Coração Oco

No princípio eu acreditava que o vazio era um mal que só alcançava os grandes pensadores, os mais cultos, os membros da alta classe e os maiores filósofos de um século. Dostoiévski sofreu com ele, Nietzsche explicou-o por demasiado, Schopenhauer e Hegel falaram até cansar. Mas tudo se tornou confuso após alguns anos quando eu — mesmo sendo tão pequeno, pobre e insignificante — fui abraçado por esta mesma tenebrosa sensação. Através dela, prossegui numa estrada esquisita, confusa e muito, muito solitária.

O vazio existencial é o último degrau de todos os conflitos pessoais. E digamos que seja um pouco complicado debater o niilismo na juventude, sobretudo porque a maioria esmagadora dos jovens estão enraizados demais com a vida. Alguns mergulham na carreira, outros nos estudos, outros perdidos em volúpia, outros na fé ou viajando de região para região. No fim, todo mundo vive pelo que é, ou pelo que tem (o famoso ser ou ter). E todos possuem algo da própria vida que os definem por completo, quase como sinônimos diretos de si mesmos, como relacionamentos, profissões, currículos estudantis, religiosos ou qualquer outra coisa semelhante. Eu, por outro lado, não sou assim. Há anos não sou assim. A tecnologia da informação não me define, muito menos meus anos dedicados a ela. Minha escrita não me define, embora já tenha feito tanto. Minhas canções, meus projetos, meus discursos, minhas leituras e argumentos são, no geral, atributos de um ente inclassificável que leva meu nome de batismo. E é este ente que busco entender diariamente, tendo sempre a sensação de que ele é modificado por completo todas as vezes em que estou próximo de um resultado, obrigando-me a recomeçar e recomeçar e a tocar o barco com o peso desses recomeços habituais.

No entanto, apenas para evitar qualquer equívoco, quando digo que sou niilista não quero dizer que sou ateísta, relativista moral ou anarquista. Tenho convicções pessoais baseadas em fatos históricos sobre como uma sociedade e uma economia precisam se organizar. O meu niilismo nasceu por compreender que a vida é tão frágil, curta e insignificante que quase todo o esforço humano dedicado ao valor dela é exagerado, vaidoso e desnecessário. Considero o apego material uma fraqueza e o emocional uma mera linha tênue entre necessidade e instinto. Além disso, ao contrário dos tipos de niilistas citados acima, não pisei nesse patamar por influência dos grandes pensadores, mas através dos mais humildes, daqueles que viram a dor, a pobreza, o desprezo e a morte de perto. Os evangelhos e salmos bíblicos, as obras de Kierkegaard, Lispector, Nelson Rodrigues e Bukowski contribuíram nesse “salto” do primeiro ao último degrau, direto para o colo do mais puro vazio, onde tudo parece um deserto infinito e inexplorado no mais distante dos planetas da mais distante galáxia.

Enquanto preso a este deserto só existe um botão que ainda é capaz de me trazer de volta à Terra, fazendo-me desfrutar novamente de suas sociedades, pessoas, jogos de aparência e disputas de ego. Esse botão se chama: Logoterapia. Estudo psicoterapêutico que visa ajudar os pacientes a encontrar um sentido para a vida. Viktor Frankl (o autor desse estudo) passou por variados campos de concentração nazistas e neles percebeu que os mais fortes eram justamente os homens que ainda enxergavam um sentido na própria existência, tais como reencontrar a família, a terra natal, um parente distante, etc. Os que não tinham uma razão concreta para seguir respirando eram os primeiros a padecer. Ao ler os seus livros, Frankl me ajudou a desenvolver um elo no fundo do meu espírito, uma VPN¹ conectando o meu infinito deserto na alma com a vida vã nossa de cada dia. Através desse túnel, disseco o niilismo numa cansativa tarefa de moldar o significado da minha realidade. Parto do seguinte princípio: se a vida não possui sentido, então o meu trabalho é construir um sentido para ela. Algo no qual devo lutar para defender, mesmo que isso não me defina por completo, mesmo que não crie raízes em mim, do mesmo modo que aparenta criar nos demais jovens.

No fim, não resta mais o que fazer além disso; catalisar minhas incertezas e me adequar aos demais trará benefícios e malefícios, eu sei. Todavia acredito que, ao menos, a estrada deixará de ser tão solitária e poderei dividir momentos interessantes com as almas mais arraigadas. Talvez só este ato, sozinho, defina este meu ente inclassificável de uma vez por todas. Como bem dito pelo doutor Maurílio Ribeiro da Silva: “Niilistas poéticos são assim, constroem, destroem e reconstroem a realidade como bem entendem, como queira o fogo criativo que arde em suas mentes. Da realidade retiram a essência e recompõem o mundo.” Bom, não sei. É só um talvez…

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5 comentários em “Coração Oco

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  1. 1 = Nas Redes de Computadores, uma VPN é uma conexão privada entre dois pontos distintos através da internet. É como se ligassem um escritório a outro utilizando um túnel criptografado e as informações trafegadas lá dentro não são vistas pelos demais dispositivos da grande rede mundial.

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  2. Teu texto me fez lembrar do filme – e que filme! – Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. Penso que a solidão, enquanto recolhimento reflexivo – pequenas paradas para reparar os pequenos detalhes -, pode ser produtiva e enriquecedora. Essencial, talvez.

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