O tempo da covalescença

Eu tive que sair para trabalhar durante duas semanas com uma chuva que não parava, e então um dia eu acordei e estava um sol maravilhoso, eu senti isso mega inspirador e bonito – surpreendentemente – pois nunca amei o sol, meu verdadeiro amor sempre foi a lua. Dessa vez, porém, o sol pareceu-me amigável, oferecendo-me um estranho cavalheirismo, abriu o tempo como quem abre a porta do carro. Foi como se alguém tivesse feito o meu chá, ou me chamado para ver o arco-íris no céu. Foi como viver um cosmo depois de muito caos. Foi um dia bom, depois de vários dias ruins.

Certamente a felicidade inteira não cabe dentro da estiagem, e os dias ruins infelizmente não se resumem em chuva que não passa e muito menos têm a organização das estações do ano. Às vezes o tempo triste fica, e eu que não sei lidar nem com as coisas boas que permanecem, imaginem com as ruins: perco literalmente o controle e andando na corda bamba da vida caio dentro do precipício cheio de lesmas gigantes. Graças a Deus sou salva pelos lagartos de costas vermelhas que devoram as lesmas enquanto eu fujo desesperada pelo infinito coberto de fumaça lilás. Ao menos foi assim no sonho que sonhei dia desses…

Na vida real, porém, continuo presa na tempestade, continuo andando na corda bamba prestando mais atenção nas lemas abaixo dos meus pés, do que no infinito lilás na frente dos meus olhos.

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Älskar

Vovó costumava dizer que o sofrimento era capaz de marcar a alma humana tanto quanto um machucado marca a pele. “Quando as pessoas são feridas, quando enfrentam uma frustração muito grande, a dor da situação é capaz de dilacerar a alma, de desanimar o espírito“, afirmava. Na época eu entendi bem a analogia, mesmo sem conhecer as figuras de linguagem. “Mas essas feridas são eternas, vovó?“, Respondi na noite em que ouvi essa definição. Ela pregou seus olhos castanhos e fatigados em mim e sorriu sem fazer barulho. “Deite-se Caroline, está na hora de dormir“. Eu deitei, ela esticou o cobertor pelo meu corpo, mas não me deu o beijo na testa como de costume. Pelo contrário, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. “As feridas não são eternas“, disse. Foi interrompida por uma tosse e logo prosseguiu: “Como falei anteriormente: a tristeza mancha a alma humana tal como uma ferida na pele. As feridas, como bem sabe, também se fecham, criam cascas e finalmente secam. Tudo depende do tempo e de como você irá cuidar. Se for bem tratada a dor passará, a casca também e no fim não restará nenhuma marca. Agora, se for uma ferida muito profunda, então é provável que a cicatriz fique, mesmo depois de curada. Você carregará para sempre a memória daquela dor estampada na alma“. Eu ouvi, entendi e apenas acenei com a cabeça, ela gostou e, em seguida, me deu o beijo na testa diário. Depois se levantou, caminhou até a porta coçando as costas e apagou a luz.

Espera ai vovó! – Chamei já sentando na cama.

Sim, minha cara.

Certa vez você me disse que é capaz de enxergar essas marcas nas almas das pessoas, certo? Como a senhora faz isso? Quando vou aprender?

Ela pôs a mão na boca e segurou um bocejo, eu sabia que ela havia gostado da pergunta pelo modo que me encarou. Parecia ter previsto minha curiosidade, aliás; toda conversa que tivemos durante a noite, antes mesmo de me levar até a cama foi, ao meu ver, o cultivo de uma semente; de uma vontade que ela queria ver brotando em mim. E brotou! Eu ansiava pelo mesmo dom. Vovó voltou, puxou a cadeira novamente e sentou bem devagar. Pegou em minhas mãos, fez um leve carinho… Foi uma visão inesquecível pois a luz da lua que transpassava a janela atrás da minha cama foi refletida na esmeralda que ela carregava no pescoço. Momentos depois, ela respondeu:

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Chá a dois

Hoje convidei-me para tomar chá. Coloquei na mesa um forro bonito e me servi  em uma das xícaras de porcelana.  Sentei-me. Tomei um primeiro gole que se colidiu com o  meu corpo frio. Olhei a cadeira a minha frente vazia. Lá fora o céu nublado foi perfurado pelos raios de sol que entraram pela janela. Como Deus. Pensei que talvez eu O pudesse convidar para tomar chá, sem a pretensão de que Ele tivesse algum fetiche por uma xícara de porcelana ou sentisse vontade de beber chá de limão, mas simplesmente imaginei que se eu O pedisse com jeitinho ele aceitaria o convite de um chá a dois. Minha mãe me disse que quando eu me entristecer posso convidá-Lo a sentar no sofá para conversamos, mas eu  nunca me lembro, pois é sempre mais fácil me proteger em meu cobertor e ouvir a minha playlist. Continue lendo “Chá a dois”

Sombra mate

Ela escreveu inúmeras cartas, mas fez de todas  bolinhas de papel. A última, em fim, aparentava ter saído razoavelmente bem. Enquanto a lia, distraíu-se um pouco e olhando para o lado, viu que o gatinho brincava alegremente com os papéis amassados. Constatou e disse tristemente em sua mente: “Até os gatos brincam com os meus sentimentos”. Amarfanhou a então última carta e com sinceridade redigiu o texto a seguir, que sem  detalhes, ou formalidades apropriadas, foi entregue á destinatária três dias depois.

“Sei que faz algum tempo que não lhe escrevo e hoje não lhe trago agradáveis notícias. Tentei por esse tempo poupá-la da dor que me atormenta e entristecer-lhe mais uma vez por minha causa. Porém, a minha última gota de serotonina se esgotou, e não há chá verde que possa mudar isso. Já não posso mais adiar a minha decisão, estarei novamente em casa na semana que vem. Estive conversando com um antigo pintor e ele me ofereceu trabalho em seu ateliê. O dinheiro  não é muito, e para compensar isso, ele irá me ensinar alguma coisa no tempo livre.   

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