esvanecer

querer que tudo se desfaça
desfazer-me de mim
quando existir
dói

a existência do eu
o ato da presença
dói

querer que tudo se desfaça
desfazer-me de tudo
que me faz ser eu
esvanecer
dói

desaparecer
dói

estou a esvanecer
por isso tanta
dor

o ato de desaparecer
se reerguer
a fusão
da existência
com a inexistência
a dor
do ser
e ao mesmo
tempo não ser

 

Sem destinatário

Oi,

Dias difíceis, não é? Pra mim também tem sido complicado. Correria, dúvidas, um turbilhão de coisas para fazer e coragem nenhuma. Vontade de ficar deitada o dia inteiro com os fones no ouvido e o mundo no mudo, mas não rola… a gente tem que seguir, não é? Por mais longo e difícil que seja o caminho a gente tem que seguir.

A gente tem que aceitar que esses dias ruins vez ou outra vão chegar, mas não podemos nos curvar diante deles para sempre. Esses dias nublados, cinzentos não podem durar eternamente. Sei lá, esses dias sempre passam então não deixa a vida desandar não. Digo por experiência própria, não se entrega não. Vai andar por aí, tomar um café, conversar com alguém, ler alguma coisa, escrever, observar o céu, a lua, as estrelas… qualquer coisa que não te deixe paralisar. Não fica se lamentando pelo que deu errado. Segue em frente. Todos nós temos um pouco de vazio aqui dentro. Não desiste não.

Continue lendo “Sem destinatário”

Sertão

Você não nasceu pra ser minha assim como não nasci pra ser seu, todavia carregamos uma característica comum: o vazio da alma. Uma sede inconstante que nenhuma alegria sacia, um inconsciente desidratado que se arrasta dia e noite pelo deserto. Sem satisfação, sem remédio, sem descanso. Preenchemos nossos vazios habitando as areias um do outro ocasionalmente. Um fim de semana ali, um feriado acolá. Você é o meu oásis das noites mais difíceis e também uma miragem que se desmonta ao longe, logo que vou embora, carregada pelas tempestades cotidianas.

 

Carrego esse vazio desde garoto, essa alma infrutífera, essa falta de sabe-se lá Deus do quê. Na época sonhava com um tempo de reflorestamento, que no futuro alguém chegaria para semear e trazer a flora necessária. Vidas, alegrias, músicas, cheiros, minúcias… saciação constante. Esse tempo nunca chegou e de tanto procurar, acabei desistindo dele. Até que certa feita, numa tarde qualquer, enquanto exprimia minha desmotivação diária, eu te vi passar. Vi nos seus olhos a mesma decepção natural que carrego desde o berço. E após alguns dias dividindo o café e noites compartilhando vinhos, decidimos que, dali por diante, encontraríamos alento um no outro de quando em quando. Nada como um pouco de tesão para andar mais rápido pela dimensão do sofrimento.

 

Porém eu não carreguei as sementes necessárias para fazer brotar a felicidade no seu coração, você também não possui as minhas. No máximo somos como cactos esporádicos que socorrem um ao outro; pontos verdes que aparecem no meio do nada para assegurar mais alguns dias de vida. Sou seu bom gole d’água e você é o meu. Pra quem já possui o costume de se ferir entre os espinhos, somos iguarias indispensáveis! Semanalmente nos fartamos, à vista disso, partimos.

 

Continue lendo “Sertão”

morada

seu texto chegou em um ótimo momento. estava a precisar de ler algo tão profundo para me sentir viva novamente. me emocionei muito. é um texto tão delicado e que causa um impacto tão incrível. estou em um marasmo de azar. para ver, estava escrevendo à mão quando do nada a caneta parou de funcionar, peguei outra e também nada. é domingo e por isso não tive coragem de sair para comprar uma caneta, resolvi escrever no bloco de notas do celular – mas não é a mesma coisa. as palavras já não fluem tão bem.

Continue lendo “morada”

Ócio

É a segunda quarta-feira do mês. Acordo cedo e fico deitada de olhos fechados com os fones no ouvido. Levanto às 9h30, tomo banho e saio para esperar o ônibus que passa duas ruas depois da minha. Chego ao shopping às 11h e como o filme só começa às 11h40, resolvo tomar um café. Sento-me e peço um expresso pequeno, tiro da bolsa meu cardeninho e minha caneta lilás. Tento escrever algo, mas não vem nada em mente. Fico então a observar as pessoas que passam de um lado para o outro, entram nas lojas e saem sorridentes com suas sacolas. Tento novamente escrever algo, mas não me vem nada em mente. Termino o café e subo para comprar meu ingresso, pois já passam das 11h30. Não demoro muito na fila, compro meu ingresso e vou para a sala três. Escolho a terceira fileira de cima para baixo, uma cadeira que tem a visão central da tela. Sento-me.

Continue lendo “Ócio”

Escreva um blog: WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: