Naquele quarto escuro

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Eram quase 2h da manhã. Ficara algumas vezes acordado até esse horário assistindo vídeos no YouTube, acessando as redes sociais… Mas nesse dia foi diferente. Não queria usar o celular, almejava apenas dormir. “Será que é querer demais? Acordar às 5h da manhã não é algo prazeroso” – pensou.

O sono não estava chegando. Também não sabia a que horas viria. Quando fechava os olhos, um turbilhão de pensamentos o inundava, tirando-lhe o sossego e o fazendo rolar na cama. E, já que o sono não dera sinal de alerta, ele desejava uma coisa. Não se tratava de nada simplório, mas de algo MUITO extraordinário. Alguns diriam: “ele está ficando louco”. Isso o fez recordar de uma cena do filme ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS:

“[…] – será que estou ficando louco? – disse o chapeleiro.

– Sim, você está completamente louco. Mas vou lhe dizer uma coisa: as melhores pessoas são assim – falou Alice. Lembrar-se desse diálogo o fez sorrir brevemente.

Naquele quarto escuro, sozinho em plena madrugada, o algo extraordinário ao qual gostaria que acontecesse era que o Criador se revelasse a ele. Sim, tipo um clarão aparecesse do nada e iluminasse todo o seu quarto, ou melhor, toda a sua alma. Ouvira algumas vezes relatos de pessoas que vivenciaram experiências com o Altíssimo, e mesmo se considerando uma criatura totalmente desprezível, adoraria o fato de Deus falar com ele. Teria tantas coisas pra perguntar, falar sobre a vida, sobre tudo o que lhe atormenta… A sensação de não encontrar respostas imediatas o angustiava.

Ele se encontrava cansado, é verdade! Não o seu físico, mas a sua alma. Porém, ainda que para uma grande maioria Deus se revelar para alguém fosse algo impossível de acontecer – talvez uma coisa fantasiosa demais -, ele ainda queria acreditar nessa possibilidade. E tinha certa certeza que esse acontecimento mudaria a sua vida – e para sempre.

Ops! Ele percebeu que o sono anunciou a sua vinda – tardia, é claro. “É o momento de fechar os olhos e permitir que ele me ‘consuma'”. Nem que fosse por um pouco de tempo. Afinal, 5h da manhã estava logo ali…

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Eu também seguirei

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Ela separou uma folha qualquer de um caderno e escreveu:

Esses dias vi você caminhando com a sua nova amiga no parque. Estou deduzindo que seja sua amiga porque atualmente estão sempre juntas. E pelo modo como vocês conversavam… Nossa! Você estava tão feliz, tão… cheia de vida. E quer saber de uma coisa: aquilo me incomodou muito.

Em casa, estava tentando tirar aquela cena da minha mente – em vão. Tentei ler um livro, escutar umas músicas, lavar as louças, mas nada me fazia lhe esquecer. E como minha mente é bastante fértil, imaginei até o que poderiam estar conversando. Talvez estivessem falando sobre o seu casamento, e olha que engraçado: você vai casar e não me falou nada?! Já fiquei sabendo por outra pessoa.

Sabe também o que me deu vontade de fazer quando as vi? De chegar nessa sua amiga e dizer: vá embora sua impostora, você está ocupando o meu lugar. Porém, apesar da vontade, eu jamais faria isso, sabe por quê? Porque você trocou a minha amizade e soube seguir o seu caminho, e por mais que isso me entristeça, eu também seguirei o meu. E pensar que era eu quem frequentemente caminhava com você naquele parque, justo naquele parque…

Agradeci bastante a Deus por você não ter me visto, não sei qual seria a minha reação – fingir que não lhe vi (?) chorar (?). A resposta para esses questionamentos sempre será uma incógnita.

Algum dia, quem sabe seja eu quem estará caminhando por aí alegremente com alguém, e você é quem vai estar no meu lugar, sentindo a angústia de me ver feliz. Saiba que eu não sinto prazer nisso, mas é que um choque de realidade faz bem de vez em quando, não acha?!

Novamente, vou tentar fazer alguma coisa pra ver se consigo esquecer aquela cena. Acho que tocar um pouco de violão vai me fazer bem…

Após escrever, ela arrancou a folha do caderno com força. Percebeu ira entrelaçada com tristeza naquele ato. Dirigiu-se ao quintal e ateou fogo naquele papel. Seus olhos cintilavam com o brilho das chamas. “Que mania estúpida essa minha de ficar escrevendo o que me dá vontade de falar ou fazer”…

Rotina

Rotina

Hoje foi mais um dia daqueles: as mesmas pessoas, as mesmas coisas, os mesmos lugares…, enfim, a mesma rotina insuportável de sempre. Pergunto-me até quando minha vida se resumirá a essa monotonia. E o pior é saber que não sei a resposta para esse questionamento. Alguém saberia me informar, por favor?

Tenho muita inveja dessas pessoas que saem por aí sem destino, se desdobrando em loucas aventuras. Esses “tipinhos” demonstram ser tão felizes, né?! Não estão nem um pouco se importando para as obrigações do dia a dia. Apenas querem aproveitar a vida da melhor maneira possível.

Deve ser maravilhoso viajar a lugares que não estivemos antes, conhecer novas pessoas, provar comidas típicas de outras regiões, contemplar outras culturas… Resumindo, deve ser muito bom respirar novos ares. O modo automático que se encontra o meu viver está me sufocando. Anseio desesperadamente por uma oportunidade de fugir dessa mesmice, mas não tenho encontrado saída. Será que existe alguma saída?

Ultimamente tenho vivido com o pé na realidade e o pensamento vagueando em sonhos. Sonhos tão distantes… Porém, chega um momento que cansamos de sonhar, de imaginar como tudo poderia ter sido diferente. Gostaria muito que minha atual situação sofresse uma reviravolta, e finalmente eu fosse feliz da maneira que eu sempre sonhei. Longe de tudo que não me apraz, longe de tudo que me sufoca, longe de toda essa rotina. Algum dia isso aconteça, quem sabe…

Eclipse

Eclipse

Ele não sabia onde estava. E também não queria saber. Almejava apenas estar a só consigo mesmo, com seus infinitos pensamentos.

Horas antes havia entrado em um ônibus sem atentar para o destino final. No entanto, não sentia que estava perdido, afinal “quem tem boca vai a Roma”, dissera o seu pai há muito tempo, quando ainda moravam no interior.

Estar naquela praça sentado em um dos bancos com um pedaço de papel dobrado na mão lhe fazia refletir. Ficou tentando lembrar em quantas praças havia passado em todas as vezes que lhe ocorrera esses acontecimentos. E chegou a conclusão que foram nove ao todo.

Quando discutia com sua esposa, ele agia dessa forma: saía de casa sem rumo, entrando no primeiro ônibus que encontrasse e descendo em qualquer praça que avistasse. Porém, uma coisa ele tinha certeza: que voltaria para casa e tudo ficaria bem. Ele trabalhava como mecânico, mas o seu sonho sempre foi ser músico. E as discussões com a sua esposa lhe inspirou a compor uma canção. A sua primeira canção.

Eles estavam casados há quase dez anos. E nesse dia em que mais uma vez saiu sem destino, estava se recordando de quando se conheceram – foi no cinema, no qual se sentaram ao lado para assistir um determinado filme dramático. Ela chorava bastante, e ele ficou comovido com aquela pobre moça.

– Senhorita, posso lhe ajudar?

– Ah, obrigada, eu vou ficar bem. Filmes de drama sempre me rasgam o coração.

A partir daquele dia, eles se tornaram amigos.

Entretanto, essa amizade durou pouco tempo, pois logo estavam namorando. Nesse meio termo, compartilhavam sonhos, projeto de casamento, falavam sobre os futuros filhos… Depois do episódio do cinema, seis meses se passaram e eles se casaram com direito a uma linda cerimônia na praia, sendo abençoados pelo pôr do sol no final da tarde.

Todos esses fatos passavam como um filme em sua mente. E, era justamente por causa destes que, apesar das discussões, não deixava de amar a esposa um minuto sequer. Eles haviam superado muitas coisas, e ele entendia que nada, absolutamente nada tinha o direito de destruir o seu relacionamento.

Ele abriu o papel dobrado e pôs-se a ler a canção que compôs especificamente para a sua amada, cujo título era “Eclipse”. O eclipse é um fenômeno astronômico raro, que ocorre de tempos em tempos, com duração de no máximo poucas horas. E ele relacionou as discussões com a esposa a um eclipse, que embora haja momentos de extrema ou parcial escuridão, a lua sempre voltará a brilhar, assim como o amor deles.

Ele sorriu. O sol estava a se pôr, e era o momento de regressar para os braços daquela que um dia lhe dissera SIM. Informou-se com uma pessoa em como voltar para o bairro onde morava, e fez seu trajeto de volta, feliz, sorridente…

Ao chegar em casa, ele a viu de costas – ela estava preparando o jantar. Engraçado que tudo parecia metricamente ensaiado, pois ele sabia que iria encontrá-la dessa forma, e ela sabia que quando ele chegasse, seria abraçada por detrás e os dois se envolveriam em um beijo apaixonante. E foi assim que aconteceu. Afinal, aquele eclipse não foi o primeiro a ocorrer. Eles sabiam perfeitamente que a lua voltaria a resplandecer entre eles.

– Aonde você foi dessa vez? Aposto que estava em uma praça qualquer…

– Acertou – os dois caíram na risada. – Sabia que eu lhe amo muito meu amor?

– Mentira! Eu lhe amo mais.

– Não, eu é que lhe amo muito mais…

Banho de Vida

banho de vida

O chão estava frio. Pareceu que o piso absorvera toda a umidade da noite. No entanto, aquilo não era um empecilho para Laura que se encontrava ali deitada, como uma folha jogada ao léu.

Ela tremia. Suas roupas não estavam ao seu favor. Se alguém a visse naquela situação, diria que estava perdendo a noção. Afinal, quem trocaria o “quentinho” das cobertas pelo piso gélido? Laura trocou. E havia um sentido para estar ali.

Ficar deitada no chão revelava o quanto a sua vida chegara ao lugar mais baixo possível. Se a vida lhe apregoasse mais uma queda, procuraria outro lugar ainda mais baixo. “Dessa vez um poço”, pensou. Era como se tudo aquilo fosse uma preparação para a sua futura morada eterna: a cova. Já decidira que, se a morte chegasse para levá-la, não relutaria. Apenas aceitaria seguir seu destino numa boa.

Porém, naquela noite, ela escutara um som em seu celular, quase como um sussurro longínquo do além. “Alguém me enviando uma mensagem?”, questionou-se. Havia tanto tempo que ninguém se importava em pelo menos lhe dizer um “oi”. Por um instante também imaginou que fosse uma dessas mensagens chatas de operadora, o que a fez permanecer uns minutos a mais no chão. Mas a curiosidade lhe aguçara. Então se levantou, pegou o celular e leu a seguinte mensagem:

“NÃO ESPERE NADA DE NINGUÉM. AS PESSOAS ANDAM MUITO OCUPADAS PARA RESOLVEREM PROBLEMAS ALHEIOS. ENTÃO CORRA EM BUSCA DA SUA FELICIDADE. E SE NÃO TIVER FORÇAS PARA CORRER, RASTEJE-SE, MAS NÃO PARE DE LUTAR. NÃO DESISTA DA SUA VIDA, ELA É PRECIOSA DEMAIS!”

Laura nesse momento estava se derramando em lágrimas. Chorava e soluçava fortemente ao ler cada palavra daquele texto. Encontrava-se bastante sensível. Sentia um consolo inexplicável, como se os céus estivessem atentos ao seu sofrimento. Não sabia quem fora o “anjo” que enviara a mensagem, o número lhe era totalmente desconhecido.

Ainda com o celular na mão, a moça estava a pensar. Era como se seus olhos tivessem sido abertos para o mundo. Dirigiu-se em direção ao espelho – sim, o maldito espelho em que podia observar dia após dia o espetáculo de sua derrocada – e ainda trêmula e com lágrimas no rosto, fixou o olhar para si e falou: – amanhã será um novo dia para você Laura! Ela tivera um choque de realidade. Sempre colocara muita expectativa nas pessoas, se importava demais com a opinião alheia, para no fim, todas a abandonarem, deixando-a no “chão”. Mas isso iria mudar. Não mais se conformaria com a situação ao qual estava vivendo. “Chega! É tempo de mudar.”

Na manhã seguinte, acordou cedo. Tomou um enorme copo com suco de laranja e comeu ovos e queijo fritos com pão. Surpreendeu-se consigo mesma, há muitos dias estava sem se alimentar corretamente. Depois, arrumou-se e foi ao seu destino. Seus passos eram firmes, como se cada pisada significasse uma facada na velha Laura que estava ficando pra trás.

Ao chegar ao salão de beleza, ordenou que o cabeleireiro cortasse seus enormes cabelos que alcançavam a cintura. – Por favor, deixe-os na altura dos ombros – disse ela. Embora estivessem mal cuidados, observara minunciosamente cada fio sendo esparramado ao chão. Após quase duas horas, com todo o acabamento realizado, Laura deu uma girada 360º na cadeira e falou em alta voz: ESTOU ME SENTINDO MARAVILHOSA! Agradeceu ao cabeleireiro e saiu sorridente, seguindo em direção ao shopping. Chegando lá, passeou bastante pelas lojas, no qual comprou roupas, calçados, maquiagens e utensílios para o lar. Em seguida almoçou num restaurante no próprio shopping, resultando em um encontro inesperado.

– Laura? – a moça estava boquiaberta. – Nossa! Como… Como você tá mudada. O que aconteceu?
– Oooii… Luana – Laura a encarou surpresa. Não esperava encontrar ninguém do seu passado tão depressa. – Bom, não aconteceu nada demais – respondeu francamente. – Você quer sentar para almoçar?
– Ah, não, obrigada. Acabei de comer. Mas eu ainda tô impressionada com essa sua mudança. Está mais bonita, mais jovem… Há quanto tempo não nos vemos né?
– Aham – assentiu Laura. – BASTANTE tempo mesmo.
– Bom, vamos marcar qualquer dia desses de nos encontrarmos com a galera. Aposto que todos vão ficar pasmos com você amiga.
– Tá ok, quando eu tiver tempo, eu lhe aviso – sorriu prudentemente.
– Tá bom então, a gente se fala depois. Até mais.
– Tchau.

Laura a observou indo embora. Lembrou-se de como Luana a deixara na mão em uma fase difícil de sua vida. “Quer saber quem são seus verdadeiros amigos?” – pensava ela – “Esteja numa pior. A vida é encarregada de revelar quem os são”, concluiu.

Quando terminou, foi para casa. Jogou as sacolas de compras em cima da cama e se olhou no espelho. – É. Talvez você tenha mudado mesmo L-A-U-R-A – finalizou a frase sorrindo freneticamente. Porém, sentia que havia uma coisa a mais para fazer. Algo que há muito tempo não realizara. Ela adorava fazer isso, sentia-se sempre renovada. Então, sem pensar duas vezes, seguiu para o lugar tão esperado.

Passava das 4h da tarde, e Laura se encontrava em frente ao mar, contemplando o horizonte. Seu olhar estava firme em direção ao infinito. Adorava ouvir o barulho das ondas, sentir a brisa do vento, a areia da praia… Tudo aquilo a tranquilizava. Havia chegado poucos minutos antes, mas aguardava o aglomerado de banhistas esvaziar o local. Enfim, quando as pessoas estavam indo embora, fez o que tinha que fazer: correu em direção ao mar e mergulhou intensamente. Se pudesse, abraçaria todo o oceano. Laura pulava e brincava em cada onda que emergira. Ao erguer-se, passou as mãos em seus cabelos, levantou o rosto e falou: – agora sim eu sou uma nova pessoa. Depois de algum tempo, saiu do mar sorridente e sentou-se na areia, feliz com o seu “banho de vida”.

Nesse momento um rapaz aproximou-se…

– Boa tarde moça! Eu fiquei lhe observando ao longe e vi o quanto você estava alegre quando se banhava. É a sua primeira vez no mar? Ah, desculpas, eu não me apresentei: meu nome é Carlos, e eu sou surfista aqui da região.

Carlos era um tipo daqueles bronzeados, cabelos louros e olhos verdes. Estava despido de camiseta, usava uma bermuda estampada com flores e carregava debaixo dos braços uma prancha azul e branca com um desenho de tubarão.

– Boa tarde Carlos! Eu me chamo Laura. E respondendo a sua pergunta: Não! Não é a primeira vez que venho ao mar. E realmente estou muito alegre, porque hoje eu… – ela olhou para o horizonte e recordou a sua situação até a noite anterior. Olhou-o em seguida e continuou: Porque hoje eu renasci, acordei para a vida, decidi me dar uma nova chance.
– Nossa, que legal! Isso é tão… inspirador. E o que fez você tomar tal atitude? Oh, mais uma vez lhe peço desculpas, não quero ser inconveniente, é que gosto de fazer novas amizades, sabe?!
– Sem problemas. Você já ouviu aquele ditado: “Amigos podem se tornar grandes estranhos e estranhos podem se tornar grandes amigos”?
– Já sim – assentiu Carlos. – E isso agora faz todo sentido. Os amigos que eu tinha – ou pelo menos que achava que tinha – me abandonaram.
– Então eu acho que temos muito em comum – disse Laura esbanjando um sorriso no canto da boca. – Bom, sendo assim, será que você terá paciência de ouvir o quanto tenho a dizer sobre minha pessoa?
– Tenho certeza que vou adorar ouvir um pouco da sua história – falou ele enquanto sentava pacientemente ao lado da moça.

E assim, a conversa fluiu. O som das ondas desfazendo-se na margem era o fundo musical, tendo o sol se deleitando ao ocaso como cúmplice daquelas vidas que, a partir daquele dia, não foram mais as mesmas.

E você, também precisa de um “banho de vida”?

Decepção

Decepção

Eu poderia esperar essa atitude de qualquer pessoa, mas não da sua parte. Você simplesmente destruiu os sonhos que havia em mim, deixando-me no fundo do poço. Meu mundo desabou por sua causa. Tá satisfeito agora?

Foi tudo ilusão. Acreditei em cada palavra proferida. Deixei-me levar por cada gesto de carinho seu. Por que você fez isso comigo? Por que me fez acreditar que seriamos felizes? Queria nunca ter lhe conhecido, sabia?! Só assim não precisaria sofrer com essa decepção.

Sabe qual foi o meu erro? Foi ter colocado muita expectativa em nosso relacionamento. Quebrei a cara! As pessoas podem nos surpreender, tanto para o bem como para o mal, e escolhestes a segunda opção. Poxa, eu me doei ao máximo. Fiz o possível para que tudo ocorresse bem, mas você não colaborou. Aquele ditado “tanto faz como tanto fez” se aplica a sua atitude.

Realmente as aparências enganam, e nesse quesito você se saiu muito bem. Parabéns meu querido, o Oscar de melhor atuação é todo seu. No entanto, vou lhe dizer algo: eu conseguirei dar a volta por cima. Há situações na vida que, por mais difícil que seja superar, um dia se consegue. A ferida que você deixou em meu coração vai cicatrizar, e eu serei feliz novamente. Para cada fim há um novo começo. E a minha vida vai começar outra vez. Sem você…

Os fortes também choram

Os fortes também choram

Para: Alexa

Perdoe-me. Não estou com condições de encarar o dia amanhã. As forças de mim se dispersaram. A verdade é que não encontro forças para lutar há bastante tempo.

Dizem os sábios que o amanhã é sempre um novo dia. Será? Ver as mesmas pessoas, estar nos mesmos lugares, realizando a mesma rotina? Sinto lhe informar, mas os sábios não me convenceram. Pelo menos não ainda.

Tenho vivenciado dias difíceis sabe?! Tá sendo muito difícil suportar tudo. Outrora me peguei pensando em uma passagem bíblica que fala dos dois alicerces – uma casa que foi construída sobre a rocha e a outra sobre a areia. É… A casa sou eu. E nessa simulação, edifiquei-me na areia, mesmo sabendo dos riscos. Agora, observo partes de mim se esparramando ao chão. Tenho a terrível sensação que em breve vou desmoronar. Grande será a minha derrocada. Triste fim!

Desculpe-me por não ter sido forte o suficiente para lutar contra mim mesma. Nunca soube lhe dar com a explosão de sentimentos que me acomete. Gostaria de entender certas coisas, mas logo me angustio ao não encontrar respostas. Talvez eu precisasse de soluções palpáveis…

Só lhe peço uma coisa amiga: não diga que estou fazendo drama. Sabes que não gosto de falar dos meus problemas, mas é que chega momentos em que precisamos desabafar, caso contrário, isso pode nos sufocar. Poderia perfeitamente usar aquela linha de maquilagens que ganhei de presente do Armando e sair por ai estampando um belo sorriso. Quantas vezes já não fiz isso?! Porém, me encontro cansada. Alguns dizem que disfarçar os problemas é característica de pessoas fortes. No entanto, os fortes também choram… Os fortes também se cansam… Os fortes também se angustiam… E antes de finalizar esse texto, saiba que já estou chorando.

Como não nos veremos amanhã, estou lhe enviando este e-mail. Qualquer coisa entre em contato comigo.

Se cuida tá! Fica bem.

Um abraço,

Luíza

Destinos…

DESTINOS

Semanas atrás me ocorrera esse pensamento, que não passava de uma mera cogitação. Estava realmente disposto a fazer o que fosse preciso para que tudo em minha vida pudesse dar certo. Mas hoje, especificamente hoje, essa ideia se tornou uma concreta decisão: vou permitir que a própria vida conduza-me os passos. Talvez para você, caro leitor, essa afirmação seja uma grande bobagem, afinal, estamos destinados ao fim que nos espera. Porém, nesse percurso, nego-me a continuar tentando reverter os caminhos que os céus têm para mim traçado. Foram tentativas e mais tentativas… em vão.

Decidi também que não quero mais ser o autor da minha própria história. Esse negócio de ditar os rumos deste enredo é uma grande responsabilidade. Arriscado demais. Foi quando aderi ao trecho que determinada música diz: “deixa a vida me levar”… Apoiei-me somente nessa frase. Sendo assim, permito que a vida me leve para bem longe, se possível…

Logo após, ele fechou o caderno – intitulado “MEU CADERNO DE PENSAMENTOS” -, colocou-o no chão, virou-se para a parede e logo adormeceu, sua cama envolvendo-o como num enlace.
***
Era fim de tarde. Ele caminhava pela areia da praia com as sandálias nas mãos e uma incrível sensação de liberdade. Virou-se e viu que as pegadas haviam sido desfeitas, ora pelas ondas que sugavam a areia, ora pela brisa amena do mar. “All we are is dust in the Wind” (Tudo o que somos é poeira ao vento), pensou.

Depois de mais alguns passos, ele larga as sandálias e observa a sua volta. Não havia ninguém por perto, apenas umas poucas pessoas ao longe nos quais não notariam sua presença. Então, como se por um breve impulso, aquele jovem entra no mar. Podia ouvir as águas agitadas chamando o seu nome. “É um sinal”, pensou. Seguiu andando mar adentro, até que em certo ponto não sentia mais o chão debaixo de seus pés. Isso o deixou um pouco apavorado, mas não podia retroceder. Na verdade não queria. Chega um dia em que tudo precisa ser feito. E assim ele o fez.

Continuou seguindo em direção ao infinito, até que uma enorme onda o sugou para as profundezas, permitindo-lhe desvendar os mistérios que envolvem essa fascinante obra da criação. Passado algum tempo, ele não submergiu. O oceano realmente o abraçara. Não voltou mais. A vida o levou… E desta vez para sempre.

Na manhã seguinte, as sandálias daquele jovem rapaz estavam um pouco submersas na areia. Ali, um mendigo que caminhava as observou ainda distante. Pegou-as, lavou-as no mar e as calçou. Não mais ficaria descalço. Alegrou-se em apenas imaginar que os resíduos terrestres não iriam mais lhe espatifar os pés. Caminhara adiante, a ver se encontrava alguma coisa que lhe fosse útil. Nessa jornada, ele continuou prosseguindo em seu destino, assim como aquele jovem rapaz seguiu o seu…

Florescer

Florescer

“Ao ver que com muito esforço e dedicação suas ‘meninas’ estavam florescendo, Ana teve esperança em seu coração”.

O jardim de Ana se encontrava “sem vida”. As plantas estavam murchas e não havia mais flores. As borboletas também ali não mais voavam. O jardim estava entregue a própria sorte.

As pessoas que passavam em frente ao jardim, paravam e observavam indignadas. Os comentários eram dos mais diversos: – Não era esse aquele lindo jardim?… – A Ana cuidava tão bem dessas plantas… – Por que ela deixou-as nessa situação deprimente?!… Nesse mesmo período, a vida da moça passava por uma grande turbulência. Nos últimos tempos, havia feito escolhas erradas e tomado caminhos não condizentes ao seu estilo de vida. Sua situação estava um verdadeiro caos.

Certo dia, ela parou em frente ao jardim e fitou-o por um bom tempo. Lembrou-se de como suas plantas eram lindas, que proporcionavam flores com um aroma maravilhoso. Recordou também as borboletas, que faziam espetáculos na primavera. Ao vir à tona essas lembranças, Ana sussurrou: – Eu também estou assim como vocês. Nesse momento, lágrimas rolaram em seu rosto. Através do atual estado em que suas plantas se encontravam, ela percebera o quão sua vida também estava “sem vida”. – Preciso voltar a cuidas de vocês minhas meninas… Preciso voltar a cuidar de mim…, disse ela enxugando o rosto molhado.

No dia seguinte a moça acordou cedo. A primeira coisa que fez foi dar uma “geral” no jardim, removendo todas as folhas secas das plantas. Também cultivou a terra, e passou novamente a regá-lo com frequência. Ela sabia que seria um processo longo para que as “meninas” voltassem aos seus dias de glória. Mas ela seria persistente.

A jovem também precisava arrumar a bagunça que a sua vida se encontrava. “Não posso continuar agindo dessa forma”, pensava ela. E para isso, sabia que precisava dizer “não” a certas coisas. Embora o “não” fosse difícil de abdicar, seria necessário. E nada lhe impediria de alcançar a oportunidade que dera a si mesma, de poder agir diferente.

Ana continuou cuidando de seu jardim. Não desistiu. Passaram-se dias, semanas… Até que, certo dia, quando amanheceu, ela percebera que uma flor de uma de suas plantas estava nascendo. – Oh minha linda, que alegria você está me concedendo. Ela estava emocionada. Todo o esforço para reerguer o jardim valera a pena. Suas plantas estavam reagindo ao cuidado com que ela novamente passou a ter para com elas. E as borboletas voltaram a circular por aquele ambiente, embelezando-o com lindas “danças”.

Com isso, ao ver que com muito esforço e dedicação suas “meninas” estavam florescendo, Ana teve esperança em seu coração. Tinha certeza absoluta que uma novidade de vida estava para acontecer, como se uma nova chance de ser feliz lhe estava sendo confiada. Ao terminar de regar o jardim, a jovem ficou ali parada, contemplando-o. – Eu também florescerei – falou ela com uma forte convicção, estampando um lindo sorriso no rosto…

Espelho

Espelho

“Não há nada melhor que um espelho para revelar a farsa que somos”.

Seis e doze da manhã…

Ela não havia tido uma boa noite de sono. Porém, as obrigações lhe fazia estar de pé por volta daquele horário todos os dias. Levantar-se da cama era o seu pior pesadelo. Aquela jovem moça se assemelhava a um personagem de filme de terror fugindo do serial killer. Enfatizando: sua vida era o filme de terror, as obrigações era o serial killer que lhe perseguia, e ela, a própria vítima tentando fugir do caos.

E, como nos demais dias, ela também se sentia no dever de ficar em frente ao espelho observando-se por um longo tempo. Seus cabelos estavam sem vida, seus olhos não possuíam mais o brilho de outrora, e a cada manhã descobria algo a mais – uma ruga aqui, uma espinha ali… Tentava sorrir, mas não conseguia. A tristeza estava lhe consumindo, e ela não tinha forças para combatê-la. Desejara muitas vezes quebrar o espelho, mas percebera que não há nada melhor que um espelho para revelar a farsa que somos. É como se este simples objeto fosse capaz de conhecer o mais íntimo da alma.

O momento de encarar mais uma jornada diária se aproximava. “Não posso deixar que ninguém me veja assim”! Então tratava logo de tomar um banho, no qual suas lágrimas misturavam-se com a água do chuveiro. Em seguida, vestia-se adequadamente para o trabalho, penteava os cabelos e – o mais doloroso de tudo – maquiava-se. Se o espelho é o ideal para revelar quem são as pessoas, a maquiagem é o disfarce perfeito para ocultá-las. Por fim, ela estava “pronta”.

No decorrer do dia, se reunira com empresários da empresa onde trabalhava para tratar de negócios. No tempo vago encontrou-se com alguns amigos para almoçar. Um deles era mestre em contar piadas, e todos caíam na gargalhada – inclusive ela. “Você, está deslumbrante, aliás, como sempre”, falou outro colega. No final do dia, ainda fora ao shopping comprar roupas e mais maquiagens – as suas estavam bastante gastas.

Ao chegar em casa, se jogara na cama juntamente com as sacolas de compras. Ficou ali por uns vinte minutos olhando para o teto e lembrando “você está deslumbrante, aliás, como sempre”. “Se ele soubesse como me sinto”, sussurrou. Levantou-se, despiu-se, olhou para o espelho ainda com maquiagem no rosto e disse: está na hora de tirar toda essa farsa. Tomou banho, vestiu uma camisola e novamente encarou o espelho. – Agora sim, esta é você!

Apesar disso, uma coisa ela percebera: mais um dia sobrevivera ao serial killer no filme de terror. Só não sabia por mais quanto tempo…

 

Caderno de anotações

Ela pegou seu caderno de anotações e pôs-se a escrever:

Hoje me bateu uma vontade enorme de te ligar. Não desejei enviar mensagem, queria mesmo era ouvir o som da sua voz. Faz tanto tempo que não nos falamos. Adoraria saber como você está, o que anda fazendo… Cogitei ligar de um número desconhecido, pois imaginei que não me atenderia caso telefonasse com o meu número. Na verdade eu nem sei se você ainda o tem. [rsrsrsrs]

O que me resta são apenas lembranças de um passado maravilhoso. Bons tempos aqueles! Talvez seja o que hoje possa ser chamado de “a era de ouro”. Fizemos tantas coisas juntas, nos divertimos pra valer – tanta adrenalina, tantas emoções…

É muito estranho a sensação de sermos duas desconhecidas atualmente, como se nunca houvesse acontecido nada entre nós. Diga-me o que faço com essas lembranças? E sabe o que mais me dói: é imaginar que você está muito bem sem a minha companhia. Não que eu deseje que esteja na pior, mas é que sinto que fracassei com a minha amizade, e você soube seguir em frente. Por favor, me diz onde errei! Eu posso tentar consertar?

Bom, algum dia, quem sabe a gente se fale novamente ou se encontre por acaso em algumas dessas ruas da cidade. Algum dia, quem sabe a gente possa reatar a nossa amizade, não é mesmo?!

Ah, e antes que termine, quero que saiba que esse não é o primeiro texto sobre nós. Todas as vezes que penso em ligar para você, eu escrevo em meu caderno de anotações – comprei especialmente para isso -, pois não consigo guardar o que sinto em minha mente – é minúscula demais para tantos pensamentos.

Por fim, saudades amiga, muitas saudades… Espero que esteja bem!

Ela fechou o caderno e guardou na cômoda em seu quarto, bem no fundo da primeira gaveta. E ficou pensando por um tempo. Seu olhar estava distante:

– Promete que nunca vai me abandonar, que nunca vai se afastar de mim?

– Prometo “miga”. Para onde eu for, levarei você comigo!

– Te amo demais minha linda!

– Eu também te amo. Você é a minha melhor…

Ela suspirou forte. Depois retornou ao que estava fazendo, com lágrimas em seus olhos…

Janela

Janela

Ela olhou pela janela. Não havia ninguém em sua porta. Jurara que escutou uma voz a chamar o seu nome. E, mais uma vez, se enganou.

As horas passaram. Já era tarde da noite e ela estava a se debruçar naquela mesma janela. Gostava de estar ali, de sentir o vento fresco soprando em seu rosto, modelando os fios de seu cabelo… Levantou os olhos e observou as estrelas. – Ah, como eu queria estar longe destas luzes para contemplá-las melhor -, sussurrou.

Viu um casal de namorados caminhando abraçados e percebeu que estavam apaixonados. “Como sei disso?”, ficou se perguntando. Outrora lhe bateu uma vontade enorme de vagar pelas ruas daquela cidadezinha, numa dessas altas horas da noite. Mas seu desejo logo se foi, sabia que não tinha disposição para tal coisa.

Fechou a janela e sentou-se numa velha poltrona na sala – e novamente, pôs-se a pensar. Imaginou umas duas ou três pessoas lhe fazendo uma visita inesperada. “Inesperada pra quem, se há tanto tempo eu espero!”. “Como eu reagiria?”, continuou se questionando. “Primeiramente iria falar: – eu não esperava!, com uma expressão de surpresa e emoção no rosto”. “Talvez algumas poucas lágrimas também”, pensou ela. “E por fim, estaríamos reunidos à mesa, comendo, dando altas gargalhadas, recordando acontecimentos”, finalizou.

Como ela gostaria que os seus pensamentos (pelo menos os bons) se tornassem reais. Porém, a realidade é cruel, por isso vivia presa nas suas imaginações.

Ela bocejou. Percebeu que chegara o momento de dormir. “Será que adormecerei rápido?”. E antes que apagasse a última lâmpada, olhou mais uma vez pela janela. Não porque pensou que ouvira alguém lhe chamando, mas porque aquele hábito lhe trazia esperança. Esperança que no dia seguinte alguém lhe visitaria, e depois comeriam, iriam rir, relembrar os velhos tempos… “Talvez amanhã… talvez algum dia, quem sabe”…

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