Algum dia do calendário

Para ouvir – the owl – rainy sun

Para N.,

Os dias andam nublados. Há dias o sol não entra pela janela. 15:10 o ônibus sobe a ladeira. Chove. Em dias tristes. Pessoas tristes. Tudo anda tão triste. Ouvi no rádio ontem que duas pessoas foram encontradas mortas na calçada da rua que leva ao condomínio morada nobre. Morreram de frio. O que é nobreza pra você? A tempestade que cai é triste. A água que escorre pelas ruas é triste. Lá do outro lado a pessoa que ouve “Piano Bar” do Engenheiros do Hawaii é triste. Você ainda consegue dormir à noite? Faltou luz. Somos todos tristes. Há felicidade ainda aqui?

Escrevo estas linhas desconexas, pois nada aqui faz sentido. Uma carta-protesto, talvez, mas com que propósito? Contra quem? Eu mesmo e minha hipocrisia?! Há algum propósito nessas coisas que fazemos? Uma criança sorriu pra mim ontem na rua. Um pássaro pousou na janela da cozinha enquanto eu lavava a louça. Ainda chove. Eu não lembro que dia é hoje. Fiz bolo de laranja. Ando cansada. Já reparou em como a cidade é cinza?

L.

Anúncios

ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

sobre dores invisíveis

essa tristeza será que um dia passa, C.? é que nada aqui faz sentido. choro pelos cantos. entristeço-me por tão pouco. sou tão afetada por tudo que me rodeia. queria que não fosse assim. será que um dia esse desânimo se manda daqui? eu queria ser forte. queria que a vontade de chorar fosse embora, mas não vai. esses dias nublados são danados pra nos deixar deprimidos, não é? espero que amanhã faça sol e que aqui dentro também seja sol. eu só queria que essa dor invisível fosse embora. um dia vai, não é? não enxergo a ferida aberta. o osso deslocado. o sangue jorrar.

[ferida aberta que não se fecha um dia nos leva embora que não seja agora]

Menino Pedro

O que a gente é quando já deixou de ser? A gente deixa de ser em algum momento? Foi Pedro de 9 anos que disse já não ser coisa alguma. Como pode tão pequeno dizer que já não é coisa alguma? Desci apressado o escadão hoje cedo, cumprimentei Pedro e os outros meninos que por lá estavam e antes de perdê-los de vista ouvi Pedrinho dizer que tava cansado de ser coisa nenhuma. Não consegui seguir em frente ouvindo aquilo sair da boca de um menino que pra mim sempre é tanta coisa. Aqui na vila todo mundo se conhece e todo mundo enfrenta sua guerra particular e às vezes uma ou outra batalha coletiva.

Por mais difícil que as coisas sejam por aqui, é quando a gente sobe o morro pra soltar pipa que cada um dos moleques é feliz pra valer. Dá gosto de ver o sorriso estampado na cara quando a pipa pega voo. O Pedro é alegre, menino danado, gente boa, esperto que é uma beleza. Acorda cedo pra catar latinha, sucata e papelão e pela tarde vai pra escola. Dias atrás, Pedro queria desistir da escola, mas conversa vai conversa vem; Pedro menino esperto continuou. A mãe, mulher guerreira disse pra ele continuar, disse que em casa com as despesas se dava um jeito. “Estudar te torna gente, menino”, é assim com a maioria dos pequenos aqui. Eu também ouvia da minha mãe a mesma coisa – e é comum ouvir de tantas outras mães aqui na vila. Alguns pais dizem que não leva a nada e tiram as crianças da escola – mesmo ameaçados de perder a guarda. “Tem que ajudar a manter a casa desde cedo, é assim que tu aprende a ser gente, menino”. E a criança segue a vida, na hora da bronca o olhar é triste, mas depois que sai pra rua esquece. Depois lembra. Depois esquece. Quando se dá conta já é adulto e aquilo fica a remoer por dentro. O que a gente não se dá conta é que “ser alguém” a gente sempre é, não é?

Hoje não foi um dia lindo

Estava lendo Matilde quando me lembrei de você. Era fim de tarde. Começou chover. Uma chuva tão repentina quanto o nosso encontro naquela tarde. Será que você ainda consegue me ouvir?

Olha, “Yoko” ainda é a minha música favorita. Eu ainda te escuto. Arrumei o quadro que estava torto na parede. Segui aquele negócio que você falou pra usar sempre que fosse colocar algo na parede – não lembro como se chama -, importa é que agora o quadro não está mais torto. Isso é bom, não é? O quadro torto tinha um certo charme, mas ninguém gosta de olhar para uma parede e dar de cara com um quadro torto.

Saí apressada de casa ontem e deixei a chave na porta; não tinha você pra gritar da janela que eu havia esquecido. Lembrei que havia esquecido a chave na fechadura e voltei quando já estava no ponto de ônibus. Saí correndo pra pegar o ônibus. Cheguei atrasada. Tomei chuva na volta e ao chegar em casa ouvi “Terno Rei” até as duas da manhã.
Continue lendo “Hoje não foi um dia lindo”

amanhã fará sol

domingos são sempre tristes. domingos chuvosos são sempre tristes. não importa o barulho. a quantidade de conversas. as risadas na sala de estar. domingos chuvosos são sempre tristes. não importa o filme. o tipo de passeio. não importa o clima. domingos são sempre tristes.

arrumei os livros nas preteleiras. organizei em ordem alfabética. não gostei. organizei por ordem dos que mais gosto – o que demorou horas, carrego a dúvida comigo e um carinho especial por cada livro. arrumei a cama. roupa de cama limpa. limpei cada canto do quarto. arrumei as roupas no armário. quando dei por acabado a faxina, já era noite. domingos são sempre tristes. não importa o que eu faça. domingos são sempre tristes. parece que todo domingo é inverno. domingos chuvosos são sempre tristes. a previsão diz que amanhã fará sol. segundas parecem domingos, mas não. segundas nem sempre são tristes. amanhã fará sol.

Apenas mais um passo

Os dias se passam de forma tão monótona. Não tenho vontades, A. Coragens absurdas também não tenho – absurdas não tanto, você entende, não é? Também me tenho emudecido. Voltar pra casa que não é da gente faz sempre reprimir gritos.

A vida parece não mudar. Não andar. Andar para trás. Tenho estado tão imóvel. Me ponho a caminhar de olhos fechados e quando os abro é sempre o precipício que está diante de mim – então me aquieto. É apenas mais um passo. Que há de ser da vida aqui em diante? É apenas mais um passo. Apenas mais um passo.

Me inquieto – mais do que antes. Mas logo me cortam as asas e caio em mim ou no que querem que eu caia. Absurdo. A vida é um grande de um absurdo. É sempre o “não vai por aí”. Que faço então? Uma insatisfação tamanha me toma. Que farei? Ainda há sanidade em mim? Que há de ser a vida aqui em diante, A.?

Tem sempre uma tempestade sobre mim. As paredes continuam vazias por aqui, você entende? A tarde fria se aproxima – acho que preciso de um café. Acenderei as lamparinas e irei torcer para que o vento não as apague. Essa é a última folha do caderninho…

Continuaria a escrever, mas já não tenho muito a dizer. Até breve.

Escreva-me qualquer dia

Abraços,
D.

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: