Na mira da coragem

Existe um hiato terrível entre o início eufórico de uma festa e a exaustão do seu término. É um estado emocional que normalmente ocorre após o vigésimo copo de bebida; a cerveja fica um pouco mais amarga na sua boca e você não consegue mais rir das mesmas palhaçadas. Bate um princípio de reflexão, você olha ao redor e nota que as músicas não são lá tão legais assim, as pessoas não são tão interessantes e a coisa toda não parece ter o mesmo brilho que pareceu ter, no decorrer da semana, quando tudo ainda não passava de expectativa. É foda quando acontece. É foda como acontece. É como um despertar da realidade em um momento desnecessário, é como furar o que os budistas chamam de “bolha”, é como ser um testemunha de Jeová durante uma Rave cheia de alucinados, em síntese: é como ter uma ejaculação precoce.

Nesse dia eu fui a bola da vez e acabei herdando a sensação. Beatriz estava em cima da mesa rebolando e girando o casaco, Júlio mandava uns passinhos romanos com outros funkeiros que ele (e eu) nunca viu na vida. Ele não sabia dançar, era um maldito estoquista com a coluna travada. Contudo não sei se posso chamar aquilo de dança. Eu, por outro lado, era o diferentão: estava sentado na cadeira, quieto, puto, entediado, com fome, enjoado, com a bexiga explodindo e com uma cara de diarreia. Meu copo semi cheio estava na mesa, mesa em que a Bia rebolava. Fiquei sacudindo um sachê de açúcar com a mão, sem fazer nada, tentando compreender o sentido filosófico por trás da minha melancolia. Uma amiga nerd me narrou as causas desse efeito uma vez; ela dizia que ficávamos pra baixo após o consumo imoderado do álcool porque um neurotransmissor filho da puta mexia com o nosso sistema Gama, entristecendo as atividades cerebrais. A recomendação dada era o consumo do açúcar, ou o afastamento dele. Eu não sei, eu não lembro. Sempre fui péssimo com biológicas então deixei de entender a explicação dada por ela logo após ouvir o primeiro termo técnico. No entanto, possuo uma opinião diferente da dela. No meu entender essas coisas só acontecem quando o destino sussurra no seu ouvido um breve e curioso aviso: toma cuidado, ou tudo pode acabar dando merda. Pois é. A vida é sempre um risco. E eu estava lá tentando me decidir o que fazer com aquele sachê.

Olhei no relógio. Entrávamos na casa das duas e meia da manhã. A previsão de término da festa era seis, talvez sete horas da manhã… com sorte! Ou seja, eu tinha muito sapo pra engolir ainda. Precisava melhorar meu humor de velho broxa sem apelar para nenhum tipo de entorpecente. Tenho certeza que todos os caras que apelaram para as drogas já passaram pelo estágio que passei. “Júlio! Júlio, seu viado! Vou ao banheiro!”, gritei. Ele fez um sinal, assentiu. Levantei e pisquei o olho para Beatriz. Depois, fui cambaleando por alguns metros afastando pessoas e reparando nas suas respectivas bundas. Normal. O “batidão” estava altíssimo, as caixas de som quase explodiam, meus tímpanos pareciam pipocas. Eu desviava, pedia desculpas, afastava mais gente, me arrastava por espaços apertados, pedia mais desculpas, ora encoxava alguém, ora alguém me encoxava. Uma porcaria. Mas aquilo parecia ser parte de um processo natural em que todos consentiam inconscientemente. Eu, pelo visto, era o único que não compreendia o esquema. Foi meu primeiro e único baile de favela. Os detalhes sempre ficarão preservados na memória.

Se o mesmo lugar estivesse vazio eu chegaria ao banheiro em oito segundos. Com a casa lotada, cheguei em seis minutos. Havia uma poça de urina no chão e um cara dormindo sobre ela. Dois sujeitos estavam fazendo apostas na porta do banheiro, tentando se decidir quem seria o primeiro a fazer a boca do dorminhoco de mictório. E por falar em mictórios, eu consegui o meu. Entre dois caras que fisicamente me oprimiam. O frio não ajudava, achei meu pequenino encolhido entre alguns pentelhos que o barbeador deixou pra trás. Estiquei-o com força e fiz o que precisava. Em seguida, levantei o bêbado da poça de urina, joguei água na cara do cidadão e contei a ele o plano sórdido dos moleques lá fora. Dei a ele uns trocados e o aconselhei a sair dali. Ele deixou o banheiro meio desnorteado e fedendo como ninguém, eu lavei minhas mãos e sai também. Precisava fazer a viajem toda da volta, com todo cuidado do mundo, claro. Esperava ao menos ver mais bundas no caminho, era o mínimo. Respirei fundo e mirei a multidão, entretanto quando dei o primeiro passo em falso, o celular começou a vibrar. Peguei. Atendi.

— Oi. Alô. Aloooooouuuu! Quê? Ahn? Não dá pra ouvir nada, caralho. Tô no baile porra. E tô bêbado. É. Bailão! Aqui da Penha! Quê? Repete. Repete irmão. Calma ai, calma ai. Quem fala?
Voltei para o banheiro. O som estava um por cento melhor. Perguntei de novo;
— Fala. Quem é?
— É o Júlio!
— Oi. Espera ai. Tô voltando já pra mesa.
— Sai daí! Deu merda. Sai do baile e vem aqui fora agora.
— Onde?
— Aqui na principal. Vem agora mano. É parada séria.
— Puta merda. Marca um dez ai, tô indo.

Minha mãe estava certa, eu precisava arranjar novos amigos. Esses só me colocavam em enrascadas. Sai do banheiro e caminhei até a entrada do baile. Foram quase quinze minutos naquele mesmo esquema: encoxando e sendo encoxado. Até que, finalmente, consegui sair. Júlio estava na rua, ao lado da barraquinha de cachorro quente. Sua blusa social estava aberta e sem botões. Uma mulher servia a ele um copo d’água. Fitei-o e tive logo a impressão de que a coisa ficara feia; o olho roxo e a orelha sangrando deixava isso bem claro. Caralho… Era problema certo.

— Qual foi a da vez?
— AONDE VOCÊ TAVA, MALUCO? — Gritou Júlio.
— Mano. Relaxa. Eu disse que ia ao banheiro. O que hou…
— O QUE HOUVE? O QUE HOUVE? ELES PEGARAM A BIA! PORRA. FOI O QUE HOUVE. — Ele gritou novamente, interrompendo-me.
— O QUE?! PORRA! Eles quem? Da onde? Custava você ficar de olho nela? Seu doente!
— ELES PEGARAM. Não tive escolha, simplesmente pegaram.
Então a moça que trabalhava na barraquinha de cachorro quente se aproximou e tocou no meu braço;
— Ele me falou que ela era de maior, então eu disse pra ele ficar tranquilo. Dei um pouco de água com açúcar pra ele. Vai dar tudo certo. Por favor, acalme seu amigo — Disse-me ela.
— Obrigado tia — Respondi — então Júlio, diz logo. Quem levou ela? Levou como? Diz pra mim exatamente o que aconteceu.
— Então…
— Sim?
— Ela tava lá.
— Ahn. Continue.
— Ela tava lá. Dançando na mesa e tal. Ai um maluco sinistro passou; negro, alto, alto do tipo altoo mesmo. Deve ter uns dois metros. E o cara era forte também e tinha um cordão de prata, estilo gangster. Passou ele e mais quatro. Derrubaram meu parceiro no chão e foda-se, continuaram andando.
— Parceiro? Que parceiro? Seu parceiro sou eu, seu babaca! Já que trabalho contigo há três anos. O outro cara tu conheceu hoje, ele não é nenhum parceiro.
— E daí? Ele é legal. Derrubaram ele. E foram na direção dela, cara. Foram na maldita direção dela.
— E?
— E o cara sinistro pediu pra ela descer. E conversou com ela e parece ter chamado ela pra algum lugar.
— Ela te falou alguma coisa?
— Disse algo sobre ter sido convidada a subir para a área VIP, mas ela não subiu as escadas, brother. Ela saiu do baile. Subiu na garupa da moto do sinistro e eles seguiram pro morro, para o topo da comunidade.
— Puta que pariu…
— E os outros quatro que estavam com ele seguiram num carro atrás. Todos eles estavam armados. Todos de fuzil, mano.
— Droga. Droga.
— E ai?
— E ai? Tu me pergunta? Merda. Eu sabia. A sensação não mente! Uma merda estava pra acontecer.
— Que sensação? Dor de barriga?
— Não! Cala a boca, isso não é da sua conta.
Júlio então virou o copo de água com açúcar numa golada só.
— Vem cá, como você acabou desse jeito? — Perguntei.
— Como assim?
— Olha as suas roupas, cara.
— Ah tá. Quando sai correndo atrás da Bia esbarrei numa moça e o namorado dela me deu um leve empurrão, acabei caindo.
— Ok. E essa mancha roxa no seu olho? O empurrão foi com o punho fechado na cara?
— Ô, meu caralho. Isso não é hora de piadas! Depois falamos sobre isso. O importante é achar a Bia. Não posso sair daqui sem ela, cara. O que você acha de ligarmos para a polícia? — Perguntou.
— POLÍCIA? NA FAVELA? PRA PROCURAR ALGUÉM DO BAILE? TU SÓ PODE TÁ DE SACANAGEM… — Disse a tia do cachorro quente. Logo após, caiu na gargalhada.

Eu sentei no meio fio, pus a mão no bolso e tirei um cigarro. Acendi -, precisava pensar em alguma coisa e não podia ser no impulso. Qualquer bobeada e nenhum de nós sairia vivo daquele lugar. A Bia tinha só vinte e três, mas não era tola. Na verdade, era a mais inteligente entre nós. Foi meu primeiro baile funk da vida, mas ela já havia frequentado vários. A seriedade e técnica do seu discurso como consultora de vendas terminou nas dezoito horas da sexta-feira, assim que deixou a empresa comigo e com os demais. Apesar da experiência não ter sido das melhores, algo no fundo me dizia que ela estava bem e eu esperava estar certo. O importante era manter o controle, algo difícil de se segurar após alguns copos. Júlio, por outro lado, estava inquieto, falava sozinho e andava de um lado pro outro na calçada. Eu precisava tranquiliza-lo e, acima de tudo, me tranquilizar.

— E então? E então cara? E Então? E então mano, como vai ser mano? Como vai ser mano? E ai?
— CALA A BOCA SEU ARROMBADO! TÔ PENSANDO! — Respondi e joguei o cigarro nele.
— Eu tô nervoso cara. Temos que fazer alguma coisa! — Dizia.
— E vamos!
— Vamos?
— Vamos.
— E como será?
— Você ouviu o nome do cara que saiu com a Bia?
— Não!
— Tá. Mas disse que ele tinha um cordão de prata né?
— Sim.
— Ok. Siga-me.
Levantei e caminhei na direção do ponto de mototaxistas perto dali. Um cara baixinho de bigode mexicano veio falar comigo.
— Boa noite irmão! — Sorri e foquei no rosto dele. Estiquei a mão e ele apertou. Não sei se adiantou muita coisa. Até um cego reconhece um bêbado.
— Boa. O que houve com teu parceiro ai? — Questionou apontando para Júlio.
— É ele… Ele caiu da escada.
— Entendi.
— Se liga; um negão fortão com um cordãozão de prata subiu o morro agora, de moto, junto com outros caras. Você deve ter visto. Sabe quem ele é?
— Claro. Geral aqui sabe. A gente chama ele de Chokito. — Respondeu-me.
— Chokito? Que diabo de nome é esse?
— Não é nome, senhor. É apelido. Vem da infância, o cara é gente boa. Jogou bola com a gente.
— Entendi.
— Só que ele entrou pra “vida”. Sabe como é né? Ele é irmão mais novo do gerente.
— Sei como é. Gerente? Gerente do… movimento, certo?
— É, porra.
— Tá. E você tem alguma ideia de onde ele possa ter ido?
O cara relutou em me responder, olhou para os amigos de profissão sentados no ponto e coçou a cabeça. Eu tentei de novo, dessa vez com um pouco mais de desespero;
— Escuta irmão, a gente não quer arrumar nenhum caô, tá jóia? É que a nossa amiga saiu daqui com ele. E sabe como é né? A gente não pode simplesmente ignorar isso. O pai dela é advogado, brother. O avô é PM, o irmão é da Civil. Se ela sumir, os canas vão aparecer para chatear a comunidade. Não custa nada eu subir até lá para ao menos saber se está ou não tudo bem com ela. A garota é legal, mas tem um fraco pra bebida. Quando a vi pela última vez, já estava um pouco tonta. Não posso deixar que façam alguma maldade com ela.

O cara manteve o silêncio, mas Júlio se aproximou com um olhar de desespero tão profundo que comoveu o rapaz.

— Escuta — dizia ele — Não existe só o baile daqui. Rola sempre uma festinha VIP lá em cima, na casa do Chokito. Uma festa com piscina e tal. É um lugar maneiro, só que é bem protegido então… A gente pode deixar vocês na esquina do lugar e vocês desenrolam com os caras porque não é qualquer um que entra lá na casa.
— Tá. Eu topo! Obrigadão, mano! — Disse.
— Topamos? — Perguntou Júlio.
— Óbvio, caralho. Não é o que você queria? Ir atrás dela? Vai dar pra trás agora?
— É né. Eu queria… Eu quero! Mas… São os caras do tráfico, mano. É complicado.
— Complicado de cu é rola. Sobe na moto ai e vamos, AGORA!

Subi na moto do cara com o bigode mexicano, Júlio na de outro mototaxista que estava por lá. No caminho, descobri que o bigodudo se chamava Douglas e que um dos seus irmãos trabalhava para o Chokito. A corrida não foi muito longa: subimos o morro e depois foram cinco minutos de ruas, vielas, becos e passagens improvisadas. Descemos em frente a um orelhão. Dei dez reais aos caras e eles se foram. Apenas eu e Júlio ficamos ali, sob a luz fraca de um poste de madeira. Não havia ninguém mais na rua. Seguimos para o local apontado por Douglas. A casa tinha três andares e um muro com mais de dois metros. Dois homens armados guardavam a entrada. Um de cada lado do portão. Nós nos aproximamos;

— Boa noite, irmão. Tudo tranquilo? — Indaguei.
— Irmão? Qual foi, neguim. A festa aqui é privada. Some! — Disse um dos traficantes. O que estava a direita.
— Então cara, não vai dar pra sumir. Eu preci…
— Como é? — ele cortou minha fala — Não vai dar? Tá maluco, viado?
— Perdeu a noção do perigo o playboy, ai — disse o segundo traficante, da esquerda.
— Olha a cara do outro? Blusa toda aberta, drogadão. Sumam daqui porra, agora! A boca é lá em baixo — disse o traficante da direita.
— CARA! Minha amiga tá ai dentro e eu preciso sair da comunidade com ela, do contrário vai dar merda pra geral. A garota é de família pô, não podemos deixar isso aconte…

POOOOHW!

O traficante me bateu. Foi uma porrada só, bastou. A coronhada tremeu meu canino inferior. Apenas tremeu, ainda não era dia de perder o dente. Cai, passei a língua, cuspi, fiquei no chão.

— Eu mandei calar a boca, playboy. Agora vão tomar no cu os dois. Desçam agora ou a próxima coisa na sua boca será uma bala — Alertou o traficante da direita.

Havia entrado poeira na minha boca e o álcool inerte se aqueceu meu cérebro. Júlio me levantou do chão, porém ali, naquele exato momento, toda minha racionalidade tremia junto com meu dente. Um homem abalado, sangrando e melancólico é capaz de fazer qualquer besteira se for corajoso. Eu sou e, portanto, fiz a besteira; Uma vez de pé, fingi que concordei com o traficante e ele, por incauto, abaixou o fuzil. O segundo ficou rindo do nosso estado. Que se fodam as explicações biológicas, o destino já havia sussurrado no meu ouvido antes: toma cuidado, ou tudo pode acabar dando merda. Pois é. A vida é sempre um risco. Agachei e peguei uma pedra no chão, acertei a testa do segundo traficante, ele caiu. Corri na direção do primeiro, agarrei-o pelo tronco, tipo um golpe abraço de urso. Apertei-o com força, pressionando seus braços contra o próprio corpo, levantei-o e corri com ele em direção ao portão que se abriu perante a força do meu empurrão. Entrei com ele na festa e o joguei dentro da piscina. A confusão foi total.

O DJ parou, a música parou, as mulheres começaram a gritar. Um cara deu um tiro pro alto. Todos armados, todos me olhavam. O desespero foi absoluto.

— BEATRIZ! BEATRIZ! BIAAA! — Eu gritava o nome dela e a chamava sem parar.

Daí então um carro parou em frente ao portão da casa, um cara bem vestido saiu de dentro dele com uma trinta e oito na mão. Levantou o traficante que levou a pedrada e, depois, entrou correndo na festa até a beira da piscina.

— QUE PORRA É ESSA ROLANDO AQUI? QUE MERDA É ESSA CHOKITO? — Ele berrava.

Chokito saiu da casa com um copo de bebida numa mão e arrastava Bia com a outra. Ela estava completamente fora de si. Nesse ínterim, o traficante que eu levantei saiu da piscina transtornado, pegou uma pistola sobre uma mesa e apontou na minha direção.

— VOU TE MATAR, SEU CUSÃO!
Eu apenas fechei os olhos e esperei. Minha mente ficou vazia. Eu sabia! Era o destino, nada mais. Que vá pro inferno o resto do mundo com seus sachês de açúcar.
— ABAIXA ESSA PORRA! — Mandou o sujeito bem vestido. O traficante rechaçou de início. Ele espumava ódio. Seus olhos brilhavam. Era a morte me chamando pra dançar. Mas, felizmente, o pior não aconteceu. Ele simplesmente acatou o pedido e abaixou a pistola;
— Esse merda apareceu do nada e me jogou na piscina patrão, porra. Deixa eu sumir com ele. — dizia.
— Eu mandei você falar? — perguntou o tal patrão.

A piscina estava cheia. O traficante pingava como um cachorro molhado. Alguns dos presentes seguravam o riso. Ele apontou a pistola novamente para mim e tentou retrucar:
— Mas chefe!
— De novo! Eu mandei você falar? Em? — Respondeu o patrão.
— Não.
— Não o quê?
— Não… Não senhor.
— É isso ai. Escutem todos: ninguém aqui vai atirar no cara, nem nele e nem no outro covarde lá fora de blusa social rasgada. Chokito, passa pra cá a menina, deixe eles levarem ela. Eles só querem ela, então dê logo a garota pra eles meterem o pé.

Meus braços tremiam. Meu dente ainda doía. Porém após ouvir aquilo, respirei aliviado. Olhei para trás e encarei o tal patrão. Porra… Lá estava ele: o cara que eu salvei no banheiro. O bebum que quase engoliu um balde de urina. Ele estava limpo e bem vestido. Deu um leve sorrisinho e se aproximou de mim.

— Foi uma parada legal o que tu fez comigo lá em baixo — disse-me. E continuou — toma aqui tua grana de volta, irmão. Os engraçadinhos que queriam me foder lá no banheiro já passaram dessa pra uma melhor. Eu tava mal cara, não se mistura pau na coxa com cerveja e cocaina. Não faça isso, ok? dá merda…
— Pode deixar, não farei — Respondi.
— Qual é o seu nome, cara?
— Alexandre. Alexandre Varella.
— Já é então, Alex! Tu me deu uma moral sem igual lá no baile. Sai dali, tomei um banho e voltei lá pra te procurar e não te achei. Só que o Douglas me passou o papo todinho e eu soube que tu tava aqui. Então se liga no papo que vou dar: pega tua amiga, entra no Uber parceiro nosso que tá ali fora e desaparece daqui, tá maneiro? Nada disso aconteceu.

Eu concordei, claro. Não disse nada, apenas balancei a cabeça. Todos os presentes estavam estatelados assistindo a situação. O silêncio era fúnebre. Caminhei até Bia, peguei-a no colo e sai da casa. Júlio estava lá fora, escondido atrás do orelhão. Gritei o nome dele e ele voltou trocando as pernas. Ambos entraram no carro comigo. O Uber nos deixou no terminal Alvorada, na Barra da Tijuca, e desapareceu.

No terminal, Bia parecia estar melhor. Comprei uma garrafa d’água para ela e um copo de expresso. Perguntei sobre o que havia acontecido e contei o que precisei enfrentar para resgata-la. Júlio tinha uma narrativa diferente, onde ele ficava com todos os créditos. Foda-se, eu não me ligava. O importante era ela estar bem. Quando voltou a si, ela nos encarou como quem havia acabado de ouvir o enredo de um filme. Bebeu o café e começou a rir sem parar;

— Vocês são lunáticos! Eu não fui sequestrada. Só exagerei um pouco misturando bebida com a bala, tive alucinações e apaguei. Chokito me deixou deitada no quarto, ele é meu amigo de longa data, caralho! Já fui várias vezes nas festinhas dele. Quando você chegou e deram o tiro pro alto e a festa parou, ele subiu para me pegar, pois temia que tivéssemos de ir embora de lá rapidamente. Não foi o caso. Tem noção do quanto vocês foderam tudo? Quase perderam a vida à toa.

Quando ouvi aquilo fiquei com tanto ódio que meus ossos estalaram. Levantei e mandei todos para a casa do caralho. Prometi que nunca mais sairia com eles novamente. Minha mãe estava certa, eu precisava arranjar amigos melhores. Dei um tapa no copo de café de Beatriz que caiu e se esparramou pelo chão do terminal. Ambos me olhavam assustados. Uma segurança chegou a simular uma aproximação. Imediatamente virei as costas e fui embora, nunca mais os vi desde então e nunca mais entrei num baile de favela…

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