Sem título

L.,

Te enviei os livros, me conta se recebeu. Daqui duas semanas viajo. Vou te mandar o endereço pra correspondência e você pode me escrever. Prometo escrever com mais frequência – sem telefonemas por um tempo.

A vida tem estado um tédio. Encontrei com P. ontem à noite e saímos pra comer pastel naquele lugar que você adora. O Dan perguntou de você. Disse que sente falta das suas visitas constantes. Ah, e o pastel de lá continua sendo o melhor. Deram uma repaginada no lugar, tá bem legal – você precisa ver!

P. reclama tanto da vida. Chamei pra viajar comigo, mas disse que não pode largar “a vida” e o emprego. Eu falei que era bobagem e recebi um sermão daqueles – como sempre. Queria poder fazer algo por ele, entende? Mas ele se tranca em si mesmo e é tão cabeça dura – amo e odeio simultaneamente. Ainda vou ver se o convenço a ir comigo. Aguarde cenas do próximo capítulo.

Fui visitar F. esses dias. Fiquei com pena dela, anda tão tristinha. Parece que tá com uns problemas com o marido e para completar a mãe tem estado bem doente. Falamos dos nossos tempos de faculdade, o que deu uma animada. Marcamos um café, mas não sei se vai sair – já marcamos outras vezes e sempre acontece algo. Falou que vai te escrever assim que as coisas derem uma maneirada.

Ai, o clima tem estado tão pesado por aqui. Preciso desencanar de algumas coisas. Tô torcendo pra que a viagem seja de boas e que eu consiga aproveitar. Tenho que aproveitar agora que a tristeza resolveu se mover e me deixou um pouco.

Mas me conta de você… O estágio tem sido bacaninha? Conheceu gente nova? Alguém especial? Aguardo correspondência sua, e te escreverei tão mais breve possível. Ah, o que você tem ouvido? Preciso de umas super dicas de músicas bem leves…

Com beijos,

De R.

P.S.: “E eu vou contando os dias, vou roubando as horas, quero tanto me encontrar…” É de uma música – “Tudo que não for vida” – do Vanguart. E eu tô maravilhada, ouça!!

Instável

Acorda de manhã sentindo os seus ossos lhe espetando. O espírito desconfortável em seu próprio corpo. Incomodada toma um banho, escova os dentes, tenta se limpar, tenta se adaptar.
O mundo girando cada vez mais lento em contraste com o tempo que parece voar como borboletas despreocupadas que acabam de sair do casulo e voam radiantes pelo céu.
Em uma tentativa frustrada começa a sorrir, sem motivo para isso a alma se desentende com o corpo, a mente assopra que não há razão para que o risório se contraia, que não há serotonina suficiente no sangue. Em um embate entre ela e ela, choca-se contra si. O motivo pouco importa, o produto final da reação, independente da regra que se segue sempre é o mesmo: ninguém vai matar as malditas borboletas para você. No seu mundo, menininha, é sempre no seu estômago que elas apodrecem, e você as vomita logo após por excesso de paracetamol e Zolpidem. E esse é o seu xeque-mate. Você balanceia a equação sempre adicionando “alguns reagentes extras na mistura”, e não é uma girl power que sai disso. É você. E você chora em algumas noites, dorme mal e tem dificuldades para se levantar de manhã. Townsville está em perigo, e você tem apenas você. Salve-a, salve a si mesma.

Sem título

D.,

Perdoa-me por escrever depois de tanto tempo. Prometi enviar o e-mail – queria muito ter mandado -, mas os dias difíceis não me permitiram. Te escrevo agora e peço desculpas.

Por onde tens andado? Andas escrevinhando muito? As palavras não me visitam mais – ou até visitam, mas as tenho mandado embora. Meu humor está péssimo. Minha vida uma bagunça. Eu só queria fechar os olhos e dançar na chuva. Não há leveza nas coisas e se há, não enxergo, não sinto. Essa morbidez que me toma, será que um dia passa?

Meu “caderninho de ser inútil” tem mais dez folhas. Quando acabar será que compro outro?  Será que eu não acabo antes de preencher as dez folhas que restam? Tenho medo de acabar antes do caderninho.

Se você estivesse aqui, te pediria um cigarro. Te chamaria pra caminhar. Você vive muito e eu tenho vivido pouco. D., a vida passou por aqui e eu a mandei embora. Acho que ela não volta. Será que volta?

Faz sol aqui, vou sair um pouco. Caminhar. Talvez eu compre cigarros. Quando você vem? Você ainda vem, não é? Será que te espero? Quando vier, promete que me empresta um pouco de vida? Me deixa andar com você. Me faz rir. Me conta histórias. Recita uns poemas e não me deixa acabar antes do meu caderninho.

Ponto e vírgula

Olhando a lua percebo que talvez eu nunca tenha mudado. E se eu sobrevivi antes e antes, eu posso sobreviver de novo.

Entramos em um estado em que deixamos de nos abater e de acreditar que é o fim do nosso tempo, e enxergamos o quanto somos fortes para termos chegado até o presente. São tempos difíceis agora, mas eram também antes. E aqui estamos. Aqui estou, no caso. Somente eu.

Acho que começo novamente a entender quem eu sou, ouço o barulho dos muros de fantasia se derrubando, e o estrondo que a ingenuidade e a confiança fazem ao cair ao chão.

Sinto a necessidade de demolir o prédio de concreto que eu mesma edifiquei, e sinto-me forte o bastante para vê-lo se desmoronando. Estou preparada para inalar toda essa poeira, considero-me imune a qualquer intoxicação que ela possa me trazer. Chega. Eu termino essa fase por aqui, e mesmo machucada e com uma vida repleta de entulhos de um prédio derrubado, eu sei que venci.

Na lama

Querida,

Eu estou bem. Um pouco perdida, talvez. Vou mudar para o novo apartamento na semana que vem. Não aguento mais o barulho que o vizinho de cima faz. Esses dias acordei super cedo para fazer faxina e me vingar. Joguei umas almofadas no teto só para perturbá-lo – não sei se funcionou. O novo lugar é aconchegante, mas espero que os vizinhos não me incomodem tanto. Eu sei, estou parecendo uma velha rabugenta, mas não ligo pra isso.

Vi C. no parque ontem. Falamos “oi”, e só. Não parecia a mesma pessoa. Parecia triste, com o olhar meio sem brilho. Será que foi por me ver? Bem, não importa. Quer dizer, você sabe, não é?

G. ligou e me convidou pra sair. Recusei. Disse que estava sem ânimo. Logo depois, o pessoal me chamou pra ver a exposição lá na galeria, eu disse que tentaria ir, mas obviamente não fui. Estava mesmo meio deprimida e também não queria ver C. Ainda não superei o nosso lance, então estar no mesmo círculo de amigos ia ser estranho.

Acho que cansei dos vários relacionamentos. Tentar bancar a maluca para preencher isso que falta em mim não deu muito certo. Continuo no fundo do poço, e agora mais enlameada. Sabe, acho que estava mesmo gostando de C., cê acha que vou ser maluca demais se tentar me reaproximar?

O pior de tudo é saber que eu sou o problema, e enquanto não resolver toda essa minha confusão nunca vou conseguir “ser” inteira de alguém, permanecer… Os meus relacionamentos nunca vão passar de casinhos. Que ódio das minhas confusões.

Mana, acho que é isso. Me conta de você. Do novo emprego, dos seus lances, de como vai a vida… O que você tem lido? Te aguardo!

 

Beijos,

O.

 

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