o olhar passeia

às vezes
não sei
sentir

o olhar passeia
devagar
percorre a cidade
inteira
pelos becos, vielas
praças, lojas
casas, igrejas
rodovias
o olhar passeia

mãos estendidas
pelas calçadas
corpos caídos
pelos becos
pés descalços
pelas avenidas

você vê?

meu olhar passeia
pela cidade
corpos frios
percorrem a cidade
o sol tão forte
mas não aquece
os corpos frios
que passeiam
de olhos abertos
mas não enxergam

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Sem título

D.,

Perdoa-me por escrever depois de tanto tempo. Prometi enviar o e-mail – queria muito ter mandado -, mas os dias difíceis não me permitiram. Te escrevo agora e peço desculpas.

Por onde tens andado? Andas escrevinhando muito? As palavras não me visitam mais – ou até visitam, mas as tenho mandado embora. Meu humor está péssimo. Minha vida uma bagunça. Eu só queria fechar os olhos e dançar na chuva. Não há leveza nas coisas e se há, não enxergo, não sinto. Essa morbidez que me toma, será que um dia passa?

Meu “caderninho de ser inútil” tem mais dez folhas. Quando acabar será que compro outro?  Será que eu não acabo antes de preencher as dez folhas que restam? Tenho medo de acabar antes do caderninho.

Se você estivesse aqui, te pediria um cigarro. Te chamaria pra caminhar. Você vive muito e eu tenho vivido pouco. D., a vida passou por aqui e eu a mandei embora. Acho que ela não volta. Será que volta?

Faz sol aqui, vou sair um pouco. Caminhar. Talvez eu compre cigarros. Quando você vem? Você ainda vem, não é? Será que te espero? Quando vier, promete que me empresta um pouco de vida? Me deixa andar com você. Me faz rir. Me conta histórias. Recita uns poemas e não me deixa acabar antes do meu caderninho.

Na cara a porta

São passos, calado,

dinheiro contado,

sorrisos sem jeito.

 

São coisas da vida.

A dor é sentida,

gemida no peito.

 

Enquanto escorrega,

o amor que me nega

não vale o esforço.

 

Se pensas querida

que dói tua partida,

só sinto o desgosto.

desmanchar

sinto-me inspirada pelo amor que vivo
o pôr do sol em essência
as ruas excêntricas
o sol nascendo em timidez
as árvores em verde escandaloso e exuberante

tudo isso reflete a arte que há no mundo
e como a arte fica mais refinada quando me aqueço o peito com teu amor,
quando penso que existes em qualquer lugar que seja.

tudo que desejo em âmbito amoroso habita em teu peito
os sonhos que possuo flutuando pelo céu
pássaros que cantam no momento que acordo
a natureza recordando-me pelo que vivo.

exatamente a todo momento
lembro de você.
és o que me torna mais apaixonada
por mim mesma
e pelo mundo a minha volta.

prossegues sendo tudo isso
não deixando de se desmanchar em meus braços ao final do dia.

(Arte usada da Kaethe Butcher)

efusão

 

A confusão borbulha em meu peito
Em efusão — queima,
Quanto mais me movimento,
Mais se espalha este amargo efervescente.
Decidi então, sentar e pensar…
Nunca estive tão aprofundada em subjetividade
Esfriando o peito a sopros
Acalmando o incêndio
E obtendo sucesso.
Finalmente estou sabendo
Viver dentro de mim.

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