Escrever e nada mais!

Certa vez um leitor me disse que estava decepcionado com os escritores atuais sobretudo porque, segundo ele, a maioria deles “perdem muito tempo escrevendo sobre si mesmos e não criam novas histórias, crônicas, poemas, contos e novelas de tirar o fôlego” (sic). Eu entendo a crítica dele e respeito a opinião mas, precisamente sobre ela, gostaria de fazer uma pequena observação;
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Inexorável

Acordou e ligeiramente sentou na cama. De imediato ficou tonto. A cabeça começou a girar, era uma dor para cada fio de cabelo. Ele espirrou. Pôs a mão no rosto, havia um pouco de pó sobre a narina esquerda, traços da farra na noite anterior. Ele fedia e sentia uma dor absurda nas costas. Levantou-se, andou até o espelho, passou a mão no cabelo e, não satisfeito, penteou-o. Só Deus sabe o quanto era vaidoso. O sol quente levantava a poeira da quitinete alugada, o quarto cheirava a geladeira suja. Pela intensidade da luz, imaginou que já estava tarde. Assustou-se com isso e correu então até o relógio de parede. Eram 7:12 da manhã. Isso dava mais ou menos 7:20 da manhã, visto que seu relógio estava atrasado e não dava para ajustar, pois os botões estavam quebrados. Tinha um compromisso no centro as 8hrs e, levando em conta que o tempo médio até lá é de 30 minutos, contando com o trânsito, isso dava a ele, mais ou menos, 10 minutos para se resolver e desaparecer dali.

Voltou até o quarto desesperado. Uma agonia que corroía o coração. Todo trabalhador brasileiro sabe o que é estar atrasado, conhece a sensação. Ele também conhecia, embora fosse vagabundo. Ao menos, se considerava um, já que não arranjou um emprego fixo nos últimos treze meses. De imediato, havia muito a se fazer em pouco tempo: um remédio, um banho, uma cagada, um café, uns ovos, talvez, quem sabe, um cigarro… Elementos que qualquer cidadão precisa para encarar o demoníaco mundo lá fora. Ele tirou do armário um jeans manchado de caneta e uma blusa social lisa, preparou os ovos, engoliu o remédio junto ao café e correu para o banheiro. Quando já estava no box, o celular tocou. Saiu nu e voltou para o quarto com a escova de dentes na boca e uma toalha na cintura. Ao tirar o celular da cabeceira, deixou cair. Foram-se peças para todos os lados. Caralho! Aquilo fez um barulho enorme… O suficiente para assustar e acordar Vânia.
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Frívolo

Inspiro, prendo o ar por cinco segundos… Expiro, abro os olhos e encaro a escuridão. O estômago ronca, a cabeça volta a latejar. “Frustração” é o que provavelmente está escrito na minha testa, no meu espírito. Sentado no chão do quarto, olho para o canto esquerdo e vejo meu copo de café. Ponho o dedo dentro dele. Está frio, está nojento. Uma formiga caminha desesperadamente pela borda e me encara como um invasor; a serpente do seu paraíso. Seria maldade se eu limpasse o copo. Então não limpei. Olho para o canto direito e vejo o brilho da lua cheia na quina da janela. A ventania tropical derruba minhas anotações no chão. Deveria junta-las e organiza-las, mas todas não passam de lixos pseudo-literários. Então não junto.

Há tempos tento compreender quem sou, na medida em que classifico as coisas que sinto, gosto e presencio. As orações tem colaborado, Lispector e Victor Frankl também. A noite é uma criança e eu ainda tenho vinho. As vozes vêm e vão, a fé é uma incógnita. As vezes ela funciona, as vezes desisto e banco o cético. Reclamo, desligo o celular. Cheiro minhas axilas, “merda!” reprovo. Toco nos meus cachos; estão sujos. Preciso de um banho, preciso de meias limpas, preciso lavar o carro e pôr os legumes na geladeira. Tento me levantar, quero me levantar, mas acabo deitando no chão. Algo está fora dos eixos, não sei bem o quê. Ainda sou jovem, ainda tenho músculos e cabelo preto. Ainda tenho um bom fôlego e um pênis funcional. Entretanto não consigo fazer nada, criar nada, ao mesmo tempo em que sinto poder fazer tudo. A preguiça é um gigante gordo nos meus ombros, comendo frango frito e lançando os ossos nos confins da minha mente. Ele arrota ouvindo minhas expectativas e gargalha das minhas esperanças. Sinto-me o Trumam¹ brasileiro no seu circo virtual. Contas pra pagar, momentos inúteis, piadas sem graça… Tudo não passa de uma verdadeira comédia. Engasgo saliva, murmuro, espirro. Como amar a vida quando se conhece o seu custo? Eu ainda não sei.

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Eu preciso escrever porque…

Eu preciso escrever porque raramente sai da minha boca aquilo que eu gostaria de dizer. Eu tenho que escrever porque a escrita me dá força pra continuar sonhando. Eu preciso escrever porque escrevendo realizo meus sonhos. Eu tenho que escrever porque a escrita me dá o fôlego que necessito para continuar vivendo.

O que te move? Já se fez essa pergunta? O que te dá fôlego para continuar vivendo? O que você tem feito para alimentar isso que te move? Tenho me afogado nas palavras que não consigo mais colocar no papel. Tenho emudecido porque parece que as palavras têm fugido de mim. Ultimamente não tenho escrito mais nada. Quando paro para escrever, as palavras não tem vindo com a facilidade de antes. Venho me afogando porque o que me dava fôlego tem se escondido de mim. Continue lendo “Eu preciso escrever porque…”

Per tutti gli scrittori

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Quando nos tornamos escritores assumimos, obrigatoriamente, a missão de traduzir fatos, costumes, sensações, emotividades, sentimentos, verdades e mentiras. Fazendo o que há milênios foi considerado o papel da filosofia: levar o homem ao pensamento e reflexão, tanto sobre si mesmo quanto ao universo a sua volta. E talvez por isso, não acredito muito na aptidão de escritores que ignoram a Filosofia. Todo este compromisso com as palavras (sim, escritores são compromissados), assim como em qualquer outra missão, acarreta perigos e consequências. A pior delas é o pessimismo e a quase indelicadeza de fazer da sua vida (e do que nela há) utensílios para a construção daquilo que podemos considerar como “espelhos literários”, incorporados nas músicas, nos poemas, nas crônicas, etc.

Entretanto, infelizmente, ao olhar da maioria dos observadores, fazemos o que todo mundo é capaz de fazer e nossas obras sempre estarão abertas ao julgamento público. O senso comum e a falta de sensibilidade tenta passar a impressão de que a humanidade só não é repleta de escritores porque quase todas as pessoas possuem preguiça de se expressar. Além disso, afirmam que se você é escritor, tão somente é porque encontrou tempo suficiente para se dedicar ao ofício, ou que pelo menos teve “saco” para descrever uma realidade tão fria e irracional quanto a nossa.

É Eu sei: Tudo isso não passa de uma opinião vaga, pra não dizermos tola. Não é nada fácil escrever. Poucos sabem o quanto é árduo se dedicar por dias e dias lendo e relendo materiais de diversos autores (de gosto ou não), só para podermos adquirir bases sólidas para a cavalgada de futuros argumentos.

Inepto é quem acredita que o Mundo está sendo regido pela diversidade; há um só acordo, há um grupo seleto de governantes que regem o caos da nossa sociedade. E seja lá qual for à opinião deles, sempre vale relembrar que eles não gostam muito dos pensadores. De pessoas que se expressam, de gente capaz de espremer esperança a civilizações beiradas no caos.

E ao falar de esperança, falo exatamente da tal “elpis” do Grego (permanecer confiante), que pode ser considerada quase uma fé sem precedentes. Para tais “escritores eleitos” desse dom, ser capaz de transmitir a realidade nas letras, sobretudo na tentativa de produzir esperança nas pessoas que tanto criticam nosso trabalho, é também acreditar que nossas obras servirão como sementes para uma transformação futura, assim como a obra dos poetas passados nos concederam energia para trabalhar atualmente.

Partindo deste princípio, podemos concluir que a nossa missão esta inclusa na lista das mais nobres exercidas pela espécie humana. E que, como tudo aquilo que é nobre, sofre também da desvalorização e do esquecimento. Essa afirmativa é tão dura que, por desejo, prefiro acreditar que estou apenas sendo pessimista.

 — Leonardo veiga 29/07/2015

Genética melancólica

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Inicialmente parecerá um tanto estranho o que irei dizer, mas a verdade é que muitos poetas do passado enxergaram beleza na tristeza ou no status da possibilidade de ficar triste. Tornaram a vida pessimista numa sequência de idades românticas. Isso é fato visível e declarável nas melhores obras existentes até hoje: De Salomão a Sêneca, de Sêneca a Schopenhauer, de Schopenhauer a Dostoiévski, de Dostoiévski a Fernando Pessoa e de Pessoa aos músicos lendários do século passado. São alguns dos diversos escritores sócios do “clube eterno do pessimismo”  e que permanecem vivos no coração de qualquer cidadão atual refém da cultura.

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