O amor para a Gurizada

Aos jovens do sexo masculino

 

Ou! Você mesmo. Por que você está mentindo pra si mesmo? Ei, mano. Pare agora! Você é novo demais pra isso, cara. Deixe a hipocrisia pra mais tarde, para a fase adulta, onde você não conseguirá viver um único dia sem ter que esconder quem realmente é. Deixe as aparências para os anos da aposentadoria, onde você poderá refletir sobre os seus erros do passado enquanto lança grãos aos pombos da praça. Vamos lá campeão, você ainda é novo. O seu destino ainda não está traçado. Existem muitas decisões pra se tomar, muitos caminhos para desbravar, muitas coisas boas pra acontecer e — por que não? — diversas falhas pra se cometer.

Feche seus olhos, concentre suas energias e rasgue essa sufocante pelugem da vida social, vaidosa, virtual. Deixe seu eu interior florescer, nem que seja só por um segundo, nem que seja só por essa carta, de modo que você consiga responder a pergunta que farei com toda sinceridade do mundo. Ela é simples, mas demanda empenho e honestidade, ok? Caso já esteja preparado, lá vai:

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O tempo da covalescença

Eu tive que sair para trabalhar durante duas semanas com uma chuva que não parava, e então um dia eu acordei e estava um sol maravilhoso, eu senti isso mega inspirador e bonito – surpreendentemente – pois nunca amei o sol, meu verdadeiro amor sempre foi a lua. Dessa vez, porém, o sol pareceu-me amigável, oferecendo-me um estranho cavalheirismo, abriu o tempo como quem abre a porta do carro. Foi como se alguém tivesse feito o meu chá, ou me chamado para ver o arco-íris no céu. Foi como viver um cosmo depois de muito caos. Foi um dia bom, depois de vários dias ruins.

Certamente a felicidade inteira não cabe dentro da estiagem, e os dias ruins infelizmente não se resumem em chuva que não passa e muito menos têm a organização das estações do ano. Às vezes o tempo triste fica, e eu que não sei lidar nem com as coisas boas que permanecem, imaginem com as ruins: perco literalmente o controle e andando na corda bamba da vida caio dentro do precipício cheio de lesmas gigantes. Graças a Deus sou salva pelos lagartos de costas vermelhas que devoram as lesmas enquanto eu fujo desesperada pelo infinito coberto de fumaça lilás. Ao menos foi assim no sonho que sonhei dia desses…

Na vida real, porém, continuo presa na tempestade, continuo andando na corda bamba prestando mais atenção nas lemas abaixo dos meus pés, do que no infinito lilás na frente dos meus olhos.

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Älskar

Vovó costumava dizer que o sofrimento era capaz de marcar a alma humana tanto quanto um machucado marca a pele. “Quando as pessoas são feridas, quando enfrentam uma frustração muito grande, a dor da situação é capaz de dilacerar a alma, de desanimar o espírito“, afirmava. Na época eu entendi bem a analogia, mesmo sem conhecer as figuras de linguagem. “Mas essas feridas são eternas, vovó?“, Respondi na noite em que ouvi essa definição. Ela pregou seus olhos castanhos e fatigados em mim e sorriu sem fazer barulho. “Deite-se Caroline, está na hora de dormir“. Eu deitei, ela esticou o cobertor pelo meu corpo, mas não me deu o beijo na testa como de costume. Pelo contrário, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. “As feridas não são eternas“, disse. Foi interrompida por uma tosse e logo prosseguiu: “Como falei anteriormente: a tristeza mancha a alma humana tal como uma ferida na pele. As feridas, como bem sabe, também se fecham, criam cascas e finalmente secam. Tudo depende do tempo e de como você irá cuidar. Se for bem tratada a dor passará, a casca também e no fim não restará nenhuma marca. Agora, se for uma ferida muito profunda, então é provável que a cicatriz fique, mesmo depois de curada. Você carregará para sempre a memória daquela dor estampada na alma“. Eu ouvi, entendi e apenas acenei com a cabeça, ela gostou e, em seguida, me deu o beijo na testa diário. Depois se levantou, caminhou até a porta coçando as costas e apagou a luz.

Espera ai vovó! – Chamei já sentando na cama.

Sim, minha cara.

Certa vez você me disse que é capaz de enxergar essas marcas nas almas das pessoas, certo? Como a senhora faz isso? Quando vou aprender?

Ela pôs a mão na boca e segurou um bocejo, eu sabia que ela havia gostado da pergunta pelo modo que me encarou. Parecia ter previsto minha curiosidade, aliás; toda conversa que tivemos durante a noite, antes mesmo de me levar até a cama foi, ao meu ver, o cultivo de uma semente; de uma vontade que ela queria ver brotando em mim. E brotou! Eu ansiava pelo mesmo dom. Vovó voltou, puxou a cadeira novamente e sentou bem devagar. Pegou em minhas mãos, fez um leve carinho… Foi uma visão inesquecível pois a luz da lua que transpassava a janela atrás da minha cama foi refletida na esmeralda que ela carregava no pescoço. Momentos depois, ela respondeu:

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Dom Casmurro, o vírus do futuro

Entre as paredes das muitas vielas existentes no bairro da Lapa, há um mural em grafite antigo contando muitas histórias interessantes. Dentre tantas, uma rasa descrição sobre um tal de “Dom Casmurro”, desconhecido de qualquer morador local. O texto segue mais ou menos assim:

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Chá a dois

Hoje convidei-me para tomar chá. Coloquei na mesa um forro bonito e me servi  em uma das xícaras de porcelana.  Sentei-me. Tomei um primeiro gole que se colidiu com o  meu corpo frio. Olhei a cadeira a minha frente vazia. Lá fora o céu nublado foi perfurado pelos raios de sol que entraram pela janela. Como Deus. Pensei que talvez eu O pudesse convidar para tomar chá, sem a pretensão de que Ele tivesse algum fetiche por uma xícara de porcelana ou sentisse vontade de beber chá de limão, mas simplesmente imaginei que se eu O pedisse com jeitinho ele aceitaria o convite de um chá a dois. Minha mãe me disse que quando eu me entristecer posso convidá-Lo a sentar no sofá para conversamos, mas eu  nunca me lembro, pois é sempre mais fácil me proteger em meu cobertor e ouvir a minha playlist. Continue lendo “Chá a dois”

Sombra mate

Ela escreveu inúmeras cartas, mas fez de todas  bolinhas de papel. A última, em fim, aparentava ter saído razoavelmente bem. Enquanto a lia, distraíu-se um pouco e olhando para o lado, viu que o gatinho brincava alegremente com os papéis amassados. Constatou e disse tristemente em sua mente: “Até os gatos brincam com os meus sentimentos”. Amarfanhou a então última carta e com sinceridade redigiu o texto a seguir, que sem  detalhes, ou formalidades apropriadas, foi entregue á destinatária três dias depois.

“Sei que faz algum tempo que não lhe escrevo e hoje não lhe trago agradáveis notícias. Tentei por esse tempo poupá-la da dor que me atormenta e entristecer-lhe mais uma vez por minha causa. Porém, a minha última gota de serotonina se esgotou, e não há chá verde que possa mudar isso. Já não posso mais adiar a minha decisão, estarei novamente em casa na semana que vem. Estive conversando com um antigo pintor e ele me ofereceu trabalho em seu ateliê. O dinheiro  não é muito, e para compensar isso, ele irá me ensinar alguma coisa no tempo livre.   

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Recaída

Era como uma uma tempestade de verão: o dia absurdamente quente, então cai um temporal. Uma calmaria precede a chuva, na terra, as gotas caem abafando a poeira, sobe do solo um cheiro bom… É terra molhada. Está tudo fresco, a chuva depois de um tempo se acalma e pode-se deitar na rede da varanda, mas os tempos não estão sendo fáceis, e talvez no outro dia o calor ainda seja tão forte que seque todas a minúsculas gotinhas que se acomodam nas folhas das  árvores e se desprendem com o vento.

A muita intensidade dentro de mim, e eu não consigo conte-la, algo tão forte e vivo que absorve as minhas forças. E você parece ser a minha tempestade de verão, na minha tristeza as vezes aparece, e é tão forte o seu olhar como um temporal, eu poderia olhar para seu rosto sem perceber o passar horas. Anotaria em um papel metodicamente cada uma das suas características, eu tentaria ler a sua alma, interpretar os seus passos. Eu queria que você me amasse, mas se não me ama, não tem mais graça. Não tem mais significado todas as boas lembranças se o amor de outra pessoa pode ser maior que o meu.

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[+18] Há tempos

Havia acabado de sair do banho quando notei que o celular estava largado no chão da cozinha. Sou desses que preferem andar com o aparelho no modo vibratório, ou seja, se ele despencou por mais de um metro da bancada ao piso, significa que alguém me ligou de forma incansável. Peguei o aparelho e caminhei pelo corredor no caminho ao quarto. Quando desbloqueei a tela, vi que a quantidade de ligações pertenciam a Clarisse, minha melhor amiga. Desesperada (como aparentava estar), fez questão de chover meu WhatsApp de mensagens, antes mesmo de tentar partir para o contato direto.

Quando procurei saber o porquê de tanto alarde, assustei-me com a última mensagem enviada por ela;

Allan… Está decidido! Vou me matar! Adeus meu amigo, dessa noite eu não passo.

Quando li aquilo, o smartphone encontrou o chão novamente. Não me recordo de ter colocado uma sunga, esqueci-me completamente de onde guardava minhas blusas. Apenas vesti a primeira calça que encontrei jogada na casa e corri em direção ao ponto de ônibus.

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A maldição do Sr. Capital

Sentado no meu trono, saboreio todas as notícias com um olhar esperança ao próximo e ao mundo. Isso não esconde o fato de que lá no fundo, estou mentindo para mim mesmo. Se a existência for um teatro, eu sou o escravo que disfarça a omissão de suas verdadeiras ideias, dos verdadeiros sentimentos.

Aperto suas mãos, lhe presenteio com um sorriso. Digo-lhe palavras bonitas, dou-lhe memórias impactantes. O que não quer dizer que compartilhamos, essencialmente, a mesma felicidade, ou que deverás compartilharemos um dia. Na verdade o que faço, pouco significa. O que sou, talvez, realmente importe, enquanto o ato de “importar” quitar o preço de minha pessoa.

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Diário de bordo #2

 

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A série: “Diário de bordo”, será uma coleção de rascunhos pessoais que trabalham a angústia.

 

Algumas noites a viagem vai além de sentar e observar as placas e luzes ao redor volante. Há madrugadas em que todo processo de condução mergulha na vibe das rodovias, amarrado em suas poderosas teias. Os efeitos são mais fortes nas mentes daqueles que partilham do velho defeito de pensar demais. A nostalgia viva e palpável sobe à cabeça tão rapidamente quanto a pujança da heroína chegando ao cérebro. Quando percebo, já estou mergulhado nas dolorosas lembranças de tudo aquilo que nunca aconteceu. Dos medos e temor no qual nenhum velocímetro é capaz de afastar.

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Bullet Time

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Para alguns azarados a vida é uma sistemática violenta que independe das decisões pessoais para gerar catástrofes. Desde a infância, os problemas surgem automaticamente, sem pedir permissão. Como se fosse um dever pessoal considera-los naturais. E pra variar, por outro lado, as oportunidades de paz, esperança e harmonia precisam ser disputadas na unha, como se fossem uma dádiva, ou um conjunto de momentos e sentimentos nativos de outra espécie.

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O último inverno dele

 

A neblina cobre tudo, é tão espessa que acho que posso senti-la, enquanto isso, os seus olhos se dissolvem no tempo, e quase não consigo me lembrar deles.
Parece que foi ontem, como sempre, o tempo passa rápido demais…

O verde musgo cobre tudo, não é possível diferenciar as árvores que nasceram, talvez, onde seus pés já pisaram.

Felizes, por estarem onde queriam, em meio aquela natureza de tons mortos, e perdida entre pedrinhas brancas e quartzo negro.
E ali se desfizeram ou desfazem, onde nasceram e se moldaram, perdidos e agonizados, cheios de medos e ódios ocultos.

Seu ser tão seu, que não se espalhava, como grãos de areia, agora se foi com o vento. Continue lendo “O último inverno dele”

As estações da tristeza

O quão medíocre pode ser uma vida? A partir de qual ponto as coisas podem começar a mudar? Bianca morou desde os seis anos de idade na mais alta casa da favela da maré. Em frente à janela do seu quarto, a visão das rodovias escondia um famoso outdoor atualizado na passagem das estações. Certa feita de inverno, um dia depois de confessar a família que foi abusada pelo vizinho, ela vira uma propaganda no mesmo outdoor dizendo que o tempo transformava todas as coisas… balela! O tempo não transforma nada. “Tempo“, é só um caderno repleto de folhas vazias. Os dias estão divididos nas páginas e as atitudes, em cada frase. Tomando decisões a vida passa a ter conteúdo, cruzar os braços e não fazer nada é o mesmo que deixar as folhas em branco. Graças a Deus, ela percebera tal verdade aos 16, deste ponto em diante, parou de assistir o destino correr pelos dedos.

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Let it be

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Disse certa vez Chico Buarque: “Nunca somos, sempre estamos“. Se a afirmação dele for mesmo verdadeira, então mais “estamos” do que “somos” no decorrer de todas as fases da vida. Isso deveria surgir como um selo de validade fiscal para quem se define como solitário. Pena que a solidão se divide em camadas, a mais fraca delas está próxima a tristeza, já a mais forte anda de mãos dadas com a depressão. A tristeza é um estado sentimental em sua definição etimológica, foi dessa camada mais fraca que Buarque preencheu as vestes. E como já disse; a mais forte, porém, está ligada a depressão. Ou seja: algo que se vive, se sente, não sendo apenas uma tempestade passageira. Não apenas algo que possa ser mudado com algumas risadas, balões de festas e purpurinas. A depressão não é morta com o excesso de afazeres, se isso fosse possível, psicólogos recomendariam faxinas e lavagens de louça aos seus pacientes, ao invés de tarjas e mais tarjas pretas.

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Camomila

 

A camomila é uma planta interessante, suas flores são semelhantes a pequenas margaridas brancas. Ela ornamenta, é odorizante e é benéfica à saúde, pois possui várias propriedades medicinais, sendo muito utilizada como calmante. Há quem a use para clarear o cabelo e hidratar a pele. Há também quem diga que ela produza saúde para as plantas a sua volta e…

Ana Karenina possuía um pezinho de camomila, plantado em frente à janela do seu quarto. Ela ganhou a plantinha de presente de Nicolas. Ele mesmo a plantou em frente à janela para que Continue lendo “Camomila”

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