Álcool, cactos e pimentas

O sol castigava como nunca. Era início de verão em Tucson, Arizona. Na estação de trem, Arthur Bailey foi obrigado a guardar sua jaqueta de couro e trocar as botas por um tênis mais simples. Comprou uma garrafa d’água, balas e pegou um táxi até o subúrbio. O tempo estava muito seco, os cães latiam sem parar e as moscas se entrelaçavam em sua barba. Após o fim da corrida, ele caminhou três quarteirões com um mapa em uma mão e uma mala velha na outra. Procurava a pensão barata que vira na internet. Tinha certeza que a rua estava certa, mas provavelmente erraram no anúncio, pois, ao invés da pensão, havia uma cafeteria no local. Quando faltava uns cem metros para chegar ao destino, Arthur fez uma pausa para tomar um ar na sombra de uma cabine telefônica e, dela, ficou observando a cafeteria em meio ao mormaço. As informações não batiam, ele sabia que algo estava errado. Contudo já estava extremamente cansado, precisava de um bom banho, chá gelado e uma massagem nos pés. Xingou a mãe do cara que indicou o lugar e jogou o mapa no lixo. Em seguida continuou a caminhar, vagarosamente.

Passou a mancar um pouco, seus joanetes doíam demais, foi um longo caminho desde WoodFord, Illinois. Aproximando-se do local, já era possível sentir o cheiro do café. No entanto, algo curioso aconteceu: uma calcinha vermelha caiu bem na sua frente, no meio da calçada que fervia com o sol da tarde. Ele olhou para cima com toda calma do mundo. Estava exausto o bastante para ficar surpreso. A sua direita, havia uma pequena estalagem velha de dois andares, pintada de um rosa surrado pelo tempo. Na sacada do segundo andar, uma gostosa de pele latina acenava para ele. Estava de top branco e mini saia preta. Seu cabelo liso passava dos ombros, ela sorria e apontava para a porta, convidando-o a subir. Certamente a calcinha era dela, pois, graças ao ângulo e as grades da varanda, era possível perceber que ela estava sem nada. Entretanto as coxas da latina eram tão grossas que não permitiam elevar a visão muito além do desejado. Arthur não sabia dizer se aquilo era estratégia de negócio ou se, coincidentemente, ela era apenas uma mulher de pernas maravilhosas. Ele pôs a mala no chão e a cabeça no lugar. Fez um rápido comparativo; Deu uma boa olhada para a cafeteria e, seguidamente, uma boa olhada para a dama latina. Mediu as oportunidades e as necessidades de momento e tomou sua decisão. Sem pestanejar, pegou a calcinha da calçada, a mala velha e entrou no sobrado.

Subiu duas fileiras de escadas. Os degraus rangiam. O local tinha pelo menos três quartos por andar. Subindo, era possível ouvir as risadas de vários homens, provavelmente pais de família e defensores da moral curtindo o tão suado horário de almoço. No segundo andar, o quarto que o seduzira era o número 10. A latina o esperava na porta, ela mordia os lábios e passava uma das mãos no cabelo. Usava gigantescas unhas postiças vermelhas e segurava uma garrava de gim barato. Arthur aproximou-se salivando.

— Holla, baby. Buenos dias — disse a guria.

— Bueno…

— Ven conmigo, tengo algo para ti.

Ele entrou no quarto e deixou a mala atrás da porta. Reparou o ambiente com certa desconfiança por um tempo e depois voltou suas atenções para a garota. Deveria ter seus vinte e cinco anos, não era mexicana, provavelmente equatoriana ou boliviana. Não imigrou recentemente, provavelmente criada e educada nos EUA, uma vez que seu espanhol era nitidamente forçado, aquilo o irritou.

— Meu bem, eu vou aonde você quiser. Só me poupe do espanhol, ok? — Disse Arthur.

Ela se assustou, arregalou os olhos e ficou sem palavras. Parecia uma atriz com o enredo que acabou de ser quebrado e sem talento para improvisar.

— Tudo bem, eu tenho um bom inglês — Respondeu-o.

— Ótimo!

— Quer se sentar?

— Sim, por que não? — Ele sentou numa poltrona. Era funda e fedia a camisinha.

— Quer que eu tire os seus sapatos? — Perguntou a moça.

— Eu não faria isso — retrucou Arthur — o odor pode acabar te matando… deixe que eu mesmo tiro.

Arthur levantou, tirou os sapatos e os deixou no sol da sacada. Depois, voltou para a poltrona e estirou as pernas. Ela se aproximou dele.

— Hey, gatinha. Você deixou cair isso!

Ele jogou a calcinha para a latina, que pegou de imediato.

— Boa pegada!

— Gracias.

— Agora vista.

— Como?

— Coloque-a. É vermelha, eu amo vermelho. Você fica mais bonita com ela do que sem.

Ela obedeceu. Estava um pouco confusa, suas bochechas rosaram.

— Não tem muito tempo nesse ramo, certo minha cara? — Questionou Arthur.

— Bom eu, eu… Não sei o que o Sr. Quer dizer — Ela se fez de desentendida.

— Eu perguntei… Aliás, eu afirmo: você provavelmente não tem muito tempo nesse ramo.

— E você? Tem?

— Não o suficiente para jogar minha cueca pela janela. Agora, faça-me um favor: guarde esse gim. Traga-me uma lata de cerveja, caso tenha.

— Sim senhor.

Ela foi até a cozinha e voltou com uma lata de cerveja. Não havia outro lugar para ela sentar, então ele a puxou pelo braço e ela sentou no seu colo.

— Quanto você cobra pela hora? — Perguntou baixinho.

— Depende…

— Depende?

— Si! Depende do que tu queres fazer.

— Eita! Saquei… Maldito capitalismo. Na minha época as coisas eram diferentes… — Ele virou meia lata com um gole.

— O Sr. me parece ser um homem experiente

— Pareço? É, talvez. Só não me chame de “senhor”, ok? Meu nome é Arthur, Arthur Bailey. Pode me chamar só de Arthur.

— Ok, Arthur! Eu sou Adelita.

— É um prazer e tanto Adelita… — Ele apertou uma de suas coxas. Ela sorriu.

— O prazer é todo meu. Você é o primeiro forasteiro que pergunta meu nome. Normalmente os homens já entram tirando a calça e balançando o pênis.

— Está quente aqui, se você quiser eu tiro a minha calça também.

Os dois gargalharam um pouco.

— Pagando bem, no hay problema. Peço perdão pelo calor, o ar está muito fraco. Não tem dado tanta vazão. Preciso comprar outro — Justificou.

— Eu entendo. Bom, veja só Adelita. Em outra ocasião nós já estaríamos na cama. Mas hoje eu não posso te pagar. Meu dinheiro está contado. Estou procurando uma pensão chamada: Cochino Family, conhece?

Adelita coçou o rosto e desviou o olhar, levou uns dez segundos pra responder, até que finalmente disse o que sabia:

— A Cochino já não existe há oito meses. Pegou fogo! Alguns dizem que foi criminoso, porém… Enfim. Ninguém sabe. O que sabemos é que ela não existe mais.

— Porra. Então como um anúncio daqueles pode estar de pé?

— Anúncio?

— É. Na internet. Dizia que a casa estava funcionando e que haviam quartos disponíveis.

— Posso ver?

— Ver o quê?

— O anúncio.

— Ah, merda. Claro, claro…

Bailey tirou o celular do bolso, abriu o site e mostrou a Adelita.

— Aí está… Essa merda! — Bravejou.

Ela leu e começou a dar risadas.

— Arthur, para un hombre inteligente e experiente, até que você deixa passar certas coisas, digamos, básicas.

— Quê? Por quê?

— Bem… O anúncio possui cinco anos. É antigo, veja a data no rodapé — Ela aproximou o celular e de fato a desgraçada da data estava lá.

— Caralho! Não acredito nisso! Eu andei meio país atoa? Puta merda… Com licença — Tirou-a do seu colo e levantou.

— Calma senhor, digo: Arthur! Não é o fim do mundo

— Não me mande ter calma garota. Foram mais de vinte horas de viagem… Pegue outra lata pra mim, por favor.

Adelita trouxe outra. Ele andou até a sacada e começou a beber olhando para a rua. Praguejava e maldizia coisas sem sentido, enquanto encarava a cafeteria.

— Aquilo foi construído no lugar da pensão?

— Si — Respondeu Adelita.

— Entendi. Merda! Veja… Desculpa ter gritado contigo, ok? É que… sei lá! Acho que se decepcionar com a própria tolice é a maior de todas as dores do mundo.

— Não se preocupe. Eu compreendo. Posso te fazer uma pergunta, Arthur?

— Faça, meu bem.

— Você conhecia alguém que vivia naquela pensão?

— Sim. Não tanto quanto desejo, mas sim.

— Alguém próximo do senhor?

Arthur deu meia volta, respirou fundo e olhou nos olhos de Adelita. Apesar de toda lascívia que seu corpo despertava, ele viu um bom coração, ou ao menos, um coração confiável dentro dela. Caminhou de volta ao cômodo, sentou-se na poltrona e desabafou;

— Minha filha. Acho que minha filha vivia lá. A mãe dela me deixou quando ela só tinha 8 anos. Arrancou a menina de mim e levou para longe. Procurei de todas as formas, paguei detetives, fiz o diabo. No entanto, se passaram dezoito anos e eu nunca mais a vi. Até que, na semana passada, um amigo meu metido a hacker fez algumas buscas na internet e encontrou o perfil da vagabunda da minha ex-mulher, a mãe da minha filhota. Ele então vasculhou algumas publicações e viu uma em que ela dizia algo sobre a filha estar vivendo nessa pensão, pois é próxima da universidade onde ela estuda economia.

— Ual. Que história!

— Pois é, boneca. Dá pra acreditar? Minha filha… Economia! Céus. Olha, confesso que não fui lá o melhor marido do mundo. Fiz algumas merdas, fui preso algumas vezes. Porém não se afasta uma filha do pai. Este provavelmente deve ser um dos maiores pecados bíblicos. Procurei-a por todos esses anos. Até na TV já fui parar. Até hoje: nada!

— Qual era o nome dela?

— Clementine. Eu a chamava de Clem. Conhece alguma Clem? — Respondeu Arthur, jogando fora a segunda lata.

Adelita balançou a cabeça em sinal negativo. Ficou calada, foi até a cozinha, trouxe mais uma lata para ele e um copo de gim com tônica para si. Ela tirou um smartphone do sutiã e digitou algumas coisas em silêncio. Arthur não se importou, só queria beber e esquecer.

— Conheço um bom hotel aqui perto, você pode ficar por lá e tirar uns dias na cidade procurando por ela — disse Adelita.

— Não, acho que vim no tempo errado. Os estudantes estão de férias, a pensão já não existe mais. Eu vou voltar. Sabe? Fiz o possível, mas talvez seja minha maldição: ser destinado a não reencontra-la. Tô velho, tô cansado. Não suporto mais isso. Essa expectativa acabará me matando.

— Eu sinto muito Arthur.

Após quarenta minutos de conversas, ambos terminaram suas bebidas. Adelita contou um pouco mais do seu passado, sobre como seus pais se arriscaram atravessando a fronteira enquanto ela ainda era um bebê. No fim, os dois eram quase amigos de longa data. É provável que os índices de suicídio entre prostitutas fossem mais baixos se elas tivessem alguém com quem conversar.

— Quanto te devo? — Perguntou Arthur.

— Oh, deixe-me vinte pratas pelas cervejas. Você então voltará para o Illinois?

— Sim. Adeus Adelita — Ele levantou, pôs o seu tênis, deixou a grana na mesa e deu um beijo no rosto da guria.

— Adeus, Sr. Bailey.

Arthur saiu do sobrado e caminhou pela rua, entrou na cafeteria, saiu com um lanche para a viagem e sentou no ponto de ônibus. Adelita assista a tudo da sacada. Quando ele entrou no ônibus, ela chorou.

Uma mulher se aproximou de Adelita por trás e perguntou:

— Ele já foi embora?

— Sim. Ele já foi. Quando você chegou? O que ouviu?

— Estava na área. Cheguei pouco depois de você ter me enviado a mensagem. Estava escondida no fundo falso da parede, ouvi apenas o final.

— Ok! Olha Clementine, nós somos amigas, você salvou minha pele algumas vezes. Eu respeito suas decisões, mas caralho! Ele é seu pai! O que custa falar com ele? — Perguntou Adelita.

— Eu sei… Porém já te disse que isso jamais acontecerá! O desgraçado batia na minha mãe. Maltratava a coitada. Eu me lembro de coisas, muitas coisas Adelita. Jamais irei perdoa-lo.

— Bom, ok. Isso é entre você e Deus.

— Sim. É entre mim e Ele. Deixe que me viro. Agora volte a trabalhar, quero o aluguel do quarto até sábado!

— Sim senhora. Eu pagarei em dia.

— Assim espero. Hasta Luego.

Clementine então deixou o sobrado e foi embora…

 

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