Entorpecente

Foi como sentir o peso miúdo de cada célula. Foi como intoxicar-se com o excesso de dopamina. Eu senti os picos alarmantes juntamente aos meus excessos, eu vi a queda brusca, e pude senti-la quebrando os meus ossos. Só ouvi o barulho, só senti rasgar por dentro. Sem sangue. Meu corpo reage lento a qualquer recuperação. Minha pele é terra de lenta cicatrização, de feridas abertas. De coração de tecido podre que rasga fácil. Eu vi a sua mão pega-lo e atira-lo ao chão várias e várias vezes. Eu me vi plácida pronta para entrega-lo de volta. Até o meu corpo não consegui ceder a minha vontade. Até a miosina tornasse fraca demais para empurrar a actina para que eu me contrai-se, me dobra-se, me contorcesse para caber, para entregar. O corpo se estica e se recolhe em queda. O sentimento diz “vai!”, mas não há resposta. Nada reage. Foi sugada toda força. E isso não foi uma partida. Não foi despedida. Foi desistência. Foi quando a casa pensou mais que o morador. Foi quando não coube tanta dor e se desvaneceu. O olho viu o fim em lágrimas. Sem forças era inútil lutar pela persistência. Meu corpo é terra de difícil cicatrização, mas cicatriza um dia.

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