Nas Nuvens

Eu sou o puro oceano de mar próprio,

Que navego intenso por inteiro,

Viajo nessas águas azuis de mim mesmo,

Nesse navio voador sem marinheiro.

O céu beija o oceano, saudades da terra!

Quando retornarei a Marselha nesse brigue catalão?

Antes que venha o vento forte de um tufão.

E a cada noite perco-me enquanto procuro-me,

Acho-me distraído suspensos nos ares,

Por isso que exploro os mares da solidão.

 

 

 

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Julho

É julho. Hoje o dia foi ensolarado. Eu queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas em cima das lajes, mas me falta coragem. Observei por um longo tempo. Em julho, o céu fica repleto de pipas e as lajes repletas de crianças. É bonito ver.

Eu queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas. E sobre a tristeza daqueles que as perdem e as veem flutuar pelo ar, e parar em algum telhado. Eu realmente queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas.

Tem dias que não sou capaz de sentir absolutamente nada. Esse é um deles. Eu queria sentir a felicidade dos meninos que soltam pipas nos telhados aqui do bairro, mas é julho, e julho é triste. Exceto pelo fato de se ter crianças empinando pipas nos quintais.

Dias assim

É que ultimamente o tempo anda meio louco e a minha vida tem acompanhado tal loucura. Amanhece ensolarado, mas logo as nuvens escuras chegam. Eu deito na cama. Não quero ver ninguém. Falar com ninguém. Desanuviar  em dias assim não é fácil.

Eu faço o que quando já não sei o que fazer? Se alguém criasse uma fórmula de desaparecimento – corpo e alma – eu compraria. Hoje eu fiquei pensando em tudo o que eu não sou. Fiquei deprimida por não enxergar algo além do nada. Não sou e não tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu tô no fundo. O poço fundo me é abrigo. Abrigo também mata, saca?

Caminho meio perdida. Cambaleando. Não sei pra onde ir. Não sei como ir. Devo ir? O fundo do poço é meio que um imã na minha vida. Quando dou por mim é lá que já estou.

Que as nuvens carregadas por mim passem e não me levem. Desanuviar é palavra bonita. Você não acha? Desanuviar. Espero mesmo que por aqui tudo possa desanuviar.

Prosopopeico

As vezes olho as paredes

E parecem falar comigo

Alguma coisa surda,
Breve, opaca, indissoluta
O no timbre insuportável dos seus versos
Venho ver meu universo,
entre dedos me escorrer
E a cada gota suja da memória
Essa dor é minha história
Não é fácil de esconder
Já inerte
entre as notas frias da parede
Meu chorar, a minha sede
E essa melodia morta
Digo:
sede fortes, homens, sede!
Quem tem dor tudo suporta.

Algum dia do calendário

Para ouvir – the owl – rainy sun

Para N.,

Os dias andam nublados. Há dias o sol não entra pela janela. 15:10 o ônibus sobe a ladeira. Chove. Em dias tristes. Pessoas tristes. Tudo anda tão triste. Ouvi no rádio ontem que duas pessoas foram encontradas mortas na calçada da rua que leva ao condomínio morada nobre. Morreram de frio. O que é nobreza pra você? A tempestade que cai é triste. A água que escorre pelas ruas é triste. Lá do outro lado a pessoa que ouve “Piano Bar” do Engenheiros do Hawaii é triste. Você ainda consegue dormir à noite? Faltou luz. Somos todos tristes. Há felicidade ainda aqui?

Escrevo estas linhas desconexas, pois nada aqui faz sentido. Uma carta-protesto, talvez, mas com que propósito? Contra quem? Eu mesmo e minha hipocrisia?! Há algum propósito nessas coisas que fazemos? Uma criança sorriu pra mim ontem na rua. Um pássaro pousou na janela da cozinha enquanto eu lavava a louça. Ainda chove. Eu não lembro que dia é hoje. Fiz bolo de laranja. Ando cansada. Já reparou em como a cidade é cinza?

L.

Naquele quarto escuro

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Eram quase 2h da manhã. Ficara algumas vezes acordado até esse horário assistindo vídeos no YouTube, acessando as redes sociais… Mas nesse dia foi diferente. Não queria usar o celular, almejava apenas dormir. “Será que é querer demais? Acordar às 5h da manhã não é algo prazeroso” – pensou.

O sono não estava chegando. Também não sabia a que horas viria. Quando fechava os olhos, um turbilhão de pensamentos o inundava, tirando-lhe o sossego e o fazendo rolar na cama. E, já que o sono não dera sinal de alerta, ele desejava uma coisa. Não se tratava de nada simplório, mas de algo MUITO extraordinário. Alguns diriam: “ele está ficando louco”. Isso o fez recordar de uma cena do filme ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS:

“[…] – será que estou ficando louco? – disse o chapeleiro.

– Sim, você está completamente louco. Mas vou lhe dizer uma coisa: as melhores pessoas são assim – falou Alice. Lembrar-se desse diálogo o fez sorrir brevemente.

Naquele quarto escuro, sozinho em plena madrugada, o algo extraordinário ao qual gostaria que acontecesse era que o Criador se revelasse a ele. Sim, tipo um clarão aparecesse do nada e iluminasse todo o seu quarto, ou melhor, toda a sua alma. Ouvira algumas vezes relatos de pessoas que vivenciaram experiências com o Altíssimo, e mesmo se considerando uma criatura totalmente desprezível, adoraria o fato de Deus falar com ele. Teria tantas coisas pra perguntar, falar sobre a vida, sobre tudo o que lhe atormenta… A sensação de não encontrar respostas imediatas o angustiava.

Ele se encontrava cansado, é verdade! Não o seu físico, mas a sua alma. Porém, ainda que para uma grande maioria Deus se revelar para alguém fosse algo impossível de acontecer – talvez uma coisa fantasiosa demais -, ele ainda queria acreditar nessa possibilidade. E tinha certa certeza que esse acontecimento mudaria a sua vida – e para sempre.

Ops! Ele percebeu que o sono anunciou a sua vinda – tardia, é claro. “É o momento de fechar os olhos e permitir que ele me ‘consuma'”. Nem que fosse por um pouco de tempo. Afinal, 5h da manhã estava logo ali…

A primeira carta

Alda,

Não sabia como iniciar, o tempo passou e eu acho que perdi a prática de como se iniciam as conversas   – até mesmo as escritas. Tenho sentido a sua falta todo esse tempo, mas havia em mim um certo receio de me comunicar por esse meio – “um pouco antiquado” – você diria. Pessoalmente eu riria disso mais uma vez, mas agora distante, e com o sacrifício que me é pegar uma caneta e escrever-te, me sentiria envergonhada com tal resposta, e provavelmente não mais escreveria.

Aqui continuo sem sinal, já desisti de conseguir internet, e a tv na sala, não mudou muito, está lá apenas para que eu pareça menos selvagem. Aos domingos vou a cidade e compro pão, pudim e um jornal que às vezes me disponho a ler, mas por fim desisto. Estou gostando de me esconder aqui, temo não querer mais sair. Posso plantar o meu próprio alimento e me isolar por completo aqui dentro, não se preocupe, não farei isso, o meu temor é exatamente o contrário, o de quando por fim eu terminar a montagem do herbário, e assim ter que arrumar as malas, coloca-las no carro e partir.

Tenho uma novidade: a senhora que mora “aqui perto” deu-me um pezinho de funcho (é erva-doce, digamos) e mais dois gatos, sobre eles não irei falar muito, não quero estressa-la. Mas quanto a planta sigo-a admirando, prometo dar-lhe mais notícias dela. A “folha seca” que estou te enviando, achei por aqui, não sei de que árvore vem, nem descobri, mas achei bonita e acho que irá gostar. É só.

Com amor,

Eleonor

ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

sobre dores invisíveis

essa tristeza será que um dia passa, C.? é que nada aqui faz sentido. choro pelos cantos. entristeço-me por tão pouco. sou tão afetada por tudo que me rodeia. queria que não fosse assim. será que um dia esse desânimo se manda daqui? eu queria ser forte. queria que a vontade de chorar fosse embora, mas não vai. esses dias nublados são danados pra nos deixar deprimidos, não é? espero que amanhã faça sol e que aqui dentro também seja sol. eu só queria que essa dor invisível fosse embora. um dia vai, não é? não enxergo a ferida aberta. o osso deslocado. o sangue jorrar.

[ferida aberta que não se fecha um dia nos leva embora que não seja agora]

O imigrante da imaginação

Existe uma amarga estrada fria, muito grande e tortuosa que separa visivelmente nossa realidade ideal da que vivemos. E para não ficar sonhando acordado é melhor tentar buscar alcançar o ideal ou viver melancólico de tanto contar sonhos perdidos para as pessoas, mas frustrações não enchem barriga de ninguém e pesa muito a cabeça antes de dormir… E esse caminho não é calmo, ele é barulhento e cheio de curvas esburacadas, e pra piorar está caindo uma tempestade que tapa o para-brisa e os retrovisores. Podemos errar o destino ou bater esse carro em uma arvore ou até mesmo dar uma de iluminado diferentão e fingir que não estamos nessa pista enquanto as multas se acumulam todos os dias. Estar nas nuvens? Viver só de sonhos faz mal, nós nos tornamos demasiadamente platônicos e desligados do atual presente. Não quero ser um reclamão de tudo o que tenho vivido e de tudo que me cerca, pois gotas de gratidão em uma garganta seca vale-se muito. Tem até um autor que diz que para cada coisa ruim que se passa conosco devemos pensar em duas coisas boas que vivemos. E o que aconteceu antigamente não dá mais pra mudar. Continue lendo “O imigrante da imaginação”

Menino Pedro

O que a gente é quando já deixou de ser? A gente deixa de ser em algum momento? Foi Pedro de 9 anos que disse já não ser coisa alguma. Como pode tão pequeno dizer que já não é coisa alguma? Desci apressado o escadão hoje cedo, cumprimentei Pedro e os outros meninos que por lá estavam e antes de perdê-los de vista ouvi Pedrinho dizer que tava cansado de ser coisa nenhuma. Não consegui seguir em frente ouvindo aquilo sair da boca de um menino que pra mim sempre é tanta coisa. Aqui na vila todo mundo se conhece e todo mundo enfrenta sua guerra particular e às vezes uma ou outra batalha coletiva.

Por mais difícil que as coisas sejam por aqui, é quando a gente sobe o morro pra soltar pipa que cada um dos moleques é feliz pra valer. Dá gosto de ver o sorriso estampado na cara quando a pipa pega voo. O Pedro é alegre, menino danado, gente boa, esperto que é uma beleza. Acorda cedo pra catar latinha, sucata e papelão e pela tarde vai pra escola. Dias atrás, Pedro queria desistir da escola, mas conversa vai conversa vem; Pedro menino esperto continuou. A mãe, mulher guerreira disse pra ele continuar, disse que em casa com as despesas se dava um jeito. “Estudar te torna gente, menino”, é assim com a maioria dos pequenos aqui. Eu também ouvia da minha mãe a mesma coisa – e é comum ouvir de tantas outras mães aqui na vila. Alguns pais dizem que não leva a nada e tiram as crianças da escola – mesmo ameaçados de perder a guarda. “Tem que ajudar a manter a casa desde cedo, é assim que tu aprende a ser gente, menino”. E a criança segue a vida, na hora da bronca o olhar é triste, mas depois que sai pra rua esquece. Depois lembra. Depois esquece. Quando se dá conta já é adulto e aquilo fica a remoer por dentro. O que a gente não se dá conta é que “ser alguém” a gente sempre é, não é?

A beleza consola o mundo

Se não fosse a contemplação das coisas belas tudo estaria terminado em um absurdo de vazio e sofrimento, tudo estaria acabado antes mesmo de começar. Nossos dias se tornariam ainda mais sem sentido e sem graça pois o infinito cinza não teria valor algum em si mesmo. As almas com pouca autoconsciência não sentiriam tanta dor assim, já que repetem dormentes como máquinas de vagões as multidões inquietas… Continue lendo “A beleza consola o mundo”

Do lado de dentro

 

Pensou ter se livrado de tudo depois de ter perdoado e colocado as lembranças em um lugar profundo da mente. Achou ter perdido a chave daquilo, e enganou-se não fazer mais parte disso. “Estou livre” – iludiu-se. Às vezes ela via aquele curativo frágil, mas ignorava o que ele cobria. Por baixo do esparadrapo, a queimadura ainda ardia, inflamada e dolorida. O lugar se avermelhava e se aquecia, lá, mesmo que ela fingisse não ver, as coisas aconteciam.

Era final de outono, a cidade se lavou de um chuva que ela não viu cair, e se enfeitou de algo que ela não soube descrever, mas até o cheiro forte de incenso da rua, ou o fato de na rua escura está somente ela porque no mundo dela era ela e ela, não pareceu incomodar.

A blusa de inverno a abraçava e aquecia. Em casa ela tirava o casaco, sem ele até a respiração parecia uma ventania. Inspira e expira. Para dentro, para fora. Era o processo natural do vento voluntariamente obrigatório para manter-se viva. Continue lendo “Do lado de dentro”

Hoje não foi um dia lindo

Estava lendo Matilde quando me lembrei de você. Era fim de tarde. Começou chover. Uma chuva tão repentina quanto o nosso encontro naquela tarde. Será que você ainda consegue me ouvir?

Olha, “Yoko” ainda é a minha música favorita. Eu ainda te escuto. Arrumei o quadro que estava torto na parede. Segui aquele negócio que você falou pra usar sempre que fosse colocar algo na parede – não lembro como se chama -, importa é que agora o quadro não está mais torto. Isso é bom, não é? O quadro torto tinha um certo charme, mas ninguém gosta de olhar para uma parede e dar de cara com um quadro torto.

Saí apressada de casa ontem e deixei a chave na porta; não tinha você pra gritar da janela que eu havia esquecido. Lembrei que havia esquecido a chave na fechadura e voltei quando já estava no ponto de ônibus. Saí correndo pra pegar o ônibus. Cheguei atrasada. Tomei chuva na volta e ao chegar em casa ouvi “Terno Rei” até as duas da manhã.
Continue lendo “Hoje não foi um dia lindo”

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