Janela

Janela

Ela olhou pela janela. Não havia ninguém em sua porta. Jurara que escutou uma voz a chamar o seu nome. E, mais uma vez, se enganou.

As horas passaram. Já era tarde da noite e ela estava a se debruçar naquela mesma janela. Gostava de estar ali, de sentir o vento fresco soprando em seu rosto, modelando os fios de seu cabelo… Levantou os olhos e observou as estrelas. – Ah, como eu queria estar longe destas luzes para contemplá-las melhor -, sussurrou.

Viu um casal de namorados caminhando abraçados e percebeu que estavam apaixonados. “Como sei disso?”, ficou se perguntando. Outrora lhe bateu uma vontade enorme de vagar pelas ruas daquela cidadezinha, numa dessas altas horas da noite. Mas seu desejo logo se foi, sabia que não tinha disposição para tal coisa.

Fechou a janela e sentou-se numa velha poltrona na sala – e novamente, pôs-se a pensar. Imaginou umas duas ou três pessoas lhe fazendo uma visita inesperada. “Inesperada pra quem, se há tanto tempo eu espero!”. “Como eu reagiria?”, continuou se questionando. “Primeiramente iria falar: – eu não esperava!, com uma expressão de surpresa e emoção no rosto”. “Talvez algumas poucas lágrimas também”, pensou ela. “E por fim, estaríamos reunidos à mesa, comendo, dando altas gargalhadas, recordando acontecimentos”, finalizou.

Como ela gostaria que os seus pensamentos (pelo menos os bons) se tornassem reais. Porém, a realidade é cruel, por isso vivia presa nas suas imaginações.

Ela bocejou. Percebeu que chegara o momento de dormir. “Será que adormecerei rápido?”. E antes que apagasse a última lâmpada, olhou mais uma vez pela janela. Não porque pensou que ouvira alguém lhe chamando, mas porque aquele hábito lhe trazia esperança. Esperança que no dia seguinte alguém lhe visitaria, e depois comeriam, iriam rir, relembrar os velhos tempos… “Talvez amanhã… talvez algum dia, quem sabe”…

o olhar passeia

às vezes
não sei
sentir

o olhar passeia
devagar
percorre a cidade
inteira
pelos becos, vielas
praças, lojas
casas, igrejas
rodovias
o olhar passeia

mãos estendidas
pelas calçadas
corpos caídos
pelos becos
pés descalços
pelas avenidas

você vê?

meu olhar passeia
pela cidade
corpos frios
percorrem a cidade
o sol tão forte
mas não aquece
os corpos frios
que passeiam
de olhos abertos
mas não enxergam

Amaranto

Olhava pela janela do metrô aquele cenário tão antagônico ao dos filmes antigos:

Na paleta de cores, azul desbotado e cinza frio. Arvorezinhas perdidas em meio ao solo de concreto, respirando com dificuldade o ar pesado que entra pelas narinas mais sugando do que dando vida. Casinhas perdidas em lugares onde não deveriam está, recheadas de crianças com as pernas tão acinzentadas quanto os muros e as britas.

Tudo era daquela cor que não tinha cor: Cinza.

Ferrugem dos trilhos para combinar: Vermelho.

No peito, guardava muita coisa que não deveria guardar: Lembranças cinzentas que lhe eram como fumaça que invade os pulmões e polui aquela cidade que existe dentro da gente, sentimentos avermelhados que chocam-se contra o sol e fazem arder os olhos, tons vulcânicos, e tão quentes quanto, que descem pela garganta rasgando e queimando.

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