Torpe

Devo parar com essa mania de deixar o celular sempre no modo silencioso, aliás, não devo. Por pouco não te atendo, melhor, o atendo.

Coloquei o número desconhecido no WhatsApp para ver de quem se tratava. O susto manifestou-se com os mesmos lábios entreabertos que uso em frente ao espelho para ajeitar o cabelo: Você na foto, aparentemente, usando o terno que te vi pela última vez, sendo sepultado.

“Alguém tirou uma foto sua com aquele terno e está você aqui” – pensei. Lembranças vieram a tona. Não era possível que você viesse me assombrar do além, e mais uma vez ouviria os seus gritos, e eu gritaria de volta como sempre fizemos…

A calmaria veio logo depois, não era você na foto, era o meu tio, o seu irmão. Vocês nunca se deram bem. Acho que eu também não me dou bem com vocês ainda…

O que doeu fino e agudo em forma de peso na consciência foi: Acho que esqueci um pouco as suas feições. Senti no meu peito batidas tão lentas quanto as suas, e uma lágrima pesada que estava segura desde a semana passada desceu.

Eu tenho lembrado de você constantemente e tenho feito grande esforço para limpar o teu nome no meu coração.

Não vou retornar para o tio. Eu não sei o que ele quer e lhe devo dinheiro.

No mais, tudo que te peço é que, por favor, pare de frequentar as aulas de microbiologia, estragar os meus relacionamentos e não me “ligue” mais. A nossa última conversa foi boa, não quero que você me ofenda e estrague tudo. Como sempre fez.

PS: Eu retornei a ligação para o tio, mas ele não atendeu. Deve ter ligado por engano…

O Mecanismo

Todos os dias no caminho para o trabalho, passo por uma determinada rua. E nessa rua há uma determinada casa. E essa determinada casa difere das outras, de uma maneira pra lá de incomum. Sua porta e janelas são velhas e estão sempre trancadas. Sua cor já foi perdida na aparência desgastada, seu quintal está repleto de mato, seu telhado está quebrado, sua afiação foi rompida e ela não possui muros. Não há sinal de vida no lugar. O único objeto familiar a meu ver está desenhado na parede: uma bandeira do Brasil grafada a giz, feita no puro cimento.

Quando passo por ela, sinto uma catinga forte, inconfundível. Uma podridão insuportável, além do barulho infernal das moscas que rondam algum canto incerto da casa. Não sei dizer se elas estão em cima, ao lado, nos fundos ou dentro da residência. Tudo que sei é que posso ouvi-las — uma eternidade em segundos.

Todos os dias eu me pergunto como a vizinhança não estranha tal situação. Perguntou-me como ninguém busca saber o que causa o mau cheiro na casa, ou o motivo da nuvem moscas. Qual seria a razão de permanecerem tão inertes, tão indiferentes, num ambiente completamente desconfortável? Não conheço a verdadeira causa, se houver uma.

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Ponto e vírgula

Olhando a lua percebo que talvez eu nunca tenha mudado. E se eu sobrevivi antes e antes, eu posso sobreviver de novo.

Entramos em um estado em que deixamos de nos abater e de acreditar que é o fim do nosso tempo, e enxergamos o quanto somos fortes para termos chegado até o presente. São tempos difíceis agora, mas eram também antes. E aqui estamos. Aqui estou, no caso. Somente eu.

Acho que começo novamente a entender quem eu sou, ouço o barulho dos muros de fantasia se derrubando, e o estrondo que a ingenuidade e a confiança fazem ao cair ao chão.

Sinto a necessidade de demolir o prédio de concreto que eu mesma edifiquei, e sinto-me forte o bastante para vê-lo se desmoronando. Estou preparada para inalar toda essa poeira, considero-me imune a qualquer intoxicação que ela possa me trazer. Chega. Eu termino essa fase por aqui, e mesmo machucada e com uma vida repleta de entulhos de um prédio derrubado, eu sei que venci.

Duas vezes basta

De novo e de novo
Requer repetição
Requer juntar os cacos depois de cada colisão
Mas resignificando toda a minha ideia sobre tentativas
O seu “para sempre” tinha apenas duas vidas

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