Entorpecente

Foi como sentir o peso miúdo de cada célula. Foi como intoxicar-se com o excesso de dopamina. Eu senti os picos alarmantes juntamente aos meus excessos, eu vi a queda brusca, e pude senti-la quebrando os meus ossos. Só ouvi o barulho, só senti rasgar por dentro. Sem sangue. Meu corpo reage lento a qualquer recuperação. Minha pele é terra de lenta cicatrização, de feridas abertas. De coração de tecido podre que rasga fácil. Eu vi a sua mão pega-lo e atira-lo ao chão várias e várias vezes. Eu me vi plácida pronta para entrega-lo de volta. Até o meu corpo não consegui ceder a minha vontade. Até a miosina tornasse fraca demais para empurrar a actina para que eu me contrai-se, me dobra-se, me contorcesse para caber, para entregar. O corpo se estica e se recolhe em queda. O sentimento diz “vai!”, mas não há resposta. Nada reage. Foi sugada toda força. E isso não foi uma partida. Não foi despedida. Foi desistência. Foi quando a casa pensou mais que o morador. Foi quando não coube tanta dor e se desvaneceu. O olho viu o fim em lágrimas. Sem forças era inútil lutar pela persistência. Meu corpo é terra de difícil cicatrização, mas cicatriza um dia.

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piso frio do meu peito

andando descalça no piso frio do meu peito, tiro as roupas, estico-me em frente ao espelho. danço achando que tenho jeito, viro pros lados, estremeço, finjo que não existe mais nada. questiono-me quem sou mesmo que viva apenas o instante, dói não saber dizer nada… se sou pedaços do agora ou do passado, não entendo os pedaços que perdi no piso frio do meu peito. não dá pra achar culpado, tudo está aqui emaranhado e agarrado ao meu cabelo, a verdade intrínseca de ser eu, com medo de não ser mais nada. Continue lendo “piso frio do meu peito”

28 de julho

Querida Ellie,

São 23:35 de um sábado tedioso de uma vida monótona. A chuva cessou depois do longo e belo temporal. Há de se discutir em uma outra carta se são belos mesmo os temporais. Há de se levar em conta que de determinado ponto de vista sejam tristes e medonhos.

Me desfiz em lágrimas esta manhã – não há motivo específico ou talvez haja, mas não me é claro. Abri a última garrafa de vinho barato que havia na dispensa. Chorei mais um bocado e caí na cama. As “ruas” andam tristonhas. As paredes estão cinzas, as pessoas estão cinzas.Percebe o quanto de cores perdemos nos últimos tempos?

Ah! o cansaço me toma. Há de haver ainda esperança que se sustente numa alma tão despedaçada quanto a minha? Há de haver ainda?

Há de se considerar que com esperanças ou não. Felizes ou não. Despedaçados ou não. A vida há de continuar. Eu, de certo modo, me deixei paralisar, mas a vida tem cobrado. Hei de desabar ainda inúmeras vezes. A sensação é de que numa dessas não levante novamente. Sabes aquela história de estar tão perto de alcançar algo, mas numca alcançar de fato – não falo da utopia. A sensação de estar tão perto de algo e de repente se desfaz e tudo volta a parecer distante. Sabes o que é sempre que se está a um passo do objetivo voltar dez passos assim de repente?! Continue lendo “28 de julho”

Goles e tragos

Me dói mais que um tiro,

Uma facada, fere, mas não mata,

Não tiro a máscara, que esconde a cara.

Me corta tanto,

Perfura a alma,

No fundo vejo sombras, delírios, minha agonia,

Perdi meu sono a quatro dias.

Tento escrever, mas não demonstro,

Um pesadelo, virei um monstro?

O poeta é bonito para quem ver de fora,

Porque se me olhar por dentro você chora,

Desgraçada, veio e roubou minha paz.

Então me recomponho, componho esses versos

Não confiando mais em ninguém,

Me confinando com minha máscara,

Um grande ator, tamanha farsa,

Descarrego tudo na escrita, somente,

Maldita, apesar de ser bonita.

 

Faça silêncio!

 

Um pouco de papo e as palavras que

palpitam no coração a boca escapa.

 

 

Aquela velha capa…

Aquela velha capa…

 

Esconde o sentimento,

a vela apaga.

Pois tudo jaz cá dentro

e o peito embala

o sonho e o descontento

de quem cala.

 

 

E desse emaranhado,

minha entranha,

nasce este novo verso

que te estranha.

 

Pois é!

A vida está do avesso essa semana,

mas o que fica cá comigo

me acompanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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