Inexorável

Acordou e ligeiramente sentou na cama. De imediato ficou tonto. A cabeça começou a girar, era uma dor para cada fio de cabelo. Ele espirrou. Pôs a mão no rosto, havia um pouco de pó sobre a narina esquerda, traços da farra na noite anterior. Ele fedia e sentia uma dor absurda nas costas. Levantou-se, andou até o espelho, passou a mão no cabelo e, não satisfeito, penteou-o. Só Deus sabe o quanto era vaidoso. O sol quente levantava a poeira da quitinete alugada, o quarto cheirava a geladeira suja. Pela intensidade da luz, imaginou que já estava tarde. Assustou-se com isso e correu então até o relógio de parede. Eram 7:12 da manhã. Isso dava mais ou menos 7:20 da manhã, visto que seu relógio estava atrasado e não dava para ajustar, pois os botões estavam quebrados. Tinha um compromisso no centro as 8hrs e, levando em conta que o tempo médio até lá é de 30 minutos, contando com o trânsito, isso dava a ele, mais ou menos, 10 minutos para se resolver e desaparecer dali.

Voltou até o quarto desesperado. Uma agonia que corroía o coração. Todo trabalhador brasileiro sabe o que é estar atrasado, conhece a sensação. Ele também conhecia, embora fosse vagabundo. Ao menos, se considerava um, já que não arranjou um emprego fixo nos últimos treze meses. De imediato, havia muito a se fazer em pouco tempo: um remédio, um banho, uma cagada, um café, uns ovos, talvez, quem sabe, um cigarro… Elementos que qualquer cidadão precisa para encarar o demoníaco mundo lá fora. Ele tirou do armário um jeans manchado de caneta e uma blusa social lisa, preparou os ovos, engoliu o remédio junto ao café e correu para o banheiro. Quando já estava no box, o celular tocou. Saiu nu e voltou para o quarto com a escova de dentes na boca e uma toalha na cintura. Ao tirar o celular da cabeceira, deixou cair. Foram-se peças para todos os lados. Caralho! Aquilo fez um barulho enorme… O suficiente para assustar e acordar Vânia.
— Ahw. Ahw.
— Desculpa docinho, volte a dormir.
— Você já vai?
— Já era até pra ter ido.
— Brian…
— Quê?
— Não vá sem se despedir de mim.

Brian não Respondeu. Estava com a boca cheia de espuma. Foi até o banheiro, fez o que tinha que fazer e voltou em cinco minutos, praticamente já arrumado. Sentou na cama e montou o celular novamente. Vânia veio tateando em meio aos lençóis e o abraçou por trás. Deu-lhe um beijo quente na nuca. Ele gostou.
— Amor, cuidado com o meu cabelo — Pediu Brian.
— Ah, seu fresco! — ela respondeu.

Brian virou o corpo e deu um beijo no nariz de Vânia. Ele amava fazer isso. Os dois relembraram juntos algumas maluquices da noite anterior. Ao terminar, ele se ergueu e colocou o celular no bolso, a carteira, os fones de ouvido e as chaves. Procurou sua pasta em cima do armário e encontrou. “Tô pronto. Tchau!”, exclamou. Em seguida, foi em direção a porta de saída. Vânia levantou da cama e o seguiu. Ela usava apenas um sutiã roxo, desses masculinamente complicados, que só abrem pela frente.
— Hey! Hey! Hey! Espera um pouco gostosão. Hoje é um grande dia. Seu futuro, o NOSSO futuro pode mudar! Não saia de casa despreparado, senta aí! Deixa eu ler a sua sorte.
— Vânia… Não tenho tempo para as suas macumbas. Tô ultra atrasado.
— Macumba o escambau! Não foda com o destino que ele não fode com você. Senta aí vai… Você não pode sair sem saber o que te espera. Ontem enquanto dançávamos eu tive um pressentimento ruim.
— Que tipo de pressentimento?
— Não sei. Parecia a nossa última dança.
— Ah, lá vem você de novo. Vai começar…

Brian reclamou, reclamou até finalmente se calar. Suas pálpebras tremiam em piscadas rápidas que acompanhavam a respiração ofegante. Estava nervoso, fato! A vermelhidão tomava conta do seu rosto caucasiano. O relógio na parede era implacável, incapaz de mentir. Apenas olhar para ele não fazia os ponteiros desacelerarem. Infelizmente não. Brian obedeceu a namorada e sentou na poltrona. Vânia se aproximou e se ajoelhou na frente dele.
— Dê sua mão! — ela pediu e Brian cedeu.

Vânia pegou a palma da mão direita de Brian com a sua mão esquerda. Com sua outra mão, ela passou os dedos nas linhas que desenhavam a palma do seu amante. Enquanto fazia esse movimento, fechou os olhos e se concentrou… O processo durou uns quinze segundos, até ela parar, instantaneamente, e arregalar os olhos. Brian não entendeu bulhufas. Ela seguiu encarando o nada, totalmente vidrada na parede suja de teia atrás dele. Permaneceu assim por mais um breve tempo e então voltou da espécie de semi-transe.
— E ai? — Perguntou.
Vânia respirou fundo e respondeu;
— Será como sonhei. Suas poesias serão vendidas no mundo inteiro — disse.
— Como é? Você viu isso?
— Mais do que vi. Eu senti… Todos saberão quem você é, meu amor. Todos discutirão suas ideias. Do ponto de ônibus até às salas de pós graduação. Você será amado e invejado na mesma proporção.
— Ual!
— Não vi só isso, vi mais… Muito mais. Pra começar, você também corre riscos.
— Riscos?
— Sim! Muitos! Há entidades cercando você. Elas temem o seu dom e as almas que tu podes tocar com ele. Tentarão pega-lo. Oh meu Deus!
— Olha Vânia… Já conversamos sobre isso.
— Amor, é sério.
— Já te pedi para deixar de se preocupar tanto comigo.
— Eu juro! Isso é sério. Preciso te avisar sobre algo, algo que pode acontecer.
— CHEGA! — Brian se ergueu e caminhou nervoso em direção a porta — olha, não quero saber. Não tenho tempo pra isso. Vou perder minha entrevista.
— Brian! Calma! Não se irrite.
— Irritado? Você está assim desde o dia em que quase me afoguei em Copacabana. Acha que vou morrer, que demônios me perseguem, blá blá blá. Não é assim. Demônios não perseguem poetas, perseguem pastores, cantores, atores, banqueiros e fiscais do Detran. Veja bem… Você mesma disse que pode ver o meu sucesso, não foi? Viu minha cara brilhando no mundo todo? Então fique de boa, tudo dará certo hoje. Eu volto mais tarde, ok? Beijos, tenha uma boa aula.
— Brian. Espera! BRIAN! Não é tão simples. Eu vi duas maneiras do sucesso chegar até você. Uma rápida e uma lenta, você só tem que…

Brian bateu a porta do apartamento com força, interrompendo Vânia. Do corredor ele gritou: “Até mais! Te amo!”. Vânia correu até a porta, abriu e o viu já dentro do elevador.
— Brian! — ele olhou — Tome cuidado com a estrela! Eu a vi! Muito cuidado! Eu juro que a vi. Muito cuidado!

Brian fez uma cara de desentendido e rebateu:
— Do que é que você tá falando? Vá se vestir, alguém pode te ver assim, cara.

A porta do elevador fechou e ele desceu.

Assim que chegou na rua, seu ônibus estava parado no ponto. Ele correu, subiu, agradeceu, pagou e sentou. Abriu a pasta que carregava, puxou alguns papéis e namorou as páginas com calma… Suas melhores poesias e contos estavam ali, impressos em papel A4, usando tinta econômica. Seu romance: “Contando as guimbas de uma estrada sem fim”, também estava ali, era seu trabalho mais promissor. O balançar do ônibus não ajudou muito, mas ele revisou cada obra com todo esmero do mundo e os guardou novamente.

Brian tinha 29 anos de idade. Foi contador até os 25. Era bom de matemática, mas estava longe de ser o seu forte, gostava mesmo é de escrever. No entanto, seu avô foi contador, trabalhou em Brasília e teve muitos amigos no congresso. Seu pai também teve a mesma profissão e foi, no seu tempo, um dos profissionais mais procurados do Rio de Janeiro. Brian seguiu o ofício por uma espécie de “pressão subliminar” que sua família exercia sobre o seu futuro, uma vez que era filho único. Herdou assim, os três escritórios que o pai gerenciou em vida. Tocou o negócio por três anos, até finalmente se abrir com a mãe, deixar claro sua infelicidade e vender tudo para o primo. Nascido e criado em Cosme Velho, morava agora no Rio Comprido. Pela primeira vez na vida, estava deixando sua formação de lado para tentar outra coisa, algo mais sublime, sua paixão desde tempos imemoriais: a escrita. Juntou algumas obras que ele havia guardado desde a adolescência, catalogou-as e deu nome ao seu romance. Depois, encaminhou seu trabalho para algumas das editoras mais famosas da cidade. Três, das oito que tentou, elogiaram seu trabalho. Uma em especial queria vê-lo com urgência, pois havia uma feira de novos talentos se aproximando e as letras de Brian encantaram quase toda a redação.

Vânia, por outro lado, era mais nova. Tinha apenas 22. É capixaba, descendente de ciganos. Trabalhou no circo durante a adolescência, viveu como hippie no interior do estado e agora estuda sociologia na universidade estadual do Rio. De tardinha, quando sai da faculdade, ela vai trabalhar na praia. Faz um pouco de tudo, vende lanches, artesanatos, faz tranças e também canta. Foi numa dessas, cantando Kid Abelha, que conheceu Brian. Oito meses depois, saiu do apê que dividia com cinco pessoas para morar com ele. Vavá, como é chamada pelos amigos, lê a sorte desde pequena. Diz que é um dom herdado da avó. Com ela ao lado, Brian nunca mais passou pelos perrengues naturais da vida, mesmo sem emprego fixo, eles nunca estavam sem dinheiro. Tudo dava certo para os dois, sequer compravam um enlatado fora da validade. Tal como o namorado, ela também escrevia. E até cedeu alguns contos para Brian, por amor a ele. Vê-lo sair da maneira que saiu, naquela manhã de segunda, deixou-a triste, apreensiva. Não pelo mal tratamento do rapaz, mas pela assombrosa visão que teve.

Passaram-se noventa minutos. Vânia ainda estava em casa, acedendo o bule de chá. Neste ínterim, no centro da cidade, o encontro já havia acabado. Brian estava sozinho na sala de reunião da editora, pensativo, encarando o açúcar grudado no fundo de um copo plástico de café. Pegou o celular e mandou uma mensagem para a namorada. “Tudo correu bem, eu disse pra você não se preocupar. Eles estão conversando na sala ao lado e logo darão o aval”, escreveu. Em seguida, olhou pela janela e viu a vida transcorrendo lá fora, na cidade mais sangrenta e mais deliciosa do planeta. Refletiu sobre as coisas boas que estavam por vir e sorriu sozinho. A porta se abriu, três caras e uma guria entraram. Um deles, o chefe, era um quarentão negro, forte, de óculos redondos. Seguido de dois gordinhos que só se distinguiam na cor do terno e a guria era uma morena alta, linda, tinha um cabelo cacheado maravilhoso. Ela era a responsável pelo setor financeiro. Todos se sentaram, o chefe ficou na ponta da mesa retangular e jogou alguns papéis contratuais sobre ela, os demais ocuparam cadeiras a sua volta. Todos olhavam encantados para Brian, olhares de admiração, olhares capitalistas, era difícil discernir.
— Meu amigo, nós amamos tudo! — Disse o chefe.
— Tudinho — Disse a guria.
— Na minha opinião, você é o melhor escritor carioca desde Márcio Paschoal¹ — Disse um dos gordinhos.
— Eu concordo — disse o outro gordinho.

Brian estava encantado. Suas pernas tremiam, sua boca ficou seca, chegou a lacrimejar.
— Obrigado, obrigado a todos. Todos vocês. Eu, eu. Eu. Eu… Cara, eu tô realizando meu sonho de infância. Não sei nem o que dizer — Falou.

O chefão gargalhou. Em seguida disse:
— Não queremos que você fale rapaz, queremos que escreva! Pense bem na nossa proposta do livro e por favor, apresente suas poesias na nossa feira.
— E leve contigo a moça! Vânia, certo? Sua namorada. Se ela te ajudou com algumas poesias, então tem talento também — Disse a guria do cabelo cacheado.
— Ok, pode deixar. Mais uma vez, agradeço a todos — Concluiu Brian.
Após se despedirem, Brian deixou o prédio na Av. Almirante Barroso.

Vânia ligou o rádio e preparou sua xícara de chá. Os biscoitos haviam acabado, mas ela se lembrou de meio brownie que restara no forno. Preparou tudo e sentou para comer. A mensagem de Brian chegou, ela leu e relaxou um pouco. Entretanto, quando assoprou a xícara, a fumaça subiu, girou e se espalhou no ar como borboletas. O som do rádio foi pego pela interferência, a janela bateu com força, a luz caiu e voltou três vezes. Seu coração gelou. Algo havia acontecido.

Minutos antes, ao sair do prédio dançando e comemorando, Brian viu uma garotinha de três anos saindo de perto da mãe que, distraída, batia boca com um guarda de trânsito. Ela caminhou em direção a faixa de pedestres com o sinal verde ligado. Uma moto passou tirando tinta de seu cabelo e um caminhão se aproximava para terminar a tragédia. Brian correu, abraçou a garotinha e a atirou na calçada. O caminhão freou, deslizou e acertou o rapaz em cheio, jogando-o a três metros da faixa de pedestres. Sua pasta foi para um lado, seu corpo para outro. O sangue espirrou quando ele bateu a cabeça no asfalto quente e começou a escorrer sob seu corpo, criando um rastro no asfalto até sua pasta, manchando seu trabalho de vermelho. Brian abriu seus olhos pela última vez, uma multidão se aproximava. O motorista desceu do caminhão desesperado e se ajoelhou na sua frente. Quando Brian o fitou com precisão, tudo fez sentido. Ele tentou dizer algo, não conseguiu. Tossiu e desfaleceu. A logomarca no boné do motorista não mentia: STAR TRANSPORTES Ltda.

No bairro ao lado, a xícara caiu. Uma crise de choro alcançou Vânia, ela desconfiava, ela sabia. Ela tentou narrar o inevitável, mas tudo simplesmente aconteceu. Deitou-se então no chão frio do imóvel e aguardou a chegada da notícia.

Um ano se passou, Vânia estava sendo aplaudida em Salvador. Foi campeã do prêmio nacional de jovens talentos. Sua coautoria no romance de Brian a carregou para longe. A repercussão do caso também, pois se tornou a inspiração de seus outros dois livros. Ali, sobre o palco, rodeada por centenas de pessoas, experimentou uma leve pitada de alegria alcançar seu coração depois de muito, muito tempo. Ela fechou os olhos e pode sentir, indubitavelmente, um leve beijo no nariz. Aquilo a emocionou mais do que tudo. No fim, agradeceu a todos, autografou alguns livros e seguiu em frente…

Anúncios

4 comentários em “Inexorável

Adicione o seu

  1. 1 – Márcio Paschoal é um escritor carioca formado em Economia. Possui mais de dez livros publicados, dentre eles, “Sofá branco”, um dos meus romances favoritos.

    Curtir

  2. Maravilhoso! Não sei porque ainda me surpreendo com a sua escrita, sempre impecável, sempre detalhista! Que obra linda, estou aguardando o lançamento do livro.

    Quanto ao Brian… gostaria de dizê-lo que os demônios perseguem quase que exclusivamente os poetas e os amantes.

    Parabéns e obrigada, querido! ❤️

    Curtido por 1 pessoa

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: