Precariedades

Faz frio no Rio,

Faço sinal para o ônibus, entro e atravesso a roleta. Tento escolher um bom lugar, mas infelizmente não há muitos. Fico com o melhor local possível e nele me sento, bem ao lado de uma garota.

Eu não a conheço. No entanto, por alguma razão, ela guarda o celular na bolsa assim que me vê. A julgar pela gravata engraçada, pela blusa social, meião e saia curta, ela é uma estudante de licenciatura. Eu me ajeito no banco, o ônibus segue.

Dois minutos depois, algo começa. Algo latente. Uma vontade, uma indiscrição, um desejo. Da parte dela, claro, não da minha. Eu sigo transpirando a minha indiferença notória.

A coisa se inicia pra valer quando ela passa a mexer no cabelo em intervalos curtos. Por vezes as mechas tocam em mim. Ela disfarça, olha para o outro lado e observa o trânsito lá fora. Depois, vira o rosto e me come com o olhar. É um jogo rápido que eu não pesco (ou finjo não pescar). Fato que a irrita, tornando a encarar a janela e a jogar o cabelo. O negócio ganha ritmo, não há mais disfarce. Mantenho o silêncio, minutos se vão e a tática de contato continua não funcionando. Ela parece desistir. Pega o celular novamente, põe seu fone de ouvido e cantarola em voz alta. Continuo não dando importância.

O ônibus para no fiscal e demora a sair.

Ela me fita de baixo a cima e nota um detalhe que deixei passar: usávamos o mesmo tênis. A mesma marca, a mesma cor. Foi o suficiente. Ela tira um dos fones e me cutuca:

— Oi, bom dia.

— Oi.

— Nossa! Agora que eu percebi: O seu All Star é igual ao meu. Que incrível, não acha? — Diz. E gargalha sem parar.

— Pois é. Nem tinha notado — respondo. Com a voz grave, com a cara de sono, com o semblante de quem já acordou desistindo.

Ela fica sem graça e volta a focar na rua. O ar-condicionado aperta. Um gelo cadavérico. O fiscal termina e o ônibus prossegue.

Ouve alternâncias de táticas nos minutos seguintes; O cabelo, os olhares, os sorrisos, os cantos. Eu seguia pleno, simulando um cochilo ou outro.

O ponto final aparece, levanto e ela claramente fixa a visão na minha bunda, sem nenhum fingimento. Desço e ando em direção a estação, ela me segue. Após alguns metros, ela me perde de vista. Percebo que já não estou mais sendo cobiçado. Sigo a minha vida. É só uma manhã, início de semana, de rotina. Tudo ainda pode melhorar ou piorar, depende das variáveis.

Algumas horas se passam e largo o trabalho para almoçar. Na rua, sinto uma ambiguidade de sensações. Um lado da cabeça tenta me convencer de que fui rude. Outro lado diz que ela não fazia meu tipo. Concentro-me na isenção, bem no meio dos extremos. Forço a ideia de que não houve uma coisa nem outra. Não deixei a educação de lado, assim como também não deixei de dar bola por causa de jeitos ou tipos. Diabos! Estamos em 2019, não existe mais esse negócio de “fazer o meu tipo”. Existem oportunidades, necessidades, acordos e desejos. É assim que a banda toca e são essas as músicas que a gente dança.

É provável que eu a veja amanhã e a minha rigidez só pode ter causado dois efeitos possíveis: o desprezo – e isso a afastará definitivamente de mim ou, como efeito contrário, a curiosidade. E se for curiosidade, ela tentará se aproximar ainda mais. Nunca se sabe. Se você disser ao destino que deseja ficar sozinho, receberá como resposta os mais variados cenários que tentarão te induzir a queimar a própria língua.

É, eu conheço o jogo. É um mundo insano.

E faz frio no Rio.

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