A primeira carta

Alda,

Não sabia como iniciar, o tempo passou e eu acho que perdi a prática de como se iniciam as conversas   – até mesmo as escritas. Tenho sentido a sua falta todo esse tempo, mas havia em mim um certo receio de me comunicar por esse meio – “um pouco antiquado” – você diria. Pessoalmente eu riria disso mais uma vez, mas agora distante, e com o sacrifício que me é pegar uma caneta e escrever-te, me sentiria envergonhada com tal resposta, e provavelmente não mais escreveria.

Aqui continuo sem sinal, já desisti de conseguir internet, e a tv na sala, não mudou muito, está lá apenas para que eu pareça menos selvagem. Aos domingos vou a cidade e compro pão, pudim e um jornal que às vezes me disponho a ler, mas por fim desisto. Estou gostando de me esconder aqui, temo não querer mais sai. Posso plantar o meu próprio alimento e me isolar por completo aqui dentro, não se preocupe, não farei isso, o meu temor é exatamente o contrário, o de quando por fim eu terminar a montagem do herbário, e assim ter que arrumar as malas, coloca-las no carro e partir.

Tenho uma novidade: a senhora que mora “aqui perto” deu-me um pezinho de funcho (é erva-doce, digamos) e mais dois gatos, sobre eles não irei falar muito, não quero estressa-la. Mas quanto a planta sigo-a admirando, prometo dar-lhe mais notícias dela. A “folha seca” que estou te enviando, achei por aqui, não sei de que árvore vem, nem descobri, mas achei bonita e acho que irá gostar. É só.

Com amor,

Eleonor

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ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

sobre dores invisíveis

essa tristeza será que um dia passa, C.? é que nada aqui faz sentido. choro pelos cantos. entristeço-me por tão pouco. sou tão afetada por tudo que me rodeia. queria que não fosse assim. será que um dia esse desânimo se manda daqui? eu queria ser forte. queria que a vontade de chorar fosse embora, mas não vai. esses dias nublados são danados pra nos deixar deprimidos, não é? espero que amanhã faça sol e que aqui dentro também seja sol. eu só queria que essa dor invisível fosse embora. um dia vai, não é? não enxergo a ferida aberta. o osso deslocado. o sangue jorrar.

[ferida aberta que não se fecha um dia nos leva embora que não seja agora]

O imigrante da imaginação

Existe uma amarga estrada fria, muito grande e tortuosa que separa visivelmente nossa realidade ideal da que vivemos. E para não ficar sonhando acordado é melhor tentar buscar alcançar o ideal ou viver melancólico de tanto contar sonhos perdidos para as pessoas, mas frustrações não enchem barriga de ninguém e pesa muito a cabeça antes de dormir… E esse caminho não é calmo, ele é barulhento e cheio de curvas esburacadas, e pra piorar está caindo uma tempestade que tapa o para-brisa e os retrovisores. Podemos errar o destino ou bater esse carro em uma arvore ou até mesmo dar uma de iluminado diferentão e fingir que não estamos nessa pista enquanto as multas se acumulam todos os dias. Estar nas nuvens? Viver só de sonhos faz mal, nós nos tornamos demasiadamente platônicos e desligados do atual presente. Não quero ser um reclamão de tudo o que tenho vivido e de tudo que me cerca, pois gotas de gratidão em uma garganta seca vale-se muito. Tem até um autor que diz que para cada coisa ruim que se passa conosco devemos pensar em duas coisas boas que vivemos. E o que aconteceu antigamente não dá mais pra mudar. Continue lendo “O imigrante da imaginação”

Menino Pedro

O que a gente é quando já deixou de ser? A gente deixa de ser em algum momento? Foi Pedro de 9 anos que disse já não ser coisa alguma. Como pode tão pequeno dizer que já não é coisa alguma? Desci apressado o escadão hoje cedo, cumprimentei Pedro e os outros meninos que por lá estavam e antes de perdê-los de vista ouvi Pedrinho dizer que tava cansado de ser coisa nenhuma. Não consegui seguir em frente ouvindo aquilo sair da boca de um menino que pra mim sempre é tanta coisa. Aqui na vila todo mundo se conhece e todo mundo enfrenta sua guerra particular e às vezes uma ou outra batalha coletiva.

Por mais difícil que as coisas sejam por aqui, é quando a gente sobe o morro pra soltar pipa que cada um dos moleques é feliz pra valer. Dá gosto de ver o sorriso estampado na cara quando a pipa pega voo. O Pedro é alegre, menino danado, gente boa, esperto que é uma beleza. Acorda cedo pra catar latinha, sucata e papelão e pela tarde vai pra escola. Dias atrás, Pedro queria desistir da escola, mas conversa vai conversa vem; Pedro menino esperto continuou. A mãe, mulher guerreira disse pra ele continuar, disse que em casa com as despesas se dava um jeito. “Estudar te torna gente, menino”, é assim com a maioria dos pequenos aqui. Eu também ouvia da minha mãe a mesma coisa – e é comum ouvir de tantas outras mães aqui na vila. Alguns pais dizem que não leva a nada e tiram as crianças da escola – mesmo ameaçados de perder a guarda. “Tem que ajudar a manter a casa desde cedo, é assim que tu aprende a ser gente, menino”. E a criança segue a vida, na hora da bronca o olhar é triste, mas depois que sai pra rua esquece. Depois lembra. Depois esquece. Quando se dá conta já é adulto e aquilo fica a remoer por dentro. O que a gente não se dá conta é que “ser alguém” a gente sempre é, não é?

A beleza consola o mundo

Se não fosse a contemplação das coisas belas tudo estaria terminado em um absurdo de vazio e sofrimento, tudo estaria acabado antes mesmo de começar. Nossos dias se tornariam ainda mais sem sentido e sem graça pois o infinito cinza não teria valor algum em si mesmo. As almas com pouca autoconsciência não sentiriam tanta dor assim, já que repetem dormentes como máquinas de vagões as multidões inquietas… Continue lendo “A beleza consola o mundo”

Do lado de dentro

 

Pensou ter se livrado de tudo depois de ter perdoado e colocado as lembranças em um lugar profundo da mente. Achou ter perdido a chave daquilo, e enganou-se não fazer mais parte disso. “Estou livre” – iludiu-se. Às vezes ela via aquele curativo frágil, mas ignorava o que ele cobria. Por baixo do esparadrapo, a queimadura ainda ardia, inflamada e dolorida. O lugar se avermelhava e se aquecia, lá, mesmo que ela fingisse não ver, as coisas aconteciam.

Era final de outono, a cidade se lavou de um chuva que ela não viu cair, e se enfeitou de algo que ela não soube descrever, mas até o cheiro forte de incenso da rua, ou o fato de na rua escura está somente ela porque no mundo dela era ela e ela, não pareceu incomodar.

A blusa de inverno a abraçava e aquecia. Em casa ela tirava o casaco, sem ele até a respiração parecia uma ventania. Inspira e expira. Para dentro, para fora. Era o processo natural do vento voluntariamente obrigatório para manter-se viva. Continue lendo “Do lado de dentro”

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