La paix fragile

Joguei o cigarro no bueiro e observei a fumaça endurecer com o vento frio. Recoloquei minhas mãos congeladas no bolso da jaqueta e segui por seis metros até a entrada do no bar. Entrei discretamente, puxei o celular e vi o relógio; era o horário e o local combinado. Procurei o lugar mais modesto dentre os disponíveis, porém todas as mesas estavam ocupadas. Então caminhei até o balcão e sentei num banco de madeira. Pedi ao barman um manhattan mexido. O cara era alto, forte, barbudo e careca, mas um tanto apático e tinha um semblante solerte. Ele piscou um dos olhos e seus lábios se esticaram num quase-sorriso.  Se fosse apostar, diria que ele era russo. Gosto dos russos, entretanto não confio neles. Relaxei e esperei o pedido, a noite estava agradável.

É inverno e eu estou no Le Piano Vache, em Paris, na véspera de natal de 2018. O lugar é bonito, decorado, cheiroso e cheio; muito cheio. Uma banda de hippies canta músicas populares. Tento me acalmar, mas é complicado. A ansiosidade não me permite se adaptar ao ambiente. A bebida finalmente chega. Agradeço e dou um gole. O tempo passa, meu celular vibra e eu me toco que estou sem internet. Não pensei muito: hackeei o Wi-fi local e aguardei a mensagem do meu contato chegar. E, para minha surpresa, ela já havia enviado. A primeira faísca de internet trouxe a notificação atrasada: “Chego em três minutos, você saberá quem sou… estou usando um cachecol vermelho”. Sinto um calafrio que vai do dedão do pé até a nuca, era a ansiedade se tornando mais aguda. Eu esperava não ter outro dos meus ataques. Bebi mais um pouco. Aclamei a música que havia acabado de começar, um cara assoviou do meu lado, entrei no ritmo e gritei também: “muito foda! Muito foda! Hul!”. Quando a galera voltou a se entreter, repensei mais um bocado no que estava prestes a fazer ali, era bem possível que os eventos que ocorreriam dali por diante, fizessem parte da lista de erros que já cometi na minha vida. Na verdade, não seria surpresa se assim se concretizasse. Por fim, levei em conta a grana que estava em jogo e decidi seguir em frente: “Ok, estou no balcão. Magro, cabeludo e de jaqueta”, respondi a mensagem. Ela visualizou e eu aguardei.

Os minutos se passaram, a música estava acabando e ela ainda não havia chegado. Já não tinha estourado só os três minutos e sim quatro minutos e dezoito segundos. Contei cada milésimo, a crise de ansiedade me lambia, estava agoniado! Virei-me olhando para a porta, pessoas iam e vinham, mas nenhuma sombra dela, ou talvez “dele”? Não sei, não tinha a menor ideia. Parecia o enredo de um filme, desses conspiracionistas, envolvendo a CIA, o exército e tudo que há de questionável pelo mundo. O relógio marcou o quinto minuto. Comecei a cronometrar em pensamento:  “Um, dois, três…”, “trinta e nove!” e, então, finalmente entra uma mulher pela porta. Baixinha, gordinha, loira, cachecol vermelho. Ela bateu as botas no tapete e deu uma olhada ao redor das mesas, procurando-me provavelmente. Em seguida, ela fitou o balcão, de uma ponta a outra, do primeiro ao último bêbado. Seus olhos azuis passam por mim e se vão, retornam a minha pessoa e se estabilizam. Suas pupilas dilatam, sinto que as minhas também. Ela se aproxima e senta no banquinho ao meu lado. Suas bochechas coradas, seu perfume doce, seu corte de cabelo que esconde cicatrizes no pescoço. Perco-me nos detalhes… “Cerveja, por favor”, pediu. O russo consentiu e foi buscar para ela. Eu precisava me concentrar… Tarde demais. Ela me notou. “Vire-se para e olhe para frente -, disfarce! Finja que não nos conhecemos!”, ordenou-me. Eu obedeci suas ordens. Fingi estar admirando as garrafas que decorativas do fundo do bar. A música parou e as pessoas começaram a bater palmas. Nós começamos a conversar discretamente em meio a baderna, evitando toda e qualquer troca de olhares.

— Obrigada por vir… Realmente precisávamos de você. Tenha em mente que serás muito bem recompensado pelo que está fazendo — Garantiu-me.

— Eu que agradeço! É… É realmente uma honra! — Respondi.

— Antes de começarmos, eu preciso te fazer uma pergunta.

— Tudo bem, pergunte.

— Você tem noção da dimensão do que está prestes a fazer, né? Sabe que não terá volta, certo? Nós sabemos TUDO sobre você rapaz! Não vacile, pois não há como você fugir da gente — Afirmou-me.

A cerveja dela chegou, ela arrancou a tampa com os dentes e virou meia garrafa de uma só vez. Era possível ouvir o barulho de cada gole, apesar da música alta.

— “Tudo” o quê, exatamente? — Questionei.

Ela me ouviu e deixou de beber no mesmo instante. Tirou a garrafa da boca e a bateu sobre o balcão. “POOW!”, os que estavam próximos se assustaram.

— Eu achei que a ideia era sermos discretos! — Brinquei.

— Cala a boca! — Respondeu-me.

Ela expirava o mais puro ódio. Calou-se e ficou girando a garrafa na mesa, depois, quebrou nosso disfarce virando e se dirigindo diretamente a mim. “Merda! Essas idiotices me tiram do sério. Ah, tô com calor…”, dizia. Logo após, ela refez minha pergunta: “tudo o que, exatamente? É isso? Tudo o quê?”. Eu não ousava falar mais nada. Tentei fingir a indiferença que combinamos, simulei que a desconhecia, porém seu semblante frio, impassível e sociopático, raptou-me com força e logo cedi. Virei meu copo em dois goles rápidos do meu manhattan e a encarei face a face. Seus gestos eram milimetricamente calculados. O receio estava preso na minha lividez, na minha garganta. Ela continuou a falar;

— Vejamos…  Vou te descrever o que é o “tudo”. Pois bem, permita-me começar dizendo o que sei sobre o indivíduo parado aqui na minha frente, ou seja, você. Ok?

— Ok…

— Frederico Alves Moreno de Albuquerque, também conhecido Fred Moreno ou, como conhecido na internet, Edd&M0ur. Você é um hacker brasileiro procurado em quatro países da América Latina, três da Ásia e dois do Oriente Médio. É filho de mãe brasileira e pai judeu e mora atualmente em Farnborough, na Inglaterra. Escondido, creio eu, no apartamento de um primo. Em 2016, foi acusado de desviar 22,5 milhões em criptomoedas da conta de políticos mineiros e cariocas, com a desculpa de que estava ajudando a combater a corrupção. O esquema foi descoberto pouco tempo depois e seus comparsas paulistas foram presos. Você conseguiu fugir, deixando o Brasil. Passou um tempo no Equador e na Guiana e, agora, vive na Europa. Realiza alguns bicos na Inglaterra, todavia sabemos que você ainda presta serviços digitais a quem lhe procurar no mercado negro. Inclusive, foi assim que tem achei. Certo? Falei demais? Quer que eu peça para a banda parar o show? Posso repetir tudo isso lá no microfone…

— Bom, bem, é… É desnecessário. Eu acho que…

— Serei obrigada a repetir tudo isso no microfone, caralho?

— NÃO! É claro que não! Por favor, não.

— Ok. Então não encha a porra do meu saco e vamos logo ao que interessa… Você tem o que precisamos?

Senti minha orelha pinicar. Cocei e tomei o último gole do drink. Pedi ao garçom mais um. Sorri um pouco, disfarcei, cantarolei… As pessoas estavam distraídas, era o que eu precisava. Com cuidado, abri o bolso interno da minha jaqueta e peguei o micro cartão SD que trouxe. Dei a ela:

— Aqui está — Disse.

— Está aqui? Coube?

— Sim. Tem 128.

— O que?

— 128 Gigabytes… O Cartão, sabe.

— Sei… Tá. Pois bem, precisarei verifica-lo, beleza?

— Tudo bem. A planilha está cifrada. A senha para visualiza-la é a resposta da charada que você me enviou mês passado.

— Ok.

A banda começou a tocar ”Wonderful Woman”, dos Smiths. Minha nova bebida chegou.

— Essa planilha contém os dados biológicos que você me pediu. Exames de sangue, exames toxicológicos, pesquisas epidemiológicas e, é claro, o mapeamento genético de cada uma das centenas de famílias sírias que chegaram nas balsas a Paris em Setembro.  Todos os indivíduos estão catalogados. Inclusive, alguns imigrantes ilegais que já viviam na França e possuem determinados graus de parentesco, podem ser rastreados com essas informações — Disse.

— Ora, vejam só! Sr. Fred… Perfeito! Maravilhoso! — Ela estava diabolicamente encantada.

— Os dados são dos próprios laboratórios da marinha francesa. Faziam parte de um projeto secreto, tocado com estudantes da universidade Diderot. E… Olha, não foi nada fácil furar o banco de dados do governo. Eu também conseguiria os dados dos refugiados que alcançaram Marselha e Nantes no ano passado, mas precisaria de mais tempo para conseguir baixa-los — Conclui.

— Não queremos o seu tempo, Fred. Só isso nos basta — Respondeu-me num tom de deboche.

— Tudo bem… Você que manda.

— É! Mando sim. Aguarde por favor! Preciso que minha equipe faça a análise desse material. Após a conclusão do processo, o dinheiro será transferido para a sua conta. Ok?

— Ok… Sem problemas — Tomei mais um gole.

Ela colocou o cartão SD no celular. O russo se aproximou e trouxe outra cerveja, ela deu um sorriso e pediu a senha do Wi-fi. “Eiffel2010”, respondeu o trouxa. Tão logo, alguém acessou remotamente o celular dela e começou a analisar o cartão SD. Terminei minha bebida. “Vou ao banheiro”, disse. “Rápido! Não posso demorar muito aqui”, ela retrucou. A banda cantava “Soulman” de Ben L’Oncle Soul. Caminhei até o banheiro e forcei a vontade de mijar. Cuspi, respirei fundo e finalmente relaxei. Ouvi alguém entrar devagar no banheiro e assumir a cabine ao lado da minha. Sai e fui até a pia lavar as mãos. A água estava congelando. “Porra!”, bravejei. O cara da cabine foi embora sem lavar as mãos, tento gravar o rosto dele – não consigo. Decidi molhar o rosto e, enquanto me secava, outra pessoa se aproximou e apalpou minha bunda;

— Mas que porra é essa!? — Gritei.

— Calma, gostosão. Estou aqui para ajuda-lo.

Um avanço homossexual contra a barreira hétero é sempre um misto de sensações: raiva, aflição, assombro, desproteção. Olhei pelo espelho, era o barman russo.

— Ai, caralho! Então é você? Pô, tu apareceu do nada, cara! — Disse.

— Easy, boy. Easy! — Ele zombava.

— O que você quer? Diz logo de uma vez. Olha, se for o que estou pensando já vá sabendo que eu não curto essas paradas… Meu negócio é outro, tá?

Ele então encostou e tapou minha boca. Era um sujeito enorme, parecia um Golem dos contos antigos. Resisti, lutei, mas foi em vão.

— Calado. Não é nada do que você está pensando. Eu preciso falar contigo. É importantíssimo e temos pouco tempo. Vou solta-lo, mas prometa-me que não fará barulho! — Insistia.

Seus braços eram enormes e eu estava imobilizado. Não tive escolha. Assenti e ele me soltou e se afastou. Um cara entrou no banheiro e ficou nos observando. Ficamos quietos e retribuímos o olhar. O cara estava visivelmente apertado, mas estranhou a situação, desistiu de mijar e voltou para o salão.

— Obrigado pela fama, hein! — Disse ao Russo — Quem está cuidando do bar, se você está aqui? — Perguntei.

— Oh! E agora os barmans não possuem direito a uma pausa para mijar?

— Mas você não veio mijar, veio me agarrar pelo visto. Nunca se pode confiar nos russos…

— Não cara, você entendeu tudo errado… Olha, foda-se! Não importa. Não tenho tempo pra isso. É o seguinte: eu não sou barman. Isso é um disfarce. Meu nome é Robert, ou, aliás, me chame só de Robert. Eu trabalho para a GRU.

— GRU?

— É! GRU.

— Mas que caralhos… Isso praticamente é a CIA da Rússia.

— Não é pra tanto.

— E o que você quer de mim, camarada? Se for por causa daquela situação lá no Brasil, eu juro que…

— Esqueça. Não é nada disso. Sabemos dos seus podres do passado. O problema é maior do que esse: o cartão que você entregou a garota lá fora…

— O que tem ele?

— Por quanto vendeu os dados?

— Dezessete milhões.

— Euros?

— Sim, não… Depende. Pedi em criptomoedas. Por quê?

— Por que? Porra! Estamos atrás dela e do resto da matilha há mais de sete anos…

— Matilha? Até onde sei ela só precisa da planilha para pesquisas anatômicas. Ela e sua suposta “matilha” devem trabalhar secretamente para alguma estatal comunista.

Robert começou a dar gargalhadas. Em seguida encostou na parede e retomou o discurso;

— Fred vou tentar resumir a situação para você, porque ela é muito mais preta do que você imagina. Rapaz, a mulher lá fora se chama Yolanda Gauthier. Ela é braço de um grupo de extrema direita chamado: Catéchèse Noire, do francês: Catequese Negra. O grupo é originalmente francês, entretanto já possui tentáculos na Suíça, Rússia, EUA, Inglaterra e Irlanda. Só a título de curiosidade: você ficou sabendo de um vírus chamado “Khan”? Estava sendo vendido na Deep Web há três meses como arma biológica.

— Sim, fiquei sabendo que o vírus era criação coreana e que tudo não passava de um hoax.

— Pois bem, não era um hoax. O vírus de fato existe e é criação chinesa. A proposta dos criadores é um tanto ousada: os chinas pretendem usá-lo para realizar uma limpeza étnica de proporções incalculáveis!

— Por isso o nome “Khan”?

— Sim! É uma ironia. Desconfiamos que os chineses pretendiam eliminar, primeiro, todos os cidadãos que possuem rastros mongóis no sangue. Como uma espécie de… Sei lá, vingança histórica, ou algo do tipo.

— Puta que pariu…

— Pois é. Nosso departamento desconfia que o pessoal da Catéchèse Noire adquiriu o vírus e pretende lança-lo por toda Europa. Se isso acontecer não só os imigrantes morrerão, como também toda e qualquer pessoa que contenha, ao menos, 1% de um dos tantos códigos genéticos mapeados na lista que você vendeu. Gerações inteiras morrerão em poucas semanas, Fred. Esse pode ser o último natal em paz da história desse continente. Você precisa me ajudar.

Assim que Robert terminou a fala, outros três caras entraram no banheiro. Incluindo o cidadão apertado que havia desistido anteriormente. Nós disfarçamos, eu fingi amarrar um cadarço.

— Não posso fazer mais nada — Disse — à essa altura, os dados certamente já foram baixados por quem estiver acessando o celular dela.

— O arquivo está criptografado, certo? — Indagou Robert.

— Sim.

— Bem… Então se o download não chegar a 100%, eles não terão nada! Faça o possível para cancela-lo rapaz, agora! O mundo depende disso.

— Espera um pouco… você é o policial aqui, por que não faz você mesmo?

— Policial? Eu? Não… Sou apenas o barman. Há muito mais em jogo essa noite do que você imagina. Tenho um disfarce e não posso comprometê-lo. Por outro lado, você é só um hacker filho da puta. Não tem e nunca teve nada a perder. Entretanto hoje você poderá escolher: ou morrer com o peso da chacina mundial que está por vir, ou tomar vergonha na cara e ser um homem de verdade, ao menos uma vez na vida, ajudando-me a acabar com esse esquema. O que você decide?

Terminei o cadarço e me levantei, os três caras lavaram as mãos.

— Olha camarada, isso está muito esquisito. Um sujeito do seu nível deveria possui equipes, satélites, grampos, robôs e um exército inteiro para ajudar. Nada disso faz sentido.

Robert sorriu.

— Digamos que o restante do time está curtindo a folga de Natal —  respondeu.

— Droga…

— Preciso voltar para o balcão. Que Deus te ajude a tomar a decisão certa, garoto — Disse Robert. Seguidamente saiu do banheiro, deixando-me confuso e incapaz.

Passaram-se pelo menos doze minutos. Eu fiquei refletindo… Gastei grande parte da vida tentando não ser um merda, mas parecia que o ofício me seguida por onde quer que eu fosse. Foi assim na escola; imaturo, idiota e machista, publiquei dezenas de fotos intimas de um casal que me batia e praticava bullying comigo. No início era só a vingança que falava mais alto e acordava meu lado mal. Depois de adulto a ganância tomou conta e as coisas desandaram como nunca.

Alguns diziam que minha facilidade com sistemas era um dom, eu nunca vi por esse lado. A palavra “dom” me remete aos cultos das manhãs de domingo que minha mãe me obrigava a assistir na infância. Na minha cabeça essa palavra é associada a características que nunca fizeram parte do que sou, como: responsabilidade, maturidade e caridade…

Deixei o banheiro, dobrei a direita e voltei até o balcão. Olhei para Yolanda e ela fez um sinal positivo com a mão. Sentei e ela me mostrou a tela do celular. Olhei para a tela, o carregamento passava dos 75%.

— Você demorou… Comeu algo estragado?

— É. Algo assim.

— Saquei. Olha Fred, de fato os arquivos são tudo que precisamos. Em nome da catequese, te agradeço. O pagamento já está na sua conta — Disse Yolanda.

Olhei ao redor, Robert estava me encarando enquanto fazia uma batida de frutas. Ele indicou algo com os dedos, mas não compreendi o que era. Sentia-me podre, sujo, o pior de todos os assassinos. Se aquilo tudo que ouvi for realmente verdade, então eu preciso evitar, mesmo que custe a minha vida. O mundo será destruído um dia, é claro, e poucos esperam por isso com tanto prazer quanto eu. Porém nunca me passou pela cabeça o desejo de levar a culpa por tamanha artimanha.

A banda estava encerrando o show, algumas pessoas já estavam indo embora. Tomei fôlego e resolvi agir.

— Yolanda! — Chamei.

— Sim! Espere… Como sabe meu nome?

— Não importa. Tenho algo que preciso te mostrar.

— Fale.

— Tem um cara aqui dentro que trabalha para a GRU.

— Quem?

— O barman.

— O quê!? Como… Como você descobriu isso?

— É uma longa história, mas desconfio que ele tenha envenenado sua cerveja. Veja só…

Peguei a garrafa de cerveja sobre a mesa e aproximei de Yolanda.

— Consegue ver? Olhe bem! Tá ali no fundo.

— Não vejo nada.

— Então veja isso!

Bati com a garrafa na testa dela. A garrafa quebrou, o barulho foi lendário. “PLOOOOOWWW”. Todos olharam para a cena.

Eu não conseguia raciocinar, transpirava como nunca. Yolanda estava no chão, desacordada. Peguei o celular: “Download em 82%…”. Corri até o banheiro, abri o aparelho, quebrei o cartão, joguei tudo na privada e dei descarga.

Alguém gritou lá fora que havia chamado a ambulância e, outro, a polícia.

Olhei para todos os cantos do banheiro e vi um enorme basculante fechado. Subi no mictório, forcei a abertura, atravessei a janela e cai num beco. Corri como um desesperado pelas ruas frias de Paris. Cortei o trânsito, desviei de variados carros e sentei num banco nas proximidades da Arènes de Lutèce. Tentava, a todo custo, pôr a cabeça no lugar. Acendi um cigarro e testemunhei a fumaça endurecer com o vento frio novamente. Logo após, peguei novamente no celular e visualizei minha conta bancária. O dinheiro estava lá, já era um bom sinal. A ansiedade finalmente deixava o meu corpo, a culpa também. Olhei para o céu e vi os flocos de neve se distorcendo na iluminação pública, ai o celular tocou. O número era desconhecido, atendi.

— Fred?

Não respondi de primeira.

— Fred. Sou eu, Robert, responda-me.

— Si. Sim, sim. Diga.

— Ela está bem, fique tranquilo, ela não morreu. Está sendo atendida. Onde você está? Sei que você fugiu pelo banheiro, vim até aqui no beco, pois pensei que estivesse por aqui.

— Eu… Fugi. Corri até uma praça.

— Praça?

— Sim.

Então ouvi uma a voz de Yolanda ao fundo gritando: “LÁ! LÁ ESTÁ ELE! O magrelo disse que ele estava envolvido!”. Eu fiquei horrorizado.

— Robert? Robert! Acho que disse mais do que deveria… Corra dai, agora!

— Não dá. Eles já estão aqui Fred. Desculpa envolve-lo nisso, fuja o mais rápido que puder…

Então ouvi os disparos e a ligação caiu.

Levantei desesperado e procurei um táxi, contudo não achava ninguém. Então decidi caminhar aproveitando as sombras das ruas e atravessei a ponte do Sena a caminho da rodoviária Gallieni. As poucas pessoas que topavam comigo me desejavam feliz natal. Só ai percebi que já havia passado da meia noite. Como esperado, aquela foi uma das tantas coisas que me arrependeria na vida. No fundo eu sabia que, assim como eu, o mundo poderia morrer a qualquer instante, mas ao menos não seria naquela noite…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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