Ponto e vírgula

Olhando a lua percebo que talvez eu nunca tenha mudado. E se eu sobrevivi antes e antes, eu posso sobreviver de novo.

Entramos em um estado em que deixamos de nos abater e de acreditar que é o fim do nosso tempo, e enxergamos o quanto somos fortes para termos chegado até o presente. São tempos difíceis agora, mas eram também antes. E aqui estamos. Aqui estou, no caso. Somente eu.

Acho que começo novamente a entender quem eu sou, ouço o barulho dos muros de fantasia se derrubando, e o estrondo que a ingenuidade e a confiança fazem ao cair ao chão.

Sinto a necessidade de demolir o prédio de concreto que eu mesma edifiquei, e sinto-me forte o bastante para vê-lo se desmoronando. Estou preparada para inalar toda essa poeira, considero-me imune a qualquer intoxicação que ela possa me trazer. Chega. Eu termino essa fase por aqui, e mesmo machucada e com uma vida repleta de entulhos de um prédio derrubado, eu sei que venci.

Duas vezes basta

De novo e de novo
Requer repetição
Requer juntar os cacos depois de cada colisão
Mas resignificando toda a minha ideia sobre tentativas
O seu “para sempre” tinha apenas duas vidas

Semanalmente

Novamente ele perde o ônibus. Outro deslize de tipo e logo ficará desempregado. Ele não se importa, embora devesse se importar. Ele não está nem ai, embora precise estar. Há anos se sente perdido, ressentido, deslocado, atrapalhado. Pela quinta vez, arrisca tirar a pele do machucado, porém a ferida volta a sangrar, ela sempre volta a sangrar. Não secou, não está pronta ainda. Ele pira! Xinga! E saliva a marca feia no braço. Insiste na cura que não chega. Berra contra o tempo que não passa.

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Procuro-me

Eu sinto a minha falta. Sinto falta daquela que acredito ser eu e tento encontra-la desesperadamente.

Já não sei quem sou. Não sei quem é aquela que me olha assustada no reflexo do espelho aflita para encontrar algo, tão pouco conheço aquela que sorri despreocupada de coisas sem graça.

Perdi-me em algum lugar. Essa que sou hoje tenho certeza que inventei.

Não sei do que gosto mais, e nem o porquê que venho sendo quem sou. Entreguei-me as correntezas da vida e elas traçaram o meu rumo baseadas no improviso.

Já não sei o que quero. Já não para onde vou. Não sei quem é essa que eu chamo de “eu”, e que eles dizem “você” porque quando a vejo, não me vejo, e quando a sinto eu tenho medo.

Se encaro-me voluntariamente ou acidentalmente, logo quero fugir de mim. Logo busco alternativas para não olhar-me. E não me olho, ignoro-me totalmente. Em uma atitude radical finjo que não me vejo.

Tenho falado a palavra “excelente” e “loucura” excessivamente. Dormido pouco, comido menos. Essa não sou eu.

Certa vez pintei secretamente um auto retrato de quem desconfio ser-me, ainda que seja apenas um esboço, guardei-o como se guarda o mais valioso tesouro. Talvez eu deva enfim torna-lo público para que os outros me ajudem a encontrar-me. Porém não farei isso. Se aquela for realmente quem sou, ela é só minha, e mesmo diante da incerteza, chamei-a Eu e vou guardá-la só para mim. E guardei-a em uma caixinha, não sei exatamente onde, mas foi por ali, dentro de mim.

Já faz um tempo que não abro a caixinha e a olho. Espero que Eu ainda esteja lá.

Recado na porta da geladeira

O mundo lá fora gira agitado, meio tombado de lado, sei lá!

Há coisas novas acontecendo por todo canto, e as cortinas das casas estão se fechando mais cedo por causa do frio. Aqui comigo os planos ainda são os mesmos: ando fazendo adaptações para que eu possa caber em mim. Não leio os jornais e falo sobre assuntos que eu não sei baseada em livros antigos que li e que mal sei pronunciar o nome do autor. Depois, sozinha, rio da minha ignorância.

Ando devagar pelas ruas e converso com os meus gatos. Sempre esqueço de molhar as plantas, mas nunca de cumprimenta-las. Não me sinto mal, contudo não estou bem o suficiente.

Nada em especial acontece. É sexta-feira, amor!

Procurei por mim hoje como nos dias anteriores – É realmente difícil encontrar aquilo que não se conhece – sai cedo e resolvi as minhas coisas, o que não consegui hoje ficou para amanhã.

Amanhã é o meu aniversário. Há uma calmaria boa aqui dentro. Eu me sinto bem por não ler os noticiários, de todas as formas comprei uma quantidade a mais de biscoitos amanteigados e ração para os gatos.

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