O homem que queria deixar de existir

Era terça-feira, havia chegado em casa depois do longo dia – entre uma fila e outra resolvendo burocracias. Sentou-se à beira da cama e ficou a observar a cidade. Chovia naquela noite. A cidade estava escura, dentro dele também havia escuridão. A chuva o deixara pensativo. Antes de entrar em casa ouvira os vizinhos falarem da tentativa de suicídio. O homem do prédio da frente havia tentado deixar de existir. Pensou na cena, pensou nas viaturas de policia, bombeiros chegando. Pensou na agonia da pessoa que havia ingerido dezenas e dezenas de comprimidos.

Saiu da cama e foi tomar. Embaixo do chuveiro continuou a pensar no homem que queria deixar de existir. Nunca o cumprimentara. Já o tinha observado algumas vezes pela janela do apartamento, ao entrar e sair do prédio, mas nunca trocaram uma palavra sequer. Não sabia se tinha família, animal de estimação ou um amor platônico. Pensou em como seria a vida do homem a partir de ali. Como as pessoas o veriam? Como ele próprio iria passar a se enxergar? Será que iria continuar a morar ali? E pensou também que pensar em todas essas coisas era besteira. Pensou em todas essas coisas e enquanto pensava pegou no sono.

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Paulista

Todo homem tem a obrigação de cumprir sua palavra e honrar suas promessas. Se um cara não tem culhão nem pra fazer valer o que diz, então pode joga-lo fora. É um inútil, imprestável, covarde, indigno de confiança. Ao menos, penso dessa maneira. E acho que teríamos menos problemas no mundo se todos pensassem do mesmo modo. E por falar em promessas, passei duas longas semanas refletindo sobre todas as juras que fiz e que deveria ter feito, até que uma, em especial, veio a cabeça. Eu prometi há anos e precisava cumprir, do contrário seria tão covarde quanto os demais. A decisão veio na madrugada de um fim de semana. Levantei, tomei um banho e peguei as chaves do carro. Liguei para o meu segurança e juntos viajamos 840 Km Brasil a fora. 10 horas se passaram e já estávamos a um bairro de distância do nosso destino. Era uma dessas tardes chatas de verão sem vento, com aquele céu azulado, morto, sem graça, pós pôr do sol. As cigarras cantavam por todas as esquinas, quiçá no pais inteiro. Carrinhos de pipoca passavam e as mães chamavam os filhos pra jantar. Eu estava com características gerais de um indivíduo com sono: cabeça cheia, corpo mole e pau duro (aquela típica dureza involuntária), além de bocejar sem parar. Debrucei-me no muro de uma ponte e tentava dar vazão aos pensamentos, mas estava complicado. Estávamos numa cidade do interior de São Paulo. Eu não me recordo o nome da cidade, mas acho que ela tinha nome de santo. Saímos da cidade do Rio de Janeiro e revezamos na direção, fazendo apenas duas paradas. Esta, inclusive, era a segunda. Decidimos parar pra beber alguma coisa, jogar uma água no rosto e se preparar para uma grande noite. Da ponte, eu jogava pedras no rio e observava o fluxo das águas. Marcos saiu de um bar com uma garrafa de refrigerante da pior marca na mão e se aproximou sorrindo, balançando dois copos plásticos. Eu não bebo refrigerante há dez anos e ele sabia disso. De saco cheio, passei a mão na cara e soltei alguns palavrões.

— Foi tudo o que você conseguiu? — Perguntei.

— Olha… Foi tudo o que consegui.

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Dói-me a indiferença

Fere mais a saudade do que a vã morte,

Amei a guerra do que teu amor,

Sede minha alma por teus beijos,

Teu cheiro não me disse adeus.

 

Lembranças em papeis rasgados,

Saudade em sonhos deixados,

Não temo mais nada, não choro,

Amor em ti vivo todos os dias.

 

Em meu orgulho e silêncio,

Sonho por ti cada instante,

Em uma maldita dor incessante.

 

O tempo parece não passar,

Espero-te em meus versos,

Amo-te e ei de te amar.

Destinos…

DESTINOS

Semanas atrás me ocorrera esse pensamento, que não passava de uma mera cogitação. Estava realmente disposto a fazer o que fosse preciso para que tudo em minha vida pudesse dar certo. Mas hoje, especificamente hoje, essa ideia se tornou uma concreta decisão: vou permitir que a própria vida conduza-me os passos. Talvez para você, caro leitor, essa afirmação seja uma grande bobagem, afinal, estamos destinados ao fim que nos espera. Porém, nesse percurso, nego-me a continuar tentando reverter os caminhos que os céus têm para mim traçado. Foram tentativas e mais tentativas… em vão.

Decidi também que não quero mais ser o autor da minha própria história. Esse negócio de ditar os rumos deste enredo é uma grande responsabilidade. Arriscado demais. Foi quando aderi ao trecho que determinada música diz: “deixa a vida me levar”… Apoiei-me somente nessa frase. Sendo assim, permito que a vida me leve para bem longe, se possível…

Logo após, ele fechou o caderno – intitulado “MEU CADERNO DE PENSAMENTOS” -, colocou-o no chão, virou-se para a parede e logo adormeceu, sua cama envolvendo-o como num enlace.
***
Era fim de tarde. Ele caminhava pela areia da praia com as sandálias nas mãos e uma incrível sensação de liberdade. Virou-se e viu que as pegadas haviam sido desfeitas, ora pelas ondas que sugavam a areia, ora pela brisa amena do mar. “All we are is dust in the Wind” (Tudo o que somos é poeira ao vento), pensou.

Depois de mais alguns passos, ele larga as sandálias e observa a sua volta. Não havia ninguém por perto, apenas umas poucas pessoas ao longe nos quais não notariam sua presença. Então, como se por um breve impulso, aquele jovem entra no mar. Podia ouvir as águas agitadas chamando o seu nome. “É um sinal”, pensou. Seguiu andando mar adentro, até que em certo ponto não sentia mais o chão debaixo de seus pés. Isso o deixou um pouco apavorado, mas não podia retroceder. Na verdade não queria. Chega um dia em que tudo precisa ser feito. E assim ele o fez.

Continuou seguindo em direção ao infinito, até que uma enorme onda o sugou para as profundezas, permitindo-lhe desvendar os mistérios que envolvem essa fascinante obra da criação. Passado algum tempo, ele não submergiu. O oceano realmente o abraçara. Não voltou mais. A vida o levou… E desta vez para sempre.

Na manhã seguinte, as sandálias daquele jovem rapaz estavam um pouco submersas na areia. Ali, um mendigo que caminhava as observou ainda distante. Pegou-as, lavou-as no mar e as calçou. Não mais ficaria descalço. Alegrou-se em apenas imaginar que os resíduos terrestres não iriam mais lhe espatifar os pés. Caminhara adiante, a ver se encontrava alguma coisa que lhe fosse útil. Nessa jornada, ele continuou prosseguindo em seu destino, assim como aquele jovem rapaz seguiu o seu…

That attempt

I left my sweet pride aside,
You deceived me with your sweet smile,
That is why misfortune has come upon me,
And it hurt me so much that I can not even cry.
I who was stoic and betray myself,
Hope has been my judge,
This is living and this is suffering,
However today I suffer.
Was that the poem you wanted to have?
I'm destined to wear this damn mask,
Mask that clung to my face,
Damn face without feelings,
That classic lie,
I loved you so much and you killed me like that.
I feel pain, I want to live,
There are days that I wish I had never been born.
This is worse than being shot,
It's worse than horseback riding on a rainy day.

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