Sem título

São 18h45. O universo inteiro parece desabar sobre mim. Eu li sua mensagem, não sei bem o que responder. Palavras e mais palavras se misturam e eu não sei quais usar. Emudecer com o passar dos anos é coisa natural, não é? A gente é meio pássaro? Emudecer com o passar do tempo é coisa natural. Faço confusão com as palavras. Às vezes penso que você não me entende.

Engraçado que a convivência com os meus avós demonstrou o contrário, eles costumavam falar muito, inclusive sozinhos. Acho que você não deve levar a sério o “emudecer com o passar dos anos é coisa natural” – se puder ignorar tudo o que eu já disse e ainda vou dizer… Eu nem sei por que escrevo. Eu digo bobagens quando não sei o que dizer. Por isso prefiro o silêncio, eu nunca sei o que dizer na maioria das situações.

Também escrevo bobagens quando não sei o que responder. Silenciar diante das perguntas  escritas é sempre mais difícil, não é? Quem tá do outro lado sempre espera uma resposta e na maioria das vezes o silêncio não é resposta para quem te escreve, seja carta, seja e-mail, seja mensagem, é mais difícil ignorar, você não acha?

De toda forma, não tenho resposta. Espero que da próxima vez que voltar a te escrever eu tenha uma resposta – eu já nem lembro mais qual era a sua pergunta, mas escreverei.

S.

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Missiva

xxxxx, xx

Minha vida anda desajustada. Sabe aqueles relógios que você ajusta a hora num instante e no outro ele já tá marcando a hora errada de novo? É um pouco assim que me sinto. Nenhum dos meus relógios quebrados teve conserto definitivo. Sempre os joguei fora. Há pessoas que colecionam relógios quebrados. Pergunto-me por qual motivo (?). Não servem mais. Só ocupam espaço. Também já vi pessoas que dão mais atenção para os relógios quebrados do que para aquele que carregam no pulso, e lhe é de alguma serventia. Você percebe o que quero dizer? Relógios quebrados também precisam de cuidados. Relógios desajustados também são dignos de cuidado. Faz sentido pra você?

Desfecho

Escrevo essa carta por enigmas enquanto sobriamente minha alma grita por dentro não de dor, mas bebe em um tom de sarcasmo para o desabafo inevitável. Sei que futuramente tal texto dificilmente será entendido até por mim, mas mesmo assim é uma daquelas coisas dignas de se tomar nota.  Digo que o mesmo frio que gela a pele e causa tremores no corpo também queima a alma. Eis o constante motivo de meus pontuais silêncios enquanto meu espírito recita poesias e bebe vinho. Continue lendo “Desfecho”

Algum dia do calendário

Para ouvir – the owl – rainy sun

Para N.,

Os dias andam nublados. Há dias o sol não entra pela janela. 15:10 o ônibus sobe a ladeira. Chove. Em dias tristes. Pessoas tristes. Tudo anda tão triste. Ouvi no rádio ontem que duas pessoas foram encontradas mortas na calçada da rua que leva ao condomínio morada nobre. Morreram de frio. O que é nobreza pra você? A tempestade que cai é triste. A água que escorre pelas ruas é triste. Lá do outro lado a pessoa que ouve “Piano Bar” do Engenheiros do Hawaii é triste. Você ainda consegue dormir à noite? Faltou luz. Somos todos tristes. Há felicidade ainda aqui?

Escrevo estas linhas desconexas, pois nada aqui faz sentido. Uma carta-protesto, talvez, mas com que propósito? Contra quem? Eu mesmo e minha hipocrisia?! Há algum propósito nessas coisas que fazemos? Uma criança sorriu pra mim ontem na rua. Um pássaro pousou na janela da cozinha enquanto eu lavava a louça. Ainda chove. Eu não lembro que dia é hoje. Fiz bolo de laranja. Ando cansada. Já reparou em como a cidade é cinza?

L.

A primeira carta

Alda,

Não sabia como iniciar, o tempo passou e eu acho que perdi a prática de como se iniciam as conversas   – até mesmo as escritas. Tenho sentido a sua falta todo esse tempo, mas havia em mim um certo receio de me comunicar por esse meio – “um pouco antiquado” – você diria. Pessoalmente eu riria disso mais uma vez, mas agora distante, e com o sacrifício que me é pegar uma caneta e escrever-te, me sentiria envergonhada com tal resposta, e provavelmente não mais escreveria.

Aqui continuo sem sinal, já desisti de conseguir internet, e a tv na sala, não mudou muito, está lá apenas para que eu pareça menos selvagem. Aos domingos vou a cidade e compro pão, pudim e um jornal que às vezes me disponho a ler, mas por fim desisto. Estou gostando de me esconder aqui, temo não querer mais sair. Posso plantar o meu próprio alimento e me isolar por completo aqui dentro, não se preocupe, não farei isso, o meu temor é exatamente o contrário, o de quando por fim eu terminar a montagem do herbário, e assim ter que arrumar as malas, coloca-las no carro e partir.

Tenho uma novidade: a senhora que mora “aqui perto” deu-me um pezinho de funcho (é erva-doce, digamos) e mais dois gatos, sobre eles não irei falar muito, não quero estressa-la. Mas quanto a planta sigo-a admirando, prometo dar-lhe mais notícias dela. A “folha seca” que estou te enviando, achei por aqui, não sei de que árvore vem, nem descobri, mas achei bonita e acho que irá gostar. É só.

Com amor,

Eleonor

Apenas mais um passo

Os dias se passam de forma tão monótona. Não tenho vontades, A. Coragens absurdas também não tenho – absurdas não tanto, você entende, não é? Também me tenho emudecido. Voltar pra casa que não é da gente faz sempre reprimir gritos.

A vida parece não mudar. Não andar. Andar para trás. Tenho estado tão imóvel. Me ponho a caminhar de olhos fechados e quando os abro é sempre o precipício que está diante de mim – então me aquieto. É apenas mais um passo. Que há de ser da vida aqui em diante? É apenas mais um passo. Apenas mais um passo.

Me inquieto – mais do que antes. Mas logo me cortam as asas e caio em mim ou no que querem que eu caia. Absurdo. A vida é um grande de um absurdo. É sempre o “não vai por aí”. Que faço então? Uma insatisfação tamanha me toma. Que farei? Ainda há sanidade em mim? Que há de ser a vida aqui em diante, A.?

Tem sempre uma tempestade sobre mim. As paredes continuam vazias por aqui, você entende? A tarde fria se aproxima – acho que preciso de um café. Acenderei as lamparinas e irei torcer para que o vento não as apague. Essa é a última folha do caderninho…

Continuaria a escrever, mas já não tenho muito a dizer. Até breve.

Escreva-me qualquer dia

Abraços,
D.

Silêncios

Senti vontade de escrever a você. Há tanto tempo não lhe tenho mandado notícias. Agora que o faço, não sei por onde começar. Há tanto não escrevo cartas. Mesmo assim volto a elas porque foi nelas que encontrei alento quando nada mais fazia sentido – não que agora algo faça sentido.

Experimentei do silêncio. Experimentei do não dizer. Nada em mim dizia coisa alguma. Nada em mim desejava coisa alguma. Havia barulho lá fora, mas em mim, aqui dentro o silêncio reinava. O silêncio fez confusão em mim.

Meus silêncios são sempre barulhentos. Ontem fiquei pensando no que eu podia ter feito, no que eu podia ter sido. Lembrei de você lamentando por tudo o que não deu certo. Por tudo que podia ter sido, mas não foi. Lamentei por tudo o que não foi. E seria hipócrita se dissesse que não sinto saudade daquilo que não foi. Você me entende, não é? É, eu sinto saudade daquilo que nem aconteceu. Você se pergunta como é possível – eu só sei dizer que é possível.

Não consigo mais dizer coisa alguma. Confesso que escrever cartas é um processo doloroso e que muitas das vezes acabo não conseguindo dizer tudo o que havia planejado dizer.  Acabo por aqui. Perdoa as poucas palavras e as muitas lamentações.

Te aguardo.

C.

A letra depois do Z

Ei!

Eu li sua última carta e ainda me surpreende o modo como me conheces tão bem;
Você é dissimulado, porém eu vejo o homem por trás desse olhar vazio. As dores, os conflitos, os problemas, as brigas, as quedas e os traumas da vida, te forçaram a modelar camadas e mais camadas de personalidades que escondem seu verdadeiro Eu“. Ual! isso foi profundo. Provavelmente a coisa mais franca que já li sobre mim mesmo. Eu não sei quantas vezes lhe pedi para darmos um basta nisso; nessa espécie melancólica de amor, onde a gente não transa, mas também não sai da cama. Eu não tenho você e você não tem a mim. E só gastamos o nosso tempo as escondidas um com o outro porque no fundo sabemos que somos feitos um para o outro. Embora seja tão difícil confessar isso sem trazer, junto as palavras, uma avalanche inteira de sentimentos ora arbitrários, ora essenciais. Um problema que, se não existisse, nos tornaria livres para mergulhar naquilo que a literatura chama de felicidade.

Continue lendo “A letra depois do Z”

Que pensas mulher que dói tua partida.

Ei Emile,

Resolvo responder a tua carta, pela última vez… São quase nove horas da noite, uma noite fria atípica de março, são as águas de março, mas sem promessas ou esperanças. Nas ruas não há nada inspirador, tudo passa o ar de feiura e utilitarismo que não é capaz de dar respostas para ninguém. Continue lendo “Que pensas mulher que dói tua partida.”

Everybody’s got to learn sometime

Oi.

Acredito que ao enviar sua última carta, você já não esperava mais nenhuma resposta. Provavelmente achou que meu ódio sobressairia meu desejo quase natural de dar a última palavra na discussão, de ser o último a falar e conceber o ponto final dos dilemas e conflitos. Pois bem, se assim pensou, você estava errada. Mexa com a raiva masculina o quanto quiser, mas nunca, jamais, em hipótese alguma, mexa com o ego. O ego é uma máquina de atitudes previsíveis. O que faz desse texto, dessa carta, mais uma das tantas coisas previsíveis que se poderia esperar de mim. Você não é boba, vai ver ansiava pela minha resposta. É possível? É! É sim. Prefiro acreditar nessa versão da história.

Continue lendo “Everybody’s got to learn sometime”

28 de julho

Querida Ellie,

São 23:35 de um sábado tedioso de uma vida monótona. A chuva cessou depois do longo e belo temporal. Há de se discutir em uma outra carta se são belos mesmo os temporais. Há de se levar em conta que de determinado ponto de vista sejam tristes e medonhos.

Me desfiz em lágrimas esta manhã – não há motivo específico ou talvez haja, mas não me é claro. Abri a última garrafa de vinho barato que havia na dispensa. Chorei mais um bocado e caí na cama. As “ruas” andam tristonhas. As paredes estão cinzas, as pessoas estão cinzas.Percebe o quanto de cores perdemos nos últimos tempos?

Ah! o cansaço me toma. Há de haver ainda esperança que se sustente numa alma tão despedaçada quanto a minha? Há de haver ainda?

Há de se considerar que com esperanças ou não. Felizes ou não. Despedaçados ou não. A vida há de continuar. Eu, de certo modo, me deixei paralisar, mas a vida tem cobrado. Hei de desabar ainda inúmeras vezes. A sensação é de que numa dessas não levante novamente. Sabes aquela história de estar tão perto de alcançar algo, mas numca alcançar de fato – não falo da utopia. A sensação de estar tão perto de algo e de repente se desfaz e tudo volta a parecer distante. Sabes o que é sempre que se está a um passo do objetivo voltar dez passos assim de repente?! Continue lendo “28 de julho”

O amor para a Gurizada

Aos jovens do sexo masculino

 

Ou! Você mesmo. Por que você está mentindo pra si mesmo? Ei, mano. Pare agora! Você é novo demais pra isso, cara. Deixe a hipocrisia pra mais tarde, para a fase adulta, onde você não conseguirá viver um único dia sem ter que esconder quem realmente é. Deixe as aparências para os anos da aposentadoria, onde você poderá refletir sobre os seus erros do passado enquanto lança grãos aos pombos da praça. Vamos lá campeão, você ainda é novo. O seu destino ainda não está traçado. Existem muitas decisões pra se tomar, muitos caminhos para desbravar, muitas coisas boas pra acontecer e — por que não? — diversas falhas pra se cometer.

Feche seus olhos, concentre suas energias e rasgue essa sufocante pelugem da vida social, vaidosa, virtual. Deixe seu eu interior florescer, nem que seja só por um segundo, nem que seja só por essa carta, de modo que você consiga responder a pergunta que farei com toda sinceridade do mundo. Ela é simples, mas demanda empenho e honestidade, ok? Caso já esteja preparado, lá vai:

Continue lendo “O amor para a Gurizada”

Para F.

08 de julho

Acabei de chegar em casa. O dia foi cheio. Ficarei sozinha em casa esse fim de semana, acredita?! A tia M. viajou para o sítio da amiga e só volta na semana que vem. Achei estranho chegar em casa e não ter ninguém esperando. A casa tá um deserto daqueles.

A lâmpada da cozinha queimou – assisti uns tutoriais e eu mesma troquei. Sou bem independente agora, morô? A casa vazia e eu indecisa: comer ou tomar banho primeiro?! Vou terminar de te escrever e depois decido.

Hoje foi um dia daqueles. O azar me perseguiu de maneira absurda. Quase fui atropelada por um maluco que avançou no sinal vermelho. Um pássaro invadiu o café pela janela deu um voo super rápido e quase se chocou contra a minha cabeça. Estou pensando até agora… com aquela velocidade se tivesse batido na minha cabeça eu ou ele teria morrido (?) ou nenhum dos dois?! Não bastasse isso, E. desmarcou nosso compromisso do fim de semana e pediu pra adiar o nosso mochilão. Já era o mochilão esse ano – eu fiquei puta com isso e agora tô mega triste. Você sabe como eu tava animada. Preciso desopilar, preciso de novos ares – eu estava contando com esse mochilão pra tentar me encontrar e tudo mais.

O trabalho no café até que é legalzinho, mas a tia vive jogando na minha cara que preciso achar algo melhor – me pergunto “melhor pra quem”? – O mesmo discurso de sempre “seu primo isso, sua prima aquilo”. E se eu quiser trabalhar no café pra sempre? Não posso? Pra mim aquele lugar é importante, me sinto bem com meu emprego. Não posso ser feliz trabalhando em um café? Por que tenho que voltar pra faculdade se tô de boas fazendo o que faço, saca? Que papo errado esse de dizer o que é ou pode ser melhor para o outro; às vezes bate um desânimo com isso, sabe? mas logo desencano.

Desculpa ficar falando tanto de mim, é que só você entende esses meus perrengues. Me conta de você. Ainda no mesmo emprego? O que tem feito por aí? Lembra daquela sua frase “tenho manias de se invisível”? Eu queria ter manias de ser invisível vezenquando. Me escreve, F.

Beijos.

P.

Sem título

L.,

Te enviei os livros, me conta se recebeu. Daqui duas semanas viajo. Vou te mandar o endereço pra correspondência e você pode me escrever. Prometo escrever com mais frequência – sem telefonemas por um tempo.

A vida tem estado um tédio. Encontrei com P. ontem à noite e saímos pra comer pastel naquele lugar que você adora. O Dan perguntou de você. Disse que sente falta das suas visitas constantes. Ah, e o pastel de lá continua sendo o melhor. Deram uma repaginada no lugar, tá bem legal – você precisa ver!

P. reclama tanto da vida. Chamei pra viajar comigo, mas disse que não pode largar “a vida” e o emprego. Eu falei que era bobagem e recebi um sermão daqueles – como sempre. Queria poder fazer algo por ele, entende? Mas ele se tranca em si mesmo e é tão cabeça dura – amo e odeio simultaneamente. Ainda vou ver se o convenço a ir comigo. Aguarde cenas do próximo capítulo.

Fui visitar F. esses dias. Fiquei com pena dela, anda tão tristinha. Parece que tá com uns problemas com o marido e para completar a mãe tem estado bem doente. Falamos dos nossos tempos de faculdade, o que deu uma animada. Marcamos um café, mas não sei se vai sair – já marcamos outras vezes e sempre acontece algo. Falou que vai te escrever assim que as coisas derem uma maneirada.

Ai, o clima tem estado tão pesado por aqui. Preciso desencanar de algumas coisas. Tô torcendo pra que a viagem seja de boas e que eu consiga aproveitar. Tenho que aproveitar agora que a tristeza resolveu se mover e me deixou um pouco.

Mas me conta de você… O estágio tem sido bacaninha? Conheceu gente nova? Alguém especial? Aguardo correspondência sua, e te escreverei tão mais breve possível. Ah, o que você tem ouvido? Preciso de umas super dicas de músicas bem leves…

Com beijos,

De R.

P.S.: “E eu vou contando os dias, vou roubando as horas, quero tanto me encontrar…” É de uma música – “Tudo que não for vida” – do Vanguart. E eu tô maravilhada, ouça!!

Sem título

D.,

Perdoa-me por escrever depois de tanto tempo. Prometi enviar o e-mail – queria muito ter mandado -, mas os dias difíceis não me permitiram. Te escrevo agora e peço desculpas.

Por onde tens andado? Andas escrevinhando muito? As palavras não me visitam mais – ou até visitam, mas as tenho mandado embora. Meu humor está péssimo. Minha vida uma bagunça. Eu só queria fechar os olhos e dançar na chuva. Não há leveza nas coisas e se há, não enxergo, não sinto. Essa morbidez que me toma, será que um dia passa?

Meu “caderninho de ser inútil” tem mais dez folhas. Quando acabar será que compro outro?  Será que eu não acabo antes de preencher as dez folhas que restam? Tenho medo de acabar antes do caderninho.

Se você estivesse aqui, te pediria um cigarro. Te chamaria pra caminhar. Você vive muito e eu tenho vivido pouco. D., a vida passou por aqui e eu a mandei embora. Acho que ela não volta. Será que volta?

Faz sol aqui, vou sair um pouco. Caminhar. Talvez eu compre cigarros. Quando você vem? Você ainda vem, não é? Será que te espero? Quando vier, promete que me empresta um pouco de vida? Me deixa andar com você. Me faz rir. Me conta histórias. Recita uns poemas e não me deixa acabar antes do meu caderninho.

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