Prosopopeico

As vezes olho as paredes

E parecem falar comigo

Alguma coisa surda,
Breve, opaca, indissoluta
O no timbre insuportável dos seus versos
Venho ver meu universo,
entre dedos me escorrer
E a cada gota suja da memória
Essa dor é minha história
Não é fácil de esconder
Já inerte
entre as notas frias da parede
Meu chorar, a minha sede
E essa melodia morta
Digo:
sede fortes, homens, sede!
Quem tem dor tudo suporta.
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ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

sobre dores invisíveis

essa tristeza será que um dia passa, C.? é que nada aqui faz sentido. choro pelos cantos. entristeço-me por tão pouco. sou tão afetada por tudo que me rodeia. queria que não fosse assim. será que um dia esse desânimo se manda daqui? eu queria ser forte. queria que a vontade de chorar fosse embora, mas não vai. esses dias nublados são danados pra nos deixar deprimidos, não é? espero que amanhã faça sol e que aqui dentro também seja sol. eu só queria que essa dor invisível fosse embora. um dia vai, não é? não enxergo a ferida aberta. o osso deslocado. o sangue jorrar.

[ferida aberta que não se fecha um dia nos leva embora que não seja agora]

amanhã fará sol

domingos são sempre tristes. domingos chuvosos são sempre tristes. não importa o barulho. a quantidade de conversas. as risadas na sala de estar. domingos chuvosos são sempre tristes. não importa o filme. o tipo de passeio. não importa o clima. domingos são sempre tristes.

arrumei os livros nas preteleiras. organizei em ordem alfabética. não gostei. organizei por ordem dos que mais gosto – o que demorou horas, carrego a dúvida comigo e um carinho especial por cada livro. arrumei a cama. roupa de cama limpa. limpei cada canto do quarto. arrumei as roupas no armário. quando dei por acabado a faxina, já era noite. domingos são sempre tristes. não importa o que eu faça. domingos são sempre tristes. parece que todo domingo é inverno. domingos chuvosos são sempre tristes. a previsão diz que amanhã fará sol. segundas parecem domingos, mas não. segundas nem sempre são tristes. amanhã fará sol.

enche de cores o mundo

gosto do seu jeito inocente de falar sobre as coisas. tudo fica mais bonito da forma que você fala. mais leve. profundo. e tantas outras coisas que não consigo descrever agora. as palavras saem da sua boca e bailam até os meus ouvidos. gosto como você fala dos seus sonhos de criança. de como você queria mudar a vida das pessoas através da literatura. gosto como você fala da poesia de manoel. sabe, às vezes eu te vejo como uma poesia de manoel. a poesia de manoel é avoada, sonhadora, cheia de miudezas que se tornam grandezas. ler manoel é atravessar um túnel e sair numa cidade onde as insignificâncias significam tanto; sair numa cidade onde as coisas “sem sentido” fazem sentido; é enxergar as pequenezas e enxergar-se como fazedor de amanheceres; ser capaz de puxar das entranhas o que de belo e inocente há no mundo. não sou capaz de descrever.

para cada noite escura há um amanhecer repleto de sol e café quente pra aquecer os sonhos. o menino pegou água na peneira, você pegou sonhos e acho que a ideia de pegar sonhos na peneira faz sentido. deixá-los passar pela peneira não quer dizer deixar ir embora quer dizer deixá-los livres. deixa os sonhos livres, menina. e voa, voa. a tela em branco espera para ser colorida. enche a vida de cores. faz teus contornos, preenche os espaços e não deixa a escuridão dos dias ou das pessoas te inundar. vai, enche de cores o mundo.

por cada canto

tem um pouco de você por cada canto daqui. olha, para cada parede cinza aqui no bairro existem dez coloridas. tem um pouco de você por cada canto daqui. para cada olhar triste que encontro existem cinco ou mais olhares de brilho intenso. eu já disse que tem um pouco de você por cada canto daqui? é, tem um pouco de você por cada canto daqui.

se chove, te enxergo fazendo café. cafuné. lembro de você cantando. se ouço aquela música triste, imagino você dançando ao som de violinos. tem um pouco de você por cada canto daqui. tem um pouco de você naquele grafite no muro da escola. um pouco de você no prédio onde moro. um pouco de você nas pinturas daquele cara que tava expondo na rua. um pouco de você nas pinturas daquele cara que tava em exposição na galeria. um pouco de você nas páginas daquele livro que li dias atrás. um pouco de você naquela música que ouvi ontem. é, tem um pouco de você por cada canto daqui. por cada canto de mim.

Faça silêncio!

 

Um pouco de papo e as palavras que

palpitam no coração a boca escapa.

 

 

Aquela velha capa…

Aquela velha capa…

 

Esconde o sentimento,

a vela apaga.

Pois tudo jaz cá dentro

e o peito embala

o sonho e o descontento

de quem cala.

 

 

E desse emaranhado,

minha entranha,

nasce este novo verso

que te estranha.

 

Pois é!

A vida está do avesso essa semana,

mas o que fica cá comigo

me acompanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

amalgamar

facada no peito

que rasga

sangra

é soco no estômago

grito no ouvido

 

sua palavra é

 

garoa de domingo

som de cachoeira

canto de pássaro ao meio-dia

 

sua palavra é

 

silêncio escandaloso

sol escaldante

arrepio na nuca

voo desengonçado

banho de rio

 

sua palavra é assim

tudo

amalgamado

 

o olhar passeia

às vezes
não sei
sentir

o olhar passeia
devagar
percorre a cidade
inteira
pelos becos, vielas
praças, lojas
casas, igrejas
rodovias
o olhar passeia

mãos estendidas
pelas calçadas
corpos caídos
pelos becos
pés descalços
pelas avenidas

você vê?

meu olhar passeia
pela cidade
corpos frios
percorrem a cidade
o sol tão forte
mas não aquece
os corpos frios
que passeiam
de olhos abertos
mas não enxergam

Sem título

D.,

Perdoa-me por escrever depois de tanto tempo. Prometi enviar o e-mail – queria muito ter mandado -, mas os dias difíceis não me permitiram. Te escrevo agora e peço desculpas.

Por onde tens andado? Andas escrevinhando muito? As palavras não me visitam mais – ou até visitam, mas as tenho mandado embora. Meu humor está péssimo. Minha vida uma bagunça. Eu só queria fechar os olhos e dançar na chuva. Não há leveza nas coisas e se há, não enxergo, não sinto. Essa morbidez que me toma, será que um dia passa?

Meu “caderninho de ser inútil” tem mais dez folhas. Quando acabar será que compro outro?  Será que eu não acabo antes de preencher as dez folhas que restam? Tenho medo de acabar antes do caderninho.

Se você estivesse aqui, te pediria um cigarro. Te chamaria pra caminhar. Você vive muito e eu tenho vivido pouco. D., a vida passou por aqui e eu a mandei embora. Acho que ela não volta. Será que volta?

Faz sol aqui, vou sair um pouco. Caminhar. Talvez eu compre cigarros. Quando você vem? Você ainda vem, não é? Será que te espero? Quando vier, promete que me empresta um pouco de vida? Me deixa andar com você. Me faz rir. Me conta histórias. Recita uns poemas e não me deixa acabar antes do meu caderninho.

desmanchar

sinto-me inspirada pelo amor que vivo
o pôr do sol em essência
as ruas excêntricas
o sol nascendo em timidez
as árvores em verde escandaloso e exuberante

tudo isso reflete a arte que há no mundo
e como a arte fica mais refinada quando me aqueço o peito com teu amor,
quando penso que existes em qualquer lugar que seja.

tudo que desejo em âmbito amoroso habita em teu peito
os sonhos que possuo flutuando pelo céu
pássaros que cantam no momento que acordo
a natureza recordando-me pelo que vivo.

exatamente a todo momento
lembro de você.
és o que me torna mais apaixonada
por mim mesma
e pelo mundo a minha volta.

prossegues sendo tudo isso
não deixando de se desmanchar em meus braços ao final do dia.

(Arte usada da Kaethe Butcher)

efusão

 

A confusão borbulha em meu peito
Em efusão — queima,
Quanto mais me movimento,
Mais se espalha este amargo efervescente.
Decidi então, sentar e pensar…
Nunca estive tão aprofundada em subjetividade
Esfriando o peito a sopros
Acalmando o incêndio
E obtendo sucesso.
Finalmente estou sabendo
Viver dentro de mim.

vagarosa noite

a noite que antes
parecia correr desesperadamente
agora parece andar [tranquilamente]

não há sono

contemplo as paredes
do quarto
fico a me perder em pensamentos
mas não há sono
posso ouvir cada mínimo ruído
e a música que toca nos fones
fica em segundo plano
enquanto as horas passam devagar

 

a noite agora é longa
e não há sono
sim, não há sono
não há…
há um turbilhão de pensamentos
a rodopiar em minha mente

há o ódio, o amor
há o cansaço e a dor
há aqui rodopiando por dentro de mim
desespero, angústia
a falta e o transbordamento
de que
eu não sei

 

 

espaço

Os sentimentos intensos
que diariamente perpassam meu corpo
a mente insone
em cores fortes
vibrantes
rápidas
destemidas.
Elas vem e vão sem medo
percorrem um trajeto já traçado
desconexa do que fui
aproximada cada vez mais do que sou
hoje.
Em todos lugares
pelas cores
vibro em companhia do vento.
O gênio forte que me dizem não saber lidar
não me amedronta
sou deveras confortante pra mim mesma.
Em um mundo caótico
vivo meu espaço
não quero me conectar ao que é raso.

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