Elipse

Eu senti vontade de fazer uma última pergunta e, como não sou muito de enrolar, peguei o celular e mandei uma mensagem. Era de tardinha, estava preparando um café. Meu açúcar havia acabado, decidi adoçar com mel. Não tenho nada contra o mel, ele cumpre sua parte, porém o gosto, é claro, não fica o mesmo. Nunca fica. Tipo esses relacionamentos que nós arranjarmos pra suprir uma carência. A carência não é nada mais, nada menos, que a falta daquele carinho, daquele toque, daquela voz, daquela assistência, que não é exatamente a de qualquer pessoa — é aquela que agrada, que satisfaz, que deixa marcas, que conquista, em gênero, número e grau. Todavia sou um ser humano, meus dias são curtos. E não ficarei sozinho na ausência do substantivo que deveria cumprir esse papel. Se não tenho my sugar, reponho com o mel; se não tenho quem amo, perco algumas temporadas curtindo a companhia de outra pessoa. Com outro alguém, a vida é diferente, mas continua sendo uma vida. Com o mel o sabor do café é diferente, mas, ainda assim, continua sendo café.

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Tira-teima – Parte #2

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Parte 2

Aquela afirmação ficou voando na minha cabeça sabe Deus lá por quanto tempo… “Eu sou o anjo da morte!”, senti um frio terrível na espinha, meus dedos nem doíam mais. Houve uma pequena queda de luz no momento em que ela se revelou, a situação ficou ainda mais esquisita. Acredito que exista um nível de assimilação da realidade no arsenal dos instintos humanos que evidencia uma verdade, de imediato, logo que ela chega ao cérebro. Nós tão somente aceitamos, o corpo não reage, não ousa elaborar questionamentos. Uma atributo real, mas quase indescritível, rola mais ou menos quando olhamos pra cara de um indivíduo, por exemplo, e percebemos o quão lídimo é o que ele anuncia, pois sua admissão parece sair do fundo da alma. Sem dúvidas, foi exatamente o que senti. As palavras doeram tanto quanto um soco no estômago – meu estômago cheio de álcool, rémedios e comida barata. Não me desesperei, porém também não agi com naturalidade, quem agiria? Sai de perto daquela coisa que usava calcinha. Andei até a janela, abri, encostei no muro da sacada e fiquei olhando a rua. O dia estava quente, um mormaço desgraçado. Era impossível! Não poderia estar delirando; a vida, monótona, chata e suja, como ela é, estava rodando de forma tranquila lá em baixo. As formigas subindo a parede, as gotas sujas do ar-condicionado do apartamento de cima, o boteco tocando Seu Jorge na esquina, os caras da companhia de luz agarrados nas afiações dos postes. Era real, com certeza. Precisava engolir aquela situação a seco e aceitar o fato da Morte estar sentada no meu sofá com sardas nos seios siliconados e pernas divinas, sem rastros de celulites. Não vou mentir, estava confuso… confuso e excitado. Tipo um hétero bêbado que acordara ao lado de um travesti. Pensei em me jogar da janela, cair de cabeça na calçada e acabar com tudo aquilo de uma vez, entretanto isso só facilitaria as coisas para ela. Ao me estabacar e rachar o crânio na calçada, eu iria encontra-la, quem sabe, mostrando sua verdadeira face e, mais ainda, com raiva por eu ter tomado essa decisão. Seria uma longa caminhada até a eternidade. Conclui que o pulo só pioraria as coisas.

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Tira-teima

O despertador de emergência tocou de novo, eu não aguentei e joguei o celular na parede, depois me levantei, fiz um pouco de café e fui até a sala assistir TV. Assim que liguei o primeiro canal era o do gado, agachei-me procurei o controle em todos os cantos, encontrei-o atrás do vaso de plantas. Comecei a trocar os canais… Era uma manhã de terça, não havia nada de muito bom. Uma velha ensinando a cozinhar carneiro, o jornal matinal, esportes olímpicos, um indiano ensinando yoga e o penúltimo canal era evangélico. Toquei no botão de avanço por mais uma vez, “Só restou você”, disse a mim mesmo. Menos mal, estava dando desenho, aumentei o volume e deixei rolar. Retornei ao quarto, abri o guarda-roupas, revirei minhas gavetas e peguei uma pomada cansada de ser exprimida. Sentei no sofá, coloquei o café sobre a mesinha da sala e um pouco de algodão ao lado, a mesinha ficava entre o sofá e a TV. Pus o pé esquerdo sobre minha coxa direita, abri o espaço entre os últimos dedos… “Ah, sua micose desgraçada”, murmurei. Taquei a pomada nas feridas e, por seguinte,  o algodão. “Vocês não me deixaram trabalhar, né malditas? Mas não vai ficar assim. Se não melhorar, coloco fogo em vocês!”, continuei falando. A pomada deu um efeito de alívio imediato, perdi alguns minutos largado ali. Tempos depois, quando já estava terminando o café e rindo do Pica-pau, alguém bateu na minha porta. “Maldição!”, pensei. Não estava muito a fim de lidar com seres humanos, tudo que eu precisava era de 24hrs longe do público. As batidas continuaram e eu me lembrei que o volume da TV chega facilmente ao corredor, logo, quem insiste, sabe que estou em casa. Sem opções, levantei-me e fui mancando até a porta. Não mancava por falta de opção, era mais por drama mesmo.

Girei as chaves do velho apartamento, assim que abri não vi ninguém. Olhei para baixo e lá estava uma linda garotinha. Deveria ter uns dez anos, ela chupava um pirulito de frutas vermelhas.

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Heterocromia

Adilson sempre teve um fascínio enorme pelo olhar feminino. Se uma garota de olhos claros passasse pela gente, ele logo ficava encantado. Sua mente silenciava, a realidade parecia rodar em câmera lenta como nos filmes. Era horrível quando estávamos juntos e acontecia isso, pois eu era obrigado a repetir tudo que estava dizendo assim que sua cabeça voltasse do mundo da lua. Como usávamos o metrô para ir e voltar do trabalho, era comum vê-lo chegar no departamento falando de alguma guria cotidiana de olhar oceano ou esmeralda. “Estou xonadão, brother!”, dizia, repetia… Enchia o saco. Quando ele vinha assim, com um sorriso abobalhado na cara, tanto eu quanto o restante da equipe já sabíamos do que se tratava. Era uma paixão diferente todas as vezes. Diferente, claro, se ignorarmos o elemento comum entre todas as moças.

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Sorte

Hoje de manhã ainda chovia, mas quando abri as janelas percebi que se podia sentir e ver o sol.  Apático. Antipático. Ele continuou lá. Reluzente. Convidando-me a colocar mais do que a cabeça para fora e ir conferir de perto o dia e o tempo novo que se fazia.

Pisei descalça naquele chão molhado e senti a água gelada tocar os meus pés. Observei cada flor intacta e toda pétala caída. Algumas plantas pareciam sorrir, em outras como no Lírio da Paz, claramente se via uma expressão que dizia que a chuva já estava exagerando.

Mais à frente avistei muitas plantinhas de um verde cor de esperança, cor de sorte e também… cor de fantasia. Aproximei-me. Ajoelhei-me. E os meus olhos viram e descobriram pequeninas folhas em formato de coração bem manejadas e articuladas em galhinhos frágeis e finos. Azedinha – pensei – mas não era, era trevo! Continue lendo “Sorte”

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