“She’s online”.

Ok! Eu sei que normalmente não se ama alguém de primeira, meus pais me ensinaram isso! A TV também… As músicas, os livros, os professores, enfim: cada pedaço da vida. Eu também sei que não se promete, nem se declara todo seu amor pra alguém que você nunca viu, nunca sentiu e muito menos teve ao lado. Pra alguém na qual os únicos registros presentes são as fotografias e áudios. Pra alguém que me tornou um expert na arte de interpretar o que há por trás de cada olhar e o que se esconde nos intervalos da voz, sim! Eu uso essa artimanha… Fazer o quê, né? Foi necessário… Só assim fui capaz de interpreta-la tão bem; observando o que todos os outros normalmente ignoram. E por falar dos “outros”, vocês querem saber de uma coisa? Eu sei muito bem como as relações devem funcionar, sou um cidadão moderno e bem disciplinado, todavia resolvi ignorar tudo isso, resolvi ignorar o script padrão de como viver uma juventude saudável e me entreguei a contramão geral dos relacionamentos, contra a guia cultural de nutrição de sentimentos. Não fiz isso para me destacar, ou para demonstrar o quão superiores somos de todos os demais, pelo contrário: vacilamos tanto como todos os outros. A diferença é que não nos entregamos a corações diferentes por noite, por esquina. Somos oposição porque não optamos pelas opções mais fáceis, escolhemos/queremos/desejamos/sonhamos e planejamos a opção mais difícil de todas! A união de dois mundos apartados pelo destino, de duas almas enraizadas em pontos distintos do planeta.

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Paciente 76

“Não! Não, não e não! As grades na janela não podem me enganar, não mais! Por isso te escrevo… com cautela escrevo. Eles esqueceram a lata de picles aqui, será nela que minha carta viajará! Tenho um novo plano para vê-la amor, leia-me, por favor! Logo lançarei essa carta ao mar. Não me preocupo mais com o que eles resmungam… As coisas que os guardas falam não valem a paciência dos ouvidos. Você está ai em cima cintilante e solitária, eu sei disso, mas não nessa parte do céu, pois não consigo te ver. Além de me enclausurarem aqui, eles me esconderam de você.

Se eu já tentei pular? Claro que sim! Mas a cama é muito baixa, as pedras na parede me machucam, não consigo alcançar a janela. Quem sabe no quarto ao lado? Hum… Será que dá? Será que conseguirei te ver pela janela de lá? Ou seria melhor esperar o amanhecer? Sim! Quiçá se eu arrancar a orelha do doutor… será que eles me carregariam para um lugar com alcance do seu brilho? As vozes falam nos meus ouvidos, contam-me sobre uma cela mais alta no último andar, donde posso vê-la de perto, inclusive, toca-la. Mais do que nunca, preciso alcança-la querida, sinto muito a sua falta. Sem você é tudo tão triste e escuro. As noites pesam como os séculos dos ossos nas catacumbas, perco meus anos num emaranhado total de escuridão e sofrimento.

Eles costumam me dar algumas pílulas pela manhã, todas as manhãs. Tolos! Cuspo cada uma delas, amor. As brancas, as laranjas e principalmente as azuis! Mas acho que sinto o gosto amargo da azul diluído no meu suco de laranja… Não há lâmpadas aqui, por três vezes ao dia, vejo apenas as luzes do corredor. Quando o guarda coloca o café, o almoço e o jantar. Não conheço ele, deve ser novo. Parece-me frio. Sinto o cheiro do corpo dele no meu prato, as vozes gargalham, não me falam a verdade sobre o que ele faz com a comida. Quando o doutor aparece, ele ignora minhas perguntas, não quer me falar de você, não quer entender que preciso busca-la. Que desde aquele fadado dia, estás presas ai em cima.

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Remidos pela dor

Aproximava-se das 4:40min da manhã, horário de Brasília. Júlia estava saindo de uma boate em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro. De calçada em calçada, ela trocava passos tonteantes, enquanto discutia com o ex-namorado pelo telefone. Depois de alguns minutos, deixou sua garrafa de vodca cair no chão… Quando isso aconteceu, todos ao redor poderiam jurar com total convicção de que foi possível ouvir, até mesmo para as bandas de Oswaldo Cruz, o tamanho palavrão que ela exclamara. Depois de saltar os cacos de vidro, decidiu desligar o celular, caminhou até o ponto de ônibus e esperou a carruagem de metal que a levaria até o colchão. Local que ela pretendia não deixar pelas próximas nove horas.

Logo que o ônibus chegou, Júlia subiu, pagou, sentou e esticou o vidro da janela. O vento daquela noite fria bagunçava seu cabelo e carregava o suor trabalhado em puro álcool. Dali, ela observava as esquinas… de poste em poste, de luz em luz, até o momento em que alcançou um estado mental de reflexão. Assim aconteceu e assim ela se foi.

Já havia passado das 5hrs da manhã, horário de Brasília. Lucas estava no banheiro de um baile em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Na pia ele esfregava as mãos, passeando sabão liquido entre os dedos. O motivo? Bom… ele havia brigado durante a festa e o sangue do nariz de um desconhecido qualquer resolveu abandonar sua posição original e morar no seu anel. Depois de deixar os amigos para trás, decidiu sair do baile e caminhar sem rumo pelas ruas da cidade, entre esquinas, praças e rodovias. Quando deu por si, tinha chegado a um local que não visitara há anos: uma antiga quadra de futebol da infância. A quadra estava na parte de trás de uma escola pública abandonada. Lucas respirou fundo e jogou fora o cigarro de maconha que mal havia acendido. Passou as mãos no rosto, fixou os olhos e decidiu saltar o muro. E dessa forma fez! Não havia ninguém no lugar e estando ali, sozinho, acabou levando uma surra das próprias lembranças. Percebendo a gravidade da nostalgia presente, decidiu parar, pensar e refletir. Assim aconteceu e assim ele ficou.

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Homens e chances

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A brincadeira começou logo após uma pergunta chave, numa roda de amigos. Visto que a maioria do grupo era composta por garotas, um dos rapazes lançou certa questão inocente no ar que, mal sabe ele, utilizei durante muitos anos na lapidação da minha própria personalidade. “Eae, garotas! Quais são os tipos de rapazes que mais atraem vocês? ” –Indagou, “na lata”, como dizem no bom carioquês. Depois de alguns sorrisos e desconversas (típicas de quem nunca pensou no assunto), algumas almas resolveram se manifestar, para o alívio do rapaz que provavelmente se basearia nos arquétipos listados pra transar com alguém, quem sabe na mesma noite. Dos homens no local, só não houve alívio mesmo para a minha mente calculista, visto que nada do que foi dito me agradou de imediato.

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