Blackout

Soube que faltou luz assim que cheguei porque as lojas das esquinas funcionavam apenas com as lâmpadas de emergência. O ônibus fatiava a escuridão das ruas desviando de bolas, pipas, crianças, bêbados, animais, caixas de som e todos os outros tipos possíveis de obstáculos clássicos duma noite de feriado. Quando desci da condução e sentei no tão breu banco da praça, comecei a apostar comigo mesmo que ela não iria vir me encontrar. Com a vastidão daquele blackout, o destino concedeu àquela infeliz uma desculpa ideal, bastava ela pegar nas mãos e resumir numa mensagem de texto. Tudo indicava que ela não deixaria o calor do edredom e que eu ficaria largado na praça.

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Inerente

Estávamos aproveitando a noite quente de verão para conversar sobre o passado e vislumbrar o futuro, brincadeira de toda gente sã e tranquila. Num dado momento o céu iluminado foi invadido por uma nuvem trovejante que nascia no Norte e aos poucos, foi devorando as estrelas. Subimos novamente a rua de casa e sentamos num dos bancos de concreto de um bar que estava fechado. No caminho, ela comprara um saco de jujubas e dividimos os doces, sem, é claro, perder o foco da situação.

Aryani estava obcecada em defender a tese original da conversa, a questão que motivou o encontro. O teor dos argumentos não deixava dúvidas de que ela estava disposta a morrer cultuando as mesmas ideias;

Todo homem é um babaca! – Ela exclamava. E não parava só por aí. A Ary era dessas que falavam bem, mas não sabiam ouvir.

Você, meu grande amigo, não é nem uma exceção. É um esforçado! Pois faz questão de ir contra a própria natureza – a natureza da canalhice! – Completou.

As ofensas da minha amiga (e falo de ofensas a espécie, pois não levei para o lado pessoal) eram errôneas, claro. Ela estava equivocada. Por um lado, não existem provas biológicas, cientificas, históricas, ou até mesmo teológicas de que todo homem na fase adulta, sem exceção, é um completo babaca. E entenda-se “babaquice”, ao menos, na forma como ela aborda, como uma graduação com ênfase em machucar corações femininos. Existem caras diplomados nisso, outros além de diplomados, são experts, pois dão aulas do assunto. Todavia não são todos os homens que se enquadram ao caso e eu sei que no fundo ela possui consciência disso. Porém a nervosinha não perdoava a razão, pelo contrário: fuzilava a mesma constantemente, com balas e mais balas de generalizações diversas.

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As estações da tristeza

O quão medíocre pode ser uma vida? A partir de qual ponto as coisas podem começar a mudar? Bianca morou desde os seis anos de idade na mais alta casa da favela da maré. Em frente à janela do seu quarto, a visão das rodovias escondia um famoso outdoor atualizado na passagem das estações. Certa feita de inverno, um dia depois de confessar a família que foi abusada pelo vizinho, ela vira uma propaganda no mesmo outdoor dizendo que o tempo transformava todas as coisas… balela! O tempo não transforma nada. “Tempo“, é só um caderno repleto de folhas vazias. Os dias estão divididos nas páginas e as atitudes, em cada frase. Tomando decisões a vida passa a ter conteúdo, cruzar os braços e não fazer nada é o mesmo que deixar as folhas em branco. Graças a Deus, ela percebera tal verdade aos 16, deste ponto em diante, parou de assistir o destino correr pelos dedos.

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Bela anátema

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Você é jovem e, na atual situação, não há outro fator de maior influência além da idade no seu método pessoal de analisar o mundo. Você conhece a dor, a perda, a violência, mentira, ódio, deslealdade e traição. Trabalha maneiras de bloquear os canais – naturalmente já inclusos dentro de si – que transmitem exatamente as mesmas energias listadas acima.

Existem dias em que você apanha, existem dias que bate. E há outros em que você simplesmente perdoa. Seja por cansaço, seja por maturidade. Na verdade, você pouco sabe a diferença entre os dois casos. Tão somente perdoa! As pessoas, a vida, a sociedade e tudo pelo tudo do jeito que é e tende ficar.

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