ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

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sobre dores invisíveis

essa tristeza será que um dia passa, C.? é que nada aqui faz sentido. choro pelos cantos. entristeço-me por tão pouco. sou tão afetada por tudo que me rodeia. queria que não fosse assim. será que um dia esse desânimo se manda daqui? eu queria ser forte. queria que a vontade de chorar fosse embora, mas não vai. esses dias nublados são danados pra nos deixar deprimidos, não é? espero que amanhã faça sol e que aqui dentro também seja sol. eu só queria que essa dor invisível fosse embora. um dia vai, não é? não enxergo a ferida aberta. o osso deslocado. o sangue jorrar.

[ferida aberta que não se fecha um dia nos leva embora que não seja agora]

amanhã fará sol

domingos são sempre tristes. domingos chuvosos são sempre tristes. não importa o barulho. a quantidade de conversas. as risadas na sala de estar. domingos chuvosos são sempre tristes. não importa o filme. o tipo de passeio. não importa o clima. domingos são sempre tristes.

arrumei os livros nas preteleiras. organizei em ordem alfabética. não gostei. organizei por ordem dos que mais gosto – o que demorou horas, carrego a dúvida comigo e um carinho especial por cada livro. arrumei a cama. roupa de cama limpa. limpei cada canto do quarto. arrumei as roupas no armário. quando dei por acabado a faxina, já era noite. domingos são sempre tristes. não importa o que eu faça. domingos são sempre tristes. parece que todo domingo é inverno. domingos chuvosos são sempre tristes. a previsão diz que amanhã fará sol. segundas parecem domingos, mas não. segundas nem sempre são tristes. amanhã fará sol.

enche de cores o mundo

gosto do seu jeito inocente de falar sobre as coisas. tudo fica mais bonito da forma que você fala. mais leve. profundo. e tantas outras coisas que não consigo descrever agora. as palavras saem da sua boca e bailam até os meus ouvidos. gosto como você fala dos seus sonhos de criança. de como você queria mudar a vida das pessoas através da literatura. gosto como você fala da poesia de manoel. sabe, às vezes eu te vejo como uma poesia de manoel. a poesia de manoel é avoada, sonhadora, cheia de miudezas que se tornam grandezas. ler manoel é atravessar um túnel e sair numa cidade onde as insignificâncias significam tanto; sair numa cidade onde as coisas “sem sentido” fazem sentido; é enxergar as pequenezas e enxergar-se como fazedor de amanheceres; ser capaz de puxar das entranhas o que de belo e inocente há no mundo. não sou capaz de descrever.

para cada noite escura há um amanhecer repleto de sol e café quente pra aquecer os sonhos. o menino pegou água na peneira, você pegou sonhos e acho que a ideia de pegar sonhos na peneira faz sentido. deixá-los passar pela peneira não quer dizer deixar ir embora quer dizer deixá-los livres. deixa os sonhos livres, menina. e voa, voa. a tela em branco espera para ser colorida. enche a vida de cores. faz teus contornos, preenche os espaços e não deixa a escuridão dos dias ou das pessoas te inundar. vai, enche de cores o mundo.

por cada canto

tem um pouco de você por cada canto daqui. olha, para cada parede cinza aqui no bairro existem dez coloridas. tem um pouco de você por cada canto daqui. para cada olhar triste que encontro existem cinco ou mais olhares de brilho intenso. eu já disse que tem um pouco de você por cada canto daqui? é, tem um pouco de você por cada canto daqui.

se chove, te enxergo fazendo café. cafuné. lembro de você cantando. se ouço aquela música triste, imagino você dançando ao som de violinos. tem um pouco de você por cada canto daqui. tem um pouco de você naquele grafite no muro da escola. um pouco de você no prédio onde moro. um pouco de você nas pinturas daquele cara que tava expondo na rua. um pouco de você nas pinturas daquele cara que tava em exposição na galeria. um pouco de você nas páginas daquele livro que li dias atrás. um pouco de você naquela música que ouvi ontem. é, tem um pouco de você por cada canto daqui. por cada canto de mim.

Faça silêncio!

 

Um pouco de papo e as palavras que

palpitam no coração a boca escapa.

 

 

Aquela velha capa…

Aquela velha capa…

 

Esconde o sentimento,

a vela apaga.

Pois tudo jaz cá dentro

e o peito embala

o sonho e o descontento

de quem cala.

 

 

E desse emaranhado,

minha entranha,

nasce este novo verso

que te estranha.

 

Pois é!

A vida está do avesso essa semana,

mas o que fica cá comigo

me acompanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

amalgamar

facada no peito

que rasga

sangra

é soco no estômago

grito no ouvido

 

sua palavra é

 

garoa de domingo

som de cachoeira

canto de pássaro ao meio-dia

 

sua palavra é

 

silêncio escandaloso

sol escaldante

arrepio na nuca

voo desengonçado

banho de rio

 

sua palavra é assim

tudo

amalgamado

 

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