DT 32:2

Esse negócio de seguir em frente é uma das coisas mais complicadas que a humanidade pode inventar. Ao sentar na minha varanda e esperar a chuva passar, ao abrir meu pacote de cigarros e notar que está vazio, ao amassar a lata de cerveja, ao ler o novo e-mail com a fatura do cartão, sinto na pele o tremendo esforço que a vida anda fazendo para me puxar, novamente, ao plano da realidade. Só que todo esforço parece ser pouco, todo problema é mínimo. Sinto-me suspenso, acima das regras do cotidiano, engatinhando numa corda bamba entre o real e o imaginário. Tendo de um lado suas palavras, promessas, atos e memórias e do outro o fato de que você não voltará mais. A cerveja eu pego na geladeira, a fatura eu resolvo no banco, o cigarro eu compro na esquina. Mas e você? Não há resolução para você, para nós dois. Não existe dinheiro que compre ou atitude que repare. O que dá pra fazer é sentar e esperar, tal como, agora, eu espero o passar da chuva. Equilibrando-me nessa corda fina de embaraços, assistindo os meus dias transcorrem e derreterem.

Nada de ruim acontecerá, pois nada de ruim acontece quando o pior já está consumado, tatuado na pele e acorrentado ao espírito. Nada de ruim acontece, nada de bom acontece. Tudo é mais ou menos. É como dizer aos demais que está tudo bem, só para poupar o trabalho de se explicar. É partilhar o coração com o vazio, até que as lembranças sejam consumidas pelo fogo, varridas pela tempestade.

O tempo voa, os ventos apertam. Fecho os olhos e algo me vem à cabeça, algo que preciso esquecer. Droga! Não dá. Já estou lembrando… aquela brisa matutina que me dava orgulho de estar respirando, aquela manhã de sol com barulho de mar. O som das gaivotas, o doce perfume do café, da pele flor de íris, do lençol limpo, do biscoito de chocolate. Ando nu por um quarto de madeira, vejo as nuvens pela janela, as montanhas, o jardim de alfazema, os barcos no horizonte. Há felicidade no ar. Alguém abre a porta de camisola, cabelo bagunçado e um copo de café na mão. Ela sorri, deseja bom dia e diz que me ama. O tempo para. Estou em paz. Espere! Paz? Não! Onde eu estava? Sim… “Algo que preciso esquecer.”.

BUUUM! Um trovão rasga o céu e me liberta do mundo de fantasia. Na metáfora, aquela velha corda arrebenta, bato a cara no chão gelado. Ouço cochichos, a realidade corre, percebe, enxerga e tem um orgasmo quando sente que retornei aos seus laços. Acordo. Levanto. Decido não mais esperar a chuva passar. Saio na chuva e volto fumando num papel de recibo bancário. Olho para o céu. Grito! Urro! E recomeço enfim. Baleado, marcado, angustiado e mastigado, mas cheio de tesão pela vida e pronto para encarar mais uma. Uma morena na porta do bar levanta o copo e manda um beijo. Well, lá vamos nós outra vez…

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