vagarosa noite

a noite que antes
parecia correr desesperadamente
agora parece andar [tranquilamente]

não há sono

contemplo as paredes
do quarto
fico a me perder em pensamentos
mas não há sono
posso ouvir cada mínimo ruído
e a música que toca nos fones
fica em segundo plano
enquanto as horas passam devagar

 

a noite agora é longa
e não há sono
sim, não há sono
não há…
há um turbilhão de pensamentos
a rodopiar em minha mente

há o ódio, o amor
há o cansaço e a dor
há aqui rodopiando por dentro de mim
desespero, angústia
a falta e o transbordamento
de que
eu não sei

 

 

espaço

Os sentimentos intensos
que diariamente perpassam meu corpo
a mente insone
em cores fortes
vibrantes
rápidas
destemidas.
Elas vem e vão sem medo
percorrem um trajeto já traçado
desconexa do que fui
aproximada cada vez mais do que sou
hoje.
Em todos lugares
pelas cores
vibro em companhia do vento.
O gênio forte que me dizem não saber lidar
não me amedronta
sou deveras confortante pra mim mesma.
Em um mundo caótico
vivo meu espaço
não quero me conectar ao que é raso.

esvanecer

querer que tudo se desfaça
desfazer-me de mim
quando existir
dói

a existência do eu
o ato da presença
dói

querer que tudo se desfaça
desfazer-me de tudo
que me faz ser eu
esvanecer
dói

desaparecer
dói

estou a esvanecer
por isso tanta
dor

o ato de desaparecer
se reerguer
a fusão
da existência
com a inexistência
a dor
do ser
e ao mesmo
tempo não ser

 

inquietação

caco de vidro penetrando
a pele

barco naufragando
em meio à tempestade

corpo na beira do abismo

eco falho
grito preso na garganta

todas as dores do mundo
todos os gritos do mundo
todas as angústias do mundo
todos os pedidos de ajuda do mundo
todas as solidões do mundo

passam agora por mim
me atravessam o corpo,
a alma
dão voltas por dentro de mim
e me devoram inteira

 

Sem norte

Nesse porto muitos chegam, mas todos vão

Na solidão o marinheiro controla o navio

Deixando-se à deriva

E em perigo

 

Nesse porto não há abrigo

Quem chega sempre está perdido

E como uma aparição

Vai-se embora

Deixando ao relento o marinheiro

Que acostumou-se a navegar no vão

E sempre voltar ao porto sem arrimo

 

O marinheiro é o próprio ermo

Lugar desabitado

O diferente que encanta

E que o costume desencanta

O amor que é despedido

Quando um novo amor é empregado

 

O marinheiro não tem câmera para fotografar os golfinhos

Não tem norte

Não tem sorte

Ao olhar a agua tão límpida do mar

Ele sente vontade de se entregar

Afogar-se no azul anil cor de horizonte distante

No verde cor de trevo de quatro folhas

No infinito finito

E por fim ao seu destino improvisado

Que ele acredita nunca ter começado

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