Te digo a história desses dias anormais

Campos do Jordão, 2019

 

De imediato o doce frio de junho toma a minha pele parda quando abro parcialmente a porta, suspiro lentamente como um beijo suave a brisa que vem sobre mim enquanto a fumaça de meu café amargo desenha sombras engraçadas no ar. É tudo momento, é tudo um instante, viver é perceber: não podemos fugir do agora, esse é o pensamento que canta em minha cabeça a alguns dias quando começo ficar pensando demais em coisas que não tenho domínio, o presente sempre será perene em qualquer momento de nossas vidas. Até as lembranças tomam vida e cor quando a temos novamente, as emoções fazem com que sentimos o gostinho outra vez, seja ele azeda como o limão ou doce como mel, tome cuidado!!

Me perco em imaginações simbólicas e histórias imaginárias enquanto bebo meu café quente. É quase que um estado de cinestesia quando bebo meu café catuaí, sensação parecida só quando eu escuto jazz, animado para fazer as coisas aqui em casa. Olho no espelho da parede meu corpo que melhorou bastante em forma nos últimos 2 anos, a simetria bem definida evidenciando minha força.

Em meu estilo agro, pego no meio da bagunça minha blusa social azul quadriculada e uma calça jeans amassada e me arrumo rapidamente!! Nossa perdi meu horário distraído em meu oceano de pensamentos! Tenho que ir escutar uma apresentação nova que vai tocar daqui a pouco no teatro municipal.

Saio correndo de minha casa para não perder o horário e sujo meu par de botas em uma areia de construção espalhada na rua e começo a suar muito; procuro não ficar nervoso enquanto no meio da rua tento ajeitar meu cabelo. É engraçado como eu não consigo prestar atenção em nada, antes fosse má criação, é que funciono assim desde que me conheço por gente. Só consigo fazer as coisas em cima da hora, a vantagem minha é que não consigo ficar parado por muito tempo. Sempre em busca do novo.

Respiro fundo e desço a Avenida Ruy Barbosa enquanto o caos dos carros e das luzes tomam a rua, é tudo tão desesperador e feio, nada dessa sujeira fúnebre inspira beleza, as casas e os apartamentos parecem caixotes ou espigas de milho.  Uma neblina gélida começa a me tocar e a refrescar minha pele quente enquanto a mesma cobra a conta embaçando meus óculos. São coisas simples que aguçam meu oceano de percepções. É como uma poesia que acalenta a alma do romântico…

Chego de frente ao teatro municipal meio molhado, são 20:00 da noite e eu deveria estar aqui as 7 para ver as primeiras apresentações. É um local diferente dos outros, esse ao menos nos últimos dois anos sofreu reformas e ficou mais clássico. As paredes azuis impõe beleza e simplicidade.  Entro e observo rapidamente algumas pinturas estampadas e expostas, algumas belas e outras exageradas. Subo as escadas íngremes e tento alinhar o ritmo do barulho de minhas botas batendo nos degraus para formar um som massa, éhhhh, não deu kkkk! Sou meio desligado das coisas, não sou uma pessoa típica da normalidade. Solto dois botões de minha camisa e entro no salão onde a orquestra irá tocar. Atravesso a segunda fileira das cadeiras e piso sem querer nos pés de um senhor barrigudo de jeito burguês:

 

­ – Você não olha por onde anda seu doido? Preste mais atenção seu tolo – disse o velho.

 

Eu começo a rir de canto de boca e respondo com uma fala rápida para evitar conversações, eu simplesmente não tô nem aí para o que filho da puta pensa de mim.

 

As luzes do teatro ficam baixas, a segunda apresentação vai começar!

 

Me assento, fico remexendo na cadeira e começo a estalar os dedos enquanto observo toda aquela gente dissimulada e bem vestida. Se for entediante vou embora logo, amanhã o dia vai ser longo…

 

As cortinas brancas se abrem e as luzes fortes se acendem despertando os dorminhocos, um dos músicos nervoso grita para a plateia criteriosa em um tom de desespero:

 

– O maestro não veio, mas vamos dar nosso jeito. Vamos tocar na medida do possível o que a gente ensaiou, não saiam gente, por favor, disse o violinista.

– Mas pera lá!! Como assim não veio? Onde estão as partituras desses malucos? Esqueceram também? Disse uns caras metidos a eruditos que estavam do meu lado.

– Essa orquestra nova não era nada do que imaginei, é ridículo tudo isso, nutri em vão expectativas, eles são despreparados, de onde são esses malucos? Quero o dinheiro do ingresso de volta! Disse uma mulher em meio à multidão nervosa.

  • É dos amadores que gosto, dos improvisadores, dos imprevisíveis, deixa o pau quebrar. Parece que a noite aqui vai me surpreender disse eu para os que estavam a meu lado.

Eles começam a tocar uma sonata, até parece Blues, não existe harmonia e mesmo assim eles continuam em uma persistência anormal. Cada um dos instrumentistas fazem o seu melhor e se fosse possível olhar com bons olhos cada um individualmente eles são de boa qualidade e hábeis na música. Só que não existe conjunto, cada um age por si só.

A orquestra por inteiro está fora de controle e tocam suas próprias melodias…. Embora sejam brilhantes, não existe um direcionador para colocar as coisas em ordem. Eu achava que um maestro só servia para ficar na frente mexendo as mãos dando motivação, mas não é só isso. É como se uma corrente alternada tomasse aquele ambiente musical…

 

Em seguida tentando amenizar a desgraça, os preparadores do evento correm em cima do palco com cara de pânico e distribuem partituras novas para os músicos. Dessa vez é uma canção bem conhecida: Brejeiro, do compositor Jacob do Bandolim. Eles começam a tocar de forma agitada e enérgica como se o momento deles fosse aquele… A coisa começa a melhorar e eu animado começo a balançar os ombros apostando todas minhas fichas de que tudo ia dar certo para eles, não desejo mal a ninguém.

 

No entanto um desacerto ainda impera, e a multidão chata começa a vaiar. E o desanimo toma os rostos dos tocadores…  É possível ver alguns chorando e outros já desligados como se não fossem capazes de nada.

–  Queremos ouvir música clássica, não esse chorinho clichê! murmurou os otários.

 

No mesmo instante gritos anunciantes tomam o auditório, e todos olham assustados:

 

Cheguei! Cheguei! Desculpem a demora…

Era o maestro daquela orquestra com cara de quem veio para colocar a bola para dentro do gol nos 45’ min do segundo tempo para poder levar para a prorrogação. O que mais me reserva essa noite? É tudo tão novo e engraçado… Inusitado para falar a verdade.

 

 – Franz Liszt Hungarian Rhapsody No.2, bradou o maestro, número 7 da partitura.

 

Todos se alinham e começam a tocar,

Cada tom em seu devido lugar,

Um silêncio toma a plateia

O belo agora impera.

 

O mais perfeito som é tirado, tudo com sincera harmonia, e as notas criam vida em minha cabeça e aquieta meu espirito inquieto. É tudo tão concentrado e minuciosamente detalhado. Quem criticou e os odiou naquele momento se calou. Hoje certamente é um dia que jamais vou esquecer em minha vida, sonharei com isso hoje à noite…  São três versões de uma mesma orquestra… Três pontos de vista…  Nada mensurável.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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