Frívolo

Inspiro, prendo o ar por cinco segundos… Expiro, abro os olhos e encaro a escuridão. O estômago ronca, a cabeça volta a latejar. “Frustração” é o que provavelmente está escrito na minha testa, no meu espírito. Sentado no chão do quarto, olho para o canto esquerdo e vejo meu copo de café. Ponho o dedo dentro dele. Está frio, está nojento. Uma formiga caminha desesperadamente pela borda e me encara como um invasor; a serpente do seu paraíso. Seria maldade se eu limpasse o copo. Então não limpei. Olho para o canto direito e vejo o brilho da lua cheia na quina da janela. A ventania tropical derruba minhas anotações no chão. Deveria junta-las e organiza-las, mas todas não passam de lixos pseudo-literários. Então não junto.

Há tempos tento compreender quem sou, na medida em que classifico as coisas que sinto, gosto e presencio. As orações tem colaborado, Lispector e Victor Frankl também. A noite é uma criança e eu ainda tenho vinho. As vozes vêm e vão, a fé é uma incógnita. As vezes ela funciona, as vezes desisto e banco o cético. Reclamo, desligo o celular. Cheiro minhas axilas, “merda!” reprovo. Toco nos meus cachos; estão sujos. Preciso de um banho, preciso de meias limpas, preciso lavar o carro e pôr os legumes na geladeira. Tento me levantar, quero me levantar, mas acabo deitando no chão. Algo está fora dos eixos, não sei bem o quê. Ainda sou jovem, ainda tenho músculos e cabelo preto. Ainda tenho um bom fôlego e um pênis funcional. Entretanto não consigo fazer nada, criar nada, ao mesmo tempo em que sinto poder fazer tudo. A preguiça é um gigante gordo nos meus ombros, comendo frango frito e lançando os ossos nos confins da minha mente. Ele arrota ouvindo minhas expectativas e gargalha das minhas esperanças. Sinto-me o Trumam¹ brasileiro no seu circo virtual. Contas pra pagar, momentos inúteis, piadas sem graça… Tudo não passa de uma verdadeira comédia. Engasgo saliva, murmuro, espirro. Como amar a vida quando se conhece o seu custo? Eu ainda não sei.

Cego pela raiva, amargado pelo coração partido, abatido pela fome, obcecado pela obra que comecei há trinta e três horas atrás e, empacado, não consegui dar a ela seu devido final. Um escritor não vale nada sem um bom final, sem um revestimento. Como dizem: é a cobertura que determina se o bolo será do casamento ou do café da tarde. Preciso pensar em alguma coisa. No princípio, não alimentei muitas expectativas pelo conto, entretanto ele se tornou deveras interessante com o decorrer dos dias. No enredo, uma garotinha foi sequestrada na Tailândia por um grupo de criminosos filhos da puta e, depois, revendida a outros criminosos filhos da puta na África do Sul. Os compradores eram brasileiros e por sorte, ela conseguiu escapar assim que o navio atracou clandestinamente no Rio de Janeiro. Ela cresceu nas ruas, aprendeu uma língua desconhecida, ganhou experiência, notoriedade e, com o tempo, ajudou a desmantelar uma rede internacional de tráfico de órgãos infantis. Já adulta, se apaixonou por uma jornalista mais velha, elas se casam. Os bandidos são presos, ela reencontra os pais no país natal. Droga! Eu só preciso de um fim! Um maldito fim… Um aprendizado, uma experiência, uma filosofia, qualquer coisa! Ideias vem e vão, todavia nenhuma conclusão me pareceu digna do tamanho da obra. Estou cansado, escolho dormir.

Arrastei-me até a cama e me joguei sobre um buraco já formado pelo peso do meu corpo. Um mosquito dá início ao carnaval no meu ouvido. Ignoro-o e apago. As memórias frescas na minha cabeça, as preocupações, a visita ao médico agendada para o dia seguinte… Meu cérebro bate todos os dados como se fossem frutas num liquidificador, gerando como resultado situações que presencio em sonho. Vejo a formiga num tamanho gigante. Ela me olha como se o copo de café na minha mão fosse seu troféu. Corro desesperado, abro uma, duas, três portas. Desconheço o lugar, desconheço as pessoas. Desço e subo pelo metrô, salto uma janela. Estou num escritório médico. O doutor entra. Ele se apresenta em tailandês. Fico confuso e começo a gritar. Acordo tossindo, puxo a coberta, apago novamente. Tenho um novo sonho, estou num bosque de clima europeu e vejo um casal de mulheres sentado na galha de uma gigantesca árvore. Julgando pela aparência, é o casal de garotas do meu romance. Uma delas, a jornalista, me chama pelo nome, aproximo-me. “Quantos anos você tem, Léo?”. “Vinte e três”, respondo. Elas sorriem. “Vinte três anos de vida? Bom, você já deve ter passado por um bocado. Conta pra gente uma coisa: como foi o seu final feliz?”. “Meu final feliz?”, pergunto. “Isso!”, afirmam. Medito na questão, nada me vem à cabeça.

Espanto-me e olho ao redor. No céu, as nuvens se convertem em telas e exibem vídeos e imagens espelhadas de cada um dos tantos momentos que já vivi. Namoros, efetivações, graduações, pesares, festas, datas comemorativas, animais de estimação e até a grana achada na rua. Sinto alegria, horror, raiva, amor. Em sequência, simultaneamente, de maneira alternada. A fantasia toma conta, perco a batalha para sua embriaguez. Assisto a cada filme do passado. Analiso memórias e fatos, procuro pelo meu final feliz e não encontro. Olho para as minhas personagens. Elas sorriem. “Acho que ainda não vivi tudo que preciso viver”, disse. “Talvez eu ainda não tenho um final feliz, deve estar pra acontecer. Ainda sou novo, existem muitas águas pra rolar”, completei. “Ou talvez finais felizes não existam!”, disse uma delas. Sento na grama do bosque. “Ok, mas não estamos falando da vida real, não estamos falando de mim. Vocês não são reais! No universo literário a felicidade existe e preciso conceder felicidade eterna para ambas, beleza? Aceitem isso!”, insisto no assunto. Elas se calam. “Poderiam me ajudar com isso? Poderiam colaborar para o final de vocês?”, pergunto. Então as meninas desceram do galho com apenas um salto. Se aproximaram vagarosamente e tocaram no meu ombro.

— Não queremos um final, queremos ser como você — diz a jornalista.

Afastei-me e comecei a rir.

— Como eu? Ficaram loucas? Querem ser infelizes? A infelicidade não é atrativa, não vende livros de romance…

— A infelicidade pode não vender livros, jovem criador, mas a realidade sim. Você não é infeliz, você é realista. A infelicidade é só a névoa que permeia esta etapa da sua vida, determina as coisas que você encara, mas não quem você é. Por isso, queremos ser como você! Realistas! Só assim tocaremos seu mundo, só assim venderás os seus livros. Por favor: realistas! — elas afirmam em uníssono.

Aquilo me assustou, dei dos passos pra trás, despertei. Abro os olhos e encaro o ventilador de teto por meia hora. Sinto o gigante despertar comigo, contudo ele parece distante, isolado. Levanto, pego a garrafa de vinho e caminho até a janela, dou um longo gole sob a luz do luar e jogo o resto do café fora. Sento, reúno meus papéis e volto a escrever. Reflito sobre as visões no sonho e tomo minha decisão: a tailandesa regressa ao Brasil e passa a trabalhar numa ONG focada no auxílio de crianças desaparecidas. Sua esposa ajuda o movimento sempre que pode. Elas passam por adversidades, mas vencem todas. Seguem assim, por anos, nessa inconstância; de dias felizes e tristes, de noites horríveis e memoráveis. Um destino oscilante, tal como todo mortal abaixo do sol. Concluo o livro, meu trabalho, minha noite. Uma etapa de sucesso, uma obra de gabação. Por hoje, felicidade. Amanhã, só Deus sabe. Agora entendo meus personagens, agora entendo a mim mesmo. Como amar a vida quando se conhece o seu custo? Possivelmente encarando-a como ela é. Levanto, tomo um banho e saio para beber…

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