A Hipocrisia nossa de cada dia

Trabalhar a noite destrói a cabeça de qualquer cidadão. Ninguém em sã consciência consegue manter essa pegada por muito tempo sem perder um pouco a sanidade. Minha empresa, pra variar, ficava bem longe de casa. Dirigi durante duas horas até chegar no meu bairro e quando faltavam apenas três quarteirões, lembrei de alguns itens básicos que estavam pendentes na minha despensa. Fiquei puto comigo mesmo, dei uma pancada no volante. A buzina disparou sem querer, uma mulher que caminhava com o cachorro me olhou feio da calçada. “Ah, tá olhando o quê, tia?”, suspirei. Dei uma freada horrenda para desviar de um bueiro sem tampa e, logo em seguida, joguei o carro na contramão. Cai pra esquerda, entrei numa rua sem saída, fiz o contorno e segui em direção ao mercadinho que ficava ali perto. Minha única preocupação era com o horário, eu largo muito “cedo”, sequer havia dado sete horas da manhã. A rádio tocava um MPB meloso, o sol matinal fez a minha barba coçar. Isso foi bom por um lado, pois me fez lembrar que minha aparência pós serviço não é lá das melhores, precisava “dar um tapa” na situação e foi o que fiz – abri o porta-luvas, coloquei meus óculos escuros. Gostava dos óculos escuros, por ser ruivo, eles me faziam parecer o Nando Reis. Eu detestava o apelido, mas até que era uma boa massagem de ego. Passei a mão no cabelo, fiz umas caretas no retrovisor, meti a mão no bolso direito, puxei um chiclete, relaxei no banco e aumentei o volume do rádio. Cheguei minutos depois, fiquei surpreso quando vi o mercadinho aberto. “É isso ai! Dei sorte”, exclamei. Mas enquanto pegava a carteira e trancava o carro, lembrei que o dono costumava abrir o estabelecimento de manhã para vender pães. Logo não tinha nada a ver com sorte. Por ora relaxei, mas naquele momento eu não sabia o quanto as coisas iriam piorar.

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Älskar

Vovó costumava dizer que o sofrimento era capaz de marcar a alma humana tanto quanto um machucado marca a pele. “Quando as pessoas são feridas, quando enfrentam uma frustração muito grande, a dor da situação é capaz de dilacerar a alma, de desanimar o espírito“, afirmava. Na época eu entendi bem a analogia, mesmo sem conhecer as figuras de linguagem. “Mas essas feridas são eternas, vovó?“, Respondi na noite em que ouvi essa definição. Ela pregou seus olhos castanhos e fatigados em mim e sorriu sem fazer barulho. “Deite-se Caroline, está na hora de dormir“. Eu deitei, ela esticou o cobertor pelo meu corpo, mas não me deu o beijo na testa como de costume. Pelo contrário, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. “As feridas não são eternas“, disse. Foi interrompida por uma tosse e logo prosseguiu: “Como falei anteriormente: a tristeza mancha a alma humana tal como uma ferida na pele. As feridas, como bem sabe, também se fecham, criam cascas e finalmente secam. Tudo depende do tempo e de como você irá cuidar. Se for bem tratada a dor passará, a casca também e no fim não restará nenhuma marca. Agora, se for uma ferida muito profunda, então é provável que a cicatriz fique, mesmo depois de curada. Você carregará para sempre a memória daquela dor estampada na alma“. Eu ouvi, entendi e apenas acenei com a cabeça, ela gostou e, em seguida, me deu o beijo na testa diário. Depois se levantou, caminhou até a porta coçando as costas e apagou a luz.

Espera ai vovó! – Chamei já sentando na cama.

Sim, minha cara.

Certa vez você me disse que é capaz de enxergar essas marcas nas almas das pessoas, certo? Como a senhora faz isso? Quando vou aprender?

Ela pôs a mão na boca e segurou um bocejo, eu sabia que ela havia gostado da pergunta pelo modo que me encarou. Parecia ter previsto minha curiosidade, aliás; toda conversa que tivemos durante a noite, antes mesmo de me levar até a cama foi, ao meu ver, o cultivo de uma semente; de uma vontade que ela queria ver brotando em mim. E brotou! Eu ansiava pelo mesmo dom. Vovó voltou, puxou a cadeira novamente e sentou bem devagar. Pegou em minhas mãos, fez um leve carinho… Foi uma visão inesquecível pois a luz da lua que transpassava a janela atrás da minha cama foi refletida na esmeralda que ela carregava no pescoço. Momentos depois, ela respondeu:

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Las hojas

Escrever é um negócio muito interessante, principalmente quando vasculhamos os rascunhos e publicações antigas. As vezes aparecem lições passadas já esquecidas, que acabam servindo e se encaixando no futuro. Fato que nos obriga a raciocinar e concluir que, mesmo com a reação positiva do público, talvez, o principal destinatário daquelas obras sempre foram os próprios autores, ou seja, nós mesmos.

Isso levanta uma série de questões, dezenas de possibilidades. A mais bonita delas ao meu ver, é a crença de que o coração planta sementes (dicas/orientações/conselhos), dentro de si mesmo. Alguns dos rabiscos é claro, vão ao público – são para o público! Outros porém, são nossos. Exclusivos e pessoais. É a alma que os desenvolve e planta em si mesma. São sementes que servirão como um gatilho, um “start” evolutivo, para que o próprio inconsciente vá absorvendo aos poucos a ideia adquiria. Assim que possuir base prática e não só teórica para tal, elas então germinam, crescem, tornam-se árvores; verdadeiros testemunhos do nosso avanço. Normalmente não notamos, pois estamos embalados demais na rotina para realizar reflexões pessoais e perceber que há coisas boas desabrochando por dentro.

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O incrível natal de Nicolas Volkov

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Nicolas Volkov nasceu na Alemanha em 1985, entretanto no desejo de viverem próximos aos parentes, seus pais se mudaram para a Ucrânia, dois anos depois. Na véspera de natal de 2001, já com dezesseis anos, ele e a família se reuniram na casa dos avós na cidade de Kiev, onde também morava, para juntos comemorarem o nascimento de Jesus Cristo. Nicolas estava ansioso para o momento de entrega dos presentes, na verdade, era tudo que ele realmente esperava. No decorrer do dia, das semanas anteriores e dos meses passados, o rapaz não falava de outra coisa a não ser o seu próprio presente. Ele queria um Playstation, console de ponta para a época. E mais do que pedido aos familiares, ele já havia feito promessas colocando em jogo até a própria alma! Dizendo que seria tão santo quanto qualquer papa, caso ganhasse o videogame. Contudo sua alegria foi bem mais do que passageira, Nicolas ganhou presentes simples naquela noite; Logo após o jantar, seus avós lhe presentearam com um livro, seus tios, com um rádio. Já os seus pais, destruíram todas as expectativas do rapaz ao tirarem dos pés da arvore de natal, um embrulho, contendo um casaco de lã.

 

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