A primeira carta

Alda,

Não sabia como iniciar, o tempo passou e eu acho que perdi a prática de como se iniciam as conversas   – até mesmo as escritas. Tenho sentido a sua falta todo esse tempo, mas havia em mim um certo receio de me comunicar por esse meio – “um pouco antiquado” – você diria. Pessoalmente eu riria disso mais uma vez, mas agora distante, e com o sacrifício que me é pegar uma caneta e escrever-te, me sentiria envergonhada com tal resposta, e provavelmente não mais escreveria.

Aqui continuo sem sinal, já desisti de conseguir internet, e a tv na sala, não mudou muito, está lá apenas para que eu pareça menos selvagem. Aos domingos vou a cidade e compro pão, pudim e um jornal que às vezes me disponho a ler, mas por fim desisto. Estou gostando de me esconder aqui, temo não querer mais sair. Posso plantar o meu próprio alimento e me isolar por completo aqui dentro, não se preocupe, não farei isso, o meu temor é exatamente o contrário, o de quando por fim eu terminar a montagem do herbário, e assim ter que arrumar as malas, coloca-las no carro e partir.

Tenho uma novidade: a senhora que mora “aqui perto” deu-me um pezinho de funcho (é erva-doce, digamos) e mais dois gatos, sobre eles não irei falar muito, não quero estressa-la. Mas quanto a planta sigo-a admirando, prometo dar-lhe mais notícias dela. A “folha seca” que estou te enviando, achei por aqui, não sei de que árvore vem, nem descobri, mas achei bonita e acho que irá gostar. É só.

Com amor,

Eleonor

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Do lado de dentro

 

Pensou ter se livrado de tudo depois de ter perdoado e colocado as lembranças em um lugar profundo da mente. Achou ter perdido a chave daquilo, e enganou-se não fazer mais parte disso. “Estou livre” – iludiu-se. Às vezes ela via aquele curativo frágil, mas ignorava o que ele cobria. Por baixo do esparadrapo, a queimadura ainda ardia, inflamada e dolorida. O lugar se avermelhava e se aquecia, lá, mesmo que ela fingisse não ver, as coisas aconteciam.

Era final de outono, a cidade se lavou de um chuva que ela não viu cair, e se enfeitou de algo que ela não soube descrever, mas até o cheiro forte de incenso da rua, ou o fato de na rua escura está somente ela porque no mundo dela era ela e ela, não pareceu incomodar.

A blusa de inverno a abraçava e aquecia. Em casa ela tirava o casaco, sem ele até a respiração parecia uma ventania. Inspira e expira. Para dentro, para fora. Era o processo natural do vento voluntariamente obrigatório para manter-se viva. Continue lendo “Do lado de dentro”

Entorpecente

Foi como sentir o peso miúdo de cada célula. Foi como intoxicar-se com o excesso de dopamina. Eu senti os picos alarmantes juntamente aos meus excessos, eu vi a queda brusca, e pude senti-la quebrando os meus ossos. Só ouvi o barulho, só senti rasgar por dentro. Sem sangue. Meu corpo reage lento a qualquer recuperação. Minha pele é terra de lenta cicatrização, de feridas abertas. De coração de tecido podre que rasga fácil. Eu vi a sua mão pega-lo e atira-lo ao chão várias e várias vezes. Eu me vi plácida pronta para entrega-lo de volta. Até o meu corpo não consegui ceder a minha vontade. Até a miosina tornasse fraca demais para empurrar a actina para que eu me contrai-se, me dobra-se, me contorcesse para caber, para entregar. O corpo se estica e se recolhe em queda. O sentimento diz “vai!”, mas não há resposta. Nada reage. Foi sugada toda força. E isso não foi uma partida. Não foi despedida. Foi desistência. Foi quando a casa pensou mais que o morador. Foi quando não coube tanta dor e se desvaneceu. O olho viu o fim em lágrimas. Sem forças era inútil lutar pela persistência. Meu corpo é terra de difícil cicatrização, mas cicatriza um dia.

Abrigo

Eu vou me esconder aqui. Apagar as luzes, silenciar tudo. Vou observar o mundo como se eu não existisse. Eu vou ser a platéia secreta de um grande espetáculo. Vou aplaudir como se eu não participasse disso. Eu vou fingir que nada acontece. Vou ver a vida passar por um buraquinho, onde, curiosa eu observo as cenas transitarem por dentro da esfera, enquanto eu me protejo no meu esconderijo. Eu vou ignorar as vozes que ditam as regras, ou até aquelas que apenas chamam pelo meu nome.

Eu vou ficar presente, mas ausente.

Eu vou me refugiar nas minhas barreiras de onde eu nunca deveria ter saído.

Eu vou desarquivar todas as minhas promessas, e uma por uma vou julgar perante as minhas leis. Eu vou limpar o meu nome da cidade do meu corpo, vou me libertar das sentenças que eu mesma me impus. Vou andar por ai segundo os meus parâmetros, vou devotar a mim mesma extrema atenção.

Descobri que o mundo é dos egoístas, e que ninguém é obrigado a me amar além de eu mesma.

Eu vou girar em meu torno, eu serei o meu satélite, eu vou esquecer que os outros planetas ainda orbitam.

No fundo, porém, eu vou morrer sabendo que o mundo ainda gira, que tudo ainda respira, e que eu sou apenas eu no meio de um furacão.

Dezembros passados

O céu enfeitava-se de todas as cores que lhe era permitido. O sol vestia-se de um manto alaranjado que se clareava a medida em que se aproximava do horizonte azul acinzentado. O mundo girava pálido, lento, pausado. Havia tempo para ver o céu quantas vezes quisesse, de dormir sob qualquer tom de verde que se imaginasse e escolhe-se entre as muitas árvores.

Incrustado, porém, por baixo dos lindos tons marrons, escondido dentro da concha de cada flor que coloria o verde existia uma tristeza tão profunda que não se podia alcançá-la e examina-la.

O sono vinha intenso durante o entardecer, que melancólico sempre repetia os mesmos tons bonitos das cores e do som vivaz dos pássaros.

Uma alegria morta coloria tudo. A vida se passava como se já soubesse da tragédia que se alcançaria lá na frente. Como se a natureza se entristecesse por nem as suas melhores nuances, nem as magnificas manhãs amareladas, nem mesmo o verde inebriante de dezembro pudesse encobrir a presença da tragédia que já se manifestava. E ela sofria e se compadecia por isso.

Amaranto

Olhava pela janela do metrô aquele cenário tão antagônico ao dos filmes antigos:

Na paleta de cores, azul desbotado e cinza frio. Arvorezinhas perdidas em meio ao solo de concreto, respirando com dificuldade o ar pesado que entra pelas narinas mais sugando do que dando vida. Casinhas perdidas em lugares onde não deveriam está, recheadas de crianças com as pernas tão acinzentadas quanto os muros e as britas.

Tudo era daquela cor que não tinha cor: Cinza.

Ferrugem dos trilhos para combinar: Vermelho.

No peito, guardava muita coisa que não deveria guardar: Lembranças cinzentas que lhe eram como fumaça que invade os pulmões e polui aquela cidade que existe dentro da gente, sentimentos avermelhados que chocam-se contra o sol e fazem arder os olhos, tons vulcânicos, e tão quentes quanto, que descem pela garganta rasgando e queimando.

Continue lendo “Amaranto”

O caos do estúpido

Pela janela avisto uma só estrela. O céu está pálido, pensativo. Nada de concreto, as nuvens cobertas pelo breu a qualquer momento podem se desmanchar. Depois de duas taças de vinho começo a divagar. “Tolice criar edificações” – penso. Arquiteto as minhas ideias sem planejamento, assim como criei expectativas sobre fumaça de cigarros, não meus, eu não fumo. Nem bebo. Só hoje estou tomando vinho porque perdi o meu emprego e fui gastar o pouco de dinheiro que me resta. Irônico.

Na verdade, não é a primeira vez que bebo, confesso, e os preços dos vinhos que compro crescem na medida das tentativas de que um mais caro tenha um gosto melhor. Outra tolice. Não consigo gostar. Mas finjo que gosto, já sou chata demais para não gostar de vinho.

O certo é que todos me parecem iguais: têm gosto de decepção que para na garganta e impede os movimentos peristálticos, gosto de lembrança ruim que impede a diástole, gosto de coisas mal resolvidas. De fracasso. É isso. FRA-CAS-SO.

Como o fracasso da última construção, é que de sentimentos não sou boa engenheira, às vezes derrubo edifícios, às vezes eles se desmoronam sobre mim. Dito e feito: Demoliu-se, e eu fiquei sob. A queda foi feia, e eu me machuquei, mas não se preocupe, estou bem. Olha eu aqui sorrindo boba sob o efeito do álcool. Brincadeira, não estou sorrindo.

Ouvi os estrondos que alertaram que o prédio iria se derrubar, mas fiquei. É que sou viciada em sensações e queria sentir, então tudo que fiz foi ficar parada olhando para cima pensando “Vai doer pra caramba”. E doeu, mas está passando. Feridas não saram do dia para noite, nem se podem cura-las com beijinhos como a minha mãe fazia comigo na minha infância.

Eu sei que às vezes tem que se permitir sentir. Deixar que a última lágrima se desprenda e siga o seu rumo. Permitir a última batida fraca e sonolenta do coração até que ele se recupere. Paciência até que os ouvidos se acostumem novamente a ouvirem as antigas músicas, e os olhos a verem séries que não sejam “Friends” e “Um maluco no pedaço”.

Às vezes vale deixar, clichê, que o tempo faça os nossos curativos, para que tudo que dói agora seja trivial, o nosso mundo reorganize a sua órbita, e deixemo-nos de girar e encontremos a direção certa.

Assim, começaremos um novo capítulo.

Eu te procuro

Eu ainda te procuro, creio não desistir de você facilmente. Sinto por você um sentimento quase que indescritível. Algo que me impulsiona a levantar todos os dias de manhã por mais pesado que o mundo pareça.

É que de ti só trago boas lembranças. São coisas que guardo aqui, e que tenho medo de te falar porque lhe observei ao longe enquanto sentava e desenhava, sentava e escrevia, sentava com os gatos na varanda, levava as plantinhas para tomar sol, deitava sob o sol na grama fresca, falava sobre livros que não lia e roubava livros da biblioteca da sua vizinha. Não se preocupe, ninguém vai saber. O que é seu é só seu, é nosso.

Eu sinto muito por tudo que te fiz passar, e juro que choro as vezes por isso. A culpa foi minha quando em algum momento te deixei para trás, te escondi, te camuflei em mim, mas foi na ingênua intenção de te proteger. Agora, porém, não encontro você. E não sei quem és. E esse “conhecer” é muito mais profundo do que saber sobre você não gostar de café, gostar de gatos, de chocolate, da lua, ou sei lá…

É sobre os porquês que não se preenchem, sobre os porquês de si, de ser. É sobre os “comos” incabíveis, os gostos inventados, os rótulos agora implantados, as caixinhas que outrora julgava não entrar agora serem a sua moradia.

Diga-me: “sorte minha ter-te” — Porque por você eu faço qualquer coisa. Eu me desfaço e refaço mil vezes, se preciso for, só para te encontrar, só para ler de novo o “Caixa Postal 1989” se eu julgar que você mora lá, ou quem sabe perdida em uma página de outro livro lido, na letra de uma música, na fala de um filme.

Sorte sua, meu amor, que eu existo, e de ti não desisto. É que quando te olho sinto que o mundo inteiro parece vão, e devo dar a minha total atenção só para você, e gastar todas a as minhas forças para te proteger, e comprar um planeta inteiro só para viver ao seu lado, e te encontrar.

É o amor que sinto que é maior do que qualquer outro tipo de amor, é autoamor. Aquele que corta a garganta quando olho no espelho e os seus olhos parecem chorar. É aquele amor que diz: “faça alguma coisa”, quando o seu coração parece pesar mais do o seu corpo. É aquele que fica quando todos parecem te abandonar.

E eu sempre fico. Por mais que tu digas “não te cabe aqui”, eu arranjo um espaço e me encaixo.

Eu te amo, e se um dia tudo que possuir for o meu reflexo te olhando do espelho com os mesmos olhos que me olhas, meu amor, você estará bem.

Eu sou tudo que você precisa.

Torpe

Devo parar com essa mania de deixar o celular sempre no modo silencioso, aliás, não devo. Por pouco não te atendo, melhor, o atendo.

Coloquei o número desconhecido no WhatsApp para ver de quem se tratava. O susto manifestou-se com os mesmos lábios entreabertos que uso em frente ao espelho para ajeitar o cabelo: Você na foto, aparentemente, usando o terno que te vi pela última vez, sendo sepultado.

“Alguém tirou uma foto sua com aquele terno e está você aqui” – pensei. Lembranças vieram a tona. Não era possível que você viesse me assombrar do além, e mais uma vez ouviria os seus gritos, e eu gritaria de volta como sempre fizemos…

A calmaria veio logo depois, não era você na foto, era o meu tio, o seu irmão. Vocês nunca se deram bem. Acho que eu também não me dou bem com vocês ainda…

O que doeu fino e agudo em forma de peso na consciência foi: Acho que esqueci um pouco as suas feições. Senti no meu peito batidas tão lentas quanto as suas, e uma lágrima pesada que estava segura desde a semana passada desceu.

Eu tenho lembrado de você constantemente e tenho feito grande esforço para limpar o teu nome no meu coração.

Não vou retornar para o tio. Eu não sei o que ele quer e lhe devo dinheiro.

No mais, tudo que te peço é que, por favor, pare de frequentar as aulas de microbiologia, estragar os meus relacionamentos e não me “ligue” mais. A nossa última conversa foi boa, não quero que você me ofenda e estrague tudo. Como sempre fez.

PS: Eu retornei a ligação para o tio, mas ele não atendeu. Deve ter ligado por engano…

Instável

Acorda de manhã sentindo os seus ossos lhe espetando. O espírito desconfortável em seu próprio corpo. Incomodada toma um banho, escova os dentes, tenta se limpar, tenta se adaptar.
O mundo girando cada vez mais lento em contraste com o tempo que parece voar como borboletas despreocupadas que acabam de sair do casulo e voam radiantes pelo céu.
Em uma tentativa frustrada começa a sorrir, sem motivo para isso a alma se desentende com o corpo, a mente assopra que não há razão para que o risório se contraia, que não há serotonina suficiente no sangue. Em um embate entre ela e ela, choca-se contra si. O motivo pouco importa, o produto final da reação, independente da regra que se segue sempre é o mesmo: ninguém vai matar as malditas borboletas para você. No seu mundo, menininha, é sempre no seu estômago que elas apodrecem, e você as vomita logo após por excesso de paracetamol e Zolpidem. E esse é o seu xeque-mate. Você balanceia a equação sempre adicionando “alguns reagentes extras na mistura”, e não é uma girl power que sai disso. É você. E você chora em algumas noites, dorme mal e tem dificuldades para se levantar de manhã. Townsville está em perigo, e você tem apenas você. Salve-a, salve a si mesma.

Ponto e vírgula

Olhando a lua percebo que talvez eu nunca tenha mudado. E se eu sobrevivi antes e antes, eu posso sobreviver de novo.

Entramos em um estado em que deixamos de nos abater e de acreditar que é o fim do nosso tempo, e enxergamos o quanto somos fortes para termos chegado até o presente. São tempos difíceis agora, mas eram também antes. E aqui estamos. Aqui estou, no caso. Somente eu.

Acho que começo novamente a entender quem eu sou, ouço o barulho dos muros de fantasia se derrubando, e o estrondo que a ingenuidade e a confiança fazem ao cair ao chão.

Sinto a necessidade de demolir o prédio de concreto que eu mesma edifiquei, e sinto-me forte o bastante para vê-lo se desmoronando. Estou preparada para inalar toda essa poeira, considero-me imune a qualquer intoxicação que ela possa me trazer. Chega. Eu termino essa fase por aqui, e mesmo machucada e com uma vida repleta de entulhos de um prédio derrubado, eu sei que venci.

Mais uma flor caiu do jasmim

A casa estava suja desde da partida da última visita. Por um tempo, eu me recusei a limpa-la, deixei a louça suja e o sofá marcado. Depois de um período quis me livrar de toda aquela sujeira acumulada. Comecei enfim a organizar a casa. Coloquei tudo que estava no chão em cima das prateleiras, organizei os livros, tirei a poeira. Antes, porém, que eu terminasse de lavar a louça e desmanchar duas marcas existentes no sofá, o interfone tocou anunciando a chegada de uma nova visita. Apressei-me na faxina para que quem chegasse não visse tanta desordem. Como o tempo era curto, conforme a mal caprichosa que sou, escondi coisas embaixo do tapete, atrás da porta e passei apenas água nos copos. Olhei, e ao longe tudo estava disfarçado.

Eu limpei o que deu e escondi o resto, mas colhi flores para perfumar e enfeitar a sala.

A bagunça encoberta gritava inquieta como um monstro gigante demais para se esconder debaixo da cama, e só eu a ouvia. A visita se acomodou no sofá sentando em cima da marca da visita anterior, mas sem desmancha-la. O novo hóspede havia dado-me sementes de chás e um disco novo.

Eu me perturbava pelo lixo oculto, a visita sorria sem saber da existência dele.

Eu me preocupava com a louça e com a marca no sofá que se afundava, afundava…

A visita lia os livros da sala.

Com o passar do tempo…

Eu me distanciava do secreto e me aproximava da visita.

A visita se aproximava da porta.

A visita foi embora, antes mesmo que o disco tocasse todas as faixas.

Eu fiquei com a bagunça.

Agora há a mais dois copos sujos, foram comidos mais biscoitos e o sofá tem uma marca sobreposta.

A casa está suja desde da partida da última visita. Recuso-me a limpa-la. Deixo a louça suja e o sofá com marcas amontoadas. Depois de um tempo, talvez eu queira me livrar de todo esse caos.

O interfone toca.

Não irei atender dessa vez.

O “Nós” desfeito

Quando parti pela primeira vez você não imagina a dor que senti. Fiquei me perguntando o que faria com todos aqueles planos que havia criado para nós. Eu não sabia o que fazer com tanto volume, tudo, independente da força gravitacional existente, era pesado demais. E aqui, na gravidade do meu mundo, a sua massa pesa os meus ombros e tira o meu sono.

Nunca iria dar certo, agora entendo bem o porquê.

Todas as vezes foi eu quem foi embora, e enquanto você me ofendia e me lançava mais pesos por isso, eu me perguntava como você não enxergava o mal que me fazia.

Agora eu percebo que você via, mas egocentricamente enquadrava tudo nas leis do teu estado emocional, onde eu sempre era condenada a sua prisão que me fazia acreditar que o erro era eu e que os teus pedidos para voltar eram sinceros. Eu sofria ao te deixar mais por você do que por mim. Tola, perguntava-me se você teria lugar para guardar todo aquele “algo” que te fiz sentir, sem ao menos questionar se esse “algo” um dia existiu.

Nunca iria dar certo. Nunca!

Meu corpo pedia tempo, e eu clamava por um fim que eu não sabia concretizar. Você brincava com o espaço-tempo, e eu continuava sempre no mesmo lugar.

O meu mundo e o seu giravam antagônicos, com isso nunca nos harmonizamos, sempre nos colidimos, jogando estilhaços que se juntavam e formavam um novo planeta: “Nós”.

E esse “Nós” não foi feito para ser, e sim para acabar. E desde o início já estava bem explicito que em algum momento perdido no tempo, um meteoro nos atingiria e um novo Big Bang aconteceria, e dessa vez nos desmontaria irrevogavelmente.

Nunca iria dar certo.

E estou orgulhosa de mim por ter partido, e dessa vez não pensei em você, só em mim. Então não me espere, não me busque. Eu não vou voltar.

Procuro-me

Eu sinto a minha falta. Sinto falta daquela que acredito ser eu e tento encontra-la desesperadamente.

Já não sei quem sou. Não sei quem é aquela que me olha assustada no reflexo do espelho aflita para encontrar algo, tão pouco conheço aquela que sorri despreocupada de coisas sem graça.

Perdi-me em algum lugar. Essa que sou hoje tenho certeza que inventei.

Não sei do que gosto mais, e nem o porquê que venho sendo quem sou. Entreguei-me as correntezas da vida e elas traçaram o meu rumo baseadas no improviso.

Já não sei o que quero. Já não para onde vou. Não sei quem é essa que eu chamo de “eu”, e que eles dizem “você” porque quando a vejo, não me vejo, e quando a sinto eu tenho medo.

Se encaro-me voluntariamente ou acidentalmente, logo quero fugir de mim. Logo busco alternativas para não olhar-me. E não me olho, ignoro-me totalmente. Em uma atitude radical finjo que não me vejo.

Tenho falado a palavra “excelente” e “loucura” excessivamente. Dormido pouco, comido menos. Essa não sou eu.

Certa vez pintei secretamente um auto retrato de quem desconfio ser-me, ainda que seja apenas um esboço, guardei-o como se guarda o mais valioso tesouro. Talvez eu deva enfim torna-lo público para que os outros me ajudem a encontrar-me. Porém não farei isso. Se aquela for realmente quem sou, ela é só minha, e mesmo diante da incerteza, chamei-a Eu e vou guardá-la só para mim. E guardei-a em uma caixinha, não sei exatamente onde, mas foi por ali, dentro de mim.

Já faz um tempo que não abro a caixinha e a olho. Espero que Eu ainda esteja lá.

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