Tira-teima – Parte #2

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Parte 2

Aquela afirmação ficou voando na minha cabeça sabe Deus lá por quanto tempo… “Eu sou o anjo da morte!”, senti um frio terrível na espinha, meus dedos nem doíam mais. Houve uma pequena queda de luz no momento em que ela se revelou, a situação ficou ainda mais esquisita. Acredito que exista um nível de assimilação da realidade no arsenal dos instintos humanos que evidencia uma verdade, de imediato, logo que ela chega ao cérebro. Nós tão somente aceitamos, o corpo não reage, não ousa elaborar questionamentos. Uma atributo real, mas quase indescritível, rola mais ou menos quando olhamos pra cara de um indivíduo, por exemplo, e percebemos o quão lídimo é o que ele anuncia, pois sua admissão parece sair do fundo da alma. Sem dúvidas, foi exatamente o que senti. As palavras doeram tanto quanto um soco no estômago – meu estômago cheio de álcool, rémedios e comida barata. Não me desesperei, porém também não agi com naturalidade, quem agiria? Sai de perto daquela coisa que usava calcinha. Andei até a janela, abri, encostei no muro da sacada e fiquei olhando a rua. O dia estava quente, um mormaço desgraçado. Era impossível! Não poderia estar delirando; a vida, monótona, chata e suja, como ela é, estava rodando de forma tranquila lá em baixo. As formigas subindo a parede, as gotas sujas do ar-condicionado do apartamento de cima, o boteco tocando Seu Jorge na esquina, os caras da companhia de luz agarrados nas afiações dos postes. Era real, com certeza. Precisava engolir aquela situação a seco e aceitar o fato da Morte estar sentada no meu sofá com sardas nos seios siliconados e pernas divinas, sem rastros de celulites. Não vou mentir, estava confuso… confuso e excitado. Tipo um hétero bêbado que acordara ao lado de um travesti. Pensei em me jogar da janela, cair de cabeça na calçada e acabar com tudo aquilo de uma vez, entretanto isso só facilitaria as coisas para ela. Ao me estabacar e rachar o crânio na calçada, eu iria encontra-la, quem sabe, mostrando sua verdadeira face e, mais ainda, com raiva por eu ter tomado essa decisão. Seria uma longa caminhada até a eternidade. Conclui que o pulo só pioraria as coisas.

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Tira-teima

O despertador de emergência tocou de novo, eu não aguentei e joguei o celular na parede, depois me levantei, fiz um pouco de café e fui até a sala assistir TV. Assim que liguei o primeiro canal era o do gado, agachei-me procurei o controle em todos os cantos, encontrei-o atrás do vaso de plantas. Comecei a trocar os canais… Era uma manhã de terça, não havia nada de muito bom. Uma velha ensinando a cozinhar carneiro, o jornal matinal, esportes olímpicos, um indiano ensinando yoga e o penúltimo canal era evangélico. Toquei no botão de avanço por mais uma vez, “Só restou você”, disse a mim mesmo. Menos mal, estava dando desenho, aumentei o volume e deixei rolar. Retornei ao quarto, abri o guarda-roupas, revirei minhas gavetas e peguei uma pomada cansada de ser exprimida. Sentei no sofá, coloquei o café sobre a mesinha da sala e um pouco de algodão ao lado, a mesinha ficava entre o sofá e a TV. Pus o pé esquerdo sobre minha coxa direita, abri o espaço entre os últimos dedos… “Ah, sua micose desgraçada”, murmurei. Taquei a pomada nas feridas e, por seguinte,  o algodão. “Vocês não me deixaram trabalhar, né malditas? Mas não vai ficar assim. Se não melhorar, coloco fogo em vocês!”, continuei falando. A pomada deu um efeito de alívio imediato, perdi alguns minutos largado ali. Tempos depois, quando já estava terminando o café e rindo do Pica-pau, alguém bateu na minha porta. “Maldição!”, pensei. Não estava muito a fim de lidar com seres humanos, tudo que eu precisava era de 24hrs longe do público. As batidas continuaram e eu me lembrei que o volume da TV chega facilmente ao corredor, logo, quem insiste, sabe que estou em casa. Sem opções, levantei-me e fui mancando até a porta. Não mancava por falta de opção, era mais por drama mesmo.

Girei as chaves do velho apartamento, assim que abri não vi ninguém. Olhei para baixo e lá estava uma linda garotinha. Deveria ter uns dez anos, ela chupava um pirulito de frutas vermelhas.

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A Hipocrisia nossa de cada dia

Trabalhar a noite destrói a cabeça de qualquer cidadão. Ninguém em sã consciência consegue manter essa pegada por muito tempo sem perder um pouco a sanidade. Minha empresa, pra variar, ficava bem longe de casa. Dirigi durante duas horas até chegar no meu bairro e quando faltavam apenas três quarteirões, lembrei de alguns itens básicos que estavam pendentes na minha despensa. Fiquei puto comigo mesmo, dei uma pancada no volante. A buzina disparou sem querer, uma mulher que caminhava com o cachorro me olhou feio da calçada. “Ah, tá olhando o quê, tia?”, suspirei. Dei uma freada horrenda para desviar de um bueiro sem tampa e, logo em seguida, joguei o carro na contramão. Cai pra esquerda, entrei numa rua sem saída, fiz o contorno e segui em direção ao mercadinho que ficava ali perto. Minha única preocupação era com o horário, eu largo muito “cedo”, sequer havia dado sete horas da manhã. A rádio tocava um MPB meloso, o sol matinal fez a minha barba coçar. Isso foi bom por um lado, pois me fez lembrar que minha aparência pós serviço não é lá das melhores, precisava “dar um tapa” na situação e foi o que fiz – abri o porta-luvas, coloquei meus óculos escuros. Gostava dos óculos escuros, por ser ruivo, eles me faziam parecer o Nando Reis. Eu detestava o apelido, mas até que era uma boa massagem de ego. Passei a mão no cabelo, fiz umas caretas no retrovisor, meti a mão no bolso direito, puxei um chiclete, relaxei no banco e aumentei o volume do rádio. Cheguei minutos depois, fiquei surpreso quando vi o mercadinho aberto. “É isso ai! Dei sorte”, exclamei. Mas enquanto pegava a carteira e trancava o carro, lembrei que o dono costumava abrir o estabelecimento de manhã para vender pães. Logo não tinha nada a ver com sorte. Por ora relaxei, mas naquele momento eu não sabia o quanto as coisas iriam piorar.

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Älskar

Vovó costumava dizer que o sofrimento era capaz de marcar a alma humana tanto quanto um machucado marca a pele. “Quando as pessoas são feridas, quando enfrentam uma frustração muito grande, a dor da situação é capaz de dilacerar a alma, de desanimar o espírito“, afirmava. Na época eu entendi bem a analogia, mesmo sem conhecer as figuras de linguagem. “Mas essas feridas são eternas, vovó?“, Respondi na noite em que ouvi essa definição. Ela pregou seus olhos castanhos e fatigados em mim e sorriu sem fazer barulho. “Deite-se Caroline, está na hora de dormir“. Eu deitei, ela esticou o cobertor pelo meu corpo, mas não me deu o beijo na testa como de costume. Pelo contrário, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. “As feridas não são eternas“, disse. Foi interrompida por uma tosse e logo prosseguiu: “Como falei anteriormente: a tristeza mancha a alma humana tal como uma ferida na pele. As feridas, como bem sabe, também se fecham, criam cascas e finalmente secam. Tudo depende do tempo e de como você irá cuidar. Se for bem tratada a dor passará, a casca também e no fim não restará nenhuma marca. Agora, se for uma ferida muito profunda, então é provável que a cicatriz fique, mesmo depois de curada. Você carregará para sempre a memória daquela dor estampada na alma“. Eu ouvi, entendi e apenas acenei com a cabeça, ela gostou e, em seguida, me deu o beijo na testa diário. Depois se levantou, caminhou até a porta coçando as costas e apagou a luz.

Espera ai vovó! – Chamei já sentando na cama.

Sim, minha cara.

Certa vez você me disse que é capaz de enxergar essas marcas nas almas das pessoas, certo? Como a senhora faz isso? Quando vou aprender?

Ela pôs a mão na boca e segurou um bocejo, eu sabia que ela havia gostado da pergunta pelo modo que me encarou. Parecia ter previsto minha curiosidade, aliás; toda conversa que tivemos durante a noite, antes mesmo de me levar até a cama foi, ao meu ver, o cultivo de uma semente; de uma vontade que ela queria ver brotando em mim. E brotou! Eu ansiava pelo mesmo dom. Vovó voltou, puxou a cadeira novamente e sentou bem devagar. Pegou em minhas mãos, fez um leve carinho… Foi uma visão inesquecível pois a luz da lua que transpassava a janela atrás da minha cama foi refletida na esmeralda que ela carregava no pescoço. Momentos depois, ela respondeu:

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Las hojas

Escrever é um negócio muito interessante, principalmente quando vasculhamos os rascunhos e publicações antigas. As vezes aparecem lições passadas já esquecidas, que acabam servindo e se encaixando no futuro. Fato que nos obriga a raciocinar e concluir que, mesmo com a reação positiva do público, talvez, o principal destinatário daquelas obras sempre foram os próprios autores, ou seja, nós mesmos.

Isso levanta uma série de questões, dezenas de possibilidades. A mais bonita delas ao meu ver, é a crença de que o coração planta sementes (dicas/orientações/conselhos), dentro de si mesmo. Alguns dos rabiscos é claro, vão ao público – são para o público! Outros porém, são nossos. Exclusivos e pessoais. É a alma que os desenvolve e planta em si mesma. São sementes que servirão como um gatilho, um “start” evolutivo, para que o próprio inconsciente vá absorvendo aos poucos a ideia adquiria. Assim que possuir base prática e não só teórica para tal, elas então germinam, crescem, tornam-se árvores; verdadeiros testemunhos do nosso avanço. Normalmente não notamos, pois estamos embalados demais na rotina para realizar reflexões pessoais e perceber que há coisas boas desabrochando por dentro.

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