Das ervas que restam

É. Lá se vai o terceiro copo de chá.

Dizem que é o tipo de bebida que nos ajuda a refletir e… quer saber? Não importa a quantidade de xícaras. Acho que só o tempo realmente nos ajuda a pensar, pôr as coisas no lugar, recuperar o fôlego e voltar aos eixos. Eu vivi uma maravilhosa e confusa aventura que, em teoria, acabou. Fato delicado e cheio de pontas soltas. O problema é que quando se relembra um fato por inúmeras e inúmeras vezes, os elementos principais se tornam meros detalhes e os meros detalhes passam a protagonizar a porra toda. A vida é vista por um novo ângulo, o passado é narrado sob uma nova perspectiva e as regras são ditadas pelas coisas das quais não fiz questão. Faz sentido, agora, o porquê de você só ter me procurado quando estava mal, quando não tinha ninguém para conversar. Faz sentido, agora, o porquê de você desaparecer quando está feliz, quando as coisas estão bem, quando tudo passa a dar certo. Eu acho que minha amizade foi convertida num escritório virtual de psicologia, tornando-me útil apenas para abraçar o seu lado mais obscuro. Quando esse lado hiberna, não tenho lugar na sua vida. E sou, então, educadamente deixado de lado.

Eu não condeno a ideia de bancar o psicólogo de vez em quando. Amigos de verdade, pra ser sincero, bancam um pouco de tudo o tempo inteiro, tendo assim as mais variadas facetas, as mais variadas funções. O que acho é que, no decorrer da nossa história, você decidiu optar só por este meu lado, entregando-se a função em si e não ao homem que a executava. Segurando só um dedo quando podia ter o braço todo — e talvez o corpo inteiro — só pra você. Detalhes são foda… Pedaços de dados embaralhados entre as memórias que ajudam o cérebro a alcançar uma informação rapidamente. São como cookies de computador. Destes últimos eu entendo bem; o conceito, a lógica, o algoritmo. Já de ti percebi que eu entendo muito pouco, apesar dos tantos e tantos anos já confessados. No entanto agora, graças a overdose de chá, tenho o conceito inteiro e graças ao tempo, tenho a lógica. O algoritmo sempre foi meu; ouvi-la por tantos meses me ajudou a compreender suas fraquezas e suas fraquezas me deram o cálculo perfeito para dominá-la completamente. Só que eu nunca executei tal operação, é claro. Nunca desejei manipular você. Sou mal o suficiente para muitas coisas, mas não para isso. Prefiro tê-la naturalmente, ou melhor dizendo: “preferia” tê-la naturalmente, enfim. Se foi um erro, erraria de novo! Não por amor a você, mas para demonstrá-la que não sou como todos os outros. Embora lá no fundo isso talvez signifique a mesma coisa.

De todo modo você já encontrou sua felicidade e não lembrará de mim tão cedo. O dia está acabando, vou fazer outro chá, deletar os detalhes triviais e permitir que o tempo me conceda uma nova aventura. Elas sempre batem na porta com seus sorrisos, decotes, perfumes importados, cabelos encaracolados, pontas soltas…

 

 

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