada uma delas e veja por si só, um pouco do óbvio.

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Últimas palavras

Olá, meu neto. Saudades de você.

Perdoe-me pela demora em responder sua carta. Meu câncer alcançou um estágio avançado e com o decorrer do tratamento, ando tendo pouco tempo de sobra para os demais cuidados da vida. Pois bem, fico feliz que tenhas chegado aos 18 anos com muita saúde e inteligência. Gostei do que falaras sobre a relação que tive com sua falecida avó e de imediato, já quero responde-lo: sim! Éramos um casal feliz e apaixonado. Vivemos muito bem no decorrer dos 46 anos de união. Não éramos perfeitos, não gostamos muito um do outro de primeira, mas aprendemos a superar esses detalhes. Li também que ainda não superara muito bem a questão da sua ex-namorada e de como a nova vizinha andou balançando seu peito. Ah, meu filho… as coisas não são tão simples quanto parecem. Fez bem em me pedir alguns conselhos, há muito do que precisas aprender.

Pra começar, eu senti o ar de maturidade que você aplicou entre as letras, mas antes de tudo coloque uma coisa em mente: não se ache! Você ainda não é homem só porque possui um certificado de reservista no bolso. Muito menos pela entrevista de emprego marcada, ou pelas camisinhas usadas em baixo do colchão. Homens de verdade não dão pra trás nas situações difíceis. Eles aguentam, eles superam. Sempre com a cabeça erguida, sempre demonstrando coragem, mesmo quando se está completamente corroído por dentro.

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Orgasmos.zip

Um estudo recente mostrou que a atual geração de jovens é a que menos faz sexo desde 1920. Se por alguns minutos esquecermos de todas as opiniões populares e do senso comum que cercam este assunto, a inegável evidência primária mora no fato do quão contraditório parece tal resultado. E digo contraditório pois, todos sabemos, que tanto a geração “7×1”, quanto a “Malhação” são bombardeadas dias e noites pela fofoca de pessoas que acreditam fielmente no contrário, ou seja; que a galerinha de hoje em dia está mesmo disposta a largar a Internet pra fazer filhos por aí.

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Bela anátema

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Você é jovem e, na atual situação, não há outro fator de maior influência além da idade no seu método pessoal de analisar o mundo. Você conhece a dor, a perda, a violência, mentira, ódio, deslealdade e traição. Trabalha maneiras de bloquear os canais – naturalmente já inclusos dentro de si – que transmitem exatamente as mesmas energias listadas acima.

Existem dias em que você apanha, existem dias que bate. E há outros em que você simplesmente perdoa. Seja por cansaço, seja por maturidade. Na verdade, você pouco sabe a diferença entre os dois casos. Tão somente perdoa! As pessoas, a vida, a sociedade e tudo pelo tudo do jeito que é e tende ficar.

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Soldadinhos de hastags

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Todos os direitos ao artista (Rodapé)

 

Depois de alguns anos mergulhado no vicio, aprende-se a desconfiar rapidamente de certas coisas na Internet. Não falo apenas por ser um profissional do ramo tecnológico, mas sim porque, ainda como usuário, desenvolvemos instintos contra a falsidade e canalhice de certos links e propagandas que claramente foram desenvolvidas no intuito de infectar e roubar o máximo possível de dados, os famosos malwares. E isso nem é lá tão difícil, na verdade é bem simples obter informações da maioria, todavia não como um bandido! Falo de informações transmitidas de maneira inconsciente. Sem precisar de muito esforço, chegamos a certas conclusões com uma larga margem probabilística a favor, utilizando tão somente como fonte aquilo que é publicado pelos demais.

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Filhos da geração Y

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Quem já foi ao zoológico assistir a rotina dos chimpanzés que, amuados e longe do habitat ideal, passam o dia matando o tédio imitando as pessoas ao redor, sabe o quão triste e delicada é a situação dos bichinhos. Papagaios também são bons nisso, mas eles perdem a paciência muito rápido. Já os macacos, enquanto receberem petiscos, continuarão copiando as “zoeiras” dos primos humanos, como forma de diversão ou agradecimento.

Agora, por um breve momento, observe a sociedade ao redor utilizando uma certa ótica paragonal ao exemplo acima e veja o quanto nos tornamos mímicos de nós mesmos; imitamos, copiamos, defendemos, exemplificamos conceitos retrógrados – damos a vida por isso. Muitas das vezes sem receber petiscos, ou qualquer outra gratificação em troca.

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