Na mira da coragem

Existe um hiato terrível entre o início eufórico de uma festa e a exaustão do seu término. É um estado emocional que normalmente ocorre após o vigésimo copo de bebida; a cerveja fica um pouco mais amarga na sua boca e você não consegue mais rir das mesmas palhaçadas. Bate um princípio de reflexão, você olha ao redor e nota que as músicas não são lá tão legais assim, as pessoas não são tão interessantes e a coisa toda não parece ter o mesmo brilho que pareceu ter, no decorrer da semana, quando tudo ainda não passava de expectativa. É foda quando acontece. É foda como acontece. É como um despertar da realidade em um momento desnecessário, é como furar o que os budistas chamam de “bolha”, é como ser um testemunha de Jeová durante uma Rave cheia de alucinados, em síntese: é como ter uma ejaculação precoce.

Nesse dia eu fui a bola da vez e acabei herdando a sensação. Beatriz estava em cima da mesa rebolando e girando o casaco, Júlio mandava uns passinhos romanos com outros funkeiros que ele (e eu) nunca viu na vida. Ele não sabia dançar, era um maldito estoquista com a coluna travada. Contudo não sei se posso chamar aquilo de dança. Eu, por outro lado, era o diferentão: estava sentado na cadeira, quieto, puto, entediado, com fome, enjoado, com a bexiga explodindo e com uma cara de diarreia. Meu copo semi cheio estava na mesa, mesa em que a Bia rebolava. Fiquei sacudindo um sachê de açúcar com a mão, sem fazer nada, tentando compreender o sentido filosófico por trás da minha melancolia. Uma amiga nerd me narrou as causas desse efeito uma vez; ela dizia que ficávamos pra baixo após o consumo imoderado do álcool porque um neurotransmissor filho da puta mexia com o nosso sistema Gama, entristecendo as atividades cerebrais. A recomendação dada era o consumo do açúcar, ou o afastamento dele. Eu não sei, eu não lembro. Sempre fui péssimo com biológicas então deixei de entender a explicação dada por ela logo após ouvir o primeiro termo técnico. No entanto, possuo uma opinião diferente da dela. No meu entender essas coisas só acontecem quando o destino sussurra no seu ouvido um breve e curioso aviso: toma cuidado, ou tudo pode acabar dando merda. Pois é. A vida é sempre um risco. E eu estava lá tentando me decidir o que fazer com aquele sachê.

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Menino Pedro

O que a gente é quando já deixou de ser? A gente deixa de ser em algum momento? Foi Pedro de 9 anos que disse já não ser coisa alguma. Como pode tão pequeno dizer que já não é coisa alguma? Desci apressado o escadão hoje cedo, cumprimentei Pedro e os outros meninos que por lá estavam e antes de perdê-los de vista ouvi Pedrinho dizer que tava cansado de ser coisa nenhuma. Não consegui seguir em frente ouvindo aquilo sair da boca de um menino que pra mim sempre é tanta coisa. Aqui na vila todo mundo se conhece e todo mundo enfrenta sua guerra particular e às vezes uma ou outra batalha coletiva.

Por mais difícil que as coisas sejam por aqui, é quando a gente sobe o morro pra soltar pipa que cada um dos moleques é feliz pra valer. Dá gosto de ver o sorriso estampado na cara quando a pipa pega voo. O Pedro é alegre, menino danado, gente boa, esperto que é uma beleza. Acorda cedo pra catar latinha, sucata e papelão e pela tarde vai pra escola. Dias atrás, Pedro queria desistir da escola, mas conversa vai conversa vem; Pedro menino esperto continuou. A mãe, mulher guerreira disse pra ele continuar, disse que em casa com as despesas se dava um jeito. “Estudar te torna gente, menino”, é assim com a maioria dos pequenos aqui. Eu também ouvia da minha mãe a mesma coisa – e é comum ouvir de tantas outras mães aqui na vila. Alguns pais dizem que não leva a nada e tiram as crianças da escola – mesmo ameaçados de perder a guarda. “Tem que ajudar a manter a casa desde cedo, é assim que tu aprende a ser gente, menino”. E a criança segue a vida, na hora da bronca o olhar é triste, mas depois que sai pra rua esquece. Depois lembra. Depois esquece. Quando se dá conta já é adulto e aquilo fica a remoer por dentro. O que a gente não se dá conta é que “ser alguém” a gente sempre é, não é?

Do lado de dentro

 

Pensou ter se livrado de tudo depois de ter perdoado e colocado as lembranças em um lugar profundo da mente. Achou ter perdido a chave daquilo, e enganou-se não fazer mais parte disso. “Estou livre” – iludiu-se. Às vezes ela via aquele curativo frágil, mas ignorava o que ele cobria. Por baixo do esparadrapo, a queimadura ainda ardia, inflamada e dolorida. O lugar se avermelhava e se aquecia, lá, mesmo que ela fingisse não ver, as coisas aconteciam.

Era final de outono, a cidade se lavou de um chuva que ela não viu cair, e se enfeitou de algo que ela não soube descrever, mas até o cheiro forte de incenso da rua, ou o fato de na rua escura está somente ela porque no mundo dela era ela e ela, não pareceu incomodar.

A blusa de inverno a abraçava e aquecia. Em casa ela tirava o casaco, sem ele até a respiração parecia uma ventania. Inspira e expira. Para dentro, para fora. Era o processo natural do vento voluntariamente obrigatório para manter-se viva. Continue lendo “Do lado de dentro”

Hoje não foi um dia lindo

Estava lendo Matilde quando me lembrei de você. Era fim de tarde. Começou chover. Uma chuva tão repentina quanto o nosso encontro naquela tarde. Será que você ainda consegue me ouvir?

Olha, “Yoko” ainda é a minha música favorita. Eu ainda te escuto. Arrumei o quadro que estava torto na parede. Segui aquele negócio que você falou pra usar sempre que fosse colocar algo na parede – não lembro como se chama -, importa é que agora o quadro não está mais torto. Isso é bom, não é? O quadro torto tinha um certo charme, mas ninguém gosta de olhar para uma parede e dar de cara com um quadro torto.

Saí apressada de casa ontem e deixei a chave na porta; não tinha você pra gritar da janela que eu havia esquecido. Lembrei que havia esquecido a chave na fechadura e voltei quando já estava no ponto de ônibus. Saí correndo pra pegar o ônibus. Cheguei atrasada. Tomei chuva na volta e ao chegar em casa ouvi “Terno Rei” até as duas da manhã.
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Inexorável

Acordou e ligeiramente sentou na cama. De imediato ficou tonto. A cabeça começou a girar, era uma dor para cada fio de cabelo. Ele espirrou. Pôs a mão no rosto, havia um pouco de pó sobre a narina esquerda, traços da farra na noite anterior. Ele fedia e sentia uma dor absurda nas costas. Levantou-se, andou até o espelho, passou a mão no cabelo e, não satisfeito, penteou-o. Só Deus sabe o quanto era vaidoso. O sol quente levantava a poeira da quitinete alugada, o quarto cheirava a geladeira suja. Pela intensidade da luz, imaginou que já estava tarde. Assustou-se com isso e correu então até o relógio de parede. Eram 7:12 da manhã. Isso dava mais ou menos 7:20 da manhã, visto que seu relógio estava atrasado e não dava para ajustar, pois os botões estavam quebrados. Tinha um compromisso no centro as 8hrs e, levando em conta que o tempo médio até lá é de 30 minutos, contando com o trânsito, isso dava a ele, mais ou menos, 10 minutos para se resolver e desaparecer dali.

Voltou até o quarto desesperado. Uma agonia que corroía o coração. Todo trabalhador brasileiro sabe o que é estar atrasado, conhece a sensação. Ele também conhecia, embora fosse vagabundo. Ao menos, se considerava um, já que não arranjou um emprego fixo nos últimos treze meses. De imediato, havia muito a se fazer em pouco tempo: um remédio, um banho, uma cagada, um café, uns ovos, talvez, quem sabe, um cigarro… Elementos que qualquer cidadão precisa para encarar o demoníaco mundo lá fora. Ele tirou do armário um jeans manchado de caneta e uma blusa social lisa, preparou os ovos, engoliu o remédio junto ao café e correu para o banheiro. Quando já estava no box, o celular tocou. Saiu nu e voltou para o quarto com a escova de dentes na boca e uma toalha na cintura. Ao tirar o celular da cabeceira, deixou cair. Foram-se peças para todos os lados. Caralho! Aquilo fez um barulho enorme… O suficiente para assustar e acordar Vânia.
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Mancebo

Eu juro que perderei alguns dias buscando entender como a calcinha dela foi parar no ventilador de teto. Ou como minha bermuda jeans terminou rasgada. Ou como chegamos até a minha cama se eu perdi as chaves fazendo uma dancinha ridícula na chuva. Bem, ainda não consigo processar as melhores partes. Acordei sem uma parcela da minha memória, mas com um belo sorriso no rosto. No universo masculino, isso já diz tudo. Preciso ajustar a coluna, porém ela está cochilando sobre a minha barriga. Aprecio com todo carinho do mundo; jamais acordaria um anjo desses. Permaneço como estou por horas, assisto o clarear do dia transpassar a janela, estalo o pescoço, coço os olhos. Tem uma marca de batom no meu calcanhar, meu peito está arranhado e meu bafo cheira a hidratante de pele. Estou confuso, estou feliz. Uma lástima, um paraíso.

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Álcool, cactos e pimentas

O sol castigava como nunca. Era início de verão em Tucson, Arizona. Na estação de trem, Arthur Bailey foi obrigado a guardar sua jaqueta de couro e trocar as botas por um tênis mais simples. Comprou uma garrafa d’água, balas e pegou um táxi até o subúrbio. O tempo estava muito seco, os cães latiam sem parar e as moscas se entrelaçavam em sua barba. Após o fim da corrida, ele caminhou três quarteirões com um mapa em uma mão e uma mala velha na outra. Procurava a pensão barata que vira na internet. Tinha certeza que a rua estava certa, mas provavelmente erraram no anúncio, pois, ao invés da pensão, havia uma cafeteria no local. Quando faltava uns cem metros para chegar ao destino, Arthur fez uma pausa para tomar um ar na sombra de uma cabine telefônica e, dela, ficou observando a cafeteria em meio ao mormaço. As informações não batiam, ele sabia que algo estava errado. Contudo já estava extremamente cansado, precisava de um bom banho, chá gelado e uma massagem nos pés. Xingou a mãe do cara que indicou o lugar e jogou o mapa no lixo. Em seguida continuou a caminhar, vagarosamente.

Passou a mancar um pouco, seus joanetes doíam demais, foi um longo caminho desde WoodFord, Illinois. Aproximando-se do local, já era possível sentir o cheiro do café. No entanto, algo curioso aconteceu: uma calcinha vermelha caiu bem na sua frente, no meio da calçada que fervia com o sol da tarde. Ele olhou para cima com toda calma do mundo. Estava exausto o bastante para ficar surpreso. A sua direita, havia uma pequena estalagem velha de dois andares, pintada de um rosa surrado pelo tempo. Na sacada do segundo andar, uma gostosa de pele latina acenava para ele. Estava de top branco e mini saia preta. Seu cabelo liso passava dos ombros, ela sorria e apontava para a porta, convidando-o a subir. Certamente a calcinha era dela, pois, graças ao ângulo e as grades da varanda, era possível perceber que ela estava sem nada. Entretanto as coxas da latina eram tão grossas que não permitiam elevar a visão muito além do desejado. Arthur não sabia dizer se aquilo era estratégia de negócio ou se, coincidentemente, ela era apenas uma mulher de pernas maravilhosas. Ele pôs a mala no chão e a cabeça no lugar. Fez um rápido comparativo; Deu uma boa olhada para a cafeteria e, seguidamente, uma boa olhada para a dama latina. Mediu as oportunidades e as necessidades de momento e tomou sua decisão. Sem pestanejar, pegou a calcinha da calçada, a mala velha e entrou no sobrado.

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