Entropia

Vinha andando na rua com aquela sacola de plástico, tocou o interfone e ela logo atendeu.

— Oi?

— Oi, sou eu

–Tô indo.

E enquanto ela ia, ele deu uma arrumada na roupa, olhou os sapatos e fez cara de quem se arrependeu de estar com eles. Ela abriu o portão “entra”. Ele deu um passo adentro e ficou a olhando-a até que ela fechasse a entrada. Depois ela seguiu na frente com as pernas magricelas. Foi direto a cozinha. Pegou uma xícara e encheu-a de café, ele atordoou-se um pouco pela ausência da fumacinha que tem o café quente. Havia um cheiro de hortelã no ar, e uma garrafa pequena em cima de uma mesinha, ele a tocou discretamente e pôde sentir que estava quente. Ela sabia que ele gostava de chá de hortelã, mas lhe serviu café. Frio. Ele olhava a grande garrafa de onde havia saído o café, enquanto ela abria o armário e pegava uma tigelinha, onde colocou umas 5 rosquinhas de chocolate. Segurou a tigelinha e a xícara, uma em cada mão, e virou-se para ele estática, enquanto ele tentava arrumar jeito com a sacola para pegar as coisas. Quando ele segurou tudo, ela puxou uma cadeira e sentou-se, o encarando com as coisas nas mãos. Ele se desconcertou, fez cara de susto, foi até a mesa, desajeitou-se novamente por causa da sacola, puxou uma cadeira e sentou-se. Ela continuava a olha-lo, ele sorriu para ela sem graça e começou a comer a comer as rosquinhas.

— E então? — Ela disse com uma cara boa.

Ele interrompeu uma mordida na rosquinha e devolveu-a para a tigela, limpou as mão nas calças e as repousou por lá: “como você está? — disse.

— Bem…– ela disse limpando algo imaginário da mesa — E você?

— Estou bem… bom, você sabe como são as coisas, os pro-ble-m… – ele se interrompeu por uns segundos quando percebeu o olhar desdenhoso que lhe era direcionado, mas continuou – os problemas de sempre, mas estou ai.

Então ele sorriu, fez meio que uma “dancinha satisfeita” olhando as rosquinhas, pegou uma e enfiou-a no café.

Ela acompanhou todo procedimento minuciosamente com os olhos, e fechou-os respirando vagarosamente enquanto repetia em pensamento: “Não devo expulsar todos os homens da minha vida aos gritos … não devo derramar café na blusa branca dele…”

Quando abriu os olhos ele a olhava assustado.

— Tá… tá tutudo bem? – ele disse e pareceu amedrontado.

Ela disse que sim, mas ele logo foi limpando as mãos na calça, pegando a sacola de plástico de uma das cadeiras e levantando-se.

Ele estava ali por um motivo, a maldita música no Gavin James no status dela que o fez enviar um “oi” e pedir para conversarem qualquer dia desses, sugerindo em seguida “amanhã”. A música não era nada, mas ele induzido pelo seu cromossomo Y viu coisa onde não tinha coisa. Prevenido havia levado o que para ele era uma “carta na manga”. Tirou da sacola um moletom com a estampa do Snoopy, e disse:

– Seu moletom… eu… eu só queria entregar o seu moletom porque é do Snoopy e você… bom, você gosta muito do Snoopy!

Ele sentiu que ela pegou o moletom da suas mãos com uma leve força a mais do que o necessário, mas ela estava sorrindo então ele a olhou nos olhos e sorriu de volta.

Ela embolou o moletom nas mãos e o colocou sobre a mesa, mirando-o com  olhos que diziam “Vai embora!”.

— Bom, então eu tô indo – ele disse.

–Tchau – ela disse e riu dessa vez mostrando os dentes, e abaixando a cabeça.

Ele foi em direção ao portão, tropeçou na tigela de cimento da ração dos gatos, doeu, mas ela o olhava como quem olha pedestre atrapalhando o transito na calçada.

Ele saiu segurando a dor, deu um passo à frente e estava fora, virou para sorrir, mas antes disso o portão estava fechado.

Ele ficou olhando, como se não soubesse o que havia por trás do portão. Ela fechou o portão como se isolasse um sistema. Sistema fechado impede que o calor saia, e não que o frio entre.

Se o sistema tem mais calor que o universo (universo= onde o corpo/sistema se encontra) o sistema tende a passar calor para o universo a fim de equilibra-lo (aquela mesma ideia do deslocamento do menos concentrado para o mais concentrado).

O corpo (sistema) sempre tende a tentar equilibrar-se com o seu universo, então por isso ele transfere calor até que de alguma forma ele seja isolado, se isso não acontece, ele vai continuar tentando, tremendo para tentar se aquecer simultaneamente enquanto doa toda a sua energia, mas o resultado disso são: tontura, rubor, dificuldades para falar, respiração lenta, pulso arterial fraco– hipotermia.

Ele estava lá fora que nem sódio, sentindo falta do calor de estar do lado de dentro, o clichê “tarde demais”. E era.

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2 comentários em “Entropia

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  1. Contos assim me ajudam a lembrar o quanto algumas ações masculinas são previsíveis, mesmo que a gente negue até a morte qualquer evidência disso.
    Amei as analogias, fiz cara feia para a visão do café frio. Sensações completas… Belo texto

    Curtido por 1 pessoa

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