Na minha cozinha

Mergulho o anelar direito no bolo de chocolate,

Eu não sei: acho que estou sorrindo.

Mas não é qualquer sorriso — distinção que aprendi a fazer.

É o sorriso perfeito. Aquele feito pra você.

Ouço o sino da catedral. A hora é exata e a fala é muda.

As folhas vagueiam lá fora; no tempo, no vento, nas memórias.

Aponto o dedo, você chupa. Transpira. Fecha os olhos. Lambe.

Quente, salaz, tentador, inolvidável, lúbrico, Ual… apetecível!

Trovejou em mim; intrínseco.

Vai chover lá fora; inelutável.

Eu não sei: acho que estou feliz.

Mas não é qualquer felicidade — distinção que aprendi a fazer.

É tê-la de cerne na vida. Coisa que outrora, optei por esquecer.

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Carpe diem

Girei a chave três vezes, puxei a porta pra fora e depois empurrei. A porta estava um pouco emperrada como dissera o vendedor, mas até que foi fácil abrir. Entrei e, devagarinho, caminhei por todos os cômodos e abri todas as janelas e testei todas as torneiras e acendi todas as lâmpadas e varri cada um dos seus tantos cantos. Em seguida, fui até a sala vazia, respirei fundo, coloquei as mãos na cintura e comecei a rodar, realizado, vislumbrando a coisa toda ao redor. Comecei a sorrir do nada. Eleanor chegou pouco depois com as malas, ficamos nos encarando.

— Aqui começaremos uma nova história — disse.

— Eu acredito em você — respondeu-me.

A casa estava localizada na rua 18, em Cabo Frio, próxima a praia das dunas. O ano? 2006, talvez 2007. Estava com 53 anos. Ela? Uns 27, ou 28. Eu havia participado de um plano de demissão voluntária da Petrobrás. Parece que meus anos de engenheiro chegaram ao fim. Peguei 75 mil reais. Vendi meu apartamento, meu carro, meus bens, totalizando mais uns 180 mil na conta. Troquei a zona Sul pela região dos Lagos. Minha casa nova tinha um bom quintal, dois quartos, sala, cozinha, banheiro e terraço. Eu gostava da vista, da calmaria e da companhia principalmente. Não planejava arranjar outro emprego tão cedo; a ideia era viver de férias eternamente.

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Imodéstia

No latim a palavra vanitas, significa tanto vaidade quanto vazio. Ou seja, quando vivemos pela vaidade, vivemos pelo vazio. A vaidade tem cheiro, tem cor e múltiplos nomes. Está no agir, no pensar, no falar, no criar, no desenvolver. E, como escreveu certa vez o frânces Stendhai, a maior parte dos homens do mundo, por vaidade, por desconfiança, por medo da infelicidade, só se entregam ao amor de uma mulher após a intimidade. Ao meu ver, Stendhai estava certo. Esse talvez seja o motivo pelo qual algumas mulheres acreditam firmemente que podem despertar o amor de um homem apenas com suas habilidades sexuais. Existe um pouco de verdade nisso, existe um pouco de mentira. Para realizarmos a distinção, precisamos compreender dois pontos. Primeiro: “a maior parte dos homens”, não significa todos os homens. E cá entre nós a maior parte dos homens são realmente idiotas, verdade seja dita. Não por cultura, religião ou grau de conhecimento, a idiotice masculina transcende esses detalhes técnicos, ela é quase… quase um padrão genético. Poucos são os homens que ultrapassam esse padrão ou nascem sem ele. Essa minoria corresponde a parcela masculina que fica ofendida não só com as palavras de Stendhai, como também com todos os demais insultos genéricos existentes no mundo. Segundo: quando cito “algumas mulheres”, obviamente descrevo um grupo que não representa a maioria feminina, muito menos sua totalidade.  Simboliza somente uma minoria que se especializa na arte de assegurar a fidelidade masculina através das frações de orgasmos.

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O tempo não passou aqui.

´´…Não sei, comigo vai tudo azul
Contigo vai tudo em paz…“

 

Aquela canção à Gal Costa

fazendo lembrar de você.

A gente se ama e se  gosta.

A gente que é cego e nem vê.

 

A vida, e a gente, é tão breve.

Pensei em te amar muito mais,

deixar que esse sonho nos leve.

Amor, o meu julho é lilás

 

Lembrei  do sorriso que tive,

olhando o colar que te dei.

Em poesia e amor se cultive

 

a flor, meu azul, hoje eu sei.

Baby, esse amor que inclusive

os versos mais simples te dei.

 

Glory days

02/2017, Toronto. Canadá.

 

Olá minha querida, sinto sua falta.
Peço desculpas pela ausência, não foi fácil encontrar muito tempo livre entre as viagens e o trabalho. Preciso lhe falar de algumas coisas ao meu respeito, partindo do ponto onde havia parado e explicando os motivos pelo qual aparento ser um tanto distante;

Sabe… Eu sempre confundi os meses de Junho e Julho. Sempre! Durante toda minha vida. Não sei quando acaba um, ou quando começa o outro. E isso não ocorre só pelas semelhanças de nomes entre os meses, ocorre porque nesses sessenta dias, normalmente, vivo os melhores dias da minha vida.

Dizem que os seres humanos só refletem sobre a vida quando se sentem mal, ou no mínimo quando há um detalhe ou outro fora do lugar. Quem está numa boa fase, vivendo intensamente, não realiza pausas para reflexões nem mesmo quando vai ao banheiro. Não há tempo pra isso! O prazer de desfrutar os momentos inibe ponderações e cismas diversas. E quando o sujeito — assim como eu — já possui o costume congênito de andar com a cabeça nas nuvens, a situação é ainda mais agravante. Um dos resultados diretos é a despreocupação até mesmo com os dias das semanas e os nomes dos meses.

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Bela anátema

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Você é jovem e, na atual situação, não há outro fator de maior influência além da idade no seu método pessoal de analisar o mundo. Você conhece a dor, a perda, a violência, mentira, ódio, deslealdade e traição. Trabalha maneiras de bloquear os canais – naturalmente já inclusos dentro de si – que transmitem exatamente as mesmas energias listadas acima.

Existem dias em que você apanha, existem dias que bate. E há outros em que você simplesmente perdoa. Seja por cansaço, seja por maturidade. Na verdade, você pouco sabe a diferença entre os dois casos. Tão somente perdoa! As pessoas, a vida, a sociedade e tudo pelo tudo do jeito que é e tende ficar.

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Lágrimas efêmeras

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Todo escritor é atacado, às vezes, por um certo bloqueio mental. Um tipo de impasse que provavelmente atinge todas as classes de pensadores, desde escritores profissionais até amadores de bons rabiscos. Nesse bloqueio, tudo se resume a falta de conclusão para uma ideia inicial. Qualquer autor humilde concorda que é um tanto complicado bolar um bom desfecho, uma etapa final ou quem sabe, qualquer tipo de mensagem que traga sentido e reflexão aos leitores. Continue lendo “Lágrimas efêmeras”

Porque homens também podem voar.

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Tantas caras sorridentes em um único espaço de tela colorida, um dia chuvoso e os mesmos sorrisos se estampam. Nunca gostei de ´´mi, mi, mi`, mas o Facebook me lembra aqueles gramados verdinhos da classe média americana, a família pode estar em guerra, traição, divorcio, drogas, câncer, mas o gramado? Perfeito, e as cercas sempre branquinhas como um diploma, certificado de felicidade alheia.
A hipocrisia é a lei da selva, e que vença o mais covarde. Mas eu não sou covarde nem de plastico. Felicidade mesmo é olhar, cheio de lágrimas, no fundo dos olhos de alguém e esboçar um sorriso por saber que essa pessoa não está omissa ao seu pranto e se entristece com você, felicidade é cair tantas vezes for preciso só pra chegar um pouquinho mais perto dos seus sonhos. Vamos sonhar, em vez de jogar sempre as mesmas cartas, acreditar que o céu pode ser mais azul amanhã do que é hoje. Perder o medo de alcançar o Sol, mesmo que o nosso castigo seja o mesmo de Ícaro. Que seja! Mas eu vi a luz mais pura e isso nem a morte tirará de mim.

O incrível natal de Nicolas Volkov

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Nicolas Volkov nasceu na Alemanha em 1985, entretanto no desejo de viverem próximos aos parentes, seus pais se mudaram para a Ucrânia, dois anos depois. Na véspera de natal de 2001, já com dezesseis anos, ele e a família se reuniram na casa dos avós na cidade de Kiev, onde também morava, para juntos comemorarem o nascimento de Jesus Cristo. Nicolas estava ansioso para o momento de entrega dos presentes, na verdade, era tudo que ele realmente esperava. No decorrer do dia, das semanas anteriores e dos meses passados, o rapaz não falava de outra coisa a não ser o seu próprio presente. Ele queria um Playstation, console de ponta para a época. E mais do que pedido aos familiares, ele já havia feito promessas colocando em jogo até a própria alma! Dizendo que seria tão santo quanto qualquer papa, caso ganhasse o videogame. Contudo sua alegria foi bem mais do que passageira, Nicolas ganhou presentes simples naquela noite; Logo após o jantar, seus avós lhe presentearam com um livro, seus tios, com um rádio. Já os seus pais, destruíram todas as expectativas do rapaz ao tirarem dos pés da arvore de natal, um embrulho, contendo um casaco de lã.

 

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Acalanto

Abro portas e janelas de manhã,

abro um sorriso amarelado de café

e um olhar castanho de sossego matutino.

Nas ruas o tempo passa correndo,

em mim repousam os primeiros segundos.

Eu não a tenho, ainda, menina…

Vou te fazer chorar de rir, menina

Quero manchar teu batom de amora, menina

Você me manchou de amor, menina

Você me corou o rosto, morena

Você me acertou no peito, traquina

Você me deixou em paz, Carolina.

Minha Via-Láctea particular

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Aproximo, estúpido momento, lento, lento e calado,
sinto o que é notório: sua face rubra diz a quem, quem sou?
Parece que a 35 centímetros do seu corpo tudo faz sentido,
ou talvez não faça, e isso seja o doce prazer de não saber nada.
Talvez minha imagem esteja viajando como estrelas dentro dos seus olhos.
Quantos anos-luz ela levará pra se esquecer de mim?
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