Mancebo

Eu juro que perderei alguns dias buscando entender como a calcinha dela foi parar no ventilador de teto. Ou como minha bermuda jeans terminou rasgada. Ou como chegamos até a minha cama se eu perdi as chaves fazendo uma dancinha ridícula na chuva. Bem, ainda não consigo processar as melhores partes. Acordei sem uma parcela da minha memória, mas com um belo sorriso no rosto. No universo masculino, isso já diz tudo. Preciso ajustar a coluna, porém ela está cochilando sobre a minha barriga. Aprecio com todo carinho do mundo; jamais acordaria um anjo desses. Permaneço como estou por horas, assisto o clarear do dia transpassar a janela, estalo o pescoço, coço os olhos. Tem uma marca de batom no meu calcanhar, meu peito está arranhado e meu bafo cheira a hidratante de pele. Estou confuso, estou feliz. Uma lástima, um paraíso.

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Deixa pra lá!

A sala estava uma bagunça porque todas as coisas ainda estavam empacotadas. Paloma sentou no sofá girando as chaves da nova casa com a mão direita. Havia ficado entediada, faltava apenas uns dez por cento para o tédio consumir seu cérebro de vez. tinha muito o que fazer, não sabia por onde começar. Seu relacionamento estava péssimo, seu parceiro não percebia. Na mão esquerda segurava um copo de requeijão com vodca pura e gelo, na sua frente havia um quadro torto de pelo menos oitenta centímetros com a foto do James Brown, paixão eterna do noivo. Hector estava parado na janela lendo um livro que tirara de uma das caixas e, por falar em caixas, elas estavam por todos os lados – grandes pequenas e médias. Não fazia muito tempo que os dois chegaram a São Paulo, acabaram de estrear o apartamento novo próximo ao Ibirapuera. Os caminhões deixaram o condomínio há vinte minutos, as mudanças foram soltas por todos os cômodos, o céu estava nublado, o dia silencioso e o casal com preguiça. “Estou te dizendo: tem alguma coisa errada. Qual era mesmo o nome da loja que te vendeu essa garrafa?”, perguntou Paloma. “Não interessa. É original, relaxa e beba.”, respondeu Hector. “Tá horrível!”, ela retrucou e continuou; “Tô dizendo… Eu já bebi Ciroc antes. Alguma coisa está muito errada com isso aqui”. Hector ignorou o comentário e deu um alerta, “Você não deveria beber tanto”, disse e não parou por ai, “Vou ter que trabalhar mais tarde e você ficará com as caixas, ok? Se ficar bêbada poderá quebrar meus discos”, finalizou. Paloma se irritou automaticamente:

Pô! Você vai trabalhar de novo? Sábado a noite? Que sacanagem, tá sempre ausente. Eu vou ter esse trabalhão todo com a arrumação sozinha?

Fica quietinha, chuchu. Estou tentando ler – Respondeu Hector.

Paloma engoliu a resposta, aquilo arranhou a garganta, o coração, a paciência. Passados alguns minutos, Hector acendeu um cigarro e começou a gargalhar. Começou baixinho e foi aumentando o volume, uma tentativa falha de incomoda-la, de quebrar a barreira da mudez. Pegou a primeira folha que viu pela frente – parecia ser um recibo qualquer – e colocou na página do livro que estava lendo. Saiu defronte a janela e caminhou na direção da noiva que não parecia estar nem ai pra sua animação. Ficara claramente chateada com o comentário anterior, qualquer um perceberia, menos ele. Em seguida, sentou-se no braço do sofá, cutucou-a e começou a falar;

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2049

Na primeira vez que a encontrei não pude ver seu rosto. Uma bolha de sabão entrou nos meus olhos no exato momento em que eles se preparavam para capta-la. As crianças fazem bolhas de sabão na praça, é gostoso… as bolhas combinam com o clima ensolarado e com as músicas matinais de domingo. Ao recuperar a visão, assisti quando as amigas a levantaram e jogaram no chafariz. Ela parecia não se importar… O vestido branco deixava escapar a cor de sua calcinha, porém ela não estava nem ai! Chegara a carta de aprovação na universidade. Não era preciso ser muito esperto pra perceber que aquela notícia entraria no hall de conquistas da sua vida, não era preciso ser muito esperto pra perceber que eu já estava apaixonado. Vi seu lindo sorriso, combinava com as bochechas rosadas. Jamais me esqueceria daquele rosto, daquelas sardas, ou daquele cabelo molhado. Graças a bolha, minha vista estava vermelha e pulsava. Mas não tanto quanto meu coração.

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Love of sages

 

 

Ela está completamente descabelada! Porém nunca esteve tão feliz. Sentada na cama, tenta prender o tão complicado gancho do sutiã. Do outro lado do quarto, de pé e renovado, ele observa a garota que tanto ama, enquanto gira a colher com açúcar na xícara quente de chá;

Quer uma ajudinha ai cara? – Disse quando percebeu que ela falhara na terceira tentativa.

Não… E cale a boca! – Ela retruca em dois tempos. Ele gostou. Na verdade, o coração dele sempre bate mais forte quando é sovado por essas falsas reações de independência.

Tudo bem então, meu amor. Mas quero te pedir uma coisa. – Ele olhava fixamente para o rosto dela, através do reflexo da TV.

O quê? – Respondeu, mas ele não realizou o pedido. Segundos depois, tentou novamente: “O que você quer?”. E ganhou um sorriso mudo.

Ele então se aproximou da cama, sentou-se por trás dela e tratou de prender o tão abusado sutiã. Ela sentiu o cheiro do chá, sabia que ele detestava chás, todavia não ousou questionar.

Tome. Preparei para ti – Disse, oferecendo a xícara a ela.

Obrigada… Duas vezes! Já imaginava que seria pra mim. Mas… me diga! O que você quer?

É simples, não vá embora agora, amor. Passe o dia comigo.

Não posso, você sabe que tenho aula. Eu preciso estudar… – Mentira! A aula era o de menos, ela pretendia ser convencida de que valeria a pena ficar ali e, talvez, repetir toda a dose da noite anterior. Só que o rapaz era bom na arte do convencimento e tudo então, aconteceu;

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Sieamisai

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“Seamisai” é uma expressão italiana formada por um conjunto de três palavras. Basicamente, significa: “Se você ama, você sabe“.

Existe uma mensagem, um tom interpretativo, um gesto significante por trás do seu silêncio. Eu te abraço e você retribui. Ficamos calados, observamos… os detalhes e defeitos presentes no corpo um do outro. É incrível como um momento de tamanho simbolismo e amor não precisa, necessariamente, do uso das palavras.

 

E de fato o seu silêncio diz muito sobre você; os sinais do seu corpo sempre falam mais alto. Se tentássemos realizar uma comparação, nenhuma descrição de si mesma venceria a competição de sinceridade –, da tua pele que clama por um beijo, do teu corpo que precisa de calor, tua alma que se desmonta com um cheiro, sua boca que varia de sabor.

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Linha 137

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A mente trabalha com dados relevantes, enquanto o coração só precisa de migalhas para labutar. Da fila do ônibus observo o rapaz puxando assunto com uma garota. Talvez seja sua primeira vez, talvez seja um dos seus longos planos secretos e pessoais. Fosse impulso, ou fruto de estratégia, o que basta é o resultado: eles estão conversando! Isso é tudo que realmente importa.

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Louco por você

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Todo homem precisa de uma mulher pra ficar louco. Isso porque a realidade é séria e totalmente sã. A sanidade, quando em excesso, passa a ser chata. Pois desde sempre criamos perfis de seriedade: na escola, no trabalho, na igreja, na cantada, em respeito aos pais, aos vizinhos, aos parentes e até quando damos informações na rua. Uma dose de loucura não mata ninguém, assim como um pouco de pimenta não acaba com o prazer de saborear um acarajé.
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O Erudito e a Heroína

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Certa feita, refletiu o rapaz: como se convence um coração calejado de estar errado de que talvez, por sorte, quem sabe, essa não seja sua verdadeira natureza? De que talvez a felicidade não esteja resumida a relações perigosas e devaneios constantes? De que ela pode ser mais que isso; pode ser a essência capaz de mudar o mundo, transformando mentes e costumes, tribos e tribunais, segredos e desejos?

Só que ele era desses que refletia demais… tinha mais receio do que medo propriamente dito. Entretanto, sabia que um dia encontraria sua resposta. Por outro lado, ela já não duvidava, gostava! E ansiava por tudo com muito prazer…

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Conservando o que deveria esquecer

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Pecado é provocar desejo e depois renunciar – Música: Soul Parsifal, Legião Urbana

 

07 de dezembro de 1998 – Cascavel, Paraná; Brasil.

Hélio sabia que se não fizesse muita coisa acabaria perdendo a mulher amada. Ou melhor, a garota amada. Patrícia ainda é nova, tem apenas 18 anos. Ele, já com 26, tinha noção de que sentimentos não são eternos, diferente do que diz a crença popular. Acreditava que o verdadeiro amor tem prazo de validade, uma vez retribuído ele é fortificado a cada palavra, momento e encontro vivido. Sendo necessário, de tempos em tempos, renovar tamanho sentimento, ao contrário ele é completamente apagado, como chamas de fogo em ramos secos, ou como os próprios ramos que, outrora, eram verdes e vívidos.

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Se Eu fosse o seu homem

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Se Eu fosse o seu homem, bateria na sua porta num daqueles piores domingos chuvosos, com um pedaço da sua torta favorita na mão, um pen drive com um ou dois filmes dos anos 90 no bolso e um sorriso molhado no rosto. Só pra lhe mostrar que não é preciso muito para destruir toda depressão formada na soma da TPM com o fim de semana ruim.

Se Eu fosse o seu homem, lhe daria prioridade total na minha lista de contatos e buscaria falar com você constantemente, até quando não tivéssemos mais nada a dizer. Não faria na tentativa de melar ou paparicar nossa relação, faria para demonstra-la que independente dos meus afazeres, sua atenção sempre estaria em primeiro lugar na minha lista de prioridades.

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Nas linhas do seu corpo

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E que momento foi então. Era Eu? Sim! Tão Eu, no calor de seus braços.

E o futuro que ignoramos? E daí? Tanto faz! Nos dê sossego, nos dê espaço.

E o seu corpo pude sentir, e ingeri seu prazer. Saciou o meu ego, satisfez minha luxuria.

E só assim me encontrei e te conquistei, quase sempre meio assim, meio insegura.

E deixe tudo na conta do tempo, pois dos seus pecados; Eu me garanto.

E jogue fora a chave do quarto, vem pra bagunça, te espero no nosso canto.

E embaraçosos são os dias, também tenho feridas – me faça esquecer!

E quem te disse que não eis minha única? Que não sou bom com bebidas, que pego todas do bar.

Repita e te dou uma surra! Você é a mulher da minha vida! E dos tempos em tempos, cansei de provar.

E por que não te imaginar assim? Agora dance pra mim! Deixe-me sem chão, sem ar, sem teto.

E quem disse que não suporto provocação? Dê um só mole, que lhe seduzo e te pego.

E sinto o poder da sua voz, do arrepio que vai do calcanhar até o pescoço.

E deixe-me corresponder à altura, a noite também é sua, aguarde de tudo, poupe seu fôlego.

E quem falou que é errado? Certo ou errado, nós já estamos iniciados, desde a primeira prosa.

E ponha a culpa na estação, na nossa química, é o verão; o melhor tempo pra inventar moda.

E que momento será então? E será tão somente meu? Não! É todo seu! E desfrutarei no calor dos seus braços. Pare de diálogo, te quero pra mim.

E quero pra ontem, fazendo pra hoje. Para que sempre dure, e que tão logo madure. Uma semente de desejo, sem princípio e sem fim.

— Leonardo Veiga / 19/03/2015

Atualizando o status

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Quando não existe amor, todas as atitudes de um casal são bem previsíveis. Por exemplo, contarei exatamente o que acontece quando duas pessoas magoadas decidem se distanciar:

O homem vai tentar renovar a vida e irá se machucar,
A mulher fará o mesmo, provavelmente depois de ouvir alguns conselhos, e também dará topadas.

Com sorte, o lado mais fraco e azarado voltará a procurar seu antigo par, isto é, se o orgulho permitir.

Só que, num relance simples dos fatos nascerá a prova de que nada mais será como antes. E o tempo vai dando cartadas e mais cartadas até um dos dois parar e perceber que o melhor remédio é zerar tudo e esquecer.

E assim termina uma história. Por falta de motivação, confiança e vontade de fazer diferente, de ser diferente.

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Entre calças e cachaças

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Há prazeres que vivificam dias monótonos. Dias dos quais o sol se esconde e até o céu deseja dormir:

O prazer de estar na cama e aguçar os sentidos na tentativa de sentir a chuva caindo lá fora, carregando todos os segundos em gotas, como se Mundo estivesse sendo lavado dos próprios pecados.
O prazer de – ainda na mesma cama – poder olhar para a sacada e ouvi-la reclamar da semana que está pra nascer, comendo seu bombom favorito, enquanto perambula nua pela casa, de cômodo em cômodo, atrás do livro de espanhol da faculdade.
O prazer de observar sua pele no tom do cinza pardo, apaixonada, sorridente, manchada pelo nuance nublado, que pelo preto no branco, deixa um pouco a mais de desejo exalando; Uma mordida no doce para tudo aquilo que planeja, um salto de volta a cama, para aquilo que se anseia.

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