Apenas mais um pedaço da paisagem

 

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Na terra onde o sol nasce todos os dias, incansavelmente redondo, os fulanos saem de suas casas, as portas se trancam, todos se encontram. No aconchego áspero das estações de trem é possível sentir o frio exalando dos corpos, as almas endurecidas, o fel escorrendo dos lábios sem cor, a vida que morre nos trilhos, equinas, palavras, buzinas, e o som de algo mais germinando entre as rachaduras do concreto .

Nós, que já esquecemos o sabor açaí da bondade, vagamos em direção ao futuro sem saber o porquê,  e na constante filosófica: ´´os fins justificam os meios“, de tanto enfrentar Bicho Papão, viramos Bicho Papão.

Av. Rio Branco

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Há rachaduras no azulejo branco
e nas quebradas da cidade carioca
onde os fulanos se escondem nas janelas
e as fulanas me alegram a paisagem.

Nas passarelas pintadas de azul e medo,
os que têm muito a perder sempre se apressam.
Um homem pede pão na praça, enquanto os pombos disputam as migalhas do meu cachorro-quente.

Cheiro, cheiro doce, agridoce, cheiro verde,
cheio, cheio inchado, encharcado de chuva molhada,
nas marquises a goteira.
.
.
.
.
pinga, pinga, pinga, na minha cabeça.
Hoje tá chovendo a beça!
Esqueça!(não o guarda chuva)
Apenas se aqueça
e ponha as mãos molhadas no bolso do casaco.

…T-1-2-3-4-5-6-7-8-9-10-11-12…
Ah! Onde está o elevador?
Pra onde vai o meu amor?
Subirá ele até os céus e cairá como uma bolinha de gás?
Talvez, não sei,

mas o elevador já chegou
e os engravatados sobem de pressa
presos ao relógio de parede,
e eu subo com eles.

Será que eu ficaria bem de gravata?
Não, assim está bem melhor,
um copo, mais um gole de saudade
ouvindo Los Hermanos, esperando meu ônibus passar
e um sorriso.
Por quê?
Porque a vida é bela, oras!

Rotineiro

futurismo

Palmeiras crescem sobre as coberturas,
as coberturas moram em cima dos prédios,
os prédios cospem as pessoas de manhã,
E as pessoas?
As pessoas caem sobre o chão e dormem,
morrem,
escorrem pelos viadutos,
entopem praças e botequins,
amontoam-se sobre as calçadas,
inchadas de ódio comum,
puro,
um ódio inocente,
um ódio de gente.

A gente passa a noite toda,
morde o travesseiro,
se afoga na almofada quente,
a gente sente,
a gente sente!
A gente mente,
sangra mais uma gota transparente.
E a gente?
a gente se cala,
range os dentes
e vai trabalhar na manhã seguinte

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