Imensidões

Querida,

Passei um tempo sem escrever, queria me sufocar e estava funcionando, mas agora não consigo mais… eu preciso dizer, preciso escrever e necessito demasiadamente falar sobre essas merdas que me acontecem. Eu quis fugir da escrita, quis me refugiar no ócio, mas não me é mais possível.

Esse é um daqueles piores momentos da minha vida. As dúvidas me tomam, a vontade de desistir de tudo me assombra e tudo que eu mais desejo neste exato momento é SUMIR. Eu sei que faço drama e que pra qualquer um que possa passar os olhos por estas parcas linhas, tudo não vai passar de drama de desocupada ou de alguém querendo chamar atenção – antes fosse. Nunca as coisas ficaram tão difíceis de suportar. Nunca foi tão difícil me suportar e suportar os pensamentos que me atormentam dia e noite. Talvez você conheça aquele conto oriental que o Tolstoi cita em um de seus livros sobre um viajante que foi atacado por um animal e que para se salvar pula em poço, mas ao pular avista um dragão no fundo do poço. Com isso, se agarra a alguns arbustos e fica sem saída – não pode subir nem descer -, como se não bastasse aparecem dois ratos em volta do arbusto que o sustenta, e estes começam a roer o galho. Mesmo assim ele continua pendurado “procura em volta e acha, nas folhas do arbusto, uma gota de mel, a alcança com a língua e lambe.” Como Tolstoi, é assim que me sinto, “me agarro aos galhos da vida, sabendo que me espera, inevitavelmente, o dragão da morte, pronto para me estraçalhar, e não consigo entender para que vim parar nesse tormento. E também eu experimento sugar esse mel que antes me consolava; mas esse mel já não me alegra, e o rato branco e o rato preto – o dia e a noite – roem o galho no qual eu me seguro.” É exatamente assim que me sinto. Não consigo desviar o olhar dessas coisas aterrorizantes que me tomam.

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Letargia

Minha queridíssima,

 

Recebi suas cartas, o livro, seus recados. Perdoe-me não ter respondido suas delicadezas. Estava ocupada demais presa em mim mesma, vendo-me e permitindo corroer-me. Peço-lhe mil perdões por tamanha grosseria.

Voltei a mim e percebi o quão mal estava me fazendo e também aos que me cercam. É imensa a vergonha que sinto. Quero me redimir de alguma forma.

Dias e mais dias fugindo das aulas. O mundo é chato. Tudo tem se tornado absurdamente chato ou eu tenho me tornado demasiadamente chata? Não importa. Fugindo das responsabilidades, tornando-me cada vez mais estranha pros outros e pra mim. Nunca estive tão cansada. Por vezes tenho pensado em desistir, mas nem isso eu consigo.

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Poucas linhas

Querida,

Perdoe o sumiço. Tenho andado com preguiça de tudo. Hoje despertei e resolvi te escrever. As cartas salvam pessoas – quem as lê e quem as escreve. Não tenho muita coisa pra contar. Fiquei vegetando em minha cama por sei lá quantos dias. Mal percebo o tempo passar. Lá fora chove. Eu queria tomar banho de chuva. Quem sabe a água que cai lá de cima seja capaz de levar toda essa preguiça e esse vazio. Que besteira, não é?! Eu também queria escrever um poema sobre esse dia cinzento, triste; sobre esse vazio (?) existencial.

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Correspondência in-completa

*Para Ana Cristina Cesar

Oi,

É quarta-feira e eu tô deitada em minha cama te escrevendo. Faz alguns anos que li umas coisas sobre você. Li suas obras e sou fascinada pelas cartas. Fico procurando entender o que a fez ir embora tão cedo. Queria tê-la conhecido. Queria ter feito parte de sua vida – meio louco, né?!

Você é uma dessas pessoas que eu daria qualquer coisa para ter convivido ao menos um pouquinho. Ler você só me faz querer buscar entender o que se passava com você naquela época – sei que não devia. Te ler só aumenta o meu desejo de tê-la conhecido de perto. Queria ter assistido as aulas da faculdade com você. Queria ter participado dos grupos de estudo que você participou – nem que fosse como uma mera observadora. Queria tê-la observado de perto. Encantadora, misteriosa e uma poeta fodástica.

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Dúbio

Olá, Débora.

Obrigado por escrever e por ainda se preocupar comigo. Estou deixando o hospital, o gesso coça um pouco, mas vou sobreviver.

É gostoso poder parar e elaborar, finalmente, uma resposta decente pra ti. Você me conhece como ninguém, sabes que no que tange ao coração, sempre fui um tanto covarde. E confesso que estando escondido atrás das letras, consigo ser mais claro e sincero sobre o modo como me sinto. A vida continua cansativa, infeliz e dolorosa. Exige muito de tudo o tempo inteiro. Agora, depois do nosso termino, muita gente anda se aproximando e perguntando como me sinto, se superei, se está tudo bem comigo. Dou uma resposta rápida em quase todas as vezes. É aquele esquema; a maior parte das pessoas que se encontram na mesma situação, mentem quando são indagadas, dizem que tudo está muito legal, esticam um sorriso e mudam de assunto. That’s all.

Embromar ao ouvir esse tipo de pergunta é uma atividade notória, já inclusa nas regras do nosso firewall pessoal. Então, quando questionado, também minto que as coisas estão ótimas, quando na verdade me sinto péssimo. Todo mundo sabe que não se deve falar da vida privada a qualquer um, não se deve bancar o maluco depressivo das pracinhas, das igrejas, das filas de banco, ou do elevador. Afinal, nem toda pessoa que deseja saber como estamos está, de fato, interessada no nosso bem. Entretanto você não faz parte dos fofoqueiros que me rodeiam. E já que me escrevera cobrando um desabafo, tentarei ser o mais sincero possível, descrevendo o que existe de mais indescritível no meu ser.

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