Seleção Natural

O meu avô caçava passarinhos e revendia de forma ilegal. Ganhou um bom dinheiro com isso, conquistou muitos bens com isso, construiu um legado com isso. Sou contra. Porra, sou completamente contra. Vê-los e ouvi-los de perto, cheios de graça, é até bonito, sabe? Mas vendê-los? Céus! Sou contra. E agora tem esse cara, esse vizinho, que todos os dias deixa a gaiola diante da minha janela, posso vê-lo em pleno ato daqui de cima, do meu segundo andar. Ele está lá, com seus cordões de prata e o dente de ouro. O cara ganha a vida revendendo os pássaros e se gaba por conseguir lucrar, no decorrer da semana, o que nós, meros mortais, ganhamos em dois meses. Ele sai de casa pela manhã, antes do sol, e caminha até o terreno baldio em frente ao meu portão. Por lá, deixa a gaiola pendurada na árvore e fica de longe vigiando. O passarinho canta, não tem escolha o coitado, apenas canta; canta sem parar. Alegra o meu dia e a alma da rua inteira. É bonito, não nego. É uma das coisas mais belas da natureza, do universo. Só é o tipo de beleza que não deveria coçar no bolso de ninguém, que não deveria despertar o tesão pelo comércio. Pelo menos eu penso assim. Pena que nem todos pensam como eu. Na infância imaginava como seria o mundo se todos pensassem como eu. Não existiria o estudo da química, as pessoas não beberiam chá-mate, o funk não seria popular, os bancos não dariam cheque especial, o Corinthians teria falido, ninguém teria inventado as calças sociais, nem os talheres de plástico, nem o Excel, nem os fones intra auriculares. E as ruivas? Cara, elas são verdadeiras deusas! Teriam sempre preferência em tudo, seriam as rainhas do planeta. Seria um mundo péssimo? É. Seria. Todavia garanto que pelo menos os passarinhos estariam livres, leves e soltos. Os funkeiros reclamariam, os pássaros não. Eles apenas cantariam, não têm escolha os coitados, cantariam sem parar.

Então eu saí do quarto e tomei um bom banho, lavei os cabelos e escovei os dentes. Deixei o banheiro ainda nu e tomei uma colher do meu remédio pra tosse alérgica. Troço amargo, mas como poderia reclamar? O destino é amargo. Não atoa herdei essa alergia da minha própria mãe. Procurei uma sunga e não achei, todas estavam na corda. Então pus a bermuda no pelo mesmo, calcei os chinelos e fui para a rua. Fazia um calor dos infernos e eu precisava de mais cervejas, de um novo pote de margarina e no embalo, compraria uma promoção de pães, talvez mortadela. Peguei a carteira, tranquei a casa e o portão. Lá fora, mal dei dez passos e o tal vizinho chamou.

— Renatinho, Renatinho! O que mandas, meu nobre.

— Oi Índio. Bom dia — Índio era o apelido do filho da puta.

— É isso aí, cadê minha educação né? Primeiro o bom dia.

— É.

— Bom dia porra! Lindo dia. Não acha?

— Com porra? Acho que não.

— Quê?

— Que.

— Bom… diz aí pra mim: tá de bobeira hoje?

— De bobeira? É domingo cara. Também sou filho de Deus.

— É domingo? Verdade. Caralho, ando perdidinho no tempo.

— Perdido no tempo, Índio? Isso é privilégio de quem não faz nada.

— Diz isso para os deputados. O congresso só vive vazio! Hahahahaha! Eu sou trabalhador rapaz. Não vê, olha que coisinha linda aí atrás de você, cantando que é uma beleza. Acha que é fácil cria-lo até ficar assim? Acha que não dá trabalho?

— Lá vamos nós… — Respirei fundo. E depois dei uma olhada para trás e o bichinho estava todo serelepe na gaiola.

— Tá vendo? Eu sou um profissional! Peguei ele no ninho! Por mil caralhos: em pleno ninho! No topo da serra, no meio do mato. Não se criaria com ninguém, criou comigo. Respeita o Índio aqui.

— Você sabe que não é permitido caçar na reserva biológica né?

— Sim, mas e daí?

— E daí?

— É! Tá com inveja? Só porque não tem esse talento todo?

— Não tô.

— Tá sim!

— Tá, tá. Quer saber? Você é o fodão. Era isso que queria ouvir? Você é um tremendo fodão. Agora com licença, vou no Dudu.

— Vai comprar pão?

— Não interessa o que vou fazer, cacete. Deixa de ser enxerido. Maria fofoqueira.

— Qual foi, brother. Você e Dudu são quase irmãos, traz um cigarrinho lá pra mim.

— NÃO.

— Eu te pago.

— Já ouvi essa antes, Índio. Não.

— Renatinho! Ô Renatinho. Poxa…

Ele me gritou umas dez vezes, nem mesmo olhei para trás. A padaria do Dudu ficava duas esquinas depois da minha rua. Cheguei lá e coloquei dez pratas no balcão.

— Dudu, seu corno. Quero um pote de margarina grande! Uma promoção de pães e duzentas gramas de mortadela. E passa um engradado também. Quente mesmo. Vou guardar pra hora do jogo.

— Bom dia, seu maluco. Não dá.

— O que não dá?

— Seu dinheiro, Renatinho. Não dá. Tá achando que está na Venezuela?

— Porra Dudu.

— Porra Renato. Também tenho contas pra pagar. Você não pode desembolsar o que bem entende e levar o que der na telha, merda. Quer me foder, me beija.

— Pô meu brother, quebra essa. Trago o restante pra você depois. Amanhã vou fazer um servicinho no Méier, coisa fina. Casa de quem tem money. Eu te pago, você vai ver. Te pago!

Dudu ouvia o papo enquanto limpava um copo de vidro com um pano velho. Coçou a cabeça e cochichou algo para si mesmo antes de ceder. Depois caminhou até a geladeira.

— Toma, leva uma margarina pequena, da mais barata. Tá saindo bastante dessa aqui — disse. E a colocou sobre o balcão, na minha frente.

— Minha namorada detesta essa marca, cara. Ela diz que esse bagulho é feito com sémen humano. Vai me sacanear, chapa? É assim agora? Me dá o que tem de melhor ai, vacilão.

— A melhor marca já custa essas dez pratas que você jogou na mesa. E… Bem, sémen humano? Nesses termos? Se eu fosse você começaria a me preocupar com o que a sua namorada anda provando por aí.

— Por que?

— Pô Renatinho, deixa pra lá. Tome o engradado! Espero que me pague até o fim de semana. O pão ainda está no forno, a primeira leva já foi vendida para as pessoas normais que acordaram antes das onze. Então pode levar um saco do pão suíço que está ali na prateleira. Também vai ficar anotado na sua conta.

— Okay, okay… E a mortadela, vai rolar?

— SÓ CEM GRAMAS! Tá aqui — Dudu jogou o saquinho transparente com as cem gramas fatiadas. Eu peguei no ar.

Trocamos olhares egocêntricos por alguns segundos. Tinha muita coisa misturada ali: coisas amargas, como as dividas financeiras e os vacilos recentes de ambos os lados, mas também tinham coisas doces, como a amizade que vinha desde quando éramos moleques, o tempo que partilhamos no serviço militar obrigatório, a mão de obra gratuita que dei a ele durante a construção do que hoje é a melhor padaria do bairro. Enfim, todas essas coisas enrijecem no ar durante os momentos de tensão, faz o cérebro latejar e exige que toda resposta seja muito bem premeditada. No entanto, somos homens e homens são babacas, infantis, imaturos.

— Vá se ferrar Dudu! – Falei.

— Vai você Renato!

Todos os clientes pararam e começaram a nos observar. O clima esquentou e então, sem mais nem menos, começamos a rir. Rir sem parar. Ele atravessou o balcão e me deu um longo abraço. Eu retribui.

— Aparece lá em casa mais tarde. Vê o jogo com a gente. Leva sua mina e traz alguma coisa pra queimar na brasa, vou preparar um churrasco.

— Porra, meu irmão. Vou sim, vou sim. E obrigado por tudo. Juro que vou pagar. Tamo junto!

— Grande abraço.

Deixei a padaria e voltei com as coisas pra casa. Entrei na minha rua distraído com o celular na mão até uma balbúrdia maluca alcançar os meus ouvidos. Guardei o telefone e olhei para frente. Lá estava ele, o Índio, discutindo com uma senhora, também vizinha, que já tinha os seus sessenta e poucos anos.

— A CULPA É TODA SUA! NÃO VIGIA SEUS BICHOS, PORRA. EU ENTREI POR UM MINUTO. UM MINUTO! E OLHA AI — Gritava Índio para a cidade inteira ouvir.

— Eu não tenho culpa, não tenho culpa! — Repetia a senhorinha, já com os olhos lacrimejantes.

Aproximei-me.

— O que tá pegando?

— Renatinho! Porra! Tu não vai acreditar.

— Por que está discutindo com a dona Sônia, cara. Ficou maluco?

— O gato dessa desgraçada comeu o meu passarinho! Eu entrei por um mísero minuto, só fui dar uma mijada e o filho da puta comeu meu passarinho!

Eu olhei para a gaiola. Estava no chão. Se de fato foi o gato, ao subir no galho a gaiola foi derrubada e se a gaiola foi derrubada tudo pode ter acontecido. Mas o gato da Sônia era lerdo, dorminhoco, mal comia o que era dado a ele. Não me parecia motivo suficiente para aquele escândalo todo.

— Cara. Sua gaiola está no chão. Ela quebrou com a queda. O passarinho pode simplesmente ter voado. Você viu o gato comendo ele? — Indaguei.

— Voado? Que mané voado! Não vê as penas no chão? — Espumava Índio.

— E daí? VOCÊ VIU OU NÃO VIU O GATO COMENDO ELE, CARALHO?! — Repeti.

— Eu não tenho culpa, eu não tenho culpa, moço — insistia dona Sônia.

— Não vi! Mas o gato estava em cima quando cheguei. Bem em cima! E só de me ver ele correu, mano. Foi ele mesmo. Matou meu passarinho. Droga!

— Eu não tenho culpa, eu não tenho culpa.

— Cacete. Calma. Não dá pra ter certeza. Os dois! Se acalmem, por favor. Vamos pensar um pouco.

— Meu marido irá pagar o senhor! Eu juro — disse dona Sônia.

— Calma dona Sônia, não dá pra saber se o bichano matou mesmo, como falei: vamos pensar um pouco — disse.

— É BOM QUE ELE PAGUE! — berrou o Índio.

— Índio, pode vir comigo até o portão? — Chamei.

— Pra que?

— Quero falar contigo. Vem cá, coisa rápida — disse. E saí de cena.

Ele ficou lá e falou mais algumas dezenas de palavrões. Deu tempo de eu entrar, guardar as coisas, tirar e vestir uma das sungas que estavam na corda e, só depois, retornar para rua. Quando voltei, ele já estava se aproximando do meu portão.

— Ela vai pagar. Ela vai ter que me pagar! — dizia Índio, com um semblante um pouco mais aliviado.

— Que jeito fofo de falar com idosos em meu chapa, em pleno domingo! A rua toda observando, cara. Gente filmando de longe. Esse show todo… Tudo por dinheiro? Tá vendo só? É por isso que eu prefiro trabalhar de segunda a sexta.

— Para de falar merda Renatinho. Não há muita diferença entre nós dois, no fundo você sabe disso. Por que tu me chamou aqui? O que você quer?

— Cara, eu só observei o cenário de longe. O gato da Sônia é magro. Não teria força para derrubar a gaiola daquele galho. Diz a verdade: você realmente viu ele comer seu pássaro ou você armou isso tudo?

— Armar? Tá doido Renato? Você acha que eu seria maluco pra fazer uma merda dessas?

— Acho. Quer dizer então que se eu entrar na sua casa agora, não vou achar o pássaro preso lá dentro em outra gaiola?

— Não!

— Então tá bom. Era só isso.

— Tá desconfiado de mim, brother?

— Que mané brother. Não sou seu brother. Até! — fechei o portão.

Entrei na cozinha, preparei meu café e coloquei a cerveja pra gelar. Marília chegou mais tarde e juntos andamos até a casa do Dudu para assistir ao jogo. Levei o engradado gelado e ela comprou um quilo de fígado bovino para queimarmos na grelha. O churrasco foi bom, mas durante o intervalo do jogo dois rapazes, primos de Dudu, vieram com a notícia: um dos filhos de Sônia, um miliciano, invadiu a casa do Índio e achou o passarinho lá dentro. Furioso, deu seis tiros em Índio, no rosto, matando-o na hora. Em seguida, incendiou a casa. Quando voltei a polícia e os bombeiros haviam fechado a rua. Por sorte as chamas não se alastraram, por sorte nada no meu quintal foi atingido.

No dia seguinte levantei para fazer o tal serviço no Méier. Marília ainda dormia feito uma rainha, apesar dos pesares. Uma rainha gostosa, de descendência irlandesa, com seu cabelão vermelho até a cintura. Vesti uma calça, tomei o remédio e abri a geladeira, peguei a mortadela e preparei um bom sanduíche usando a margarina que tem gosto de sémen. Ainda sonolento, caminhei até a varanda para calçar os sapatos e ouvi, bem ao longe, um canto angelical. Olhei para cima e lá estava ele, o passarinho, o causador da discórdia. No topo do meu coqueiro, cantando sem parar. É bonito, não nego. Contudo por alguns instantes voltei a pensar em como seria aquele mundo imaginário, cheio de pássaros, onde todas as pessoas pensariam como eu. Fiz um rápido cálculo das consequências e nunca mais voltei a ter esse tipo de sonho…

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