Das ervas que restam

É. Lá se vai o terceiro copo de chá.

Dizem que é o tipo de bebida que nos ajuda a refletir e… quer saber? Não importa a quantidade de xícaras. Acho que só o tempo realmente nos ajuda a pensar, pôr as coisas no lugar, recuperar o fôlego e voltar aos eixos. Eu vivi uma maravilhosa e confusa aventura que, em teoria, acabou. Fato delicado e cheio de pontas soltas. O problema é que quando se relembra um fato por inúmeras e inúmeras vezes, os elementos principais se tornam meros detalhes e os meros detalhes passam a protagonizar a porra toda. A vida é vista por um novo ângulo, o passado é narrado sob uma nova perspectiva e as regras são ditadas pelas coisas das quais não fiz questão. Faz sentido, agora, o porquê de você só ter me procurado quando estava mal, quando não tinha ninguém para conversar. Faz sentido, agora, o porquê de você desaparecer quando está feliz, quando as coisas estão bem, quando tudo passa a dar certo. Eu acho que minha amizade foi convertida num escritório virtual de psicologia, tornando-me útil apenas para abraçar o seu lado mais obscuro. Quando esse lado hiberna, não tenho lugar na sua vida. E sou, então, educadamente deixado de lado.
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Na mira da coragem

Existe um hiato terrível entre o início eufórico de uma festa e a exaustão do seu término. É um estado emocional que normalmente ocorre após o vigésimo copo de bebida; a cerveja fica um pouco mais amarga na sua boca e você não consegue mais rir das mesmas palhaçadas. Bate um princípio de reflexão, você olha ao redor e nota que as músicas não são lá tão legais assim, as pessoas não são tão interessantes e a coisa toda não parece ter o mesmo brilho que pareceu ter, no decorrer da semana, quando tudo ainda não passava de expectativa. É foda quando acontece. É foda como acontece. É como um despertar da realidade em um momento desnecessário, é como furar o que os budistas chamam de “bolha”, é como ser um testemunha de Jeová durante uma Rave cheia de alucinados, em síntese: é como ter uma ejaculação precoce.

Nesse dia eu fui a bola da vez e acabei herdando a sensação. Beatriz estava em cima da mesa rebolando e girando o casaco, Júlio mandava uns passinhos romanos com outros funkeiros que ele (e eu) nunca viu na vida. Ele não sabia dançar, era um maldito estoquista com a coluna travada. Contudo não sei se posso chamar aquilo de dança. Eu, por outro lado, era o diferentão: estava sentado na cadeira, quieto, puto, entediado, com fome, enjoado, com a bexiga explodindo e com uma cara de diarreia. Meu copo semi cheio estava na mesa, mesa em que a Bia rebolava. Fiquei sacudindo um sachê de açúcar com a mão, sem fazer nada, tentando compreender o sentido filosófico por trás da minha melancolia. Uma amiga nerd me narrou as causas desse efeito uma vez; ela dizia que ficávamos pra baixo após o consumo imoderado do álcool porque um neurotransmissor filho da puta mexia com o nosso sistema Gama, entristecendo as atividades cerebrais. A recomendação dada era o consumo do açúcar, ou o afastamento dele. Eu não sei, eu não lembro. Sempre fui péssimo com biológicas então deixei de entender a explicação dada por ela logo após ouvir o primeiro termo técnico. No entanto, possuo uma opinião diferente da dela. No meu entender essas coisas só acontecem quando o destino sussurra no seu ouvido um breve e curioso aviso: toma cuidado, ou tudo pode acabar dando merda. Pois é. A vida é sempre um risco. E eu estava lá tentando me decidir o que fazer com aquele sachê.

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Na minha cozinha

Mergulho o anelar direito no bolo de chocolate,

Eu não sei: acho que estou sorrindo.

Mas não é qualquer sorriso — distinção que aprendi a fazer.

É o sorriso perfeito. Aquele feito pra você.

Ouço o sino da catedral. A hora é exata e a fala é muda.

As folhas vagueiam lá fora; no tempo, no vento, nas memórias.

Aponto o dedo, você chupa. Transpira. Fecha os olhos. Lambe.

Quente, salaz, tentador, inolvidável, lúbrico, Ual… apetecível!

Trovejou em mim; intrínseco.

Vai chover lá fora; inelutável.

Eu não sei: acho que estou feliz.

Mas não é qualquer felicidade — distinção que aprendi a fazer.

É tê-la de cerne na vida. Coisa que outrora, optei por esquecer.

Innermost

Try to unravel my persona, my work, my World. However, never try to unravel my heart. My heart is an attic locked, sealed, hidden and protected. Guarded in the confines of the basin of souls and defended by the most powerful spirits.

It’s in him, about him and inside him, that all magicians, sages, poets, lovers, fairies and angels deposit their ideas, their sorrows, their projects of glory, their interpretations of the world and their unfinished desires. My job is to give birth to all of this.

There are, within that attic, pieces of the most varied riches. Alone, it is nothing and, together, are the best things that could come from the hands of a man.

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Inexorável

Acordou e ligeiramente sentou na cama. De imediato ficou tonto. A cabeça começou a girar, era uma dor para cada fio de cabelo. Ele espirrou. Pôs a mão no rosto, havia um pouco de pó sobre a narina esquerda, traços da farra na noite anterior. Ele fedia e sentia uma dor absurda nas costas. Levantou-se, andou até o espelho, passou a mão no cabelo e, não satisfeito, penteou-o. Só Deus sabe o quanto era vaidoso. O sol quente levantava a poeira da quitinete alugada, o quarto cheirava a geladeira suja. Pela intensidade da luz, imaginou que já estava tarde. Assustou-se com isso e correu então até o relógio de parede. Eram 7:12 da manhã. Isso dava mais ou menos 7:20 da manhã, visto que seu relógio estava atrasado e não dava para ajustar, pois os botões estavam quebrados. Tinha um compromisso no centro as 8hrs e, levando em conta que o tempo médio até lá é de 30 minutos, contando com o trânsito, isso dava a ele, mais ou menos, 10 minutos para se resolver e desaparecer dali.

Voltou até o quarto desesperado. Uma agonia que corroía o coração. Todo trabalhador brasileiro sabe o que é estar atrasado, conhece a sensação. Ele também conhecia, embora fosse vagabundo. Ao menos, se considerava um, já que não arranjou um emprego fixo nos últimos treze meses. De imediato, havia muito a se fazer em pouco tempo: um remédio, um banho, uma cagada, um café, uns ovos, talvez, quem sabe, um cigarro… Elementos que qualquer cidadão precisa para encarar o demoníaco mundo lá fora. Ele tirou do armário um jeans manchado de caneta e uma blusa social lisa, preparou os ovos, engoliu o remédio junto ao café e correu para o banheiro. Quando já estava no box, o celular tocou. Saiu nu e voltou para o quarto com a escova de dentes na boca e uma toalha na cintura. Ao tirar o celular da cabeceira, deixou cair. Foram-se peças para todos os lados. Caralho! Aquilo fez um barulho enorme… O suficiente para assustar e acordar Vânia.
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