Eclipse

Eclipse

Ele não sabia onde estava. E também não queria saber. Almejava apenas estar a só consigo mesmo, com seus infinitos pensamentos.

Horas antes havia entrado em um ônibus sem atentar para o destino final. No entanto, não sentia que estava perdido, afinal “quem tem boca vai a Roma”, dissera o seu pai há muito tempo, quando ainda moravam no interior.

Estar naquela praça sentado em um dos bancos com um pedaço de papel dobrado na mão lhe fazia refletir. Ficou tentando lembrar em quantas praças havia passado em todas as vezes que lhe ocorrera esses acontecimentos. E chegou a conclusão que foram nove ao todo.

Quando discutia com sua esposa, ele agia dessa forma: saía de casa sem rumo, entrando no primeiro ônibus que encontrasse e descendo em qualquer praça que avistasse. Porém, uma coisa ele tinha certeza: que voltaria para casa e tudo ficaria bem. Ele trabalhava como mecânico, mas o seu sonho sempre foi ser músico. E as discussões com a sua esposa lhe inspirou a compor uma canção. A sua primeira canção.

Eles estavam casados há quase dez anos. E nesse dia em que mais uma vez saiu sem destino, estava se recordando de quando se conheceram – foi no cinema, no qual se sentaram ao lado para assistir um determinado filme dramático. Ela chorava bastante, e ele ficou comovido com aquela pobre moça.

– Senhorita, posso lhe ajudar?

– Ah, obrigada, eu vou ficar bem. Filmes de drama sempre me rasgam o coração.

A partir daquele dia, eles se tornaram amigos.

Entretanto, essa amizade durou pouco tempo, pois logo estavam namorando. Nesse meio termo, compartilhavam sonhos, projeto de casamento, falavam sobre os futuros filhos… Depois do episódio do cinema, seis meses se passaram e eles se casaram com direito a uma linda cerimônia na praia, sendo abençoados pelo pôr do sol no final da tarde.

Todos esses fatos passavam como um filme em sua mente. E, era justamente por causa destes que, apesar das discussões, não deixava de amar a esposa um minuto sequer. Eles haviam superado muitas coisas, e ele entendia que nada, absolutamente nada tinha o direito de destruir o seu relacionamento.

Ele abriu o papel dobrado e pôs-se a ler a canção que compôs especificamente para a sua amada, cujo título era “Eclipse”. O eclipse é um fenômeno astronômico raro, que ocorre de tempos em tempos, com duração de no máximo poucas horas. E ele relacionou as discussões com a esposa a um eclipse, que embora haja momentos de extrema ou parcial escuridão, a lua sempre voltará a brilhar, assim como o amor deles.

Ele sorriu. O sol estava a se pôr, e era o momento de regressar para os braços daquela que um dia lhe dissera SIM. Informou-se com uma pessoa em como voltar para o bairro onde morava, e fez seu trajeto de volta, feliz, sorridente…

Ao chegar em casa, ele a viu de costas – ela estava preparando o jantar. Engraçado que tudo parecia metricamente ensaiado, pois ele sabia que iria encontrá-la dessa forma, e ela sabia que quando ele chegasse, seria abraçada por detrás e os dois se envolveriam em um beijo apaixonante. E foi assim que aconteceu. Afinal, aquele eclipse não foi o primeiro a ocorrer. Eles sabiam perfeitamente que a lua voltaria a resplandecer entre eles.

– Aonde você foi dessa vez? Aposto que estava em uma praça qualquer…

– Acertou – os dois caíram na risada. – Sabia que eu lhe amo muito meu amor?

– Mentira! Eu lhe amo mais.

– Não, eu é que lhe amo muito mais…

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