Carpe diem

Girei a chave três vezes, puxei a porta pra fora e depois empurrei. A porta estava um pouco emperrada como dissera o vendedor, mas até que foi fácil abrir. Entrei e, devagarinho, caminhei por todos os cômodos e abri todas as janelas e testei todas as torneiras e acendi todas as lâmpadas e varri cada um dos seus tantos cantos. Em seguida, fui até a sala vazia, respirei fundo, coloquei as mãos na cintura e comecei a rodar, realizado, vislumbrando a coisa toda ao redor. Comecei a sorrir do nada. Eleanor chegou pouco depois com as malas, ficamos nos encarando.

— Aqui começaremos uma nova história — disse.

— Eu acredito em você — respondeu-me.

A casa estava localizada na rua 18, em Cabo Frio, próxima a praia das dunas. O ano? 2006, talvez 2007. Estava com 53 anos. Ela? Uns 27, ou 28. Eu havia participado de um plano de demissão voluntária da Petrobrás. Parece que meus anos de engenheiro chegaram ao fim. Peguei 75 mil reais. Vendi meu apartamento, meu carro, meus bens, totalizando mais uns 180 mil na conta. Troquei a zona Sul pela região dos Lagos. Minha casa nova tinha um bom quintal, dois quartos, sala, cozinha, banheiro e terraço. Eu gostava da vista, da calmaria e da companhia principalmente. Não planejava arranjar outro emprego tão cedo; a ideia era viver de férias eternamente.

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Efeito Colateral

Tinguá, Rio de Janeiro.

Ano 2045.

Sentado na cadeira de balanço da varanda, olho para o céu nebuloso e vejo um bando de aves em direção ao norte. Sabia que iria chover e sabia que, se continuasse ali, levaria um banho. Também sabia que minhas roupas precisavam ser tiradas do varal. Ignorei os fatos. Caguei pro tempo e para os afazeres. Costumo fazer isso. Foi o que me tornou famoso. Dei meu último trago e amassei o cigarro no cinzeiro. Soltei. Os pulmões murcharam, um vento frio me enlaçou… como se o mundo devolvesse a baforada na mesma moeda. A brisa estava forte, a fumaça que larguei colou nos meus olhos, saltou minha cabeça e seguiu o mesmo rumo das aves.

Mônica abriu a porta da cozinha logo após. Segurava o gravador numa mão e um copo de suco de laranja em outro. Sentou-se no banquinho de madeira de frente pra mim. Ela nervosa e eu tranquilo. Um estava a trabalho e o outro atoa. Ela observava os detalhes da casa com admiração. Tudo aqui é meu, conquistei com muito esforço: a varanda, a cozinha, a chácara, o sitío e até o suco de laranja. Era pra ser mais uma tarde de domingo curtindo o ócio, porém decidi recebe-la. Apesar de preferir a solidão, não a tratei mal, não agi de má vontade. Até que tê-la por perto era uma boa distração. Esperei que ela se acomodasse, passei os dedos na sobrancelha e amarrei meu cabelo. Ela cruzou as pernas e aí a coisa toda teve início;

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Amaranto

Olhava pela janela do metrô aquele cenário tão antagônico ao dos filmes antigos:

Na paleta de cores, azul desbotado e cinza frio. Arvorezinhas perdidas em meio ao solo de concreto, respirando com dificuldade o ar pesado que entra pelas narinas mais sugando do que dando vida. Casinhas perdidas em lugares onde não deveriam está, recheadas de crianças com as pernas tão acinzentadas quanto os muros e as britas.

Tudo era daquela cor que não tinha cor: Cinza.

Ferrugem dos trilhos para combinar: Vermelho.

No peito, guardava muita coisa que não deveria guardar: Lembranças cinzentas que lhe eram como fumaça que invade os pulmões e polui aquela cidade que existe dentro da gente, sentimentos avermelhados que chocam-se contra o sol e fazem arder os olhos, tons vulcânicos, e tão quentes quanto, que descem pela garganta rasgando e queimando.

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O caos do estúpido

Pela janela avisto uma só estrela. O céu está pálido, pensativo. Nada de concreto, as nuvens cobertas pelo breu a qualquer momento podem se desmanchar. Depois de duas taças de vinho começo a divagar. “Tolice criar edificações” – penso. Arquiteto as minhas ideias sem planejamento, assim como criei expectativas sobre fumaça de cigarros, não meus, eu não fumo. Nem bebo. Só hoje estou tomando vinho porque perdi o meu emprego e fui gastar o pouco de dinheiro que me resta. Irônico.

Na verdade, não é a primeira vez que bebo, confesso, e os preços dos vinhos que compro crescem na medida das tentativas de que um mais caro tenha um gosto melhor. Outra tolice. Não consigo gostar. Mas finjo que gosto, já sou chata demais para não gostar de vinho.

O certo é que todos me parecem iguais: têm gosto de decepção que para na garganta e impede os movimentos peristálticos, gosto de lembrança ruim que impede a diástole, gosto de coisas mal resolvidas. De fracasso. É isso. FRA-CAS-SO.

Como o fracasso da última construção, é que de sentimentos não sou boa engenheira, às vezes derrubo edifícios, às vezes eles se desmoronam sobre mim. Dito e feito: Demoliu-se, e eu fiquei sob. A queda foi feia, e eu me machuquei, mas não se preocupe, estou bem. Olha eu aqui sorrindo boba sob o efeito do álcool. Brincadeira, não estou sorrindo.

Ouvi os estrondos que alertaram que o prédio iria se derrubar, mas fiquei. É que sou viciada em sensações e queria sentir, então tudo que fiz foi ficar parada olhando para cima pensando “Vai doer pra caramba”. E doeu, mas está passando. Feridas não saram do dia para noite, nem se podem cura-las com beijinhos como a minha mãe fazia comigo na minha infância.

Eu sei que às vezes tem que se permitir sentir. Deixar que a última lágrima se desprenda e siga o seu rumo. Permitir a última batida fraca e sonolenta do coração até que ele se recupere. Paciência até que os ouvidos se acostumem novamente a ouvirem as antigas músicas, e os olhos a verem séries que não sejam “Friends” e “Um maluco no pedaço”.

Às vezes vale deixar, clichê, que o tempo faça os nossos curativos, para que tudo que dói agora seja trivial, o nosso mundo reorganize a sua órbita, e deixemo-nos de girar e encontremos a direção certa.

Assim, começaremos um novo capítulo.

Três da madrugada

Três da tarde, começo fumar um cigarro. Barulho de construção no prédio vizinho. Alguém no apartamento de cima põe pra tocar Lana Del Rey no volume máximo. Que tarde sem graça. Sento na varanda e fico apreciando a música. Que de repente para. Para a música e o barulho de construção do prédio vizinho.

Fico a observar cada detalhe do apartamento frio e vazio. Acendo outro cigarro e lembro que havia parado de fumar há oito meses. Jogo fora o cigarro. Duas músicas. Foi só isso que o vizinho do apartamento de cima ouviu da Lana; e o som foi desligado. Sinto falta da música e invejo-o colocando pra tocar Lana Del Rey no celular.

Faço um café. Pauso a música. Saio para comprar pão na padaria mais distante de casa. Chego em casa, deixo os pães sobre a mesa. Ponho a música para continuar. Toca agora “Pretty When You Cry”. Deixo tocar enquanto tiro o lixo. Já é noite agora. Ponho o lixo fora. Da frente do prédio olho o céu, não consigo ver estrelas. Volto pra dentro e lembro que esqueci de renovar o livro na biblioteca. Esqueci de pagar a conta de energia. Esqueci de responder a um e-mail. Esqueci também que 3 da madrugada você parte – e eu nem lembrava mais de você. Acabei de lembrar que descrevi tudo isso pra não lembrar de você. Eu ainda lembro. Esqueci de fazer todas as outras coisas só por ficar tentando te esquecer. Eu ainda lembro. Será que você lembra?! Desde quando eu me tornei invisível pra você? 3 da madrugada você parte, mas na verdade já faz tempo que você partiu. Só não tinha percebido ainda. Paro com as melosidades. Apesar de você, ainda odeio clichês.

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