Escrever e nada mais!

Certa vez um leitor me disse que estava decepcionado com os escritores atuais sobretudo porque, segundo ele, a maioria deles “perdem muito tempo escrevendo sobre si mesmos e não criam novas histórias, crônicas, poemas, contos e novelas de tirar o fôlego” (sic). Eu entendo a crítica dele e respeito a opinião mas, precisamente sobre ela, gostaria de fazer uma pequena observação;
Continue lendo “Escrever e nada mais!”

Anúncios

Dúbio

Olá, Débora.

Obrigado por escrever e por ainda se preocupar comigo. Estou deixando o hospital, o gesso coça um pouco, mas vou sobreviver.

É gostoso poder parar e elaborar, finalmente, uma resposta decente pra ti. Você me conhece como ninguém, sabes que no que tange ao coração, sempre fui um tanto covarde. E confesso que estando escondido atrás das letras, consigo ser mais claro e sincero sobre o modo como me sinto. A vida continua cansativa, infeliz e dolorosa. Exige muito de tudo o tempo inteiro. Agora, depois do nosso termino, muita gente anda se aproximando e perguntando como me sinto, se superei, se está tudo bem comigo. Dou uma resposta rápida em quase todas as vezes. É aquele esquema; a maior parte das pessoas que se encontram na mesma situação, mentem quando são indagadas, dizem que tudo está muito legal, esticam um sorriso e mudam de assunto. That’s all.

Embromar ao ouvir esse tipo de pergunta é uma atividade notória, já inclusa nas regras do nosso firewall pessoal. Então, quando questionado, também minto que as coisas estão ótimas, quando na verdade me sinto péssimo. Todo mundo sabe que não se deve falar da vida privada a qualquer um, não se deve bancar o maluco depressivo das pracinhas, das igrejas, das filas de banco, ou do elevador. Afinal, nem toda pessoa que deseja saber como estamos está, de fato, interessada no nosso bem. Entretanto você não faz parte dos fofoqueiros que me rodeiam. E já que me escrevera cobrando um desabafo, tentarei ser o mais sincero possível, descrevendo o que existe de mais indescritível no meu ser.

Continue lendo “Dúbio”

Notas diárias

Hoje e a um certo tempo sou abraçado por momentos fortes de melancolia e reflexões existenciais. E ao contrário do que se espera bem sei que são nesses momentos que podemos aprender e mutar-se. Veja oh mortal os diversos lados de vossa existência! Não fazendo uma apologia ao sofrer, mas ao mínimo deixe-me buscar um sentido em meio a tudo isso.
Sou simultaneamente tomado por um calor sufocante, como se meu corpo estivesse sendo inflamado por pensamentos ascendentes. Nada de tão diferente, afinal não sou único a encontrar-se nos sentimentos.  Continue lendo “Notas diárias”

Sertão

Você não nasceu pra ser minha assim como não nasci pra ser seu, todavia carregamos uma característica comum: o vazio da alma. Uma sede inconstante que nenhuma alegria sacia, um inconsciente desidratado que se arrasta dia e noite pelo deserto. Sem satisfação, sem remédio, sem descanso. Preenchemos nossos vazios habitando as areias um do outro ocasionalmente. Um fim de semana ali, um feriado acolá. Você é o meu oásis das noites mais difíceis e também uma miragem que se desmonta ao longe, logo que vou embora, carregada pelas tempestades cotidianas.

 

Carrego esse vazio desde garoto, essa alma infrutífera, essa falta de sabe-se lá Deus do quê. Na época sonhava com um tempo de reflorestamento, que no futuro alguém chegaria para semear e trazer a flora necessária. Vidas, alegrias, músicas, cheiros, minúcias… saciação constante. Esse tempo nunca chegou e de tanto procurar, acabei desistindo dele. Até que certa feita, numa tarde qualquer, enquanto exprimia minha desmotivação diária, eu te vi passar. Vi nos seus olhos a mesma decepção natural que carrego desde o berço. E após alguns dias dividindo o café e noites compartilhando vinhos, decidimos que, dali por diante, encontraríamos alento um no outro de quando em quando. Nada como um pouco de tesão para andar mais rápido pela dimensão do sofrimento.

 

Porém eu não carreguei as sementes necessárias para fazer brotar a felicidade no seu coração, você também não possui as minhas. No máximo somos como cactos esporádicos que socorrem um ao outro; pontos verdes que aparecem no meio do nada para assegurar mais alguns dias de vida. Sou seu bom gole d’água e você é o meu. Pra quem já possui o costume de se ferir entre os espinhos, somos iguarias indispensáveis! Semanalmente nos fartamos, à vista disso, partimos.

 

Continue lendo “Sertão”

2049

Na primeira vez que a encontrei não pude ver seu rosto. Uma bolha de sabão entrou nos meus olhos no exato momento em que eles se preparavam para capta-la. As crianças fazem bolhas de sabão na praça, é gostoso… as bolhas combinam com o clima ensolarado e com as músicas matinais de domingo. Ao recuperar a visão, assisti quando as amigas a levantaram e jogaram no chafariz. Ela parecia não se importar… O vestido branco deixava escapar a cor de sua calcinha, porém ela não estava nem ai! Chegara a carta de aprovação na universidade. Não era preciso ser muito esperto pra perceber que aquela notícia entraria no hall de conquistas da sua vida, não era preciso ser muito esperto pra perceber que eu já estava apaixonado. Vi seu lindo sorriso, combinava com as bochechas rosadas. Jamais me esqueceria daquele rosto, daquelas sardas, ou daquele cabelo molhado. Graças a bolha, minha vista estava vermelha e pulsava. Mas não tanto quanto meu coração.

Continue lendo “2049”

Dom Casmurro, o vírus do futuro

Entre as paredes das muitas vielas existentes no bairro da Lapa, há um mural em grafite antigo contando muitas histórias interessantes. Dentre tantas, uma rasa descrição sobre um tal de “Dom Casmurro”, desconhecido de qualquer morador local. O texto segue mais ou menos assim:

Continue lendo “Dom Casmurro, o vírus do futuro”

Inadaptado

Eu até pensei em te avisar que já não andava mais tão feliz, que o desgaste corroeu tudo que sinto por você, só que você sorria demais… um brilho no olhar de causar gosto e contentação ao público, ignorando qualquer problema que latejasse ao redor. Tentei te mostrar que o céu não estava mais tão azul quanto antes, que as coisas a volta andavam meio cinzas, ah, quantas vezes demonstrei! Mas você parecia não se importar com a tempestade que nascia no Sul, mesmo sabendo que o nosso lar não tinha firmamento suficiente para outro vendaval. O medo da solidão te lançou na ilusão de que a vida é perfeita e se ajeita sozinha quando se está com alguém. Sentei e expliquei, em diversas circunstâncias, que não é assim que a banda toca, que não podemos parar e ficar observando o caminhar das estações, que o amor não é um ponto de chegada, é uma eterna caminhada de encaixes e lapidações, havendo sempre a necessidade de ir avançando, aprendendo com os erros e se atualizando.

Continue lendo “Inadaptado”

“She’s online”.

Ok! Eu sei que normalmente não se ama alguém de primeira, meus pais me ensinaram isso! A TV também… As músicas, os livros, os professores, enfim: cada pedaço da vida. Eu também sei que não se promete, nem se declara todo seu amor pra alguém que você nunca viu, nunca sentiu e muito menos teve ao lado. Pra alguém na qual os únicos registros presentes são as fotografias e áudios. Pra alguém que me tornou um expert na arte de interpretar o que há por trás de cada olhar e o que se esconde nos intervalos da voz, sim! Eu uso essa artimanha… Fazer o quê, né? Foi necessário… Só assim fui capaz de interpreta-la tão bem; observando o que todos os outros normalmente ignoram. E por falar dos “outros”, vocês querem saber de uma coisa? Eu sei muito bem como as relações devem funcionar, sou um cidadão moderno e bem disciplinado, todavia resolvi ignorar tudo isso, resolvi ignorar o script padrão de como viver uma juventude saudável e me entreguei a contramão geral dos relacionamentos, contra a guia cultural de nutrição de sentimentos. Não fiz isso para me destacar, ou para demonstrar o quão superiores somos de todos os demais, pelo contrário: vacilamos tanto como todos os outros. A diferença é que não nos entregamos a corações diferentes por noite, por esquina. Somos oposição porque não optamos pelas opções mais fáceis, escolhemos/queremos/desejamos/sonhamos e planejamos a opção mais difícil de todas! A união de dois mundos apartados pelo destino, de duas almas enraizadas em pontos distintos do planeta.

Continue lendo ““She’s online”.”

Sri Lanka

E sucedeu que, uma vez ali, sentada e sozinha no quarto, ela topou abandonar o vício pela monotonia eletrônica e caiu em si. Antes mesmo do caçoar inquietante do temporal entre o basculante da janela. Antes do acaso atiçar os átomos e derrubar da mesa, a preferida e milenar xícara de chá. Antes dos “antes”, já havia uma decisão estabelecida: nada era capaz de lhe molhar na inquietação. As coisas que surgiam e partiam naquela noite eram meras obras tolas do universo que, inutilmente, tentavam distrai-la, mergulhando-a no lago do ócio. Mas a gata era esforçada, não se deixará levar, seu esforço demonstrava que naquele corpo não havia espaço aos frutos carnais disponíveis no mundo.

A posição de lótus tratou de calar a boca do plano físico. A energia girava por todo corpo – das gotas de suor presentes a cada transpiração, ao “novo” olho que brilhava no franzido da testa. Pura concentração! A imagem do fundo branco em sua mente depositava todas as canções e memórias que rodopiavam o inconsciente. “Quem é o ruivo nu?”, “O que há de novo nesse livro de química?”, as perguntas nasciam das imagens, memórias que tomavam formas e formas que criavam movimentos próprios e impróprios. Com os movimentos surgiam as incógnitas, com as incógnitas, os devaneios. Quando chegava ao vazio, sua cabeça voltava a ficar cheia. E quando finalmente abandonava a maré alta, não captava o ligeiro prazer existente no vazio.

Continue lendo “Sri Lanka”

Últimas palavras

Olá, meu neto. Saudades de você.

Perdoe-me pela demora em responder sua carta. Meu câncer alcançou um estágio avançado e com o decorrer do tratamento, ando tendo pouco tempo de sobra para os demais cuidados da vida. Pois bem, fico feliz que tenhas chegado aos 18 anos com muita saúde e inteligência. Gostei do que falaras sobre a relação que tive com sua falecida avó e de imediato, já quero responde-lo: sim! Éramos um casal feliz e apaixonado. Vivemos muito bem no decorrer dos 46 anos de união. Não éramos perfeitos, não gostamos muito um do outro de primeira, mas aprendemos a superar esses detalhes. Li também que ainda não superara muito bem a questão da sua ex-namorada e de como a nova vizinha andou balançando seu peito. Ah, meu filho… as coisas não são tão simples quanto parecem. Fez bem em me pedir alguns conselhos, há muito do que precisas aprender.

Pra começar, eu senti o ar de maturidade que você aplicou entre as letras, mas antes de tudo coloque uma coisa em mente: não se ache! Você ainda não é homem só porque possui um certificado de reservista no bolso. Muito menos pela entrevista de emprego marcada, ou pelas camisinhas usadas em baixo do colchão. Homens de verdade não dão pra trás nas situações difíceis. Eles aguentam, eles superam. Sempre com a cabeça erguida, sempre demonstrando coragem, mesmo quando se está completamente corroído por dentro.

Continue lendo “Últimas palavras”

Diferenças casadas

FB_IMG_1468021075572.jpg

As palavras pesam na minha boca com sapiência e ternura. O gaguejar suave, as pausas sob contextos concedem-me a cada segundo, uma língua medonhamente trêmula e confusa. Meus lábios apresentam características infantis… estou completamente bobo! Tal como uma criança provando pirulitos pela primeira vez. E por falar em princípios, não me recordo de já ter navegado por esse estado emocional, não sei de quem é a culpa ou se posso considerar culpados por todo este processo, tudo que sei é que me sinto um virgem, sentimentalmente falando, pois meu coração fora inaugurado por um lindo par de castanhos apaixonados. Desde então, vivo no maravilhoso êxtase de amar sem me preocupar em compreender a vida divinamente desenhada, nos episódios memoráveis ao seu lado.

Continue lendo “Diferenças casadas”

Sagrado Coração

x_07919f78.jpeg
E me disseram: “Este lugar pode estar sempre ao seu lado, é a alegria dentro de você, pois sua vida é luz” – Sagrado Coração, Legião Urbana

 

Das coisas do coração, sempre entendemos muito pouco. Todavia, com uma dose extra de humildade e carinho em todos os atos e pensamentos, seremos capazes de concluir, rapidamente, que as circunstâncias acontecem num jeito confuso de ser e se apresentam de tantas maneiras inexplicáveis, muita das vezes, porque como espécie não somos lá tão capazes de interpretar os diversos nuances apresentados pelo Mundo. Só que na maioria dos casos, não são os fatores externos que estão desencaixados e sim os fatores internos. E… vai por mim, dependendo do modo como as coisas estão sendo guiadas dentro do peito, o planeta inteiro perderá seu verdadeiro sentido sem ninguém ter culpa.

Como óculos escuros que inibem as variadas cores do dia, um coração desalinhado é totalmente incapaz de perceber os incontáveis detalhes da vida. Nesse caso, não adianta bater, brigar ou tentar colorir, artificialmente, os fatos e acasos rotineiros. No final das contas, junto ao travesseiro, tudo volta a doer. As descargas emocionais e o vazio interior, pesam como dores de parto numa mente desqualificada do poder de dar à luz.

Continue lendo “Sagrado Coração”

O Tempo

Por Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está à minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Quitana

Escreva um blog: WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: