azul ausente

e ouviria você recitar o poema por 10 ou 12 vezes. acho que te pediria para recitar durante a  noite inteira. a sua voz, você, o poema. já é noite. te peço: recita o poema. daqui eu te escuto.  diria-te que tua voz soa como barulho de mar que acalma, mas soaria clichê. digo-te apenas que te escuto, sabes bem que te escuto. a noite até ficou mais bela. posso ver e ouvir você recitar o poema. você. a noite. o poema. a voz. você. o poema. a voz. você. te peço: recita o poema.

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notas caóticas

faltam apenas quatro meses para o fim do ano. notei o tempo passar como um pássaro que passa voando na minha frente enquanto espero o ônibus na calçada em frente à praça. o pássaro passa voando. o tempo passa voando
o tempo pássaro voando passa. bem na minha frente. o tempo. o pássaro. o pássaro-tempo passa.  eu já nem sei mais quem eu sou. você disse que ia, mas que voltaria. você disse, lembra? a ponte é a mesma, mas eu não. a ponte é a mesma, mas eu não.

Julho

É julho. Hoje o dia foi ensolarado. Eu queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas em cima das lajes, mas me falta coragem. Observei por um longo tempo. Em julho, o céu fica repleto de pipas e as lajes repletas de crianças. É bonito ver.

Eu queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas. E sobre a tristeza daqueles que as perdem e as veem flutuar pelo ar, e parar em algum telhado. Eu realmente queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas.

Tem dias que não sou capaz de sentir absolutamente nada. Esse é um deles. Eu queria sentir a felicidade dos meninos que soltam pipas nos telhados aqui do bairro, mas é julho, e julho é triste. Exceto pelo fato de se ter crianças empinando pipas nos quintais.

Dias assim

É que ultimamente o tempo anda meio louco e a minha vida tem acompanhado tal loucura. Amanhece ensolarado, mas logo as nuvens escuras chegam. Eu deito na cama. Não quero ver ninguém. Falar com ninguém. Desanuviar  em dias assim não é fácil.

Eu faço o que quando já não sei o que fazer? Se alguém criasse uma fórmula de desaparecimento – corpo e alma – eu compraria. Hoje eu fiquei pensando em tudo o que eu não sou. Fiquei deprimida por não enxergar algo além do nada. Não sou e não tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu tô no fundo. O poço fundo me é abrigo. Abrigo também mata, saca?

Caminho meio perdida. Cambaleando. Não sei pra onde ir. Não sei como ir. Devo ir? O fundo do poço é meio que um imã na minha vida. Quando dou por mim é lá que já estou.

Que as nuvens carregadas por mim passem e não me levem. Desanuviar é palavra bonita. Você não acha? Desanuviar. Espero mesmo que por aqui tudo possa desanuviar.

Algum dia do calendário

Para ouvir – the owl – rainy sun

Para N.,

Os dias andam nublados. Há dias o sol não entra pela janela. 15:10 o ônibus sobe a ladeira. Chove. Em dias tristes. Pessoas tristes. Tudo anda tão triste. Ouvi no rádio ontem que duas pessoas foram encontradas mortas na calçada da rua que leva ao condomínio morada nobre. Morreram de frio. O que é nobreza pra você? A tempestade que cai é triste. A água que escorre pelas ruas é triste. Lá do outro lado a pessoa que ouve “Piano Bar” do Engenheiros do Hawaii é triste. Você ainda consegue dormir à noite? Faltou luz. Somos todos tristes. Há felicidade ainda aqui?

Escrevo estas linhas desconexas, pois nada aqui faz sentido. Uma carta-protesto, talvez, mas com que propósito? Contra quem? Eu mesmo e minha hipocrisia?! Há algum propósito nessas coisas que fazemos? Uma criança sorriu pra mim ontem na rua. Um pássaro pousou na janela da cozinha enquanto eu lavava a louça. Ainda chove. Eu não lembro que dia é hoje. Fiz bolo de laranja. Ando cansada. Já reparou em como a cidade é cinza?

L.

ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

sobre dores invisíveis

essa tristeza será que um dia passa, C.? é que nada aqui faz sentido. choro pelos cantos. entristeço-me por tão pouco. sou tão afetada por tudo que me rodeia. queria que não fosse assim. será que um dia esse desânimo se manda daqui? eu queria ser forte. queria que a vontade de chorar fosse embora, mas não vai. esses dias nublados são danados pra nos deixar deprimidos, não é? espero que amanhã faça sol e que aqui dentro também seja sol. eu só queria que essa dor invisível fosse embora. um dia vai, não é? não enxergo a ferida aberta. o osso deslocado. o sangue jorrar.

[ferida aberta que não se fecha um dia nos leva embora que não seja agora]

Menino Pedro

O que a gente é quando já deixou de ser? A gente deixa de ser em algum momento? Foi Pedro de 9 anos que disse já não ser coisa alguma. Como pode tão pequeno dizer que já não é coisa alguma? Desci apressado o escadão hoje cedo, cumprimentei Pedro e os outros meninos que por lá estavam e antes de perdê-los de vista ouvi Pedrinho dizer que tava cansado de ser coisa nenhuma. Não consegui seguir em frente ouvindo aquilo sair da boca de um menino que pra mim sempre é tanta coisa. Aqui na vila todo mundo se conhece e todo mundo enfrenta sua guerra particular e às vezes uma ou outra batalha coletiva.

Por mais difícil que as coisas sejam por aqui, é quando a gente sobe o morro pra soltar pipa que cada um dos moleques é feliz pra valer. Dá gosto de ver o sorriso estampado na cara quando a pipa pega voo. O Pedro é alegre, menino danado, gente boa, esperto que é uma beleza. Acorda cedo pra catar latinha, sucata e papelão e pela tarde vai pra escola. Dias atrás, Pedro queria desistir da escola, mas conversa vai conversa vem; Pedro menino esperto continuou. A mãe, mulher guerreira disse pra ele continuar, disse que em casa com as despesas se dava um jeito. “Estudar te torna gente, menino”, é assim com a maioria dos pequenos aqui. Eu também ouvia da minha mãe a mesma coisa – e é comum ouvir de tantas outras mães aqui na vila. Alguns pais dizem que não leva a nada e tiram as crianças da escola – mesmo ameaçados de perder a guarda. “Tem que ajudar a manter a casa desde cedo, é assim que tu aprende a ser gente, menino”. E a criança segue a vida, na hora da bronca o olhar é triste, mas depois que sai pra rua esquece. Depois lembra. Depois esquece. Quando se dá conta já é adulto e aquilo fica a remoer por dentro. O que a gente não se dá conta é que “ser alguém” a gente sempre é, não é?

Hoje não foi um dia lindo

Estava lendo Matilde quando me lembrei de você. Era fim de tarde. Começou chover. Uma chuva tão repentina quanto o nosso encontro naquela tarde. Será que você ainda consegue me ouvir?

Olha, “Yoko” ainda é a minha música favorita. Eu ainda te escuto. Arrumei o quadro que estava torto na parede. Segui aquele negócio que você falou pra usar sempre que fosse colocar algo na parede – não lembro como se chama -, importa é que agora o quadro não está mais torto. Isso é bom, não é? O quadro torto tinha um certo charme, mas ninguém gosta de olhar para uma parede e dar de cara com um quadro torto.

Saí apressada de casa ontem e deixei a chave na porta; não tinha você pra gritar da janela que eu havia esquecido. Lembrei que havia esquecido a chave na fechadura e voltei quando já estava no ponto de ônibus. Saí correndo pra pegar o ônibus. Cheguei atrasada. Tomei chuva na volta e ao chegar em casa ouvi “Terno Rei” até as duas da manhã.
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amanhã fará sol

domingos são sempre tristes. domingos chuvosos são sempre tristes. não importa o barulho. a quantidade de conversas. as risadas na sala de estar. domingos chuvosos são sempre tristes. não importa o filme. o tipo de passeio. não importa o clima. domingos são sempre tristes.

arrumei os livros nas preteleiras. organizei em ordem alfabética. não gostei. organizei por ordem dos que mais gosto – o que demorou horas, carrego a dúvida comigo e um carinho especial por cada livro. arrumei a cama. roupa de cama limpa. limpei cada canto do quarto. arrumei as roupas no armário. quando dei por acabado a faxina, já era noite. domingos são sempre tristes. não importa o que eu faça. domingos são sempre tristes. parece que todo domingo é inverno. domingos chuvosos são sempre tristes. a previsão diz que amanhã fará sol. segundas parecem domingos, mas não. segundas nem sempre são tristes. amanhã fará sol.

Apenas mais um passo

Os dias se passam de forma tão monótona. Não tenho vontades, A. Coragens absurdas também não tenho – absurdas não tanto, você entende, não é? Também me tenho emudecido. Voltar pra casa que não é da gente faz sempre reprimir gritos.

A vida parece não mudar. Não andar. Andar para trás. Tenho estado tão imóvel. Me ponho a caminhar de olhos fechados e quando os abro é sempre o precipício que está diante de mim – então me aquieto. É apenas mais um passo. Que há de ser da vida aqui em diante? É apenas mais um passo. Apenas mais um passo.

Me inquieto – mais do que antes. Mas logo me cortam as asas e caio em mim ou no que querem que eu caia. Absurdo. A vida é um grande de um absurdo. É sempre o “não vai por aí”. Que faço então? Uma insatisfação tamanha me toma. Que farei? Ainda há sanidade em mim? Que há de ser a vida aqui em diante, A.?

Tem sempre uma tempestade sobre mim. As paredes continuam vazias por aqui, você entende? A tarde fria se aproxima – acho que preciso de um café. Acenderei as lamparinas e irei torcer para que o vento não as apague. Essa é a última folha do caderninho…

Continuaria a escrever, mas já não tenho muito a dizer. Até breve.

Escreva-me qualquer dia

Abraços,
D.

enche de cores o mundo

gosto do seu jeito inocente de falar sobre as coisas. tudo fica mais bonito da forma que você fala. mais leve. profundo. e tantas outras coisas que não consigo descrever agora. as palavras saem da sua boca e bailam até os meus ouvidos. gosto como você fala dos seus sonhos de criança. de como você queria mudar a vida das pessoas através da literatura. gosto como você fala da poesia de manoel. sabe, às vezes eu te vejo como uma poesia de manoel. a poesia de manoel é avoada, sonhadora, cheia de miudezas que se tornam grandezas. ler manoel é atravessar um túnel e sair numa cidade onde as insignificâncias significam tanto; sair numa cidade onde as coisas “sem sentido” fazem sentido; é enxergar as pequenezas e enxergar-se como fazedor de amanheceres; ser capaz de puxar das entranhas o que de belo e inocente há no mundo. não sou capaz de descrever.

para cada noite escura há um amanhecer repleto de sol e café quente pra aquecer os sonhos. o menino pegou água na peneira, você pegou sonhos e acho que a ideia de pegar sonhos na peneira faz sentido. deixá-los passar pela peneira não quer dizer deixar ir embora quer dizer deixá-los livres. deixa os sonhos livres, menina. e voa, voa. a tela em branco espera para ser colorida. enche a vida de cores. faz teus contornos, preenche os espaços e não deixa a escuridão dos dias ou das pessoas te inundar. vai, enche de cores o mundo.

Silêncios

Senti vontade de escrever a você. Há tanto tempo não lhe tenho mandado notícias. Agora que o faço, não sei por onde começar. Há tanto não escrevo cartas. Mesmo assim volto a elas porque foi nelas que encontrei alento quando nada mais fazia sentido – não que agora algo faça sentido.

Experimentei do silêncio. Experimentei do não dizer. Nada em mim dizia coisa alguma. Nada em mim desejava coisa alguma. Havia barulho lá fora, mas em mim, aqui dentro o silêncio reinava. O silêncio fez confusão em mim.

Meus silêncios são sempre barulhentos. Ontem fiquei pensando no que eu podia ter feito, no que eu podia ter sido. Lembrei de você lamentando por tudo o que não deu certo. Por tudo que podia ter sido, mas não foi. Lamentei por tudo o que não foi. E seria hipócrita se dissesse que não sinto saudade daquilo que não foi. Você me entende, não é? É, eu sinto saudade daquilo que nem aconteceu. Você se pergunta como é possível – eu só sei dizer que é possível.

Não consigo mais dizer coisa alguma. Confesso que escrever cartas é um processo doloroso e que muitas das vezes acabo não conseguindo dizer tudo o que havia planejado dizer.  Acabo por aqui. Perdoa as poucas palavras e as muitas lamentações.

Te aguardo.

C.

por cada canto

tem um pouco de você por cada canto daqui. olha, para cada parede cinza aqui no bairro existem dez coloridas. tem um pouco de você por cada canto daqui. para cada olhar triste que encontro existem cinco ou mais olhares de brilho intenso. eu já disse que tem um pouco de você por cada canto daqui? é, tem um pouco de você por cada canto daqui.

se chove, te enxergo fazendo café. cafuné. lembro de você cantando. se ouço aquela música triste, imagino você dançando ao som de violinos. tem um pouco de você por cada canto daqui. tem um pouco de você naquele grafite no muro da escola. um pouco de você no prédio onde moro. um pouco de você nas pinturas daquele cara que tava expondo na rua. um pouco de você nas pinturas daquele cara que tava em exposição na galeria. um pouco de você nas páginas daquele livro que li dias atrás. um pouco de você naquela música que ouvi ontem. é, tem um pouco de você por cada canto daqui. por cada canto de mim.

28 de julho

Querida Ellie,

São 23:35 de um sábado tedioso de uma vida monótona. A chuva cessou depois do longo e belo temporal. Há de se discutir em uma outra carta se são belos mesmo os temporais. Há de se levar em conta que de determinado ponto de vista sejam tristes e medonhos.

Me desfiz em lágrimas esta manhã – não há motivo específico ou talvez haja, mas não me é claro. Abri a última garrafa de vinho barato que havia na dispensa. Chorei mais um bocado e caí na cama. As “ruas” andam tristonhas. As paredes estão cinzas, as pessoas estão cinzas.Percebe o quanto de cores perdemos nos últimos tempos?

Ah! o cansaço me toma. Há de haver ainda esperança que se sustente numa alma tão despedaçada quanto a minha? Há de haver ainda?

Há de se considerar que com esperanças ou não. Felizes ou não. Despedaçados ou não. A vida há de continuar. Eu, de certo modo, me deixei paralisar, mas a vida tem cobrado. Hei de desabar ainda inúmeras vezes. A sensação é de que numa dessas não levante novamente. Sabes aquela história de estar tão perto de alcançar algo, mas numca alcançar de fato – não falo da utopia. A sensação de estar tão perto de algo e de repente se desfaz e tudo volta a parecer distante. Sabes o que é sempre que se está a um passo do objetivo voltar dez passos assim de repente?! Continue lendo “28 de julho”

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