Das ervas que restam

É. Lá se vai o terceiro copo de chá.

Dizem que é o tipo de bebida que nos ajuda a refletir e… quer saber? Não importa a quantidade de xícaras. Acho que só o tempo realmente nos ajuda a pensar, pôr as coisas no lugar, recuperar o fôlego e voltar aos eixos. Eu vivi uma maravilhosa e confusa aventura que, em teoria, acabou. Fato delicado e cheio de pontas soltas. O problema é que quando se relembra um fato por inúmeras e inúmeras vezes, os elementos principais se tornam meros detalhes e os meros detalhes passam a protagonizar a porra toda. A vida é vista por um novo ângulo, o passado é narrado sob uma nova perspectiva e as regras são ditadas pelas coisas das quais não fiz questão. Faz sentido, agora, o porquê de você só ter me procurado quando estava mal, quando não tinha ninguém para conversar. Faz sentido, agora, o porquê de você desaparecer quando está feliz, quando as coisas estão bem, quando tudo passa a dar certo. Eu acho que minha amizade foi convertida num escritório virtual de psicologia, tornando-me útil apenas para abraçar o seu lado mais obscuro. Quando esse lado hiberna, não tenho lugar na sua vida. E sou, então, educadamente deixado de lado.
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Ninguém é de ferro

Deixei meu fusca azul no estacionamento do edifício office. Abri a porta e o guarda-chuva logo após. Céus! Como chovia naquela manhã. O mundo estava acabando. Mal dei três passos e já havia encharcado minha bota nova. Não era legítima, era chinesa. Porém comprei pela internet e demorou três meses pra chegar, não estava a fim de perde-la na primeira lama da vida. Desviei de três ou quatro poças d’água até alcançar o saguão. Fechei o guarda-chuva, sacudi a calça, cumprimentei o vigia e fui até o elevador. Apertei o número do meu andar, “18“, dei três pancadas de leve no botão. Era um procedimento padrão, na época achava que quanto mais se aperta um botão de elevador, mais rápido ele vem.

Quando cheguei ao décimo oitavo, puxei as chaves do bolso e abri a porta do escritório. Olhei tudo e não encontrei nenhuma goteira. Aquilo já havia sido uma vitória. Era uma quarta-feira qualquer, de uma semana com poucos clientes. É uma merda ser advogado nesta cidade. Parece que as coisas só funcionam no Brasil para quem é concursado. Minha recepção estava “OK“. Completamente limpa, com as revistas no lugar, com o radinho ligado, com o bebedouro cheio. Espirrei um pouco de aromatizante para criar um clima. “Nada molhado e tudo limpo, duas preocupações a menos“, pensei. Meu gabinete tinha papéis jogados para todos os lados da mesa. Arrumei tudo a moda cacete, estava com uma preguiça sem fim. Sentei na cadeira, ajustei-a. Minha janela ficava nos fundos, atrás da mesa. Fui até ela e abri as persianas. A chuva não perdoava lá fora, olhei ao redor: o trânsito pegando fogo, a estação de trem lotada, o metrô estalava nos trilhos quase submersos pela enxurrada. Ao lado da janela, meu calendário de parede segurava o cordão com meu crucifixo. Senti vontade de fazer uma oração. Em dias assim bate um desejo de de orar, de tocar o outro mundo. Só em dias assim. Quer dizer, quem consegue ser fiel durante o terrível calorão do verão? O sobrenatural já arde na pele.

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Pescador

Sonhar contigo é horrível!
E vou te dizer o porquê:
As lembranças acabam comigo,
Passo o resto do dia pensando em você.

Não posso te olhar com desejo,
Já decidi que preciso esquecer.
Mas quando os sonhos nascem do vinho,
Naufrago em perigo, não sei o que fazer.

Sonhei com você num barquinho,
Num frenesi de amar e ser amado.
Sonhei do tesão ao carinho,
Na proa, no cais, na rede e no nado.

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“She’s online”.

Ok! Eu sei que normalmente não se ama alguém de primeira, meus pais me ensinaram isso! A TV também… As músicas, os livros, os professores, enfim: cada pedaço da vida. Eu também sei que não se promete, nem se declara todo seu amor pra alguém que você nunca viu, nunca sentiu e muito menos teve ao lado. Pra alguém na qual os únicos registros presentes são as fotografias e áudios. Pra alguém que me tornou um expert na arte de interpretar o que há por trás de cada olhar e o que se esconde nos intervalos da voz, sim! Eu uso essa artimanha… Fazer o quê, né? Foi necessário… Só assim fui capaz de interpreta-la tão bem; observando o que todos os outros normalmente ignoram. E por falar dos “outros”, vocês querem saber de uma coisa? Eu sei muito bem como as relações devem funcionar, sou um cidadão moderno e bem disciplinado, todavia resolvi ignorar tudo isso, resolvi ignorar o script padrão de como viver uma juventude saudável e me entreguei a contramão geral dos relacionamentos, contra a guia cultural de nutrição de sentimentos. Não fiz isso para me destacar, ou para demonstrar o quão superiores somos de todos os demais, pelo contrário: vacilamos tanto como todos os outros. A diferença é que não nos entregamos a corações diferentes por noite, por esquina. Somos oposição porque não optamos pelas opções mais fáceis, escolhemos/queremos/desejamos/sonhamos e planejamos a opção mais difícil de todas! A união de dois mundos apartados pelo destino, de duas almas enraizadas em pontos distintos do planeta.

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Congênito

Borboletas no estômago!

Este é o nome! Li por ai!

Sim. É isso o que eu sinto…

Toda vez que sou obrigada a te encarar,

Minha barriga gela, corrompe meus instintos.

Sinto-me lançada entre as ondas do mar,

Sensação estranha no umbigo.

 

Cara, eu não posso nem vê-lo passar,

Se der margem teremos problemas,

Mó vontade de te agarrar, guri!

Uma pena, uma pena…

Você não nasceu pra ser esquema.

Você é amigo!

Com amigos, remediam-se os instintos.

Mas sim! Dá vontade de te agarrar!

Sempre que vejo teu lindo sorriso.

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Efêmera

Hoje eu tive aquele mesmo desejo de quando conversamos semanas atrás, ou melhor dizendo: o velho desejo que me acompanha desde a noite em que te conheci. Falo da vontade que dá de catar sua atenção, sempre que a saudade bate, ou sempre que a química entra novamente em sincronia.

As vezes penso em enviar uma boa música. Convenhamos e concordamos: não há nada melhor do que assuntos sustentados sobre uma bela composição. Noutras vezes penso em abordar o tema de um novo livro. Enredos e loucuras literárias são sempre bem-vindas, afinal de contas até mesmo a nossa amizade caberia nas páginas de uma.

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CineLove

O que será que você achou de mim?

Eu sei que a resposta está aí, em algum lugar, no intervalo entre o sorriso e a próxima pipoca.

Não imagina o quão tolo fui, nos anos que perdi pagando de sábio. Repetição dos mesmos erros; “admirável novo choro”. Bancando o certo enquanto estava todo errado, fingindo evolução mesmo nadando ao contrário.

Peço perdão pelo tempo em que estavas aqui e eu não “vi” você. Reflexões fazem um homem cair na real e a minha realidade anda pulsando num coração pesado. Coração que demorou, mas se tocou, tardiamente, que o seu status é grande demais pra se manter na amizade.

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Antes das seis

Semanalmente me arrasto! E cansado encaro, um novo dia que se inicia.

Matinalmente absorvo abobado, nossas trocas de olhares, no lugar do “bom dia“.

Diariamente espiono seu caminhar (e como não amar?), cheio de beleza e ternura.

Momentaneamente disfarço que reparo, mas escondo o fato, de que já gabaritei tua rua.

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Love of sages

 

 

Ela está completamente descabelada! Porém nunca esteve tão feliz. Sentada na cama, tenta prender o tão complicado gancho do sutiã. Do outro lado do quarto, de pé e renovado, ele observa a garota que tanto ama, enquanto gira a colher com açúcar na xícara quente de chá;

Quer uma ajudinha ai cara? – Disse quando percebeu que ela falhara na terceira tentativa.

Não… E cale a boca! – Ela retruca em dois tempos. Ele gostou. Na verdade, o coração dele sempre bate mais forte quando é sovado por essas falsas reações de independência.

Tudo bem então, meu amor. Mas quero te pedir uma coisa. – Ele olhava fixamente para o rosto dela, através do reflexo da TV.

O quê? – Respondeu, mas ele não realizou o pedido. Segundos depois, tentou novamente: “O que você quer?”. E ganhou um sorriso mudo.

Ele então se aproximou da cama, sentou-se por trás dela e tratou de prender o tão abusado sutiã. Ela sentiu o cheiro do chá, sabia que ele detestava chás, todavia não ousou questionar.

Tome. Preparei para ti – Disse, oferecendo a xícara a ela.

Obrigada… Duas vezes! Já imaginava que seria pra mim. Mas… me diga! O que você quer?

É simples, não vá embora agora, amor. Passe o dia comigo.

Não posso, você sabe que tenho aula. Eu preciso estudar… – Mentira! A aula era o de menos, ela pretendia ser convencida de que valeria a pena ficar ali e, talvez, repetir toda a dose da noite anterior. Só que o rapaz era bom na arte do convencimento e tudo então, aconteceu;

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NAVIO DE ESCRAVOS

[Paulo Henrique Sampaio]

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Vai passando em estrondos no mar

Agitadas pelo vento,

hordas levadas, iludidas e desconfiadas

querendo  as conquistas de mar adentro

 

São milhares de homens e mulheres

que esperam um salvador do povo

para tirar da miséria

e dar-lhes um mundo novo

 

O herói da revolução

que fará tudo acontecer

Enchendo das hordas o coração

do que jamais poderão ser

 

Mas como vive esse animal político

de querer ser iludido sempre outra vez

é bom que fique escrito

quão bobo o animal se fez.

 

…vai passando em som frugal no mar

A nau dos iludidos, preste a naufragar

Vai passando….

mais uma vez….

Lost in love

amar
amar o mar
a dor de amar
de amar você
por quê

por que te amar?
se tanto amar em nada dá
por que amar a dor de amar
de amar olhar o teu olhar
se teu olhar remete ao mar
o mar se torna meu olhar
eu amo o mar
o mar do meu
do teu olhar
eu amo amar
eu amo amar
eu amo amar você!
15.09.2015

Louco por você

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Todo homem precisa de uma mulher pra ficar louco. Isso porque a realidade é séria e totalmente sã. A sanidade, quando em excesso, passa a ser chata. Pois desde sempre criamos perfis de seriedade: na escola, no trabalho, na igreja, na cantada, em respeito aos pais, aos vizinhos, aos parentes e até quando damos informações na rua. Uma dose de loucura não mata ninguém, assim como um pouco de pimenta não acaba com o prazer de saborear um acarajé.
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O depoimento de um ex ególatra

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“Me partiram em dois, e procuro agora o que é minha metade” – Sete cidades : Legião Urbana 

 

Eu achei que meu amor era perfeito. Não por hipérbole, não por arrogância,  mas por não dar conta do que estava andando no meu peito. “Isso é grande demais pra ser meu“, achava. Afinal, nunca alimentei expectativas e nem mesmo trabalhei com sentimentos. Mesmo assim, o amor surgiu! Lindo, impactante e de lugar nenhum. Deu-me forças nos momentos imprevisíveis e necessários, não tive escolha a não ser me render e endeusa-lo.

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Um brado de desesperança

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Olá. Boa noite.

Está chovendo muito aqui. E… Quer saber de uma coisa? Esse lance de utilizar a internet como única fonte de conversa, é como fazer questão de andar com guarda-chuva numa baita borrasca quanto a de hoje. É uma falsa proteção, algo insustentável, belo ato de desperdício. Os ventos carregam a chuva por diversos ângulos e tão logo acabam molhando tudo, de qualquer jeito, tal como a rotina que nos corrompe e afasta. No fim das contas, não vale e nunca valerá a pena fingir que ando guarnecido, com o corpo seco. Quando na verdade caminho vulnerável e desprotegido por aí. Totalmente só! Sem você.

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