Correspondência in-completa

*Para Ana Cristina Cesar

Oi,

É quarta-feira e eu tô deitada em minha cama te escrevendo. Faz alguns anos que li umas coisas sobre você. Li suas obras e sou fascinada pelas cartas. Fico procurando entender o que a fez ir embora tão cedo. Queria tê-la conhecido. Queria ter feito parte de sua vida – meio louco, né?!

Você é uma dessas pessoas que eu daria qualquer coisa para ter convivido ao menos um pouquinho. Ler você só me faz querer buscar entender o que se passava com você naquela época. Te ler só aumenta o meu desejo de tê-la conhecido de perto. Queria ter assistido as aulas da faculdade com você. Queria ter participado dos grupos de estudo que você participou – nem que fosse como uma mera observadora. Queria tê-la observado de perto. Encantadora, misteriosa e uma poeta fodástica.

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Dúbio

Olá, Débora.

Obrigado por escrever e por ainda se preocupar comigo. Estou deixando o hospital, o gesso coça um pouco, mas vou sobreviver.

É gostoso poder parar e elaborar, finalmente, uma resposta decente pra ti. Você me conhece como ninguém, sabes que no que tange ao coração, sempre fui um tanto covarde. E confesso que estando escondido atrás das letras, consigo ser mais claro e sincero sobre o modo como me sinto. A vida continua cansativa, infeliz e dolorosa. Exige muito de tudo o tempo inteiro. Agora, depois do nosso termino, muita gente anda se aproximando e perguntando como me sinto, se superei, se está tudo bem comigo. Dou uma resposta rápida em quase todas as vezes. É aquele esquema; a maior parte das pessoas que se encontram na mesma situação, mentem quando são indagadas, dizem que tudo está muito legal, esticam um sorriso e mudam de assunto. That’s all.

Embromar ao ouvir esse tipo de pergunta é uma atividade notória, já inclusa nas regras do nosso firewall pessoal. Então, quando questionado, também minto que as coisas estão ótimas, quando na verdade me sinto péssimo. Todo mundo sabe que não se deve falar da vida privada a qualquer um, não se deve bancar o maluco depressivo das pracinhas, das igrejas, das filas de banco, ou do elevador. Afinal, nem toda pessoa que deseja saber como estamos está, de fato, interessada no nosso bem. Entretanto você não faz parte dos fofoqueiros que me rodeiam. E já que me escrevera cobrando um desabafo, tentarei ser o mais sincero possível, descrevendo o que existe de mais indescritível no meu ser.

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Carta sobre nada

Os dias têm sido complicados, perdoe o sumiço. Tenho tido preguiça de escrever – é tão ridículo eu ter preguiça de escrever. Perdi muitas histórias boas nos últimos dias. Preciso voltar a escrever, escrever de verdade. Meu estoque de textos para o blog está acabando e se eu continuar com essa preguiça minha vida também acabará. Percebeu quantas vezes utilizei a palavra “preguica” só no primeiro parágrafo?

Tô ouvindo Elliott Smith, hoje todas as músicas dele estão a me fazer chorar e não sei o porquê. Estou chorando apenas. Que dias difíceis, não?

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Notas diárias

Hoje e a um certo tempo sou abraçado por momentos fortes de melancolia e reflexões existenciais. E ao contrário do que se espera bem sei que são nesses momentos que podemos aprender e mutar-se. Veja oh mortal os diversos lados de vossa existência! Não fazendo uma apologia ao sofrer, mas ao mínimo deixe-me buscar um sentido em meio a tudo isso.
Sou simultaneamente tomado por um calor sufocante, como se meu corpo estivesse sendo inflamado por pensamentos ascendentes. Nada de tão diferente, afinal não sou único a encontrar-se nos sentimentos.  Continue lendo “Notas diárias”

a vida nos espera

noite de quarta-feira, tô jogada em minha cama terminando de ler aquele livro que você dizia ser o seu preferido. eu só comecei a ler porque me lembrei de você. queria sentir sua presença de alguma maneira. já faz dois anos e eu ainda fico esperando que você apareça – como eu sou idiota.

tenho algumas cervejas e os cigarros estão acabando. faz dias que não consigo sair do quarto e pra ser sincera não consigo pensar em uma maneira ou em algo que me motive a sair daqui a não ser pra comprar bebida e cigarros. é louco, né?! eu te criticava tanto, falava pra você parar de fumar e olha só o que eu tô fazendo.

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