Para F.

08 de julho

Acabei de chegar em casa. O dia foi cheio. Ficarei sozinha em casa esse fim de semana, acredita?! A tia M. viajou para o sítio da amiga e só volta na semana que vem. Achei estranho chegar em casa e não ter ninguém esperando. A casa tá um deserto daqueles.

A lâmpada da cozinha queimou – assisti uns tutoriais e eu mesma troquei. Sou bem independente agora, morô? A casa vazia e eu indecisa: comer ou tomar banho primeiro?! Vou terminar de te escrever e depois decido.

Hoje foi um dia daqueles. O azar me perseguiu de maneira absurda. Quase fui atropelada por um maluco que avançou no sinal vermelho. Um pássaro invadiu o café pela janela deu um voo super rápido e quase se chocou contra a minha cabeça. Estou pensando até agora… com aquela velocidade se tivesse batido na minha cabeça eu ou ele teria morrido (?) ou nenhum dos dois?! Não bastasse isso, E. desmarcou nosso compromisso do fim de semana e pediu pra adiar o nosso mochilão. Já era o mochilão esse ano – eu fiquei puta com isso e agora tô mega triste. Você sabe como eu tava animada. Preciso desopilar, preciso de novos ares – eu estava contando com esse mochilão pra tentar me encontrar e tudo mais.

O trabalho no café até que é legalzinho, mas a tia vive jogando na minha cara que preciso achar algo melhor – me pergunto “melhor pra quem”? – O mesmo discurso de sempre “seu primo isso, sua prima aquilo”. E se eu quiser trabalhar no café pra sempre? Não posso? Pra mim aquele lugar é importante, me sinto bem com meu emprego. Não posso ser feliz trabalhando em um café? Por que tenho que voltar pra faculdade se tô de boas fazendo o que faço, saca? Que papo errado esse de dizer o que é ou pode ser melhor para o outro; às vezes bate um desânimo com isso, sabe? mas logo desencano.

Desculpa ficar falando tanto de mim, é que só você entende esses meus perrengues. Me conta de você. Ainda no mesmo emprego? O que tem feito por aí? Lembra daquela sua frase “tenho manias de se invisível”? Eu queria ter manias de ser invisível vezenquando. Me escreve, F.

Beijos.

P.

Sem título

L.,

Te enviei os livros, me conta se recebeu. Daqui duas semanas viajo. Vou te mandar o endereço pra correspondência e você pode me escrever. Prometo escrever com mais frequência – sem telefonemas por um tempo.

A vida tem estado um tédio. Encontrei com P. ontem à noite e saímos pra comer pastel naquele lugar que você adora. O Dan perguntou de você. Disse que sente falta das suas visitas constantes. Ah, e o pastel de lá continua sendo o melhor. Deram uma repaginada no lugar, tá bem legal – você precisa ver!

P. reclama tanto da vida. Chamei pra viajar comigo, mas disse que não pode largar “a vida” e o emprego. Eu falei que era bobagem e recebi um sermão daqueles – como sempre. Queria poder fazer algo por ele, entende? Mas ele se tranca em si mesmo e é tão cabeça dura – amo e odeio simultaneamente. Ainda vou ver se o convenço a ir comigo. Aguarde cenas do próximo capítulo.

Fui visitar F. esses dias. Fiquei com pena dela, anda tão tristinha. Parece que tá com uns problemas com o marido e para completar a mãe tem estado bem doente. Falamos dos nossos tempos de faculdade, o que deu uma animada. Marcamos um café, mas não sei se vai sair – já marcamos outras vezes e sempre acontece algo. Falou que vai te escrever assim que as coisas derem uma maneirada.

Ai, o clima tem estado tão pesado por aqui. Preciso desencanar de algumas coisas. Tô torcendo pra que a viagem seja de boas e que eu consiga aproveitar. Tenho que aproveitar agora que a tristeza resolveu se mover e me deixou um pouco.

Mas me conta de você… O estágio tem sido bacaninha? Conheceu gente nova? Alguém especial? Aguardo correspondência sua, e te escreverei tão mais breve possível. Ah, o que você tem ouvido? Preciso de umas super dicas de músicas bem leves…

Com beijos,

De R.

P.S.: “E eu vou contando os dias, vou roubando as horas, quero tanto me encontrar…” É de uma música – “Tudo que não for vida” – do Vanguart. E eu tô maravilhada, ouça!!

Sem título

D.,

Perdoa-me por escrever depois de tanto tempo. Prometi enviar o e-mail – queria muito ter mandado -, mas os dias difíceis não me permitiram. Te escrevo agora e peço desculpas.

Por onde tens andado? Andas escrevinhando muito? As palavras não me visitam mais – ou até visitam, mas as tenho mandado embora. Meu humor está péssimo. Minha vida uma bagunça. Eu só queria fechar os olhos e dançar na chuva. Não há leveza nas coisas e se há, não enxergo, não sinto. Essa morbidez que me toma, será que um dia passa?

Meu “caderninho de ser inútil” tem mais dez folhas. Quando acabar será que compro outro?  Será que eu não acabo antes de preencher as dez folhas que restam? Tenho medo de acabar antes do caderninho.

Se você estivesse aqui, te pediria um cigarro. Te chamaria pra caminhar. Você vive muito e eu tenho vivido pouco. D., a vida passou por aqui e eu a mandei embora. Acho que ela não volta. Será que volta?

Faz sol aqui, vou sair um pouco. Caminhar. Talvez eu compre cigarros. Quando você vem? Você ainda vem, não é? Será que te espero? Quando vier, promete que me empresta um pouco de vida? Me deixa andar com você. Me faz rir. Me conta histórias. Recita uns poemas e não me deixa acabar antes do meu caderninho.

Na lama

Querida,

Eu estou bem. Um pouco perdida, talvez. Vou mudar para o novo apartamento na semana que vem. Não aguento mais o barulho que o vizinho de cima faz. Esses dias acordei super cedo para fazer faxina e me vingar. Joguei umas almofadas no teto só para perturbá-lo – não sei se funcionou. O novo lugar é aconchegante, mas espero que os vizinhos não me incomodem tanto. Eu sei, estou parecendo uma velha rabugenta, mas não ligo pra isso.

Vi C. no parque ontem. Falamos “oi”, e só. Não parecia a mesma pessoa. Parecia triste, com o olhar meio sem brilho. Será que foi por me ver? Bem, não importa. Quer dizer, você sabe, não é?

G. ligou e me convidou pra sair. Recusei. Disse que estava sem ânimo. Logo depois, o pessoal me chamou pra ver a exposição lá na galeria, eu disse que tentaria ir, mas obviamente não fui. Estava mesmo meio deprimida e também não queria ver C. Ainda não superei o nosso lance, então estar no mesmo círculo de amigos ia ser estranho.

Acho que cansei dos vários relacionamentos. Tentar bancar a maluca para preencher isso que falta em mim não deu muito certo. Continuo no fundo do poço, e agora mais enlameada. Sabe, acho que estava mesmo gostando de C., cê acha que vou ser maluca demais se tentar me reaproximar?

O pior de tudo é saber que eu sou o problema, e enquanto não resolver toda essa minha confusão nunca vou conseguir “ser” inteira de alguém, permanecer… Os meus relacionamentos nunca vão passar de casinhos. Que ódio das minhas confusões.

Mana, acho que é isso. Me conta de você. Do novo emprego, dos seus lances, de como vai a vida… O que você tem lido? Te aguardo!

 

Beijos,

O.

 

Fragmentos

My dear,

        Hoje está um lindo dia por aqui. Hoje é a segunda vez que tento te escrever. Tenho tanto a dizer, mas procuro uma maneira, procuro pelas palavras e elas continuam presas em mim. Me sinto sufocada por não conseguir dizer o que preciso e me ponho a pensar “será que realmente preciso?”.

        Eu olho para todos os lados e é tudo cinza. Vejo tudo desmoronar, desabar – em mim? diante dos meus olhos? -; vejo a vida cair. Queria ao menos sentir vontade de chorar, mas nem isso. Queria sentir alguma dor que me partisse ao meio e me pusesse a chorar. Tá tudo ruindo e eu tô aqui paralisada. Será que nós somos cruéis com a vida ou ela é cruel conosco?

        Como que eu faço pra resistir em meio a isso tudo? É como se estivesse soterrada e todos os meus órgãos tivessem se comprimido. Não sei direito o que eu tô sentindo. Tenho sido tão rasa em tudo. Tenho sido tão pouca coisa em tudo. Não sei o que vem acontecendo comigo e não sei o porquê de ter permitido que minha vida tomasse um rumo tão perdido. Estou farta de sentir que estou sempre no lugar errado. De me senti a estranha em qualquer lugar que eu esteja. Estou farta de fazer tudo tão errado. Será que um dia vou me sentir parte de algo? Será que algum dia vou fazer algo certo? Será que algum dia vou ser aquilo que tenho de ser? Temo não conseguir esperar.

        Desculpa ter feito da carta um diário, é que eu precisava. Escreva-me com suas gentis palavras e, por favor, me faça sentir parte de algo.

 

Em fragmentos  e quase inexistindo,

C.

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