O imigrante da imaginação

Existe uma amarga estrada fria, muito grande e tortuosa que separa visivelmente nossa realidade ideal da que vivemos. E para não ficar sonhando acordado é melhor tentar buscar alcançar o ideal ou viver melancólico de tanto contar sonhos perdidos para as pessoas, mas frustrações não enchem barriga de ninguém e pesa muito a cabeça antes de dormir… E esse caminho não é calmo, ele é barulhento e cheio de curvas esburacadas, e pra piorar está caindo uma tempestade que tapa o para-brisa e os retrovisores. Podemos errar o destino ou bater esse carro em uma arvore ou até mesmo dar uma de iluminado diferentão e fingir que não estamos nessa pista enquanto as multas se acumulam todos os dias. Estar nas nuvens? Viver só de sonhos faz mal, nós nos tornamos demasiadamente platônicos e desligados do atual presente. Não quero ser um reclamão de tudo o que tenho vivido e de tudo que me cerca, pois gotas de gratidão em uma garganta seca vale-se muito. Tem até um autor que diz que para cada coisa ruim que se passa conosco devemos pensar em duas coisas boas que vivemos. E o que aconteceu antigamente não dá mais pra mudar.

E viver ignorando as consequências futuras de nossos hábitos pagando uma de bonitão como se não houvesse amanhã também faz equivalente maldade, pois uma hora a miserável conta chega e com juros que podem-nos causar um infarto. Nunca ligue o piloto automático na maioria dos casos, pois ele tende a falhar e voltar aos padrões que você mesmo sabe que não é nem metade de onde você pode estar, padrões que não te levam a lugar algum. E os anos se passam até o triste momento que você percebe que não fez exatamente nada de útil em seu “Viver como se não houvesse amanhã”. É interessante planejar coisas a longo prazo, como um agricultor que vê as flores na lavoura, sabendo ele que quando o inverno cessar dali sairá grãos de café que acalma e anestesia o cansaço, mas também é necessário agora tornar esse terreno fértil e fazer diárias podas.

“Sonhar acordado, abraçando a concentração e com muita cautela, observando o ar que enche meus pulmões e direcionando o mar de meus pensamentos para a realização de meus objetivos, amanhã ou depois o inverno cessa e o gelo derreterá sobre as colinas.”

 

Ibicoara, Chapada Diamantina, junho de 2019.

 

Pego apressadamente meu celular na mochila e olho as horas, são 7h da noite. NOSSA!! Como meu dia passou rápido e tenho a súbita sensação de que não foi tão bem aproveitado como deveria, meu bloco de notas diz cumpri menos da metade das coisas que eu tinha programado para esse dia…  No mesmo instante que remoo meu fracasso habitual, torno-me distraído olhando anestesiado para a janela do ônibus tentando decorar o número das placas dos carros e motos que passam rapidamente pela rua iluminada da avenida João França… Olhar a janela de ônibus para quem tem TDAH é como dar um mundial para um palmeirense ou estádio para um flamenguista. 1/10 das pessoas que você conhece tem um cérebro assim.

Talvez esse olhar a janela seja mais um escape noturno da monotonia de um percurso longo de um dia cansativo ou mentir pra mim mesmo sobre a natureza de meu mal desempenho. E tenho ainda 20 anos…

Passando uns 7 acertos numéricos de placas dou sinal e desço no meu ponto. A noite está muito fria do jeitinho que eu gosto, nessa época do ano a temperatura aqui na Chapada cai bastante, beira os 6 graus,  no fim das contas o frio e eu tem uma relação de amor tão íntima, emaranhada e estranha ao ponto de que todos meus banhos são gelados e eu odeio usar casaco desde que eu tinha 8 anos.

Ando poucos passos rumo a minha casa e a neblina tapa tudo o que está distante no curto horizonte. Alguns pingos tímidos de chuva beijam meu braço causando-me um doce arrepio. Pego as chaves no bolso de minha mochila e abro o portão tendo a sensação que esqueci alguma coisa minha no ônibus. Meu cachorro pula em cima mim deixando marcas de lama em minha calça…

Vou em direção a cozinha pego uma xicara de café amargo e tomo para disfarçar meu cansaço e o frio que enrijece meus dedos. De repente um segundo arrepio assalta minha pele, dessa vez mais intenso e profundo como se puxasse meu espirito para a fora. Verifico meu bloco de notas de meu celular e vejo escrito em itálico já no finalzinho e quase desapercebido: Meia hora de meditação!!

No meu quarto desordenado coloco a trilha sonora do Poderoso chefão de fundo em um volume baixo em minha caixinha de som e começo a avaliar meus pensamentos deitado sobre a cama, sem julga-los ou persegui-los, apenas os deixo passar como folhas secas de outono e tento focar no ar frio e intenso que entra em meus pulmões. De repente sou tomado pelo terceiro arrepio, dessa vez como um soco, ao ouvir O Imigrante, e apago totalmente!!

Surge um grito zombeteiro em meu ouvido. Vem de meu colega do trabalho, o Marcos Dias!!  — Acorda André, bora trabalhar! Isso é que dá ficar virando noite escrevendo, disse ele…

—  Quero dormir mulher, depois assisto esse filme com você, disse eu, com uma voz roca e tossindo, como se a saliva tivesse decido e me causado uma sensação de engasgo. Fazia mais de 2 dias que eu não dormia, mas dentro do carro tirei um cochilo.

— Que mulher o quê? Esse homem deve estar delirando motorista, disse o Marcos me balançando tentando me despertar, enquanto dava as orientações para o motorista parar no final da avenida…

Desperto envergonhado e assustado com os risos dos dois — Dá um copo de café pra esse homem voltar em si Marcos, disse o motorista… — Se eu não conhecesse bem a peça diria que virou a noite bebendo vinho ontem, disse o Marcos.

— Chegamos!! Disse o motorista.

Levanto desajeitado com a perna direita dormente e com a cara amassada, mais as críticas do Marcos no meu pé do ouvido dizendo que eu seria demitido na próxima reunião por não está dando mais conta.

— Cadê a pasta André? Disse ele olhando pra mim, enquanto eu retomava a consciência.  — Não sei onde você anda com essa tua cabeça de vento, esquece tudo e não tem mais noção de nada, 30 anos nas costas e ainda vive dando uns vacilos desse.

— Que dia é hoje? Disse eu em um tom de ironia e susto enquanto procurava também na mochila meu par de óculos, minha miopia já beirava o grau 4… Tiro uma pasta azul da mochila e dou para o Marcos dar uma analisada.

—Dia 23 de Junho de 2019, não leve na brincadeira as coisas uma hora dessas. Então é o seguinte André: O patrão deixou esse lugar para gente ir hoje tentar vender essa parada. Tentar fechar parceria com a terceira maior rede de cassinos da região, O IpanemSt.  Temos que fechar acordo de qualquer jeito entendeu? Uma oportunidade dessa não se acha mais nunca. Os caras estão abertos a negociação e a investir pesado.

— Que parada pô? Disse eu.

— Tu tá passando mal cara? Sempre disse que se você seguisse carreira de publicidade iria quebrar a cara, não tem talento pra aguentar a pressão. Apesar de ser muito bom em contar mentiras. Se prepara psicologicamente pois precisamos fechar acordo. Disse o Marcos… Fomos rapidamente até o local antes que perdêssemos o horário marcado com os caras.

— Boa noite, temos uma reunião marcado com o patrão, somos da editora RJ21, disse o Marcos.

— Só um instante, vamos verificar aqui. Disse os seguranças enquanto passavam mensagem para o outro setor.  Sala 8, quarto andar a esquerda disse uma mulher loira com sotaque paraguaio que passava orientação para os caras que estavam na mesa.

— Nem vão com conversa fiada de coaching pra cima do comandante não, ele é muito esperto, disse um dos seguranças.

Ao subir o elevador um policial militar fez mais uma verificação com detector de metais e passou um código pelo radio para sei lá quem.

Ao entrar lá tomamos um susto, o homem que nos aguardava estava sentado com um copo de Whisky na mão e com uma pistola sobre a papelada da mesa e com dois caras de terno armados ao lado fazendo proteção… Passou mil e uma coisas pela minha cabeça como se eu estivesse em um filme.

— Assustei vocês senhores? Não foi minha intenção, sabe, tenho que ficar atento, pois não tenho certeza se vocês dois foram enviados aqui para me matar ou para fazer negócios, nunca se sabe o dia de amanhã, disse o homem. — As coisas ainda andam perigosas nas operações aqui no Rio de Janeiro, mesmo depois que os jogos saíram a ilegalidade, mas ainda é recente, mas os nossos homens no Senado têm dado uma força pra coisa ficar mais segura. Já mandamos pra o saco vários políticos que estavam se opondo a nossa empresa. E temos muitos homens infiltrados na Polícia também.

— Eles estão limpos patrão, disse os dois seguranças que revistaram as nossas bolsas. — Podem começar, façam o serviço de vocês, não tenho muito tempo disponível, daqui a pouco pego um voo pra Brasília, disse o homem para nós.

Levantamos da cadeira temerosos, mas não voltamos atrás, falamos com riqueza de detalhes sobre como atuava nossa editora, e de como o mercado digital de informação estava ganhando força na publicidade internacional. Mostramos alguns gráficos de uma possível alta no mercado, e que se eles entrassem agora investindo, poderiam tirar bastante lucro conosco.

— É o seguinte, concordo com os termos, vamos investir pesado nas ações de sua empresa. Mas é um contrato de amigos, quero que vocês limpem nossa imagem pública, não somos assassinos sabe, e essa falação da mídia atrapalha os gringos de virem aqui dar capital pra gente. E lembrando que é metade das ações ou nada!

— O homem se levanta e dá um aperto de mão imponente em nós dois e sussurra: Brevemente a editora de vocês vão anunciar nossa compra dos cassinos de Vegas, é um momento único na história desse país. Vão e divirtam um pouco por conta da casa, vocês parecem um pouco tensos, a casa fornece bebidas importadas e 500 mil de fichas de presente para vocês brincarem um pouco, aproveitarem bem a noite. Nunca mais se esqueçam desse dia.

O Marcos não aguentou a pressão da noitada nem por meia hora e logo ficou bêbado com vodka importada, subiu para o 7º andar com algumas garotas que ele nunca tinha visto antes e nem sequer continuou a jogatina, depois dizia que o trouxa era eu…

Fiquei jogando ali por horas, esquecendo os problemas de trabalho e tendo uma experiencia única em minha vida, joguei diversos jogos e ganhei muitos deles. O cassino estava lotado de gente. A sorte de iniciante estava a meu favor. Muitas mulheres se aproximavam pensando que eu era algum magnata. Até que eu parecia um mesmo, ainda mais com tanto dinheiro para apostar em jogos que comprariam uma BMW pelo valor inicial da aposta. Eufórico pergunto para uma das apostadoras que dia tão marcante em minha vida era esse…

­— Dia 14 de Janeiro de 2022, no melhor cassino do mundo, na melhor noite de sua vida… Se você ganhar mais uma vez dou um beijo nessa sua boca meu bem. Estou cansada de perder dinheiro pra você. Disse a mulher flertando comigo…

No mesmo instante recebo uma pontada no coração enquanto fico olhando para todas aquelas pessoas parado, como uma tela azul de um Windows falsificado, minhas vistas começam a escurecer e desmaio subitamente sobre aquela mesa como se tivesse tido uma parada cardíaca ou algum fenômeno do tipo. Talvez porque exagerei no energético enquanto me empolgada ao ganhar todas as partidas ou pelas inúmeras noites de sono ignoradas em prol de meu sucesso profissional ou por não ter tido mente pós-stress depois de assinar com esse chefão.

Pairo em um espaço de tempo escuro como se meu corpo estivesse flutuando nas descrições malditas de Dante, e no mesmo momento antológico, infeliz por ter tido meu frenesi apagado sem qualquer explicação, volto a mim mesmo e ACORDO…

Suspiro fundo e termino meu início de meditação que eu tinha iniciado quando cheguei em casa.

— Em Estado de choque e tristeza poética digo a mim mesmo: Quer dizer que tudo isso foi um sonho? Eu dormi foi isso? Ou será que meditei tanto que tive uma alucinação? Porque não fiquei lá? E que desgraça de Marcos é esse, nunca tive nenhum colega de trabalho chamado Marcos. O único que conheço com esse nome é meu vizinho viciado em Free Fire.  Que horas são? — Pergunto a mim mesmo.  Olho sonolento para o relógio de meu computador:

22:22.

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