Espelho

Espelho

“Não há nada melhor que um espelho para revelar a farsa que somos”.

Seis e doze da manhã…

Ela não havia tido uma boa noite de sono. Porém, as obrigações lhe fazia estar de pé por volta daquele horário todos os dias. Levantar-se da cama era o seu pior pesadelo. Aquela jovem moça se assemelhava a um personagem de filme de terror fugindo do serial killer. Enfatizando: sua vida era o filme de terror, as obrigações era o serial killer que lhe perseguia, e ela, a própria vítima tentando fugir do caos.

E, como nos demais dias, ela também se sentia no dever de ficar em frente ao espelho observando-se por um longo tempo. Seus cabelos estavam sem vida, seus olhos não possuíam mais o brilho de outrora, e a cada manhã descobria algo a mais – uma ruga aqui, uma espinha ali… Tentava sorrir, mas não conseguia. A tristeza estava lhe consumindo, e ela não tinha forças para combatê-la. Desejara muitas vezes quebrar o espelho, mas percebera que não há nada melhor que um espelho para revelar a farsa que somos. É como se este simples objeto fosse capaz de conhecer o mais íntimo da alma.

O momento de encarar mais uma jornada diária se aproximava. “Não posso deixar que ninguém me veja assim”! Então tratava logo de tomar um banho, no qual suas lágrimas misturavam-se com a água do chuveiro. Em seguida, vestia-se adequadamente para o trabalho, penteava os cabelos e – o mais doloroso de tudo – maquiava-se. Se o espelho é o ideal para revelar quem são as pessoas, a maquiagem é o disfarce perfeito para ocultá-las. Por fim, ela estava “pronta”.

No decorrer do dia, se reunira com empresários da empresa onde trabalhava para tratar de negócios. No tempo vago encontrou-se com alguns amigos para almoçar. Um deles era mestre em contar piadas, e todos caíam na gargalhada – inclusive ela. “Você, está deslumbrante, aliás, como sempre”, falou outro colega. No final do dia, ainda fora ao shopping comprar roupas e mais maquiagens – as suas estavam bastante gastas.

Ao chegar em casa, se jogara na cama juntamente com as sacolas de compras. Ficou ali por uns vinte minutos olhando para o teto e lembrando “você está deslumbrante, aliás, como sempre”. “Se ele soubesse como me sinto”, sussurrou. Levantou-se, despiu-se, olhou para o espelho ainda com maquiagem no rosto e disse: está na hora de tirar toda essa farsa. Tomou banho, vestiu uma camisola e novamente encarou o espelho. – Agora sim, esta é você!

Apesar disso, uma coisa ela percebera: mais um dia sobrevivera ao serial killer no filme de terror. Só não sabia por mais quanto tempo…

 

Carta pessimista

 

Faz tempo que chorei, parece que meus olhos se secaram como os desertos, para onde foram minhas lágrimas? Será que o mar dos oceanos as tomou? Se perderam em vão silêncio da noite. Para onde foi minha capacidade de escrever? Rompo o jejum de barreira criativa com esse texto que não vale a pena ninguém ler de tão ruim. Continue lendo “Carta pessimista”

Caderno de anotações

Ela pegou seu caderno de anotações e pôs-se a escrever:

Hoje me bateu uma vontade enorme de te ligar. Não desejei enviar mensagem, queria mesmo era ouvir o som da sua voz. Faz tanto tempo que não nos falamos. Adoraria saber como você está, o que anda fazendo… Cogitei ligar de um número desconhecido, pois imaginei que não me atenderia caso telefonasse com o meu número. Na verdade eu nem sei se você ainda o tem. [rsrsrsrs]

O que me resta são apenas lembranças de um passado maravilhoso. Bons tempos aqueles! Talvez seja o que hoje possa ser chamado de “a era de ouro”. Fizemos tantas coisas juntas, nos divertimos pra valer – tanta adrenalina, tantas emoções…

É muito estranho a sensação de sermos duas desconhecidas atualmente, como se nunca houvesse acontecido nada entre nós. Diga-me o que faço com essas lembranças? E sabe o que mais me dói: é imaginar que você está muito bem sem a minha companhia. Não que eu deseje que esteja na pior, mas é que sinto que fracassei com a minha amizade, e você soube seguir em frente. Por favor, me diz onde errei! Eu posso tentar consertar?

Bom, algum dia, quem sabe a gente se fale novamente ou se encontre por acaso em algumas dessas ruas da cidade. Algum dia, quem sabe a gente possa reatar a nossa amizade, não é mesmo?!

Ah, e antes que termine, quero que saiba que esse não é o primeiro texto sobre nós. Todas as vezes que penso em ligar para você, eu escrevo em meu caderno de anotações – comprei especialmente para isso -, pois não consigo guardar o que sinto em minha mente – é minúscula demais para tantos pensamentos.

Por fim, saudades amiga, muitas saudades… Espero que esteja bem!

Ela fechou o caderno e guardou na cômoda em seu quarto, bem no fundo da primeira gaveta. E ficou pensando por um tempo. Seu olhar estava distante:

– Promete que nunca vai me abandonar, que nunca vai se afastar de mim?

– Prometo “miga”. Para onde eu for, levarei você comigo!

– Te amo demais minha linda!

– Eu também te amo. Você é a minha melhor…

Ela suspirou forte. Depois retornou ao que estava fazendo, com lágrimas em seus olhos…

o olhar passeia

às vezes
não sei
sentir

o olhar passeia
devagar
percorre a cidade
inteira
pelos becos, vielas
praças, lojas
casas, igrejas
rodovias
o olhar passeia

mãos estendidas
pelas calçadas
corpos caídos
pelos becos
pés descalços
pelas avenidas

você vê?

meu olhar passeia
pela cidade
corpos frios
percorrem a cidade
o sol tão forte
mas não aquece
os corpos frios
que passeiam
de olhos abertos
mas não enxergam

Amaranto

Olhava pela janela do metrô aquele cenário tão antagônico ao dos filmes antigos:

Na paleta de cores, azul desbotado e cinza frio. Arvorezinhas perdidas em meio ao solo de concreto, respirando com dificuldade o ar pesado que entra pelas narinas mais sugando do que dando vida. Casinhas perdidas em lugares onde não deveriam está, recheadas de crianças com as pernas tão acinzentadas quanto os muros e as britas.

Tudo era daquela cor que não tinha cor: Cinza.

Ferrugem dos trilhos para combinar: Vermelho.

No peito, guardava muita coisa que não deveria guardar: Lembranças cinzentas que lhe eram como fumaça que invade os pulmões e polui aquela cidade que existe dentro da gente, sentimentos avermelhados que chocam-se contra o sol e fazem arder os olhos, tons vulcânicos, e tão quentes quanto, que descem pela garganta rasgando e queimando.

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